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A REVOLUÇÃO DAS ENXADAS

CENÁRIO:

A HISTÓRIA ACONTECE NO INTERIOR DE UMA TÍPICA CASA DE FAMÍLIA POBRE DO SERTÃO.

RECURSOS DE PALCO:

01 RÁDIO DE PILHA ANTIGO.

01 MESA VELHA DE MADEIRA.

08 BANCOS DE MADEIRA.

01 CADEIRA DE BALANÇO

01 LAMPIÃO.

PERSONAGENS

TONHO DAS MULA. (Perfil da personagem).

Homem simples, negro, meia idade, sertanejo, sem ambição, religioso, cabisbaixo.

ZEFA. (Perfil da personagem).

Mulher simples, negra, meia idade, sertaneja, sofrida, guerreira, decidida, revoltada.

JESUS CRISTO.

Perfil da personagem.

Paciente, gestos largos e calculados, fala compassada.

TINHOSO.

Perfil da personagem

Arrogante, convencido, fala agressiva, gestos rápidos e objetivos.

 

CENA 1

(Diálogo)

 TONHO DAS MULA E D. ZEFA.

 

(TONHO)

- VALEI-ME NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, ATÉ QUANDO VAI DURAR ESSA ANGÚSTIA?

(DONA ZEFA)

- DEIXA DE BESTÊRA HOMI, ‘CÊ NUM TÁ VENO QUI ESSE POVO DO CÉU TÁ MUITO OCUPADO PRA OUVI NÓIS?

(TONHO)

- NUM BRASFEMA MULÉ, NUM BRASFEMA QUI SÓ FAZ PIORÁ AS COISA.

(DONA ZEFA)

- PIORÁ!!!? NUM TEM MAIS O QUE PIORÁ, TONHO?!! AGORA SÓ FARTA NÓIS MORRÊ, O QUE ERA DE BEM MAIS GOSTO QUE VIVÊ DESSE JEITO!

(TONHO)

- OS HUMILDE É QUI VÃO GANHÁ OS REINO DO CÉU! (De forma pomposa)

(DONA ZEFA)

- HUMILDE!!!? NÓIS NUM SEMO HUMILDE, TONHO, NÓIS SEMO É PODRE, UM BANDO DE VERME QUI DEUS BOTÔ NO MUNDO PRA SOFRÊ!

(TONHO)

- ZEFA, JÁ TE DISSE PRA NUM BLASFEMÁ!!!!

(DONA ZEFA)

- INTÃO PEDE PRA ELES, PEDE! PRA JESUS, SÃO FRANCISCO, SANTO ANTÔNIO, SÃO BENEDITO, SÃO LONGUINHO, SEI LÁ, PRÁ QUARQUÉ UM DESSES AÍ!  EU BEM QUE TE FALEI, “VAMO PRO SUL, TONHO”, MAS VOSMICÊ: “NÃO, DE MINHA TERRA NUM SAIO!” TAÍ, TOMA O QUE ‘CÊ QUIRIA, UMA VIDA DESSA MISERAVE, OITO FIO PRA CRIÁ, NADA PRA CUMÊ, NADA DE CHUVA, SÓ DISGRAÇA, SÓ DISGRAÇA, DISGRAÇA!

(TONHO)

- MAIS O QUI NÓIS VAI FAZÊ LÁ NO SUL ZEFA? NÓIS NUM SABE FAZÊ NADA, SÓ MEXÊ CUM OS BURRO, CUM AS VACA, CUM AS GALINHA, CUM A ENXADA!!!!

 (DONA ZEFA)

- TONHO DAS MULA, NÓIS NUM TEM MAIS MULA PRUQUE JÁ MORREU TUDO, NUM TEM MAIS VACA PRUQUE JÁ MORREU TUDO, NUM TEM MAIS GALINHA PRUQUE JÁ MORREU TUDO. INTÉ AS TERRA SECÔ. NÓIS NUM TEM MAIS NADA, TONHO! QUI DISGRAÇA ‘CE QUÉ AINDA NESSA TERRA DO CÃO? SÓ TRABAIO, SÓ TRABAIO, SÓ TRABAIO!!!

(TONHO)

- EU SEI QUE A VIDA NUM TÁ BOA, ZEFA, MAS DEUS DEVE DI TER UMA HORA MIÓ PRÁ NÓIS! A CHUVA JÁ TÁ PRA CHEGÁ, AÍ CÊ VAI VÊ, MUITA VACA, GALINHA, GRAMA VERDINHA...

 

 

 CENA 2

 

(Diálogo)

TONHO DAS MULA, DONA ZEFA, O TINHOSO

 

(Barulho de trovão)

(DONA ZEFA)

- É A CHUVA!!!!!

(TINHOSO)

- É NÃO, INFELIZ, SOU EU.

(DONA ZEFA)

- QUEM É VOCÊ?

(TINHOSO)

- LÚCIFER.

(DONA ZEFA)

- QUEM?

 (TINHOSO)

- O DIABO, O CÃO, SATANÁS, O TINHOSO!!! DETESTO QUANDO NÃO SOU RECONHECIDO.

(DONA ZEFA)

- AH! TÁ! DÁ LICENÇA QUI EU TENHO MAIS O QUI FAZÊ. AINDA TENHO MUITO SUFRIMENTO PRA DISTILÁ.

(TINHOSO)

- COMO ASSIM DÁ LICENÇA??!!!  TREMA DE MEDO RELES MORTAL!!!!!

(DONA ZEFA)

- MEDO? DE VOCÊ? TÁ BRINCANO, NÉ?  JÁ PASSEI POR CADA UMA NESSA VIDA QUI NÉ QUARQUER UM BICHO FEIO, FEDORENTO QUI VAI ME METER MEDO, NÃO. ‘CÊ É QUI DIVIA TÊ MEDO DI MIM. CUM A FOME QUI EU TÔ AQUI, NUM LHE SOBRA NEM OS CASCO.

 (Entra Tonho das Mula assustado.)

- VALEI-ME MINHA NOSSA SENHORA! É O CÃO, O TINHOSO!!!!!!

(TINHOSO)

- ATÉ QUE ENFIM, ALGUÉM DE BOM SENSO! (Clichê) TREMA DE MEDO RELES MORTAL!!!

(TONHO DAS MULA)

- MEU DEUS, DAI-ME REFRÚGIO!!!!

(DONA ZEFA)

- TONHO, ME DIGA, PRUQUI É QUI QUANDO VOSMICÊ FALA EM DEUS USA ESSAS PALAVRA BUNITA: DAI-ME REFRÚGIO!!!? DEVE DI SÊ PURISSO QUI ELE NUM TI OUVI, DEVE DI NUM INTENDÊ NADA DO QUI TU FALA. PODE DEXÁ  QUI EU DÔ UM JEITO NESSE INFILIZ DOS INFERNO! TÔ DOIDA PRA CUMÊ UM ENSOPADO DE BODE!!!!

(Corre atrás do Tinhoso)

 (TONHO)

- ZEFA, PELO AMOR DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, SE ARRENEGA DO CÃO, ZEFA!!! VALEI-ME NOSSO SENHOR, SOCORRE NESSA HORA MALDITA!

 

 

CENA 3

(Diálogo)

JESUS CRISTO, DONA ZEFA, TONHO DAS MULA, O TINHOSO.

 

(Jesus aparece e se coloca entre Dona Zefa e o Tinhoso, que vira de costas escondendo o rosto, enquanto Tonho se ajoelha.)

 (JESUS)

- CALMA SENHORES, A PAZ DO SENHOR ESTEJA CONVOSCO.

(DONA ZEFA)

- QUEM É TU?

 (TINHOSO)

- PELO INFERNO, MAS COMO É BURRA!

(JESUS)

(Voltando-se para o Tinhoso.)

- CALE-SE, ESPÍRITO DAS TREVAS!

(O Diabo se encolhe num canto.)

 (TONHO)

- BENDITO FILHO DE DEUS!

(JESUS)

(Voltando-se para Dona Zefa.)

- EU SOU O CORDEIRO DE DEUS, A OVELHA DE SALVAÇÃO.

(DONA ZEFA)

- CORDEIRO! OVELHA! ISSO DÁ É UM BOM ENSOPADO!

(JESUS)

- CALMA, FILHA MINHA. SEI DO SEU SOFRIMENTO. VIM PARA LHE AJUDAR.

(DONA ZEFA)

- COMO VOSMICÊ PODE SABÊ DO MEU SUFRIMENTO? TU ME PARECE É BEM GORDINHO, ACHO QUE NUNCA SOUBE O QUE É FOME, SECA, SEDE!

(JESUS)

- ENGANA-SE, ZEFA. PASSEI FOME E SEDE POR QUARENTA DIAS E QUARENTA NOITES QUANDO ESTIVE AQUI NA TERRA PRA SALVAR A HUMANIDADE.

(DONA ZEFA)

- POIS EU PASSO FOME A UNS QUARENTA ANO, BEBI MUITA ÁGUA DE MANDACARÚ E NUNCA SALVEI FOI NINGUÉM POR ISSO.

(JESUS)

- EU SOU O FILHO DE DEUS!

(DONA ZEFA)

- E EU, NÃO SOU?

(JESUS)

- EU SOU O CRIADOR.

(ZEFA)

- E ACHA QUI EU DEVO DE FAZER O QUE? TE AGADECER POR ME BOTAR NUM MUNDO TÃO MISERÁVEL?

(TONHO)

- ÊITA MUIÉ! NUM BRASFÊMA. AGORA É QUE LASCOU-SE TUDO!

(DONA ZEFA)

- MAS VEJA SÓ, ESSE HOMI CHEGA QUERENDO TOMAR NOSSO ALMOÇO,(aponta para o Tinhoso)CUM ESSA CUNVERSA DE FIO DE DEUS, DE CRIADOR, E TU INDA ACHA QUI EU QUI TÔ ERRADA. SÓ TÔ PROTEJENDO NOSSA CUMIDA, INFILIZ!!!!

(JESUS)

- EU SOU A LUZ DO MUNDO!

(DONA ZEFA)

- MEU SINHÔ NÓIS TÁ CANSADO DE LUZ, O QUI NÓIS PRECISA MERMO É DE ÁGUA E SOMBRA. Ó SÓ COMO TÁ AS ÁRVRES DESSE LUGAR, TUDO SECA, SEM UMA FOLHINHAZINHA SIQUÉ. DE LUZ NO JUÍZO JÁ BASTA ESSE SOL DE RACHAR OS PINO.

(TONHO)

- SINHÔ PERDOA QUE ELA NUM SABE O QUI DIZ.

(DONA ZEFA)

- COMO ASSIM NUM SABE O QUE DIZ? ‘CÊ TÁ VARIANO DAS IDÉIA É TONHO? PRA QUÊ QUI NÓIS QUÉ MAIS LUZ? SÓ SE FÔ PRA ENDOIDECER DE VEZ!

(JESUS)

- QUANDO O DIA DO SENHOR CHEGAR, TUDO SERÁ ESCLARECIDO. 

(DONA ZEFA)

- INSLARECER O QUÊ HOMI? TÁ TUDO CLARO! JÁ VIU A CARA DOS PULITICO? CLARINHA, CLARINHA, TUDO BRANQUINHO. NÓIS TEM MAIS É QUI EMPRETECER TUDO, UM BUCADO DE NEGONA, DE NEGÃO LÁ NI BRASÍLIA, FAZENDO MAIÓ SARSEIRO: BIBIDA CHIQUI, CUMIDA BOA, FORRÓ NOS PLANARTO, BATUCADA. EITA NÓIS, QUI VIDA BOA!

(JESUS)

- ESTE MUNDO LOGO PASSARÁ.

(DONA ZEFA)

- AH! ISSO VAI. DAQUI A UNS DIA VÃO CABÁ CUM TUDO. MAS INQUANTO NUM SE ACABA, BEM QUI NÓIS PUDIA APROVEITÁ UM TIQUINHO, NÉ. AGORA O SINHÔ VEM AÍ, TODO INGOMADINHO, DE CABELINHO INROLADINHO, QUERENDO ME DEIXÁ DI FORA DAS COISA BOA! É RUIM, VIU, É RUIM!

(JESUS)

- SE TIVERDES FÉ DO TAMANHO DE UM GRÃO DE MOSTARDA, REMOVERÁS MONTANHAS. 

(DONA ZEFA)

- MEU SINHÔ, AQUI NUM SE PODE PRANTÁ MANDIOCA, FEIJÃO, AIMPIM, MIO, NADA, NUM NASCE NADA. SE PRANTAR ESSA TAR DE MOSTRADA, MAS É AÍ QUI NUM VAI NACÊ MERMO. ÓIA, SÓ ME FARTAVA ESSA!

(TONHO)

- MEU SINHÔ, PERDOA, PERDOA MINHA MUIÉ. É A FOME, É ESSE SOL QUE RACHA O JUÍZO DA GENTE E FAZ FALÁ ESSAS BESTÊRA.

(JESUS)

(Saindo)

- TONHO, O SENHOR FALA PELA BOCA DOS INOCENTES. UM DIA O SERTÃO VAI VIRAR MAR E O MAR VAI VIRAR SERTÃO E NESSE DIA EU VOLTAREI.

(DONA ZEFA)

- DIGA A SÃO PEDRO PRÁ MANDÁ UMAS CHUVINHA PRA CÁ QUI NÓIS TAMÉM É GENTE!(Volta-se para O Tinhoso que continua encolhido em um canto)AGORA BICHO FEDORENTO DAS TREVA, CHEGOU A SUA HORA, VAMO ACERTÁ NOSSAS CONTA.

(TINHOSO)

(Sai correndo desesperado)

- SOCORRO, SOCORRO! ESSA MULHER É LOUCA, É PIOR QUE O CÃO!!!

(Zefa sai de cena correndo atrás do Tinhoso.)

 

CENA 4

(Luz de monólogo.)

(TONHO)

- ZEFA É A MUIÉ MAIS SOFRIDA QUE EU JÁ CONHECI EM TODA A MINHA VIDA. MAL TINHA COMPLETADO OS DOSE ANOS E JACINTO, SEU PAI, FICOU ENTREVADO DOS QUARTOS DEPOIS DE UM ACIDENTE NUMA PRANTAÇÃO DE CANA DE AÇÚCA LÁ PRAS BANDA DO SUL. PRA SUSTENTAR A FAMIA, DONA INÊS, A MÃE DELA, OBRIGOU ELA A FAZER VIDA NUM POSTO DE GASOLINA. “ANDA MENINA, LARGA MÃO DE SÊ INGRATA, VOSMICÊ TÁ MOCINHA, BUNITA, VAI GANHÁ ARGUM DINHEIRO PRA COMPRÁ CUMIDA PROS SEUS IRMÃO E OS REMÉDIO DE SEU PAI! E LÁ VAI ZEFINHA AUMENTAR A RENDA DA FAMIA. DOIS ANOS DEPOIS FOI TRABAIÁ NA CASA DO CORONÉ ANTÔNIO SILVEIRA PENSANDO QUE IA VÊ A VIDA MELHORÁ E NADA. O CORONÉ É O SUJEITO MAIS DISGRAÇADO QUI EU VI NA MINHA VIDA. O FILA DA PUTA ERA CAPAZ DE COMER A PRÓPRIA MÃE, O FIO DO CRICO ABUSOU TANTO DA COITADA QUE INTÉ HOJE A TADINHA NÃO SENTA DIREITO. AÍ QUE EU ENTREI NA VIDA DELA, NOS CUNECEMO, NAMORAMO, CASAMO, FIZ LOGO OITO FIO PRA MARCAR O TERRENO E NÓIS VIVE ESSE AMOR LOUCO. ELA É DOIDINHA POR MIM.

(Entra Zefa bufando de raiva.)

(DONA ZEFA)

Ô TONHO, SEU FIO DO CABRUNCO! VOCÊ FICOU DE CONVERSA FIADA CUM AQUELE INGOMADINHO METIDO A FIO DE DEUS E DEIXOU O DISGRAÇADO, FEDORENTO DOS INFERNO FUGÍ. EU QUERO VER AGORA, FIO DA PESTE, O QUE É QUE NÓIS VAI ARMOÇAR?

(TONHO)

- EU NUM ACREDITO QUI VOCÊ QUERIA ARMOÇAR O TINHOSO, AQUELE FEDÔ DE ENXOFRE ME DÁ NÔJO!

(DONA ZEFA)

- Ó PRA ESSA MISERA! ‘CÊ PARECE QUI TÁ FICANDO É AFRESCAIADO! JÁ VIU QUEM TEM FOME ESCOIER O QUE CUMÊ? O BICHO VEM CUM AQUELA CUNVERSA DE: “MORRA DE MEDO RELES MORTAL!” E EU DE ZÓIO ACESO NAQUELA ANCA GORDA, NAQUELES MOCOTÓ DE BODE. AH! EU ADORO CARNE DE BODE! IA CUMÊ INTÉ IMPANTURRÁ!

(TONHO)

- AVE MARIA CHEIA DE GRAÇA, O SENHOR É CONVOSCO...

(DONA ZEFA)

- QUI É QUI FOI TONHO? A FOME JÁ RUEU SEU JUÍZO FOI?

(TONHO)

- NÃO, TÔ REZANDO PRA NOSSA SENHORA DAS CAUSA IMPOSSIVE TIRÁ O CÃO DE VOCÊ!

(DONA ZEFA)

- EU AQUI, DOIDINHA PRA ELE VOLTAR E VOCÊ JOGANDO NO CONTRA, ASSIM NÃO DÁ!!!

(TONHO)

- ÓI, MUIÉ, EU VÔ É PERCURÁ O QUI FAZÊ, CÊ JÁ TÁ É ME DEIXANDO ALUADO.

(Tonho sai de cena, enquanto Zefa se dirige para o centro do palco, as luzes vão-se apagando, ficando apenas a luz de monólogo.)

 

 

CENA 5

Luz de monólogo.

(ZEFA)

- NESSA VIDA JÁ CUMI O PÃO QUE O DIABO AMASSOU, NUM GOSTO NEM DE LEMBRÁ. CATORZE ANOS, EU SÓ TINHA CATORZE ANOS! “AH! QUE COISINHA LINDA! SENTA AQUI NO COLINHO DE PAPAI, VEM! FAZ UM CARINHO GOSTOSO!  CATORZE ANINHO E JÁ SABE FAZER ISSO TUDO?! VOCÊ GOSTA DO PAPAI, GOSTA?” MISERÁVE!!!! A FOME, A FOME; MEUS IRMÃO, FOI POR MEUS IRMÃO!

DIACHO! E QUEM NUNCA ERROU NESSA VIDA? É JUSTO ISSO? NÃO TÊ A CHANCE DE ESCOIER, JÁ NASCÊ CONDENADO? QUE JUSTIÇA É ESSA? ALGUÉM ME DIGA, QUE JUSTIÇA É ESSA? DEUS! DEUS! ACORDA! NUM TÁ VENDO SEUS FIO SOFRÊ?(Chorando)

(Tonho entra e ampara Zefa em seu pranto.)

 

(TONHO)

- ZEFA, NUM FALA ESSAS COISA QUI DEUS CASTIGA!

 (ZEFA)

- E TEM CASTIGO MAIOR DO QUE ESSE, TONHO. NOSSOS FILHINHO TONHO, CUM FOME, CUM FOME, CUM SEDE!

(TONHO)

- TUDO É PELA VONTADE DE DEUS, MINHA FRÔ. TUDO É PELA VONTADE DE DEUS.

(Chover, música do Cordel do Fogo Encantado de fundo, as luzes se apagam.)

 (TONHO)

- FICO APERREADO CUM SUA FARTA DE FÉ ZEFA, VIVE SE MARDIZENDO, BRASFEMANDO, INTÉ PARECE QUI NUM CREDITA EM DEUS!

(ZEFA)

- CREDITÁ, EU CREDITO, SÓ ACHO QUI ELE NUM LIGA PRÁ NÓIS.

(TONHO)

- DEUS AMA TODOS SEUS FIOS, SÓ QUI ELE TEM GENTE BEM MAIS PRECISADA QUI NÓIS PRA SOCORRER, ZEFA.

(ZEFA)

- TONHO DAS MULA, NUM CUNHEÇO NINGUÉM MAIS PRECISADO QUI NÓIS. 

(TONHO)

- AS MAIÓ NECESSIDADE DE UM HOMI, ZEFA, NUM É ÁGUA, NEM CUMIDA. O QUI O HOMI MAIS PRECISA É DE AMOR NO CORAÇÃO E ISSO NÓIS TEM DE SOBRA. IMAGINE O TRABAIÃO QUI DEUS DEVE DI TER CUM O CORONÉ ANTÔNIO SILVEIRA! QUARQUÉ COISA QUI NÓIS COME É SUFICIENTE PRA INCHÊ A BARRIGA. NO INTANTO, QUANTAS ARROBA DE AMOR DEUS TEM QUI MANDÁ PRA QUEBRÁ AQUELE CORAÇÃO DE PEDRA?

(ZEFA)

- Ô TONHO, ‘CÊ TEM O CORAÇÃO MUITO BOM, BOM QUI DÁ INTÉ RAIVA! A GENTE AQUI MORRENDO DE FOME E VOSMICÊ PENSANDO NAQUELE DISGRAÇADO! É PURISSO QUI NUM TEM NADA. ELE TÁ LÁ, CHEIO DE GADO, CASA CHIQUI, CUMIDA BOA E NÓIS AQUI CUM OITO FIO MORRENO DE FOME. EU QUERO MAIS É QUI ELE SE LASQUE!

(TONHO)

- QUI É QUI VOCÊ QUÉ QUI EU FAÇA, ZEFA? DIGA! DIGA, AGORA, JÁ NUM GUENTO MAIS ESSE APERREIO!

 (ZEFA)

- SEJA HOMI, TONHO! DAQUI PRA POUCO OS MININO VÃO CHEGÁ DA ROÇA, QUI É QUI ELES VÃO CUMÊ, EIN? QUI É QUI ELES VÃO CUMÊ, TONHO? QUI MARCA DI HOMI É VOSMICÊ, QUI NUM CONSEGUE NEM DÁ A CUMIDA DE SEUS FIO?

(TONHO)

- MAS NINGUÉM QUÉ MAIS UM VÉIO COMO EU PRÁ TRABAIÁ, NOSSA TERRA TÁ SECA, OS ANIMAL MORREU TUDO DE SEDE. EU NUM TENHO MEDO DI TRABAIO, SÓ NUM CONSIGO ARRANJAR O QUI FAZÊ, SÓ NUM CONSIGO ARRANJAR O QUI FAZÊ, DROGA!!!!!

(ZEFA)

- INTÃO SE ABANQUE PRA ASSISTÍ NOSSOS FIO MORRÊ DE FOME. SE EU FOSSE MAIS MOÇA, BUNITA COMO EU ERA, ISSO NUM TAVA ACONTECENO, ISSO NUM TAVA ACONTECENO!

(TONHO)

- PRUQUÊ, VOSMICÊ IA VORTAR PRA VIDA, SE VENDÊ PROS CAMINHONEIRO, IA?

(ZEFA)

- IA SIM, TIVE UM PAI IMPRESTÁVE QUI NUM CONSIGUIA BOTÁ COMIDA EM CASA, PERDI MINHA INOCÊNCIA CEDO PRA SUSTENTÁ MINHA FAMIA, FAZIA TUDO DI NOVO PRA NUM VÊ MEUS FIO MORRÊ DI FOME, FAZIA TUDO DI NOVO!! TUDO DI NOVO, TONHO!! TUDO DI NOVO!!!!

(TONHO)

- PERAÍ QUI EU DÔ UM JEITO NISSO INDA AGORA!!!!

(Sai de cena desesperado enquanto Zefa fala.)

 (ZEFA)

- PRA ONDE CÊ VAI HOMI, PRA ONDE ‘CÊ VAI?  O QUI É QUI ‘CE VAI FAZÊ? PIDI ESMOLA?!!

 (Luz de monólogo.)

(Tonho volta, sujo de sangue, sacos na mão e declama o poema “Revolução das enxadas!”.)

 

VENHO DA TERRA ONDE SE BEBE FEL,

ONDE SE MATA O MEDO NO LAÇO.

NÃO TENHO MEDO DE CANGAÇO,

NEM TEMO INFAME CORONEL.

 

MEU POVO É COBRA CORAL

PREPARANDO O BOTE,

ARRUDA QUE DISSIPA O MAL,

VACA LOUCA PROTEJENDO O GARROTE.

FACA AFIADA APONTADA AO AGRESSOR.

VAMOS, LEVANTE E LUTE! AINDA NÃO ACABOU!

HOJE VOU MATAR TODO O MEU PUDOR.

É HORA DE GUERRA! O DIA CHEGOU!

 

ORQUESTRA DE ENXADAS E FOICES

TOMANDO DE ASSALTO PALCO, PRAÇAS E RUAS,

DERRUBANDO PAREDES, INVADINDO NOITES,

FAMINTA, COMENDO SUAS CARNES CRUAS.

 

O POETA RESSURGE

ARROMBANDO JANELAS,

DERRUBANDO PORTAS.

A PALAVRA MATA.

MATA, MESMO ESTANDO MORTA!

 

NÃO BUSCAMOS REFORMAS,

QUEREMOS RECONSTRUÇÃO.

FACAS, FOICES, MACHADOS NA MÃO!

ACORDA, SERTÃO! É A REVOLUÇÃO!

(Música de fundo: Preta – Cordel do Fogo Encantado)

(Todos entram em cena e repetem a última frase do poema).

FIM

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Atualizado em: Ter 8 Nov 2011

Comentários  

#1 PauloJose 22-11-2011 14:14
FANTÁSTICO ROTEIRO! PARABÉNS.

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