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SUICIDAS ANÔNIMOS

Personagens:

 

ELA ·- garota de uns 23 anos.

 

ELE -· rapaz de uns 26 anos.

 

Uma garota - ELA - ·está andando em cima de uma marquise. ELA está diante de um vão livre. É noite. Há uma rua pequena que dá para a frente do palco. É por esta rua que entra o personagem ELE.·

 

 

ELE(entrando e vendo a garota em cima da marquise)

O ·que você tá fazendo aí cima, garota?

 

ELA

Te incomoda?

 

ELE

Não, mas você pode cair a qualquer momento.

 

ELA

Faz alguma diferença pra você?

 

ELE

Pra mim, não. Nem te conheço.

 

ELA

Então por que você está se incomodando?

 

ELE

Pode ser perigoso. Uma queda daí... sei lá...

 

ELA(dá de ombros)

Então me deixa. Vai cuidar da sua vida. Eu também não te conheço.

 

ELE

O que você tá fazendo aí cima?

 

ELA

O que você acha? Dançando, contando estrelas, passeando?

 

ELE

Sei lá. Você só pode tá querendo...

 

ELA(interrompendo ELE, seca e direta)

É isso mesmo: estou querendo me matar...

 

PAUSA

 

ELE

E por que você quer fazer isso?

 

ELA

Olha aqui. Afinal o que te interessa? Milhares de pessoas se matam todos os dias e você por acaso já se importou com uma delas?

 

ELE

Não, mas...

 

ELA

Então por que tá me enchendo o saco? Você acha mesmo que alguém sabe por que se mata?

 

ELE

Desespero, talvez.

 

ELA

Eu tenho jeito que estou desesperada? Eu não posso estar simplesmente entediada da vida?

 

ELE

Pode, mas uma garota tão...

 

ELA

Sem cantada, por favor. Não vem me dizer que sou bonita, jovem e que tenho a vida inteira pela frente.

 

ELE

Pela frente mesmo, você só tem o vazio.

 

ELA

Engraçadinho.

 

PAUSA

 

ELA

O que foi? Vai ficar me olhando?

 

ELE

Não tenho nada pra fazer. E eu nunca vi ninguém se matar. Vai ser a primeira vez.

 

ELA

Olha aqui. O suicídio é algo pessoal. (pra si mesma) Pombas! Nem na hora de morrer a gente não pode ter um pouco de privacidade?

 

ELE

Pode, mas se você quisesse privacidade, se mataria em casa, não aqui, num lugar público.

 

ELA

Isto aqui sempre foi deserto. Ninguém conhece. Justamente hoje, que resolvo me matar, aparece um pentelho.

 

ELE

Pode ser a mão de Deus.

 

ELA

A mão de Deus só serve pra dar um empurrão e mais nada.

 

ELE(sarcástico)

Um empurrão no seu caso não seria uma boa idéia.

 

ELA

Olha aqui, você vai ficar fazendo piada do meu suicídio?

 

ELE

Você ainda não se matou.

 

ELA

Mas eu já morri, entendeu. Eu levo uma vida morta, vazia, arrastada.

 

ELE

E quem não leva?

 

ELA

Não sei. Talvez essas atrizes de televisão. A vida delas deve ser muito divertida.

 

ELE

A sua não é?

 

ELA(agressiva)

Se fosse, você acha que eu estaria aqui?

 

ELE(recua diante da agressividade dela)

Tudo bem... ·Faz como você quiser...

 

ELA

Você vai ficar parado aí, me olhando...

 

ELE(acendendo um cigarro)

Não! Vou fumar esse cigarro, esperar você se jogar e depois vai ser a minha vez.

 

ELA

Como assim?

 

ELE

O que você acha que eu vim fazer aqui? Contar estrelas, ter um momento de reflexão, dançar?

 

ELA

Você também...

 

ELE(interrompendo ELA)

Claro, mas até pra morrer tem que ter alguém na nossa frente...

 

ELA

Mas por que você vai...?(FAZ GESTO COM A MÃO DE MERGULHO)

 

ELE

Agora eu que pergunto:· por que você quer saber? Vai fazer diferença?

 

ELA

É, não vai...

 

ELE

E se a gente ficar de papinho furado vai parecer, tipo “alcoólicos anônimos”, já pensou “suicidas anônimos”?

 

ELA ri.

 

ELE

Sabe que você rindo até que fica bonitinha...

 

ELA

Antes você não me achou bonita?

 

ELE

Achei, mas não vai ficar nada bonita depois que você se esborrachar lá embaixo...

 

ELA(Olha pra baixo e dá um sorriso melancólico)

É.

 

PAUSA

 

ELA

Sobe aqui.

 

ELE

Por quê?

 

ELA

Vamos juntos.

 

ELE

Pra onde? Pro vazio?

 

ELA

Não sei, pra alguma estrela, pra uma nuvem, pra uma outra vida...

 

ELE

Você é bem otimista. Eu já acho que não vou encontrar nada por lá, do outro lado, como dizem.

 

ELA

A gente não pode encontrar o nada. A gente sempre encontra alguma coisa.

 

ELE

Tá bom, sem jogos de palavras. Eu quero me esborrachar e acabou. Não quero encontrar São Pedro, nem Chico Xavier e nem o Capeta.

 

ELA

Eu não. Eu quero que tenha alguma coisa. Uma coisa muito melhor do que essa vida...

 

ELE

No que você tá pensando? Show do Michael Jackson gratuito pela eternidade a fora?

 

ELA(outro sorriso)

Bobo.

 

Pausa.

 

ELA

Sobe aqui…

 

ELE

Pra que? Vai nessa. Depois a gente se encontra lá embaixo. Quem sabe não vamos para o mesmo necrotério...

 

ELA

Que mórbido!

 

ELE

Morbidez é a vida. E mórbido é este ato idiota, gratuito, que queremos fazer. Camus falava que o único problema filosófico verdadeiro era decidir se devemos ou não cometer o suicídio...

 

ELA PENSA UM POUCO, MAS FICA CONFUSA.

 

ELA(impaciente)

Ah, chega de filosofia! Vamos partir logo pra ação. Você vai subir ou não?

 

ELE

Tudo bem. Tô subindo.

 

ELE SOBE NA MARQUISE.

 

ELE

Não pensei que fosse tão alto...

 

ELA

Eu já me acostumei...

 

ELE

Olha, daqui dá pra ver o horizonte...

 

ELA(tentando ver)

Tá tão escuro. Não consigo enxergar nada.

 

ELE

Aquelas luzes... Ei! Eu moro ali, naquelas luzes lá longe, perto daquela torre. Quer dizer, eu morava. E você mora onde?

 

ELA

Não interessa agora. Isto aqui não é uma paquera. Nós não estamos tomando um chopinho, nem marcando um cineminha. O que interessa onde eu moro, qual meu CEP, CPF, RG?· Se sou casada, solteira. Se tenho filhos...

 

ELE

Filhos você não tem. Quem tem filho, não se mata.·

 

ELA

Quem tem um cachorro não se mata.

 

ELE

Você não tem um cachorro?

 

ELA

Não.

 

ELE

Nem eu.

 

Silêncio.

 

ELA

Sabe o que eu quero?

 

ELE

O que?

 

ELA

Um beijo.

 

ELE

O beijo da morte?

 

ELA

É. Pode ser. Um último beijo.

 

ELE

Tudo bem. Eu te beijo.

 

ELA

Eu não estava pensando em você.

 

ELE

Acho que você não vai encontrar mais ninguém por aqui, a estas horas,· a não ser eu.

 

ELA

Então tem que ser você mesmo...

 

ELES SE BEIJAM

 

ELE

Mudou de idéia depois do beijo?

 

ELA

Não. E você?

 

ELE

Também não.

 

ELA

Tá preparado?

 

ELE

Pra essas coisas, a gente nunca está. Mas tem outra coisa pra ser feita?

 

ELA

Não. Eu acho que já tentamos de tudo.

 

ELE

Mesmo que não tivéssemos tentado tudo, já não há mais nada para fazer...

 

ELA

É mesmo...

 

ELE

Sabe, eu me lembrei de uma peça de Ibsen, não sei qual, mas no final os dois dão as mãos e se atiraram num abismo.

 

ELA

Ibsen, Camus... Você é um intelectual?

 

ELE

Um poeta.

 

ELA

Eu sempre quis conhecer um poeta, mas agora é tarde.

 

ELE

É muito tarde.

 

SILÊNCIO

 

ELA

Olha, vem vindo uma viatura da polícia...

 

ELE

Eles logo vão chegar aqui...

 

ELA

Vamos nessa, então?

 

ELE

Vamos. ( pausa) De mãos dadas, como na peça do Ibsen?

 

ELA

De mãos dadas.

 

Eles dão as mãos. Um policial entra com uma arma na mão.

 

POLICIAL

Ei, vocês dois...

 

Eles pulam de mãos dadas.

 

POLICIAL

Meu Deus!

 

POLICIAL ·CORRE PARA A BORDA. ELE SE VIRA, LÍVIDO.

 

POLICIAL

Morreram de mãos dadas(fala pelo rádio) Liguem para o IML. Suicídio duplo, dois jovens. Mortos de mãos dadas. ELA parecia feliz, ELE tinha um cigarro na boca. Câmbio final!

 

ESCURIDÃO

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Atualizado em: Seg 15 Nov 2010

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