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CINZAS NO PARAÍSO

PERSONAGENS:

CLARINHA

BERNARDO
DANIEL
e grupos de:
MENINOS E MENINAS
RAPAZES E MOÇAS
VELHOS E VELHAS

CENÁRIO: Alguns elementos cênicos irão compor a cenografia, de acordo com as necessidades das cenas, como uma cadeira de balanço, uma caixa enorme de brinquedos, uma mesa de cirurgia, um banco de praça e um caixão.


OBS.: O espetáculo tem como objetivo, através das cores, mostrar para o público todas as etapas da vida de uma mulher, (que foi esquecida em um asilo pelos familiares), dos 5 aos 65 anos de idade. São fragmentos e não uma história com começo, meio e fim.


PRÓLOGO
"O ANIVERSÁRIO DE CLARINHA"

(CINZA)

Black-out.
Penumbra.
Foco central lentamente vai subindo em resistência revelando Clarinha, uma velhinha, sentada numa cadeira de balanço.
Silêncio absoluto.
Nada se move, ou melhor, quase nada, exceto a cadeira de balanço.
Luz na janela sobe lentamente. Uma forte chuva chicoteia a vidraça.
O dia cinzento revela o estado de espírito de Clarinha.
Com os óculos na ponta do nariz, ela pega um novelo de lã e duas agulhas e começa a tricotar lentamente uma meia de bebê. Seus movimentos são lentos e suas mãos estão trêmulas.
Luz geral sobe em resistência.
O ambiente que se vê, é um minúsculo quartinho de um asilo, todo cinza.
A velhinha suspira profundamente, enquanto uma lágrima escorre pela sua face. Pára um pouco sua tarefa, tira os óculos, enxuga a lágrima e volta à tarefa.
A luz se apaga.
Entram em cena um grupo de velhinhos e velhinhas com um bolo de aniversário e velinhas de 65 anos. Cantam "Parabéns pra você" para a Clarinha, que sorri, mas mantém no rosto uma expressão angustiada.
Quando terminam a música, Clarinha assopra a vela. Todos congelam numa pose.
Black-out.


CENA 1

"UMA INFÂNCIA FELIZ"

(AMARELO)

Durante o black-out ouve-se no áudio o tênue choro de um bebê, mesclado com canções de ninar, gritos e brincadeiras de crianças, músicas cantadas na pré-escola antes da merenda, orações antes de dormir...
Luz geral sobe em resistência. A luz revela um ambiente todo amarelo.
Crianças correm de um lado para o outro.
Clarinha, uma menina com fitinhas no cabelo e um vestidinho curto está esperando ansiosa.
Tempo.
Um palhaço, que está dentro de uma enorme caixa de presente, começa a se mover, como um brinquedo. Todas as crianças olham fascinadas para ele. Os movimentos do "clown", à princípio são mecânicos e quebrados, como um brinquedo esquecido, cujas articulações estão enferrujadas. Pouco a pouco, os movimentos vão adquirindo leveza e fluidez.
Ele se aproxima da menina com um bolo de aniversário, com uma velinha de 5 anos. Todas as crianças cantam "Parabéns pra você" para a menina, que está comovidíssima. Ela assopra a vela e corta o primeiro pedaço, fazendo um pedido. Depois entrega o pedaço de bolo a Bernardo, um garotinho da mesma idade, e beija-o carinhosamente em seu rosto. Outras crianças fazem uma algazarra colocando a garota e o garoto no centro e cantam batendo palmas, empolgadíssimas: "Com quem será, com quem será, com quem será que a Clarinha vai casar?".
Correm de um lado para o outro. Todos pegam o bolo e comem animadamente. Quando todos se silenciam, o palhaço pega uma cesta e entrega para cada um, um enorme pirulito. O último pirulito é entregue para a aniversariante. O palhaço e a menina se olham, ambos encantados um com o outro. O palhaço volta para a caixa. Seus movimentos novamente voltam a ser mecânicos e quebrados até desaparecer dentro da caixa.
Foco em Clarinha e na caixa de presente.
Tudo está imóvel.
Black-out.

CENA 2 "PRIMEIRA COMUNHÃO"

(BRANCO)

Tudo se revestia de branco.
Clarinha junto com outros garotos e garotas entram em procissão pelo corredor, cada um com uma vela na mão.
É a primeira comunhão.
O padre está no centro, realiza o ritual, e entrega para cada criança, uma hóstia. Após receberem a hóstia, todos se ajoelham e rezam.

CENA 3 "O PRIMEIRO AMOR"

(LARANJA)

O ambiente adquire um tom alaranjado.
É a adolescência.
Como disse Guimarães Rosa: "A Juventude? É uma maravilha. A juventude é quase tudo. É a humanidade e a esperança, recomeçando".
Um grupo de adolescentes, na faixa dos 15 anos, estão brincando na rua de "Carteiro tem carta".
Clarinha combina algo com uma outra garota. Essa garota tapa os olhos dela e começa a brincadeira.

MENINA - Carteiro tem carta?
CLARINHA - Tem.
MENINA - Pra esse?
CLARINHA - Não.
MENINA - Pra esse?
CLARINHA - Não.
MENINA - Pra esse?
CLARINHA - Não.
MENINA - Pra esse?

A garota aperta a mão contra os olhos de Clarinha, que responde brandindo.

CLARINHA - É
MENINA - Pêra, uva, maçã ou salada-mista?".
CLARINHA - (berrando) Salada-mista.

Bernardo, o garoto escolhido por Clarinha se levanta e vem até ela. Quando os olhos de Clarinha se livram das mãos da outra garota, ela abre um enorme sorriso para o menino.
Ambos se beijam enquanto outros torcem.
Bernardo faz Clarinha perder o fôlego. Clarinha recupera o fôlego e beija novamente o rapaz com enorme paixão.
Os dois saem correndo enquanto o grupo prossegue a brincadeira. Deverão criar uma cena envolvendo outras pessoas e fatos, até o momento em que todos ficam enfadados, terminam a brincadeira e saem.


CENA 4 "FORMATURA"

(VERDE)

Colação de grau de Clarinha e Bernardo. Os dois trajam becas verdes e junto com outros formandos se posicionam, perfilados de frente para a platéia.

A mesa formada pelo Corpo Docente da Faculdade está cheia.
Ouvimos no áudio o "Hino Nacional".
Todos se viram para a bandeira ao fundo, e cantam o Hino.
Em seguida, o apresentador chama o nome de cada formando, pelo microfone, que caminha até a mesa, assina a lista, beija alguns professores e pega o canudo com o certificado de conclusão.
Voltam para os seus lugares.
Quando o ritual é concluído, fazem um juramento de ética.
Todos se abraçando, se beijando, chorando, se despedindo, para darem agora um novo rumo às suas vidas.
A cena finaliza com uma algazarra geral.


CENA 5 "O MATRIMÔNIO"

(VERMELHO)

Vermelho.
A cor do amor, do sangue, da sedução.
Clarinha e Bernardo entram por lados opostos e se encontram no centro do proscênio.
Ela está com um vestido de noiva vermelho e ele com um smoking também vermelho. É o casamento.
Ambos se ajoelham diante de um padre imaginário, que realiza a cerimônia. Fazem o juramento, trocam as alianças, assinam o livro e se beijam.
Recebem na saída, uma chuva de arroz.
Bernardo pega Clarinha no colo e coloca-a no chão.
Com muito carinho faz massagem nela, acariciando seus pés e jogando em seu corpo pétalas de rosas vermelhas.
Em seguida, Bernardo faz uma massagem do Kama Sutra em Clarinha, partindo, enfim, para o ato sexual.
É uma cena onde a sensualidade deve ser bem explorada, mas sem apelação gratuita por parte dos atores e da direção.
Os gemidos dos dois são mesclados com a música.


CENA 6 "O PRIMEIRO FILHO"

(AZUL)

Tudo azul.
Clarinha grávida, caminha com dificuldade até a mesa de parto, auxiliada por médicos.
Todos trajam a cor azul.
Bernardo fica num canto, nervoso.
Clarinha urra de dor, enquanto os médicos ajudam-na a parir a criança.
O bebê nasce enquanto se ouve o choro do recém-nascido. Os médicos entregam a criança para o pai, que chora de emoção. Bernardo entrega o bebê à Clarinha, que suada e exausta, abraça o filho com ternura.
Clarinha sai da mesa de parto.
Passagem de tempo...
Os três Clarinha, Bernardo e o filho Daniel caminham numa praça.
No primeiro momento, Clarinha vem com um carrinho de bebê.
Num segundo momento, entra com o filho já com 5 anos brincando de pega-pega. Noutro momento, o garoto com 12 anos, brincando de esconde-esconde.
Num último momento, o garoto com 18 anos, joga bola com uns amigos.
Bernardo está lendo um jornal enquanto Clarinha faz tricô.
A bola vai parar na rua.
Bernardo vai buscar o objeto fora de cena e ouvimos no áudio uma freada brusca seguida por um enorme estrondo.
Todos ficam estatelados.
Clarinha e Daniel olham para a rua e ambos dão um grito silencioso.
Ouve-se uma sirene ao longe que se aproxima. Aos poucos o barulho vai se tornando insuportável até desaparecer gradativamente.
A cena fica vazia.
O silêncio é absoluto.


CENA 7 "O ENTERRO DE BERNARDO"

(PRETO)

Tudo está preto.
Bernardo morreu, deixando Clarinha viúva com um filho de 18 anos.
A mulher, trajando luto chora sobre o caixão do marido.
É amparada pelo filho Daniel, o fruto do amor que uniu ambos durante todos esses anos.
Atores com véus negros, pegam o caixão e dão um volta lenta pelo palco.
Clarinha e Daniel seguem atrás.
O cortejo sai de cena, enquanto Clarinha e Daniel param no centro.
Ela olha para o filho, que retribui o olhar e ambos se entregam num abraço apertado.


CENA 8 "O NOVO LAR"

(VIOLETA)

Daniel, sua mulher e Clarinha trajam roupas violetas.
O filho olha para a mãe e faz um gesto de negação.
Ele está acompanhado por sua mulher, que não aceita de modo algum a presença da sogra na mesma casa em que ela está.
Clarinha, olha para o ambiente, não quer ir, mas Daniel obriga-a, deixando-a sem alternativa.
Pega uma mala, coloca algumas roupas da mãe ali e saem.
Os três dão uma volta lenta no palco e chegam ao asilo.
Daniel coloca a mala de Clarinha no chão e dá instruções para a diretora do asilo. Entrega um maço de dinheiro para ela e sai.
Na saída, olha para a mãe fixamente, com a expressão neutra.
A mãe, olha para o filho e chora. Um choro contido, mas sentido.
O filho sai com a mulher, deixando Clarinha na mais completa solidão.
Clarinha senta-se numa cadeira de balanço e permanece ali.
Black-out.

EPÍLOGO "AMANHÃ É UM OUTRO DIA"

(CINZA)

Volta a cena para o asilo naquele dia cinzento.
Clarinha após assoprar as velinhas, oferece o pedaço de bolo para a diretora do asilo.
A cena deve ser idêntica à cena que ela entrega o bolo para Bernardo.
Todos os velhinhos aplaudem pelo gesto dela.
O bolo é dividido para os outros velhinhos que comem com imenso prazer.
Após todos comerem, vão saindo de cena, deixando-a sozinha.
Ela, com muita dificuldade, levanta-se da cadeira de balanço e caminha até a janela, olhando a chuva bater na vidraça.. Fica de costas para a platéia.
Tempo.
Instantes depois, entra Bernardo, ainda jovem.
Ele tapa os olhos dela, que tateia suas mãos, tentando adivinhar quem é. Ao perceber, que é seu grande amor, sorri feliz e vira-se pra ele. Começa a acariciar seu rosto, desenhando nele figuras geométricas. Ele faz o mesmo com ela.
Por fim, se beijam.
Após o beijo, dão-se às mãos e viram-se de costas novamente, olhando a chuva.
Luz desce em resistência, ficando apenas a contra-luz e as luzes de corredor desenhando as figuras congeladas, que desaparecem.
Estão indo para um outro plano, evoluindo-se espiritualmente.
O clima é mágico.
Nada se move, exceto a cadeira de balanço, que é isolada por um foco.
Black-out final.

FIM

NOTA: Dizem que quando uma pessoa está morrendo, sua vida inteira lhe vêm à mente, como um filme. Mas as imagens aparecem fragmentadas, como um quebra-cabeças e os momentos mais significativos é que vêm à tona. Não sei se isso é verdade, mas foi uma tremenda fonte de inspiração.
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Atualizado em: Sex 14 Mar 2008

Comentários  

#3 Elel 02-04-2008 03:25
Quem sou eu para opinar? Humildemente me postro e me rendo a tua prolifera obra que tem que ser mais divulgada. Parabens.
#2 Elel 02-04-2008 03:25
Quem sou eu para opinar? Humildemente me postro e me rendo a tua prolifera obra que tem que ser mais divulgada. Parabens.
#1 Elel 02-04-2008 03:25
Quem sou eu para opinar? Humildemente me postro e me rendo a tua prolifera obra que tem que ser mais divulgada. Parabens.

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