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Gregas Tragédias - 14 AS DIONÍSIACAS (Bacantes)

Eurípedes – 485/406 aC.

Cenário – túmulo de Sêmele, o Palácio real e as montanhas ao redor de
Tebas.

 Época da ação – idade da Grécia lendária.

A 1ª apresentação em – 405 em Atenas

Personagens:

1 - Cadmo – rei de Tebas.

2 - Dionísio – Baco, em latim. O deus do vinho e da alegria.

3 - Penteu – neto e sucessor de Cadmo no trono de Tebas.

4 - Sêmele – filha de Cadmo e mãe de Dionísio.

5 - Tirésias – o adivinho.

 

As festas em honra ao deus Dionísio (do vinho, da alegria, da anarquia,
da criatividade, da irreverência) foram as primeiras representações teatrais.
Dionísio, o deus boêmio, ensejava o movimento, a alegria, a fantasia, a paixão
de seus devotos; os quais, guiados por seus sacerdotes, organizavam festas ao
ar-livre com danças, vinhos, mulheres na intenção de instaurar o delírio
anárquico e criador, que é o principal atributo do deus da alegria
desenfreada.

Entre interjeições e gritos de gozo e de celebração, flautas e cantos
confusos, a multidão vestia a fantasia e brincava de ser a “corte” do deus, em
seu reino de prazeres hedonistas. Desses “coros” nasceram as “Comédias” e as
“Tragédias”, que descrevem o protagonista e o espectador das mesmas: o homem.
Tanto os da antiguidade, quanto os da atualidade.

Seguindo essa característica, Eurípedes foca prioritariamente o Homem e
não os deuses, ao contrário dos outros dois gigantes do gênero: Ésquilo e
Sófocles. Aqui, Dionísio enlouquece as mulheres para vingar a memória ultrajada
de sua mãe, a mortal Sêmele. Humanas e protagonistas. Penteu, também humano,
enfrenta o divino Dionísio e se tem, então, a luta da Razão contra a tirania dos
mitos divinos. E o divino, o mitológico só vence a disputa por intermédio de
baixa astúcia e não por ter mais poder. Paradoxalmente, o mortal sobrevive, ao
cabo. É a criação de Eurípedes: o Homem como deveria ser.

A encenação começa com uma cena estática: no poente, uma figura se posta ante
o túmulo de Sêmele, a bela filha de Cadmo, o rei de Tebas. Sêmele, a virgem de
beleza estonteante que conquistou o coração de Zeus, que a arrebatou para com
ela gerar Dionísio. Sêmele que não viu o filho nascer, pois antes da efeméride,
foi fulminada por um raio disparado por Hera, a ciumenta esposa e irmã do Pai
dos Deuses (outra vertente diz que Sêmele morreu ao vislumbrar
o esplendor de Zeus, quando ele satisfez seu desejo de ver toda sua
gloria).

Figura vultosa à beira do túmulo. E a primeira vista, indefinida. Se seus
louros cabelos e suas longas vestes sugerem uma dama, um segundo olhar mais
atento notará que o poderoso punho que segura um Tirso1, revestido de Hera, é,
seguramente, de um homem; ou melhor, de um deus. Com efeito, ali está Dionísio,
vindo da Ásia e disfarçado de mulher. Para Tebas veio com dupla missão:
introduzir o seu culto e vingar as ofensas que sua mãe sofreu.

 

1 – Tirso – cajado feito de madeira sólida e resistente. Usualmente vinha
adornado com folhas de Hera.

Tão logo chegou à cidade, dirigiu-se ao túmulo da mãe para prestar-lhe as
devidas honras. Nela, ele foi gerado e dela ele foi retirado tão logo ela
morreu. Zeus, seu pai, introduziu o feto em sua coxa e ali o gestou pelo tempo
restante. Agora, ali, observa os negros cachos de uvas que cintilam sobre o
mármore gélido e enquanto pensa, sente a chama da ira crescer em seu peito e
refletir em seus olhos sombrios.

Sim, ele diz para si próprio, eu irei reinar aqui. Na cidade que foi de sua
mãe. Destronaria, de qualquer modo, o jovem Penteu, neto e sucessor de Cadmo.
Outras caluniadoras de sua mãe, como as suas tias maternas, AGAVA, INO e
ANTÔNOE, ele já punira. Custou-lhes caro a inveja que tinham de Sêmele; e a
calúnia que diziam ao afirmar que ele, Dionísio, não era filho de Zeus.
Enlouquecê-las-á com o impiedoso ataque da mosca da sandice. Insanas, elas foram
para as ruas e para as montanhas seminuas, pois apenas uma pele de cabra
cobria-lhes os quadris, e vagavam sem descanso e sem abrigo por entre os
espinheiros que lhes dilaceravam os corpos e desgrenhavam os cabelos.

Atrás delas, outras tebanas seguiram levadas por furor invencível. Fugiram
dos homens que procuravam detê-las e reuniram-se em tal quantidade que a
montanha parecia tremer com seus gritos, suas danças e seus cantos selvagens.
Frenesi igual nunca se vira antes na “Tebas das Sete Portas” e aos anciãos só
restou o consolo de se resignarem com “a vontade divina”.

E, de fato, era a vontade de um deus a causa da convulsão. Ele, Dionísio,
transformara as pacatas e recatadas mulheres de Tebas em loucas dionisíacas
(bacantes) sem pudor e sem freio. Assim era sua vingança contra quem destratara
sua mãe.

- Evoé! Evoé1!

1 – Evoé – do grego EUOT, pelo latim Evoé – interjeição
ritualística que servia para evocar Dionísio durante as orgias. Talvez seja a
raiz arcaica do verbo “evocar”.

Brado que repercutia nos bosques, nas montanhas e na própria cidade. A esse
chamado respondia um insano delírio que a todos tomava. Nas ruas, os homens
aguçavam os ouvidos para escutarem as mulheres. Mãos semi conscientes tocavam os
tambores em ritmo sincopado que estremecia os corações. Jovens dançavam malgrado
não quisessem. Velhos sacudiam as alvas cabeças como se estivessem embriagados.
O vinho jorrava farto das crateras (um tipo de taça) para as gargantas, que
nunca se saciavam.

Nesse ponto da encenação, toma o centro da ribalta o velho Cadmo, acompanhado
pelo adivinho Tirésias. Ambos, recobertos de peles de cabras, batem
cadenciadamente seus tirsos com heras, enquanto descem de mãos dadas às
escadarias do Palácio para ganhar a rua e se juntar à multidão delirante. Descem
ligeiros, pois lhes urge seguirem para as montanhas das dionisíacas, junto com
os embriagados foliões do povo. Porém, no momento em que se afastam um homem
jovem lhes interrompe o caminho. É Penteu que os admoesta com severidade: ó pai
de minha mãe! Que pensas fazer? Aonde vais com esses trajes? Será que tu também
resolveste adorar esse “falso deus” a quem chamam de Dionísio? Divindade boa, se
tanto, apenas para os rudes bárbaros e não para homens ajuizados. Foi para te
entregares a esse festejo sensual e vulgar que tu, meu querido avô, entregou-me
o comando da Cidade? Largue esse Tirso, essa Hera, essas peles. Dá-os aos homens
vulgares de nossa pátria. Voltes ao Palácio, Cadmo. Logo eu restabelecerei a
ordem nas ruas e nos lares. Esse outro que se diz filho de Sêmele, tua filha, e
de Zeus há de pagar por sua impostura. Já prendemos várias de suas adoradoras
ensandecidas que estavam prestes a se reunirem com as tantas outras espalhadas
pelos bosques e pelas montanhas (no Citério). Logo acabarei com essas ofensas
aos antigos deuses. Esse Dioniso é um impostor! Disso eu sei através do que
minha mãe contava, antes de sucumbir à loucura que a levou. Prosseguindo, Penteu
diz ao adivinho:

E tu Tirésias? Tu queres introduzir nova divindade em Tebas, para aumentar
sua renda com novos sacrifícios e rituais? Oh, se tu não fosses um velho cego e
inválido eu te daria uma lição que tu não esquecerias.

O velho profeta interrompe o jovem rei dizendo: não blasfemes! Não trate
Dionísio dessa maneira! Tu não sabes o tamanho que o seu culto alcançará. Na
Ásia ele já é deveras cultuado, mas somos nós que temos a honra de sabê-lo
conterrâneo. Pertence à Tebas, muito mais que a qualquer outra pátria. Guarde
teu sorriso de escárnio e sua incredulidade. Achas que o raio que matou Sêmele
também o matou, mas eu afirmo que não! Afirmo que Zeus o gestou em sua coxa
quando a mãe morreu; e que foi esse mesmo pai que o escondeu no Olimpo, a salvo
dos ciúmes vingativos de Hera. E Dionísio viveu para nossa felicidade. Junto a
Deméter (Ceres, em latim) que alimenta os homens por ser a deusa da agricultura,
está Dionísio que os alegra com o suco das uvas. O vinho que traz a alegria, o
esquecimento, a paz e o sono aos Homens, é o seu presente ao Mundo. Glória a
Dionísio que faz os tímidos serem audazes, os covardes serem valentes; e
felizes, todos eles.

Cadmo toma a palavra e insiste na apologia ao novo deus dizendo: meu filho
deixe teu ciúme mesquinho e orgulhe-se por ser da mesma estirpe do deus que
tanto fará para a Humanidade. Ande, por favor, coloque os adereços e festeje.
Não te oponhas à alegria como se fosse um déspota irascível. Cultue conosco o
“Imortal” mais humano de todos.

Penteu, tomado pela fúria, vocifera em resposta: insensatos! Não me
contaminem com vossa loucura. O impostor será desmascarado. Prenderei seus
sacerdotes e acólitos. A começar por esse estrangeiro que vaga pela cidade
seduzindo as mulheres com seu cabelo perfumado. Devolverei a ordem à
Tebas.

Que os deuses não te castiguem, diz-lhe Cadmo. Em seguida o velho herói
convida Tirésias e ambos seguem o cortejo dionisíaco dizendo: deixemos esse moço
com sua luta vã e ímpia (desrespeitosa à religião) contra os deuses. Eu temo
pela sua sorte, mas nada podemos fazer para demovê-lo de sua intransigência.
Vamos Tirésias, honrar Dionísio!

Enquanto os anciãos partem, Penteu reflete que poderia abrandar sua raiva se
mandasse seus soldados revirar a casa de Tirésias, ou determinar outras medidas
que acabassem com a ruidosa manifestação de anarquia que lhe chega da rua, não
obstante a severidade com que os soldados tratam os populares foliões. Mas não
dá seguimento ao seu mau pensamento em razão da chegada de uma patrulha que
escolta Dionísio preso. O cativo, não obstante o peso das correntes que o
manietam, aparenta tal calma e tanta segurança que são os guardas que se mostram
atônitos e inseguros. Por fim, o líder militar diz a Penteu: ó rei, eis aquele
que tu nos mandaste aprisionar. Ele não nos ofereceu resistência e nos
acompanhou como se estive indo a uma festa. Quanto às mulheres que prendemos
antes, as noticias não são tão boas. Inexplicavelmente os grilhões e as grades
que as prendiam abriram-se milagrosamente e elas fugiram. Todas as testemunhas
do fato dizem que esse acontecimento foi feito pelo estranho que aqui está.
Ademais, muitos outros milagres estão sendo-lhe creditado, de modo que nem nós
temos certeza se ele é, efetivamente, um deus, ou um impostor. Diga-nos tu, ó
ilustre rei, o que devemos fazer com ele?

Note-se que a metáfora colocada por Eurípedes vai além da crença na
divindade de Dionísio. O dramaturgo coloca duas visões da realidade: a defesa do
Cosmos organizado, previsível, burocrático e, talvez, sem criatividade e sem
atrativos; contra o Caos rompedor da antiga ordem, dos antigos valores e
exterminador da resignação ou submissão à vontade dos deuses (ou de Deus para as
religiões instituídas). O Caos que enseja criatividade e que á atrativo para as
mentes e almas mais bem aparelhadas de conhecimentos e
inteligência.

Essa segunda visão é a do “Homem Dionisíaco”, que será o modelo a ser
seguido, conforme a concepção de Nietzsche. É o Homem que mata Deus, ou seja, o
homem que mata a subserviência dos judeus, cristãos, muçulmanos e outras
religiões. É o Homem que mata as velhas crenças, as velhas estruturas
sócio-políticas e a antiga Moral.

- Quem tu és? O que tu vieste fazer em Tebas, pergunta Penteu?

- Introduzir o culto ao deus Dionísio. O deus do vinho e da alegria. E nada,
aviso-lhe, poderá impedir-me, responde a divindade, ainda disfarçada.

- Mesmo que eu te prenda?

Vão guardas! Não se impressionem com os seus falsos milagres. Prendam-no!
Amanhã ordenarei o seu suplicio.

Dionísio olha com sarcasmo para o jovem rei e murmura: pobre louco. Pagará
caro o peso dessas correntes. Em seguida diz aos seus carcereiros indecisos:
vamos, cumpram a ordem que receberam de vosso rei. Eu quero ser preso.

Aturdidos, os guardas levam o prisioneiro para uma escura masmorra. Nela,
Dionísio fica aguardando a hora que se auto determinou. Chegado o momento, sua
voz ressoa por toda cidade: Eia! Eia! Dionisíacas, ouvi-me! Aqui está vosso
deus, filho de Sêmele e de Zeus. Vejam! A gruta se fende, a porta da masmorra se
abre e os guardas são sugados pelo chão. Olhem! O Palácio do tirano Penteu se
desmorona. Evoé! As paredes ardem. Oh Mênades (mulheres possuídas, epíteto dado
às dionisíacas) prostem-se ante o filho de Zeus!

A cena muda para as ruínas do Palácio onde Dionísio surge resplandecente,
enquanto os Coros (no sentido de procissão) femininos enchem a noite com seus
gritos anárquicos.

Eia! Eia! Vamos! Ele nos chama! Adoremo-no!

Penteu, pasmo, contempla seu ex-prisioneiro. O incêndio fora tão rápido e
brutal que ele só salvara a própria pele. Seus imensos tesouros foram devorados
pelas chamas em pouco tempo. Porém, nem a libertação miraculosa de Dionísio, nem
a devastação de seus bens, foram capazes de vencer sua incredulidade. Foram
suficientes para torná-lo mais humilde. Teimava que os acontecimentos não eram
miraculosos e deliberou agravar a repressão ao culto dionisíaco ordenando que
seus guardas atacassem impiedosamente as mulheres na montanha do Citério (de
Citerão, o conjunto de montanhas que separam a Beócia de Megaris e da Ática.
Tais montanhas eram consagradas a Dionísio e às Musas) e trouxessem vivas ou
mortas, todas as devotas do novo deus. Sua própria mãe, AGAVE, deveria ser a
primeira, tanto para dar o exemplo, como para punir a sua desobediência à ordem
de seu rei e por não atender ao apelo de seu filho. Todavia, os guardas da
primeira carga logo voltaram derrotados e apavorados com o que tinham visto e
sentido. As devotas atacaram-nos com furor selvagem e parecia não sentir os
golpes que eles lhes aplicavam. Diante desse relato, Penteu decidiu ir
pessoalmente para o combate.

- Acautele-se, ó rei. Quem nos derrotou não foram as mulheres, mas um
deus.

- Qual? Covardes! Vocês se auto flagelaram para me convencer. Eu e meus leais
cavaleiros esvaziaremos as montanhas.

Nisso, Dionísio aproxima-se do rei e lhe diz: sê prudente, ó rei. Não
levantes tuas armas contra um deus. Ele te impedirá de capturar as suas devotas.
Penteu ruge em resposta: cuide-se tu, impostor. Posso prendê-lo em uma cadeia
inescapável. Tu não passas de um bufão sem graça.

Dionísio apenas o fitou e, mentalmente, o condenou à morte. Em seguida
diz-lhe: tu não conseguirás dominar as dionisíacas. Queres um
conselho?

- Como tu ousas oferecer-me um conselho. Não vês que és o meu
inimigo?

Dionísio sorriu e embora lhe fosse custoso mentir, sabia que deveria agir com
toda astúcia que o momento exigia e que era necessária ao seu intento; assim,
disse ao rei: mesmo que não queiras, eu te darei uma sugestão. Veste-te como
mulher e assim disfarçado conseguirá se infiltrar entre as devotas com
segurança. Então, estando entre elas, use toda sua eloqüência para convencê-las
a voltarem para suas rotinas. Desse modo nenhum sangue será derramado e tu
poderás manter-se no Poder.

Penteu hesitou, mas a contragosto teve que admitir que a sugestão era boa e
sensata. E também porque Dionísio – que confunde o intelecto das pessoas, como
se fosse ele mesmo um bom vinho tomado em excesso – enviava-lhe eflúvios de
suave desvario, semelhantes ao da embriaguês. Destarte, em pouco tempo, Penteu
deixou de ver no deus um ferrenho inimigo e se mostrou aberto ao conselho
divino. Abandonou sua Razão e se deixou levar pelo deus mais forte e mais
terrível, dentre os considerados benfazejos.

Nesse último trecho é clara a metáfora que Eurípedes faz com os efeitos
da embriaguês sobre os Homens. É o “deus poderoso”, ou o “vicio poderoso” que
faz os alcoólicos abandonarem o bom-senso, a racionalidade, a temperança para
agirem como irresponsáveis, ladrões, assassinos e toda sorte de comportamento
anti-social.

A idéia do disfarce não chocou a Razão de Penteu, pois como se viu, ele já
estava sob domínio de um tipo de embriaguês. Porém, um resto de racionalidade
ainda vigorava e considerava que o fato do rei ter que atravessar a cidade, o
sujeitaria ao escárnio e à zombaria do povo, com resultados catastróficos. Logo
ele, famoso pelos seus “decretos severíssimos”. A multidão, iluminada pelos
archotes que levava, não deixaria de ver na sua transfiguração uma confissão de
derrota e de fim de governo. Não restariam dúvidas de que a Anarquia fora
efetivamente instaurada. Mas esse impasse íntimo não se prolongou, pois as
ordens de Dionísio prevaleceram e o rei se pôs a fantasiar-se de dama. E, logo
depois, já transfigurado, teve que suportar os olhares de curiosidade e de
espanto dos próprios guardas e servos e uma ou outra piada. Era, de fato, muito
parecido a qualquer uma das filhas de Cadmo.

- Maravilhoso, disse Dionísio sem se dar ao trabalho de sufocar o riso, como
fizeram os outros. Disse ainda: está uma verdadeira mulher; e que assim seja,
pois esta é a única forma de adentrar ao grupo das dionisíacas que celebram os
“mistérios do deus do vinho”. Penteu, semi- inconsciente, ofendeu-se como o riso
e com as palavras jocosas do deus e usando um tom irônico pergunta: será que
assim eu conseguirei trazer nos ombros o monte Citério e as devotas que lá
estão?

Dionísio, também com certa ironia, responde que sim, desde que quisesse. Na
seqüência oferece-lhe o braço e o convida a iniciar a caminhada que o levará
através da cidade até a montanha, dizendo que todos o admirarão. Devolve-lhe,
então, o sarcasmo.

- Tu és cruel, estrangeiro. Mas não tenho escolha, resigna-se Penteu. Vamos.
Faremos as dionisíacas envergonharem-se de seus modos, de suas bebedeiras. Oh,
bêbadas vadias!

- Vamos, rei. Caminhemos, ordena o deus da alegria. Entre risos, danças,
vinhos e orgias os dois caminham com pressa e logo chegam ao sopé do
Citério.

Já não estavam em território tebano. Cá estamos, murmura Dionísio. Vamos com
cuidado para que os nossos passos não nos denunciem. Olhe ali: vê a multidão?
Veja que algumas saltam como corças, outras dançam, algumas fazem coroas de Hera
e aquelas outras brincam como se fossem crianças. Estão felizes, livres do jugo
dos homens. Diga-me rei, como Dionísio – que as tornou livres – não poderia ser
o seu deus favorito?

Aqui Eurípedes antecipa-se às hodiernas feministas, pregando a libertação
feminina. Aliás, esse tema já pode ser visto em outras “Tragédias” e/ou
“Comédias”.

Penteu, porém, diz que nada enxerga, sem desconfiar da armadilha que Dionísio
lhe prepara. Esse último, então, diz-lhe: vou colocar-te noutra posição para que
tu possas ver-lhes. Em seguida, estendeu o braço e puxou o ramo principal de um
pinheiro. Curvando a árvore até o chão, colocou o pescoço do semi-inconsciente
Penteu na mais alta forquilha. Depois deixou o pinheiro voltar lentamente à sua
posição original e com a sua voz retumbante gritou: eia! Eia! Mulheres vejam.
Olhem o espião que traiçoeiramente queria sondar os mistérios das celebrações a
Dionísio. Notem que está preso na armadilha que lhe armei. Observem! Aquele que
antes zombava de mim e da devoção de vós outras. Eia! Eia!

Em seguida apontou para o Céu e vários relâmpagos iluminaram Penteu.
Ensandecidas, as mulheres cercaram o pinheiro com a intenção de matar o espião.
Primeiro tentaram acertá-lo com pedras, mas em vão. Nesse ínterim, lúcido
novamente, Penteu vê o destino que lhe aguarda e grita desesperadamente pelo
socorro de sua mãe, mas sua voz foi abafada pelo alarido das dionisíacas, que
urravam de raiva e exigiam vingança contra quem maltratara seu deus
amado.

Agave, a mãe de Penteu, era a mais excitada e por obra dos sortilégios do
deus, ao invés do corpo do filho, via o corpo de um feroz leão.

- É o leão, irmãs, que está acabando com nossos rebanhos. Matemo-no sem
piedade e libertemos a cidade desse flagelo.

E novas pedras voaram, mas como foram tão inúteis como as primeiras, as
mulheres decidiram arrancar a árvore e assim o fizeram. Ferido, Penteu não pôde
levantar-se e, malgrado suas súplicas, recebeu no coração o potente tirso de
Agave que julgava estar matando o leão. O restante de seu corpo foi despedaçado
pelas demais, incitadas pelo cheiro de sangue e pela loucura do momento. Por
fim, Agave espetou a cabeça do rei em seu Tirso enquanto urrava: vejam o focinho
da fera, minhas irmãs. Agora eu vou receber as condecorações em Tebas pelo meu
heróico feito. Um longo cortejo logo se formou de volta à cidade, em meio a
hinos e louvores ao deus do vinho.

À porta de Tebas, dois homens o detiveram. Eram Cadmo e Tirésias.

- Aonde vai Agave, minha filha? O que tu levas como troféu, bradou
Cadmo?

- A cabeça do leão que eu matei.

Cadmo, desesperado, exclamou: ó dor sem fim! Ai de mim! Ó deuses, como
curvais os homens que tem a insolência de lhes olhar face a face e comparar-se a
vós. Vejo que me tirastes meu herdeiro. Este menino que eu nunca mais verei.
Enquanto se lamentava, quedou-se abatido pela imensa dor. Lágrimas abundantes
correm por suas faces. Agave, com os olhos dilatados, contempla o vácuo sem
enxergar a realidade; sem ver a cabeça do próprio filho. Alheia a tudo que se
passava. Dionísio, impassível, apoiava-se serenamente em seu Tirso e mostra a
Cadmo e a Agave a longa e sofrida via em que caminharão doravante. Sêmele estava
vingada.

Nessa peça, Eurípides inicia um novo gênero na literatura: a fábula, cujo
elemento marcante é a lição de moral que encerra o texto, quase sempre
condenando as atitudes contrárias à Moral da época em que foi escrita e
conclamando a todos para que busquem os caminhos da virtude
vigente.

Aqui, não é difícil perceber a censura subliminar ao desregramento
cometido a partir da perda de lucidez, da Razão. Tanto por efeito do consumo
exagerado de vinho, quanto por efeito do abandono das regras sociais que
norteavam a comunidade. A morte de Penteu é, também, a morte da Sociedade
Organizada segundo os ditames da racionalidade, em constante luta contra o
império das sensações. O que substituirá aquela ordem estabelecida? Qual será o
futuro de Tebas?

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Atualizado em: Qui 15 Set 2011

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