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Grão Vizir

Existe um sentido para vida?


 

Personagens

Ferdinando Fraccadore Vetorazzi (criança)− aproximadamente dez anos de idade. Pele clara,olhos verdes e cabelos negros.Veste calças curtas e boné.Está sempre pensativo.É um menino  triste  e religioso.

Ferdinando Fraccadore Vetorazzi (adulto) -alto, pele clara, olhos verdes,cabelos escuros e lisos,de poucas palavras,arisco ao contato físico e demonstrações de afeto.Continua religioso apesar de dizer que não.Tem sentimento de culpa pela morte da mãe e se sente rejeitado pelo pai.Sente ciúmes da esposa e da filha.

Francesca− Mulher de estatura baixa,gorda,cerca de cinqüenta anos,cabelos castanhos com um pouco de ,grisalhos sempre preso por um coque,desleixada com a aparência.Escandalosa, superlativa,  mas submissa.

Giuseppe− cerca de cinqüenta anos. Alto, magro, careca, ignorante, agressivo, estúpido e preguiçoso.

Amparo− Mulher bonita de estatura mediana, olhos verdes, pele clara e cabelos vermelhos. Sensual, veste-se sempre com roupas coladas ao corpo e salto alto. Mulher bem resolvida e independente. Apesar das brigas com Francesca tem um bom coração.

 Pepe− Homem de mais ou menos sessenta anos, de estatura mediana, barrigudo e boina na cabeça.

Mulher desconhecida− Maltrapilha.

Catarina− Senhora com cerca de cinqüenta anos, cabelos grisalhos e fala mansa.

João –Senhor de estatura mediana, cabelos grisalhos.

Conchetta– senhora alta, forte, desleixada e incrivelmente arrogante.

Bruno –é o mesmo ator que fez Ferdinando criança. Porém é um menino feliz.

Dominice– olhos claros, cabelos cacheados da cor do mel.Tem personalidade forte.

Farmacêutico– Usa jaleco branco.

Homem desesperado– Usa camisa, calça presa aos suspensórios.

(Narrador)Jardim Marajoara (São Paulo, Brasil) 22 de setembro de 2001.

1 ato:

Cena 1

 

Uma sala escura iluminada pela chama de uma vela. É o velório de Dominice.A platéia não sabe que é um velório,pois existem pessoas de costas para platéia em torno do caixão.O ambiente tem que dar a impressão de ser uma festa de aniversário. Ouve-se barulho de chuva e vento forte.

Ferdinando toca em seu violino a música parabéns a você. As pessoas a sua volta o acompanham cantando e batendo palmas. As luzes se apagam quando a musica acaba. Uma luz ilumina apenas Ferdinando que narra a introdução de sua história.

 

Ferdinando- Eu nasci em março de 1956 numa pequena casa de pedra no ponto mais alto de uma colina verdejante. O lugar era tão alto que às vezes eu tinha a impressão de poder tocar o céu com as pontas dos dedos. Descendo a colina havia muitas casas como a minha encravada na montanha, em vielas tão estreitas que mal dava para passar um carro. O pequeno vilarejo era de uma beleza natural indescritível. Sua costa era banhada pelo Mar Jônico que desaguava no Mar Mediterrâneo. Esta era a vista que eu tinha da minha casa. O Mediterrâneo todo para abraçar. Muitas vezes, desde a minha mais tenra idade, lembro-me de ficar no quintal da minha casa, sob a sombra de um pinheiro negro, olhando para aquela imensidão azul de água. Eu passava horas admirando o lugar e pensando na vida. Eu imaginava se Deus estava atrás da linha do horizonte, ou no céu, enxergando nós, pobres mortais, como minúsculas formigas. O clima de Crotone era quente e seco mais até que outros lugares da Itália. Por isso eu estava quase sempre enfiado dentro de calças curtas de tons pastéis agarrada aos suspensórios e boina, para não rachar a cabeça com a elevada temperatura do sol.

As luzes se apagam.

Toca a introdução de nocturne opera 9 numero 2 de Chpin ao som de violino.

 

Cena 2

 

Na frente da casa do Ferdinando. Uma casa simples de pedra com uma porta e uma janela, um pinheiro negro, o céu azul e o mar mediterrâneo.

Ferdinando criança está encostado num pinheiro negro. Do alto da colina ele observa o mar Mediterrâneo. Ele permanece em silêncio por algum tempo contemplando o lugar. A seguir ele ergue as mãos para o céu como se quisesse tocá-lo. Ferdinando respira profundamente e volta a olhar fixo para o mar.Francesca grita de dentro da casa.

Francesca- Ferdinando!Cadê você seu impiastro!

Ferdinando- Aqui fora mãe!

Francesca aparece na janela.

Francesca- Vá chamar seu pai que o almoço ta quase pronto!

Ferdinando- Mas eu não sei onde o pai ta.

Francesca- Deve ta no bar do Pepe se engraçando com a vagabunda da Amparo e enchendo a cara de vinho como sempre.

Ferdinando- Mas e se ele não estiver lá?

Francesca– Se ele não estiver você procura aquela praga até achar!

Ferdinando desencosta da árvore e dá uns tapas em si próprio para tirar a poeira.

Francesca- Vai logo moleque, não faz hora!

Ferdinando- To indo.

Francesca– Diz pro seu pai  que se ele não chegar logo ficará sem almoço!

Ferdinando- Ta bom.

Ferdinando sai correndo.

Francesca- Não corra para não se arrebentar nas pedras!

Ferdinando caminha lentamente.

Francesca- Vai logo se não eu te mato peste!

Ferdinando olha fixo para mãe, sai balançando a cabeça e diz a si mesmo.

Ferdinando– Caspeta!Ela quer que eu ande devagar ou que eu corra?Minha mãe nunca se decide. E como qualquer bom italiano que se preze, ta sempre querendo matar alguém!

Ferdinando faz o sinal da cruz várias vezes.

Ferdinando –Ai, Deus. Perdão.

Francesca(gritando)-Se ele tiver com aquela prostituta você me conta!

Apagam-se as luzes.

 

Cena 3

No Bar do Pepe

Um bar com um balcão simples de madeira com uma maquina registradora antiga, algumas garrafas de bebida acomodadas em prateleiras na parede e copos sobre o balcão.Atrás desse mesmo balcão uma porta para dar a impressão de ser um acesso para a casa de Pepe que fica nos fundos do bar.Há bancos na frente do balcão e três  mesas com 4 cadeiras cada.

 

Ferdinando entra no bar correndo. Depara-se com Pepe atrás do balcão.

 

Ferdinando- Seu Pepe o senhor viu o meu pai?

Pepe caminha até a porta atrás do balcão.

Pepe– Giuseppe, seu filho está aqui procurando por você!

Giuseppe aparece com a cara mais desconfiada do mundo. Esta com a barba por fazer, com os suspensórios caídos, braguilha da calça aberta e um chapéu velho cinza de feltro estilo borsalino em nas mãos.

 

Giuseppe- Caspeta!   Mas o que foi dessa vez? 

Ferdinando- A mãe ta chamando para almoçar.

Giuseppe- Ma vá cagar! Nem deu o horário ainda. Ela quer que eu vá comer com as galinhas?

Ferdinando ri.

Giuseppe- Má do que ta rindo?

Ferdinando- Eu acho que o senhor esqueceu de fechar a braguilha quando fez xixi.

 Nesse instante, Amparo mulher bonita de seios fartos e cabelos acobreados aparece e toca o braço de Giuseppe com intimidade enquanto ele sobe o zíper da calça.

 

Amparo- O que aconteceu Giuseppe?

Giuseppe- Larâdxa! Mas ta fazendo o que aqui no bar?Não falei para esperar lá dentro porca miséria!

Amparo volta a entrar sem graça.

Ferdinando– O que a dona Amparo  tava fazendo lá dentro com o senhor?

Giuseppe- Não é da sua conta!

Ferdinando- Mas pai...A mãe falou que não quer mais ver o senhor com essa dona aí.

Giuseppe esbofeteia Ferdinando no rosto.

Giuseppe- Cazzo!  Quantas vezes vou ter que dizer para não se intrometer na minha vida!  

Ferdinando sai envergonhado do bar.

Pepe– Coitado do menino.Não precisava ser tão enérgico com ele!

Giuseppe- Este menino não passa de um maricas.

Pepe– Ele vai contar para a Francesca que você tava com a Amparo.

Giuseppe– Se ele contar acabo com a raça desse vagabundo!

Cena 4

Cozinha da casa de Ferdinando.

 

Um cômodo simples contendo uma mesa velha de madeira e quatro cadeiras.Um fogão antigo com panelas  e uma pia com louça.Sobre a mesa estão expostos três pratos,talheres,copos e travessas para dar a impressão que está sendo servido o almoço.

 

Francesca- Quantas vezes vou ter de falar que não quero mais saber de você andando com aquele biscate? 

Giuseppe-  Ma que biscate?  Ta ficando louca? 

Francesca- Louco ta ficando você!   Eu arranco seus culhões se eu descobrir que você se deitou novamente com aquela vagabunda! 

Giuseppe-Ma que?  Para de falar tanta bobagem! Isso é coisa do teu filho maricas!

 Francesca– O Ferdinando não é maricas!

Giuseppe– Ecco! Se você ta dizendo...

Francesca— Eu me mato de tanto trabalhar nessa casa,lavando,passando e fazendo comida para encher essa sua pança enquanto você me trai com aquela maledita.

Giuseppe- Você não passa de uma porca gorda!   Você deveria de boca fechada e me servir à comida!

Francesca- Não sei por que depois de tantos anos morando em Roma ela resolveu voltar pra cá. Você tem alguma coisa a ver com isso Giuseppe?

Giuseppe –Já disse pra calar tua boca. Meu ouvido não é penico.

Francesca– Claro. Viúva e sem filhos, ela resolveu voltar pra se envolver com idiotas feito você!

Francesca coloca um avental manchado de molho de tomate e começa a colocar as panelas sobre a mesa com brutalidade.

 

Francesca- Ferdinando! Vem que o almoço ta na mesa!

Francesca se acomoda numa cadeira ao lado direito de Giuseppe. Este observa tudo enquanto morde  uma fatia de pão.Ferdinando entra desconfiado e ao sentar- se na cadeira leva um violento tapa nas costas de Giuseppe.

 

Ferdinando– Ai!

Giuseppe-  Dá próxima vez que abrir essa tua boca grande você vai para o milho Capice? 

Ferdinando- Eu entendi.

Francesca-  Quantos anos têm aquela vagabunda? 

Giuseppe- Eu sei lá quantos anos ela tem? 

Francesca- Deve ter uns vinte quatro vinte cinco. Você não tem vergonha?  Um homem com quase cinqüenta anos se deitar com uma mulher dessa idade?  E que tipo de mulher se deita com um homem com as pelancas caindo feito você?

 Francesca abre a tampa da panela.

Ferdinando- Sopa de cabeça de peixe de novo?

Giuseppe dá um tapa na cabeça de Ferdinando.

Ferdinando –Ai, pai. Doeu!

Giuseppe– É pra doer mesmo! Não reclame e faça a oração antes de comer!

Ferdinando enlaça as mãos e abaixa a cabeça.

Ferdinando- Senhor... Obrigada por nossa refeição. Obrigada pelo peixe que comemos hoje que é o mesmo que comemos ontem... Antes de ontem... Antes de ontem de ontem e antes de ontem de ontem de ontem e do mês passado.

Giuseppe dá um soco no crânio de Ferdinando. Levanta-se abruptamente fazendo sua cadeira ir de encontro ao chão. Abre a porta de um armário e joga o milho no chão. Puxa Ferdinando violentamente pelo braço e o joga sobre o milho.

 

Giuseppe- Agora é meio dia. Você vai ficar aí ajoelhado até as três da tarde e não quero ouvir um pio seu.

Ferdinando não responde.

Giuseppe-Capice ?

Ferdinando- Eu entendi pai.

Giuseppe– Não é entendi pai. É entendi sim senhor!

Ferdinando- Entendi sim senhor!

Francesca– Você não pode fazer isso com o menino?

Giuseppe– Cala essa tua boca!

Giuseppe pega seu chapéu e abre a porta.

Francesca –Onde é que você vai?

Giuseppe – Não interessa.

Francesca– Vai atrás daquela vagabunda não é?

Giuseppe– Não me provoque ou te encho a cara de bordoada!

Francesca– É só para isso que você serve mesmo!

Giuseppe volta dá um tapa em Francesca e sai resmungando.

Giuseppe –Não agüento ficar por muito tempo nessa casa. Vocês dois me irritam!

Francesca se ajoelha ao lado de Ferdinando.

Francesca– Sai daí Ferdinando.

Ferdinando- Não Mãe.O pai pode voltar.

Francesca- Sai que eu to  mandando.

Ferdinando sai do milho, mas continua sentado no chão. Francesca volta para mesa e começa a chorar. Ferdinando diz para si mesmo:

 

Ferdinando –O pai devia morrer!

Logo em seguida ele faz o sinal da cruz.

Ferdinando –Deus,me perdoa por esse mal pensamento!

Francesca- Dio Cristo.Não sei ´porque esse homem é desse jeito!

Ferdinando– Mãe, não chore assim!Um dia o pai muda.

 

Cena 5

Na farmácia

Um balcão de madeira escura.Na parede um armário com portas de vidro cheio de caixas de remédios,Amparo está dentro da farmácia conversando com o farmacêutico.Francesca entra a seguir puxando  Ferdinando pela mão.

 

Francesca (provocando) –Olha só quem está aqui!

Ferdinando– Quem?

Francesca– A vagabunda que dorme com teu pai. Onde essa vaca pensa que vai desse jeito?  Para um matadouro? 

Ferdinando- Mãe, fala mais baixo.

Francesca- Falar mais baixo por quê? Isso daqui virou um bordel!   Qualquer piranha entra e sai.

O Farmacêutico que está atrás do balcão ignora Francesca e continua a atender Amparo.

Farmacêutico- Precisa de algo minha senhora? 

Francesca- O que essa aí precisa está no meio das suas pernas! 

Amparo-  Como ousa se referia a mim desta maneira? 

Francesca- E como acha que eu deveria me referia a uma vagabunda que anda por aí se deitando com homens casados? 

Farmacêutico-  Por favor, minhas senhoras... Isto aqui é uma farmácia!   Tenham compostura!  

Francesca- Deveria proibir mulheres como essa aí de andar pelas ruas misturadas com gente de bem.

Amparo- Mulheres como essa aí o quê?  Bela, você quer dizer? 

Francesca- Não, puta eu quis dizer!  

Amparo- Escuta aqui, se a senhora não é capaz de segurar o seu homem dentro de casa isso é problema seu não meu. Não tenho culpa se os homens se sentem atraídos por mim.

Francesca- Com essas tetas para fora qualquer homem se sente atraído. Você não passa de uma prostituta.

Amparo- Isso é inveja sua ciscranna velha!  Teu marido não agüenta mais esse teu cheiro de cebola roxa e esse teu corpo roliço de batata holandesa!  

Francesca- Sua bagaça! 

Amparo-É a tua mãe!

Francesca segura firme o braço de Ferdinando enquanto briga com Amparo.Ele está visivelmente envergonhado.Nesse momento toca as Quatro estações de Vivaldi ao som de violino.

 

Francesca -Mulher que só corre atrás do cazzo de homem casado é puta!   PUTA!

Amparo- Você vai ver quem é a puta sua vaca gorda!

Francesca solta o braço de Ferdinando e começa a bater em Amparo.

Ferdinando fica encostado no balcão.

Ferdinando– Para com isso mãe! 

Num determinado momento Francesca rasga a blusa de Amparo. Seus seios ficam nus, mas a platéia não vê, pois ela está de costas. Ferdinando não tira os olhos dos seios de Amparo. O farmacêutico pega uma toalha e oferece a Amparo.

 

Amparo -Sua megera!Não é a toa que teu marido vai pro Brasil!Vai viver bem longe de você!

Francesca – Do que você está falando?

Amparo– Pergunte a ele!

Francesca-Você ta mentindo!

Amparo– Pergunte ao Giuseppe se é mentira minha!

Amparo se recompõe ao sair aproxima-se se Ferdinando.

Amparo- Belo menino você tem aqui.

Amparo se abaixa na altura de Ferdinando.

Amparo (levantando o rosto de Ferdinando pelo queixo)-Você tem lindos olhos verdes garoto!Quantos anos você tem?

Ferdinando (envergonhado)- Dez.

Amparo- Tenho certeza que quando crescer se tornará um belo homem!

Amparo da um beijo sensual no rosto de Ferdinando e sai de cena.

Francesca (gritando)-  Nunca mais se aproxime do meu filho, ordinária! 

 

Cena 6

No quarto de Ferdinando.

Um cômodo pouco iluminado. Uma cama de solteiro, um criado-mudo ao lado e um guarda roupa antigo de duas portas. Uma janela com cortinas de renda branca.Ao lado uma poltrona velha com estofamento floral.

 

Ferdinando está de joelhos ao lado da cama de mãos cruzadas rezando o Credo.

Ferdinando -Creio em Deus-Pai, todo poderoso, criador do céu e da terra e em Jesus cristo seu único filho, Nosso Senhor que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria Padeceu sob Poncio Pílatos...

 

Ferdinando para a oração ao ouvir a gritaria dos pais. Ele se senta no chão e fica prestando atenção na discussão. Nesse momento ouvem-se apenas as vozes alteradas de Francesca e Ferdinando.

 

Francesca- Onde foi que você conseguiu essa mala? 

Giuseppe -O Pepe me emprestou. Fala logo o que você quer.

Francesca- Eu quero saber pra onde você vai.

Giuseppe– Porca miséria! Você já sabe que é pro o Brasil? 

Francesca- Quero saber em que cidade você vai ficar!  

Giuseppe- São Paulo. Já disse pra você não se preocupar. Depois que eu conseguir guardar uma boa quantia em dinheiro mando as passagens de navio para vocês dois.

Francesca- Mas eu quero ir agora com você!  

Giuseppe- Agora é impossível.

Francesca- Impossível por quê?  Se você pode entrar no navio como clandestino eu e o Ferdinando também podemos. Ficaremos quietos escondidos dentro de uma caixa de papelão se for preciso, mas queremos ir com você... Por favor!  

Giuseppe- Não, não e não!

Francesca- Já faz tanto tempo que você não me procura... Sinto falto do seu cheiro. Do seu corpo no meu...

Giuseppe- Eu não tenho tempo para isso agora!   Preciso terminar de arrumar essa mala!  

Francesca- Mas que tanto você tem para arrumar?  Você só tem meia dúzia de ceroulas velhas!     

Ferdinando (de joelhos ao lado da cama) -Senhor, não permita que meu pai nos abandone. Minha mãe não suportaria viver sem ele. Acho que nem eu. Prometo ser um bom filho se meu pai não for viajar.

Giuseppe entra no quarto. Ferdinando para de rezar.

Giuseppe– Cadê teu violino velho?

Ferdinando–Ta guardado pai.

Giuseppe- Então pega e toca um pouco para eu ouvir. Preciso tirar a voz da tua mãe dos meus ouvidos.

Ferdinando tira o violino do armário.

Ferdinando– O que o senhor quer ouvir?

Giuseppe– Toca aquela que eu gosto!

Ferdinando toca nocturne op.9 n˚ 2 de Chopin. Giuseppe se acomoda numa poltrona velha.

Giuseppe –Eu estava pensando em vender esse teu violino para fazer dinheirinho. Um Stradivarius deve valer alguma coisa mesmo todo arrebentado como esse seu.

Ferdinando– Pai, o senhor não pode vender meu violino. Fui eu quem o achou quebrado na praia. Lembra?

Giuseppe– Mas fui eu que concertei. Ecco?Vamos, toca e para de falar!

Ferdinando começa a tocar.As luzes se apagam.

Cena 7

Na cozinha.

 

Francesca está sentada à mesa com olhar distante. Ferdinando entra correndo segurando uma carta.

 

Ferdinando –Mãe...Mãe...

Francesca– O que foi impiastro?

Ferdinando Carta mãe...Carta!

Francesca– Do teu pai?

Ferdinando– É mãe.

Francesca- Madona da Achiropita, a senhora ouviu minhas preces!Obrigada!

Ferdinando entrega o envelope à mãe que a recebe com as mãos trêmulas. Ela olha para o envelope, cheira-o e depois o aperta contra o peito.

 

Francesca- Vamos, abra e leia para mim.

Ferdinando puxa uma cadeira e senta-se ao lado da mãe.

Francesca– Rápido menino lerdo.

Ferdinando- Calma mãe!   

 

Ferdinando – (lendo a carta)

São Paulo, 18 de agosto de 1966.

Francesca e Ferdinando,

 

Cheguei bem no Brasil. À cidade de São Paulo é muito grande e tem muito prédio. Quando cheguei aqui fiquei instalado por seis dias na Hospedaria do Imigrante no bairro da Mooca. Lá tinha comida, bebida e médico gratuito.

Agora vivo numa pensão no bairro da Bexiga perto do centro da cidade. Divido um pequeno quarto com Pedro amigo do Pepe e mais um amigo. Aqui tem muito italiano.

Trabalho numa marcenaria que fica aqui perto. Não ganho muito, mas deu para juntar alguns cruzeiros (esse é o dinheiro daqui) precisa trocar no banco por Liras.

Aqui tem muita garoa e faz frio de vez em quando.

Os brasileiros são muito amigos. Aprendi a fazer caipirinha e comer feijoada.

Ferdinando, o agora você é o chefe da casa. Cuide de tua mãe e fique com Deus.

Giuseppe Vetorazzi.

 

Francesca chora ao terminar a carta.

 

Francesca-Teu pai não nos abandonou como eu pensava.

Ferdinando– É mãe.

Francesca– Me de o dinheiro que está no envelope.

Ferdinando entrega o envelope. Francesca abre e olha as notas de cruzeiros.

Francesca– Será que isso é muito dinheiro?

Ferdinando– Não sei mãe. Tem que ver no banco.

Francesca levanta-se da cadeira. Ela agora está feliz.

Francesca- Vou guardar a carta do seu pai.

Francesca sai de cena. Ferdinando permanece na cozinha. Francesca começa a cantar.

 

“Datemi un martello.
Che cosa ne vuoi fare? 
Lo vogleu dare in testa
A chi non mi va, sì sì sì,
A quella smorfeusa
Con gli occhi dipinti
Che tutti quanti fan ballare
Lasciandomi a guardare
Che rabbia mi fa
Che rabbia mi fa...”

Baixam - se as luzes.

 

Cena 8

 Francesca está sentada a mesa descascando batatas e feições tristes. Ferdinando ainda criança está sentado ao seu lado afinando seu violino.

 

Francesca– Já faz mais de um ano que teu pai não escreve uma única linha. Será que ele nos abandonou?

Baixam – se as luzes. Ao voltar Francesca está sentada à mesa descascando batatas. Ferdinando agora um adolescente está ao seu ladoafinando seu violino.

 

Francesca– Já faz mais de cinco anos que teu pai não escreve uma única linha. Será que ele nos abandonou?

Baixam - se as luzes. Ao voltar Francesca está sentada à mesa de cabeça baixa. Ferdinando agora um homem está ao seu lado descascando batatas.

 

Francesca– Faz dez anos hoje que seu pai foi embora para o Brasil. Ele nos abandonou.

Segundo Ato

 

Cena 1

Bar do Pepe

 

Ferdinando entra no bar. Amparo está atendendo um freguês. Assim que o vê abre um sorriso largo. Ele se acomoda em uma das mesasem  seguida Amparo  junta-se a ele.

 

Amparo- Como vai o mais belo homem de Crotone.

Ferdinando- Eu vou bem dona Amparo.

Amparo- Já te pedi milhões de vezes para me chamar apenas de Amparo entendeu? 

Ferdinando- Desculpe mais uma vez Amparo. É força do hábito.

Amparo- Parece que faz questão de me lembrar que sou vinte anos mais velha que você.

Ferdinando- Mas não diga isso!   Sabe que é uma mulher ainda muito bela!  

Um homem que esta bebendo no balcão tropeça e cai. Ferdinando se levanta e o ajuda. Logo em seguida volta à mesa.

 

Amparo- Você devia ter deixado aquele bêbado onde estava.

Ferdinando- Não me custava nada ajudá-lo.

Amparo- Estou cansada desses bêbados encostados dia e noite no meu balcão. Parece que só isso me restou nessa vida.

Ferdinando- Não diga isso Amparo.

Amparo- Depois que o Pepe morreu parece que ninguém de verdade entra nesse bar. Só essas figuras decrépitas me restaram.

Ferdinando  segura as mãos de Amparo.

 Amparo- Estou pensando em vender o bar e me mudar daqui.

Ferdinando- Não diga uma coisa dessas. O que vai ser de mim se você for embora? 

Amparo- Como o que vai ser de você?  Você tem sua mãe que graças a Deus está melhor. Tem seu trabalho, a igreja, seu violino.

Ferdinando– Tenho trabalho graças a você. O seu Gregório jamais contrataria uma pessoa sem experiência para trabalhar com ele na alfaiataria.

Amparo– No entanto agora você é o melhor alfaiate da região.

Ferdinando ri amarelo.

Amparo- Estou cansada de viver nesse lugar, nessa aldeia onde todo mundo conhece todo mundo. Estou cansada dessas mulheres apontando o dedo para mim como se os maridos delas fossem uns santos. Não tenho culpa se sou uma mulher livre. Sou viúva, não tenho filhos. Que culpa tenho se me apaixono com facilidade?  Quando me envolvo com um homem casado é por amor, afinal de contas nenhum deles tinha dinheiro a começar pelo teu pai. Quero voltar para Roma. Lá sim poderei viver como quero.

Ferdinando olha Amparo com ternura e desejo. Ambos bebem muito vinho.

Amparo- Você esqueceu a caixa com o seu violino aqui na noite passada.

Ferdinando- Eu sei. Passei aqui hoje justamente para pega-lo de volta.

Amparo- Você nunca tocou para mim.

Ferdinando sorri timidamente.

Amparo- Toca para mim? 

Ferdinando – Um dia eu toco.

Amparo -  Um dia não.Agora . Vamos aproveitar que os bêbados já foram embora. Eu fecho o bar e você toca para mim.Estou muito triste e quero ouvir o som do seu violino.

Ferdinando suspira profundamente.

Baixam-se as luzes.

 

Cena 2

Casa de Amparo

 

Uma sala com uma poltrona de tecido axadrezado onde Amparo se sentará. A única luz que ilumina a sala vem de um abajur com a cúpula em pastilhas coloridas.

Ferdinando tira o paletó e enquanto afina o violino percebe timidamente que Amparo lhe devora com o olhar.

 

Amparo –Vai demorar muito?

Ferdinando olha Amparo com um sorriso tímido .

Ferdinando– Chopin. Nocturne.Ópera 9 número 2.Essa é a minha preferida e é também a preferida de meu pai.

Amparo– Pra que se lembrar do seu pai agora?

Amparo assiste fascinada o pequeno concerto e  aplaude esfuziante. Ela usa uma saia colorida na altura dos joelhos com uma generosa fenda nas laterais. A cada movimento seu, suas pernas brancas e bem torneadas saltam para fora como se estivessem  convidando ao toque.Ferdinando olha para Amparo com desejo.Num rompante ela se levanta e começa a dançar de uma maneira sensual.Ferdinando diz para si mesmo:

 

Ferdinando –Ela ta me provocando. Meu Deus eu não sou de ferro!Ela se deitava com meu pai. Ele bem que merecia que eu a possuísse. Ele me chamava de maricas! Não... Não... E minha mãe?Eu não poderia fazer isso com a minha mãe...

Amparo aproxima-se  e passa acariciar as costas de Ferdinando. Percorrendo todo seu dorso lentamente. Ela apóia-se na ponta dos pés e toca o lóbulo da orelha de Ferdinando com a boca e lhe dá um beijo sensual.

 

Amparo- Quero ser sua! 

Ferdinando(para si mesmo)– Perdoe-me minha mãe pelo que vou fazer!

Ferdinando joga seu Stradivarius no sofá puxa Amparo para junto de si e lhe beija intensamente. As luzes se apagam. Ao acender Ferdinando e Amparo estão dormindo no chão da sala. Ferdinando acorda e percebe que tudo está se movendo. Nesse momento os moveis tem que dar a impressão de estarem se movendo.

 

Ferdinando olha para os lados e diz para si mesmo– Efeito do vinho.

Ele abraça Amparo e volta a dormir. O abajur de pastilhas coloridas cai no chão.

Amparo– O que está acontecendo?

Ferdinando– É um terremoto!Precisamos sair daqui!

O casal sai de cena correndo e desesperados. Apagam-se as luzes.Ouvem-se gritos de socorro que vem do lado de fora. Os sons abafados de vidros se estilhaçando e objetos pesados caindo no chão. O casal volta à cena. Só eles são iluminados.

Amparo– Meu Deus o que é isso?

Ferdinando– É o inferno na terra.

Ouve - se o barulho da sirene do corpo de bombeiros.

Ferdinando –Meu Deus!Quantos mortos!Quanta destruição!

Amparo– Que Deus nos ajude!

Entra em cena um homem gritando desesperado.

Homem– Santo Deus!A colina veio abaixo!A colina veio abaixo!

Ferdinando– Minha mãe!Eu esqueci minha mãe!Senhor, não permita que minha mãe pague pelo pecado que cometi!Permita que ela esteja salva!

 

Cena 3

Um cemitério sombrio.

Alguns túmulos com uma cruz fincada.

Ferdinando está debruçado sobre a lápide da mãe. Amparo está ao seu lado.

Ferdinando- Deus!   Porque fizeste isso comigo?  Sempre fui seu servo mais obediente!  Porque me punir dessa maneira por causa de um deslize?  Eu sou humano!   Eu também erro!   Eu entreguei minha vida em suas mãos.  Se eu pequei porque descontar sua ira na minha santa mãe?  Não achas que ela já sofreu demais nessa vida?

Amparo– Vamos Ferdinando. Sua mãe morreu a mais de duas semanas. Você não a trará de volta plantado em sua lápide.

Ferdinando– Ele me abandonou. A culpa é toda dele!

Amparo– Ele quem?Seu pai?

Ferdinando– Não. Deus. Foi Deus quem me abandonou quando eu mais precisava dele.

Ferdinando olha para o céu. 

Ferdinando- Deus, eu não acredito mais em você!   Nego a sua existência a partir de agora. Não sou mais cristão. Nunca mais freqüentarei uma igreja e vou cometer todos os pecados que eu quiser!   De que me adiantou viver para ti uma vida inteira se no meu primeiro deslize você me pune com essa atrocidade?  Eu te renego!    Se você existe mesmo, você é um monstro, um monstro!   Eu te odeio!

Amparo– Pare com isso Ferdinando. A vida continua a seguir seu curso, como ela sempre faz. Ela nunca para que nós pobres mortais possamos lamber nossas feridas. Por isso você tem que seguir em frente.

Ferdinando (sorumbático)– Eu tocaria meu violino agora para homenagear minha mãe se  não o tivesse perdido no desabamento da sua casa.Mas até meu violino que me servia de consolo se foi.

Apagam-se as luzes.

Cena 4

Ferdinando está em uma praça sentado em um banco de madeira  lendo um livro.A biografia de Charles Darwin. Amparo aproxima-se.

 

Amparo- Como está menino? 

Ferdinando– Bem. Na medida do possível.

Amparo- O que você está lendo?

Ferdinando mostra-lhe a capa do livro.

Ferdinando- Biografia de Charles Darwin.

Amparo arreganha os olhos e balança a cabeça para cima e para baixo.

Amparo- Hum!  Você continua lendo essas bobeiras? 

Ferdinando- Não são bobeiras. É ciência.(silêncio)Eu já te falei entre as diferenças do criacionismo e do evolucionismo?

 Amparo-Sim. ”Trocentas” vezes.

Ferdinando- E você concorda com Darwin?

Amparo- Já tenho minha opinião formada.

Ferdinando- E qual é?

Amparo- Que a bíblia sagrada defende a tese do criacionismo, o tal Darwin defende a tese do evolucionismo e você a tese do “invencionismo”.

Ferdinando- Mas não estou inventando nada caspeta!   Charles Darwin realmente existiu!   Deus é que é invenção dos homens!  

Amparo- Diga bastante isso. Quem sabe um dia você acredita

Ferdinando- Mas...

Amparo— Não tem, mas, nem meio, mas. Não vim aqui para debater Charles Darwin. Vim aqui para te ver e par avisar que volto para Roma na próxima semana.

Ferdinando- Mas já?

Amparo- Não tenho mais nada para fazer aqui. Vou para a casa dos parentes do meu ex-marido. Vou ficar hospedada por lá até comprar a minha casa. O Pepe me deixou algum dinheiro quando morreu. Como era solteiro ele não tinha muito no que gastar. Tenho também a pensão do meu ex-marido. Para uma casa modesta acho que o dinheiro dá.

Ferdinando- Sorte sua. Para você não mudou muita coisa. Você já ia para lá de qualquer jeito.Amparo- Vem comigo! 

Ferdinando- Não.

Amparo- Por quê?  Não há nada que prenda você aqui.

Ferdinando- Nem lá.

Amparo–(sorrindo)Não precisa ficar com medo menino!   Não estou propondo casamento.

Ferdinando- Sei disso. Mas não quero ir pra Roma.

Amparo- Lá você terá mais oportunidades de trabalho, aqui você não tem nada. Vai passar o resto da sua vida trabalhando na sala do deu Gregório. Nem onde morar você tem mais. Sua casa foi totalmente destruída. Só sobrou o terreno. E você não tem meios para reconstruí-la. Se for esperar pela ajuda do governo você está perdido.

Ferdinando- Eu sei.

Amparo– Então? 

Ferdinando- Não quero. Tenho outros planos.

Amparo– Quais? Posso saber? 

Ferdinando- Estou pensando em ir ao Brasil.

Amparo- Fazer o quê? 

Ferdinando- Procurar meu pai.

Amparo- Aquele porco velho nem deve se lembrar mais que você existe.

Ferdinando- Mas mesmo assim. Ele é a única família que eu tenho hoje. Preciso encontrá-lo, saber por que ele nos abandonou.

Amparo- Perda de tempo. E como você pretende ir para o Brasil? 

Ferdinando- Clandestino no navio.

Amparo- E você conhece alguém que trabalha em um navio para te colocar lá dentro? 

Ferdinando- Não.

Amparo- Então meu caro, é melhor você ficar por aqui mesmo. Hoje em dia a vigilância nos portos e aeroportos não é mais branda como no passado. Você corre o risco de ser preso. Não se esqueça que seu pai tinha quem o ajudasse. Você não tem.

Ferdinando- Não. Eu preciso ir de qualquer maneira. Minha vida não faz mais sentido por aqui. Preciso ir ao encontro de respostas.

Amparo- Você passou a vida inteira em busca de respostas.

Ferdinando- Estamos nesse mundo por algum motivo. Nada é por acaso. Isso para mim ficou evidente. E eu preciso buscar essas respostas e sei que não encontrarei aqui na Itália. Meu pai fez tudo o que fez por algum motivo e eu queremos descobrir.

Ferdinando acende um cigarro.

Amparo- Quando foi que você começou a fumar? 

Ferdinando-No dia em que minha mãe morreu.

Amparo- Você acha que está certo? 

Ferdinando- Certo o quê? 

Amparo- Como com o quê?  Você começou a fumar, beber, correr atrás de vagabundas, dorme tarde, se irrita com facilidade e ainda por cima não freqüenta mais a igreja.

Ferdinando olha para o lado e diz a si mesmo;

Ferdinando- Vagabunda?  Justamente ela vem me falar de vagabundas? Que seja. Vagabunda ou não eu gosto dela.

Amparo– Você tem dinheiro para viajar?

Ferdinando– Não.

Amparo- O seu Gregório não esta te pagando? 

Ferdinando- Não no momento. Por enquanto é só casa e comida que ele pode me oferecer. As coisas estão difíceis para ele também. Eu não reclamo. Ele e sua família estão fazendo até mais do que eu merecia.

Amparo- Pare de se lamentar. Você não teve culpa de nada. Eu também não. Ninguém pode mudar o destino traçado por Deus.

Ferdinando- Não me fale mais em Deus!   Ele não existe nem nunca existiu. Se existisse à uma hora dessas deveria estar no inferno!  

Amparo- Que blasfêmia!   Tenho medo de deixá-lo aqui sozinho. Com o coração partido de jeito que está é bem capaz de cometer alguma loucura.

Ferdinando- Não vou ficar sozinho. Vou atrás do meu pai já disse. Ele precisa saber o que aconteceu aqui. Se eu tive culpa da morte da minha mãe ele também teve sua participação. E eu vou cobrar isso dele. Não vou carregar sozinho essa cruz pelo resto da minha vida.

Amparo- Você está se atormentando porque quer. Seu pai esteja onde estiver vai dar graças a Deus ao saber que sua mãe está morta.

Ferdinando -Você não precisa me dizer isso. Eu o conheço muito bem. Sei que ele nunca se importou de verdade com a gente.

Amparo- Se você já sabe disso então vem comigo para Roma!   Deixe seu pai para lá!  

Ferdinando- Larâdxa!   Já não disse que não? 

Amparo- Você está parecendo teu pai. Falou como ele. Estúpido como tal. Tome cuidado, pois você fala tanto dele e é possível que fique igual.

 Ferdinando– Isso nunca  vai acontecer! Preciso voltar para a casa do seu Gregório. Não quero me atrasar para o jantar. Só não a convido...

Amparo- Tudo bem.,sei que a esposa do seu Gregório não gosta de mim. Nenhuma das mulheres de Crotone gosta.

Ferdinando- Se as mulheres de Crotone não gostam de você os homens adoram!  

Amparo sorri  e acaricia o rosto de Ferdinando.

Amparo- Já foi o meu tempo. Não penso maisem homens. Querolevar uma vida normal de agoraem diante. Jáme meti em muitas confusões.

Ferdinando- Você continua linda. Lembro-me da primeira vez que eu a vi e a primeira vez que eu a desejei. Eu tinha dez anos.

Amparo- Já se passaram muitos anos. Eu não imaginei que você se tornaria um homem tão atraente. Você precisa botar a cabeça no lugar. Encontrar uma boa mulher e se casar.

Ferdinando- Não tenho a menor intenção de me casar agora. Meus planos são outros.

Amparo- Já sei. Você quer ir para o Brasil blá, blá, blá, blá... Já não agüento mais ouvir essa ladainha. De qualquer maneira, passe aqui  amanhã a tarde que eu quero lhe dar uma coisa antes de ir embora para Roma.

Ferdinando –O que é?

Amparo– Amanhã você ficará sabendo.

Cena 5

         Na praça.

Está escuro, pois é noite. A luz de um poste ilumina o lugar. Ferdinando está sentado no banco e Amparo aproxima--se com as mãos para trás para esconder a caixa contendo o violino que carrega consigo.

 

Amparo –Porque você não veio à tarde como tínhamos combinado?

Ferdinando –Eu me esqueci.

Amparo- Sei que não está bem meu menino. Mas tenho algo para você que acho que vai mudar o seu humor.

 Ferdinando- Acho difícil.

Amparo entrega a caixa que escondia.

Ferdinando- É um violino?

Amparo- Sim. É um violino. Mas não qualquer violino.

Ferdinando olha para Amparo sem saber o que fazer.

Amparo- Vamos menino. Abra!

Ferdinando(com a voz embargada)- Como você conseguiu recuperar meu violino?

Amparo- Encontraram sob os escombros da minha casa. Ele ficou um pouco arranhado, as cordas estavam quebradas, por isso não entreguei antes. Levei para consertar. Demorou um pouco, mas valeu a pena. Só não deu para recuperar a caixa. Ela ficou totalmente destruída. Uma viga de concreto caiu sobre ela. Essa é nova. Quer dizer... Para você ela é nova. Comprei em uma loja que vende instrumentos musicais de segunda mão.

Ferdinando- Meu violino é um verdadeiro sobrevivente de guerra.

Amparo- É também um gato. Tem sete vidas.

Ferdinando sorri.

Amparo- Espero que você se torne também um sobrevivente de guerra, e tenha sete vidas como um gato. Agora toque alguma coisa para eu ouvir.

Ferdinando- Estou um tanto destreinado.

Amparo- Deixa de fita. Você é capaz de tirar melodia até mesmo de uma vassoura.

Ferdinando– Fico imaginando que se você não tivesse se envolvido com meu pai, você e minha mãe poderiam  ter sido amigas. Você apesar de tudo é uma pessoa muito boa.

Amparo– Vamos toque!

Ferdinando- Já que irei para o Brasil, só Deus sabe quando... Vou tocar um músico de lá:Bachianas Brasileiras número cinco. Heitor Villa Lobos.

Algumas pessoas se aproximam.Quando Ferdinando termina a primeira música uma mulher se aproxima com  um bebê no colo.

 

Mulher- Você sabe tocar Ave Maria? 

Ferdinando (hesitante)- Sei. Mas essa eu não toco mais minha senhora.

Amparo- Por favor, Ferdinando, toque.

Ferdinando sussurra no ouvido de Amparo.

Ferdinando- Não me peça isso. Música sacra eu não toco mais.

Amparo- Essas pessoas estão precisando de um pouco de conforto. Também perderam tudo. Casa, família. Não custa nada. Toque por favor!  

Ferdinando respira fundo.

Ferdinando- Ave Maria de, Johann Sebastian Bach.

Ferdinando começa a tocar, a seguirapagam-se s luzes. Ao voltar às pessoas já não estão mais no palco.

Ferdinando- Preciso ir embora.

Amparo- Ainda tenho outra surpresa para você.

Ferdinando- Outra?  Qual a surpresa que você vai me dar dessa vez?

Amparo retira um envelope de dentro do decote do vestido e entrega-o a Ferdinando. 

Ferdinando- O que é isso?

Amparo– Abra.

Ao abrir Ferdinando constata que há uma boa quantia em dinheiro.

Ferdinando- O que significa isso?

Amparo- Significa sua ida ao Brasil. Aí têm dinheiro suficiente para você pagar uma passagem de avião e se manter por alguns dias no Brasil.

Ferdinando- Eu não posso aceitar isso.

Amparo- Você vai aceitar sim. É de coração.

Ferdinando- Não. Você não é rica. Precisa desse dinheiro tanto quanto eu.

Amparo- Não precisa se preocupar. Ainda me sobrou o suficiente. Não quero ir embora de Crotone sabendo que você vai se aventurar pelo mundo sem dinheiro.

Ferdinando– Eu não tenho como te pagar!

Amparo– E quem disse que eu quero?Já falei. Isso é um presente.

Ferdinando– Você não tem idéia do que essa viagem significa pra mim.

Amparo– Tenho sim. Vá atrás do teu pai. Desejo-te toda sorte deste mundo. Que Deus o abençoe e abra todos os caminhos que você tem a trilhar. E que um dia, com seu coração menos pesado e menos sofrido encontre novamente nas palavras dele o conforto que você perdeu. Só mais uma coisinha.

Amparo entrega mais um envelope a Ferdinando.

Amparo- Encontrei esse envelope por acaso nos pertences do Pepe. È uma carta do nosso amigo Pedro.Ele morava na mesma pensão que teu pai.Aí tem o endereço.Ele pode não estar mais morando lá,mas já é um começo.

Terceiro Ato.

Cena 1

Narrador -Uma pensão na Rua dos Ingleses no bairro do Bixiga.

Ferdinando entra na recepção carregando uma mala velha. Sem perceber faz o sinal da cruz. Está tocando a música Samba do Arnesto no rádio que está sobre o balcão. Ele observa o lugar. Catarina uma senhora de cabelos grisalhos ao perceber a entrada de Ferdinando abaixa o volume do rádio.

 

Catarina- Posso ajudar?

Ferdinando– Como minha senhora? Não falo português.

Catarina- Ah!   É italiano? 

Ferdinando- Sim

Catarina (falando devagar)- Não se preocupe. Sou Brasileira, mas já hospedei tantos italianos aqui, que fui obrigada a aprender um pouco do idioma. Basta você falar com calma que eu entenderei e vice-versa; Entendeu? 

Ferdinando- Entendi. Estou procurando meu pai.

Catarina- Antes de qualquer coisa, como é o seu nome rapaz? 

Ferdinando- Ferdinando.

Catarina- Ferdinando. Bonito nome. Você está procurando seu pai?  Qual o nome dele? Ferdinando- Giuseppe Vetorazzi. Ele esteve hospedado aqui há algum tempo atrás.

Catarina(surpresa) caminha até uma porta atrás do balcão.João vem aqui, por favor!

João aproxima-se.

Catarina- Esse é meu marido João.

João- O que foi? 

Catarina- Esse moço veio da Itália.  Ele disse que é filho do de Giuseppe Vetorazzi.

João (surpreso)- Mas como filho do Giuseppe?  Você tem certeza do que está falando meu rapaz? 

Ferdinando- Tenho. O senhor o conhece? 

João- Sim. Nós o conhecemos. Ele se hospedou aqui há mais ou menos uns dez anos.

Ferdinando- É esse tempo que ele saiu da Calábria.

Catarina- Você tem irmãos italianos? 

Ferdinando- Não. Sou filho único.

Catarina- E sua mãe onde ela está?  Ela não veio com você? 

Ferdinando- Minha mãe faleceu há cerca de dois meses.

João –Que Deus o proteja!

Catarina pega as mãos de Ferdinando carinhosamente, mas instintivamente ele a afasta.

Catarina- Meu pobre rapaz. Sinto muito por sua perda.

Catarina e João entreolham-se.

Catarina –Seus pais eram separados?

Ferdinando (alterado)– Não. Claro que não. Meu pai veio para o Brasil para trabalhar. Porque a senhora está perguntando isso?

Catarina– Desculpe meu rapaz, mas é que nós não sabíamos que seu pai era casado. Ele se hospedou aqui como solteiro.

Ferdinando- Não acredito!   Ele não foi capaz de uma sordidez dessas.

Catarina– E tem mais uma coisa... Ele casou-se com outra mulher.

Ferdinando– Maledito!Quem é essa mulher?E onde está meu pai?Ele ainda mora aqui?

João– Não. Ele mudou-se há anos para o bairro da Mooca.

Ferdinando– O senhor tem o endereço. Quero ir agora atrás dele.

Catarina- Calma meu filho. Você acabou de chegar. Tome um banho e coma alguma coisa. Quando descansar você vai à procura de seu pai.

Seu João sai de cena, ao voltar  aproxima-se com um copo de leite.

João- Beba. Isso lhe fará bem.

Catarina- Como seu pai teve coragem de te abandonar ainda criança?Tenho um filho mais velho que você que mora nos Estados Unidos e vivo preocupada com ele.

Ferdinando–(depois de tomar um gole do leite)O que seu filho foi fazer tão longe?

Catarina  Ele é medico neurologista e da aulas em uma universidade de lá.

Ferdinando – Ele nunca mais voltou?

Catarina– Com a vida que ele leva, fica difícil vir par cá. Eu e o João e que acabamos viajando uma vez por ano. Espero que um dia ele possa voltar.

Ferdinando– Seria bom se meu pai tivesse o mesmo conceito de família que vocês têm.

João– Acho tudo isso muito estranho. O Giuseppe que você descreve não condiz com o Giuseppe que conhecemos, apesar de se tratar da mesma pessoa.

Ferdinando– Não entendo por que o senhor está dizendo isso?

João– Você entenderá quando reencontrar seu pai.

Cena 2

No portão de uma casa

Uma casa verde clara. Tem uma porta de entrada e uma janela de veneziana verde escura. Há um muro de concreto  verde e branco e um portão de fero branco.

Ferdinando aproxima-se do portão. Faz o sinal da cruz. Ele está ansioso e tenso. Ele fica parado olhando para casa até que o menino Bruno aparece.

 

Bruno- Moço,o senhor está procurando alguém? 

Ferdinando -  Como?  Não entendi.

Bruno– Está procurando alguém?

Ferdinando- Estou procurando o Giuseppe Vetorazzi. 

Bruno– Ele é o meu pai.

Ferdinando fica surpreso e se cala.

Bruno– Moço, o senhor está bem?

Ferdinando- Sim estou. Eu quero falar com seu pai ele está?

Bruno -Não. Ele está na padaria.Ele foi comprar frango assado para o almoço.Hoje é sábado e a gente sempre come frango assado no sábado!  

Ferdinando (em pensamento)- Frango assado?  No meu tempo era  peixe de segunda a segunda.

Bruno– Mas a minha mãe está.Quer falar com ela?

Ferdinando– Quero.

Bruno– Ela ta lavando roupa.Vou chama-la.Pera aí um poco.

Bruno chama a mãe com  um grito.

Bruno- Mãe!   Tem um moço aqui querendo falar com a senhora ou com o pai!

Concheta  aparece no portão enquanto enxuga as mãos no avental.Seus cabelos estão presos num coque mal feito.Por baixo do avental ela usa um vestido florido e calça chinelos de couro com meias pretas.O portão esta aberto.A mulher é atipática.

 

Concheta- O que o senhor quer? 

Ferdinando- Estou procurando o seu Giuseppe Vetorazzi.

Concheta-Ele não está.Saiu. Quem é você?  É mais um dos amigos italianos vagabundo do meu marido? 

Ferdinando- Sou italiano sim.Mas não sou nenhum vagabundo.Meu nome é Ferdinando Fracadori Vetorazzi e sou filho dele.

Instintivamente ela tenta fechar o portão.Ferdinando Avanca o corpo de encontro ao portão de ferro para impedir que ela o feche.

 

Ferdinando –A senhora não vai bater o portão na minha cara!

Concheta– Entra Bruno!

O menino permanece no lugar.

Concheta- O que você quer com meu marido? 

Ferdinando– Resolver assuntos pendentes.

Francesca- Ele não está.Esqueça que ele existe!  

Ferdinado (em pensamento)Que vontade de lhe dar uns tapas.Mas felizmente ou infelizmente nesse caso,não puxei o genio agressivo de meu pai.

Ferdinando- Escute aqui dona.Eu vim de muito longe para falar com ele e vou falar queira a senhora ou não!  

Concheta – (sussurrando)Eu não quero escandalos aqui na minha porta.Ninguém aqui na vizinhança sabe que não sou casada com seu pai e muito menos que ele tem um filho

Ferdinando -Então deixe-me entrar.

Concheta– Bruno.Vá até a padaria e traga o seu pai.

Bruno— Tá bom mãe!  

Concheta- Vê se não corre!  Mas vá depressa!  

 

Cena 3

Na  sala de estar

Sala  pequena pintada em tons pasteis.Ha duas portas  pintadas de verde.Uma delas a porta de entrada e outra da acesso aos outros comodos.Uma cortina de renda branca cobre  janela.Tem um sofá e duas poltronas de napa marrom,uma estante com uma televisão antigaNo centro da sala ha uma pequena mesa com um vaso de flores artificiais sobre uma toalha de crochê branca.

Conheta (ríspida)- Espero que sua mãe não tenha vindo junto com você.Era só o que me faltava ter que aturar a outra aqui na minha casa!  

Ferdinando- Outra?  Pelo que me consta a outra aqui é a senhora.

 Concheta- O que você está pretendendo?  Acabar com nosso sossego?  Veio de tão longe para nos infernizar?  Seu pai tem uma outra vida,outra família.Você não tinha que estar aqui.Como conseguiu nosso endereço?

Ferdinando (para sí mesmo) -Por que será que esse diabo não morde a língua?

Nesse momento ouve-se ao fundo o som de uma válvula panela de pressão apitando.Concheta articula a boca mas não se ouve uma única palavra.Ela gesticula sem parar.

Concheta (aos gritos)– Eu vou olhar as panelas no fogo.Vê se não mexe em nada!

Ferdinando senta-se em uma poltrona.

Ferdinando (para sí mesmo)– Como será meu reencontro com meu pai?Receberei um abraço?Ele se emocionará? Se ele me pedir perdão arrependido por tudo que fez eu o perdoarei.

Ferdinando observa tudo atentamente. Uma das portas se abre.Ferdinando se levanta.Giuseppe entra com uma sacola nas mãos acompanhado de Bruno.Ele fica parado olhando para Ferdinando.

 

Giusepe –Bruno vá levar o frango para sua mãe!

Bruno– Ta pai.

Giuseppe faz um carinho no filhoBruno.

Bruno sai de cena.

 

Giuseppe- Ma o que está fazendo aqui   impiastro?   Como foi que você me encontrou?  Não me lembro de ter dado o endereço? Cadê tua mãe?  Ela veio com você para me infernizar a vida? 

 Ferdinando- Não pai.A minha mãe não veio qui comigo pelo simples fato de ela estar morta!  

Giuseppe-  Como morta? 

Cena 4

No portão da casa

Ferdinando está atravessando o portão quando Giuseppe o chama.

Giuseppe-  Não quero que você venha aqui novamente.Os vizinhos podem estranhar um rapaz por aqui.Você está na pensão do João e é melhor que continue por lá.Não quero ter problemas com a Concetta.Você já me criou  contrangimento com o Bruno que não sabia de nada.Então é melhor você cuidar da sua vida longe daqui.Sei que é dinheiro que você quer e eu não tenho.A casa é do Bruno e da Conchetta.Você não tem direito a nada.Então não perca o seu tempo.

Ferdinando– Não precisa se preocupar seu Giuseppe.Não pretendo voltar a vê-lo.Vá cuidar da sua nova família.

Bruno aparece no portão.Giuseppe segura a mão do filho e passa a mão em sua cabeça com carinho.Ferdinando vai embora.

 

Ferdinado( para sí mesmo)- Nunca me senti tão humilhado.E que ser repugnante era aquela mulherzinha com quem ele se casou? Feia e grosseira.Víbora!Eles se merecem. Me chamar de maricas novamente porque sou alfaiate?É uma profissão digna como qualquer outra.Ele ainda vai precisar de mim e eu darei o troco com a mesma moeda!E que carinho era aquele com que ele tratou seu outro filho?

Cena 5

Pensão (recepção)Ferdinando está só sentado no sofá com os cotovelos apoiados nos joelhos e mãso na cabeça.

 

Ferdinando -Por que as lembranças da minha mãe não saem da minha mente e a dor da culpa não saia do meu peito?  Por que o desprezo do meu pai ainda me abala tanto?  O que vai se de mim neste país se eu não conseguir trabalho?  Por que eu fui sair de Crotone?  Que esperança estúpida achar que encontraria meu pai e ele me estenderia a mão. Ele de certo estava mais preocupado com sua nova família do que um filho que ele abandonou na miséria.

Seu João e dona Catarina entram na sala. Seu João pousa uma de suas mãos no ombro de Ferdinando.

 

João– Estive pensando. Já que você ainda não conseguiu nenhum trabalho, porque você não abre uma alfaiataria?

Ferdinando – Para isso eu teria que ter no mínimo uma máquina de costura e um lugar para trabalhar.

Catarina– Não seja por isso. Tenho uma máquina no meu quarto, parada.

João– Quanto ao local, você pode usar a edícula que temos no fundo da casa. Conheço muita gente. Clientes não irão faltar.

Ferdinando– Não vou me fazer de orgulhoso. Eu preciso trabalhar. Aceito com muito prazer!

Quarto ato

Cena 1

 

O acender e apagar de luzes indicam a passagem do tempo.

Uma sala com uma máquina de costura, um manequim masculino e tecido diversos sobre uma mesa. Ferdinando está atrás da máquina costurando. As luzes se apagam. Ao voltar Ferdinando continua atrás da máquina, porém há uma outra máquina com outro homem atrás. Agora existem prateleiras cheias de roupa. As luzes se apagam. Ao voltar aparece uma loja sofisticada de roupas masculinas e um letreiro escritoGrão Vizir. Nesse momento entra Ferdinando  Bete e Dominice.

 

Dominice –Pai, a Fernanda me chamou pra dormir na casa dela. Posso?

Ferdinando– Dormir na casa dela por quê?Você não tem casa?

Dominice– Mas pai...

Ferdinando- Você está cansada de saber que não gosto de você enfiada na casa dos outros. Se você quer conversar com ela que seja na nossa casa.

Bete olha e balança a cabeça.

 

Dominice— Mas pai, minhas amigas sempre dormem na casa das outras amigas. Por que só eu não posso? 

Ferdinando- Por que não.

Dominice– Porque não, não é resposta. 

Ferdinando- Porque eu não gosto de você nas casa de estranhos. Eu não tive uma filha para os outros cuidarem. Você é responsabilidade minha e é debaixo do meu teto que você tem que ficar.Além do mais,você acabou de voltar de um enterro.

Dominice– Até parece que o senhor se importa. Nunca gostou da dona Conchetta. Vivia a chamando de bruxa!

Ferdinando– Agora é que você não vai mesmo!

Dominice sai de cena reclamando.

Dominice– Eu nunca posso nada!

Ferdinando volta-se para Bete.

Ferdinando-Está vendo?  É culpa sua!  

Bete- Culpa minha do quê? 

Ferdinando- Esses ataques histéricos que sua filha tem tido. Ela agora só pensa nos amigos. Só quer ficar fora de casa. Isso ela aprendeu com você.

Bete -Já vai começar?  Vou pegar Dominice e iremos pra casa. Não estou a fim de ouvir sermões.

Ferdinando- Você não está a fim de ouvir sermões ou está fugindo de mim como faz sempre? 

 Bete- Eu estaria fugindo de você a troco de quê? 

Ferdinando- Para não responder minhas perguntas.

Bete- Vai. Já percebi que se não lhe der atenção você não vai dar sossego. Então comece logo com a Inquisição Espanhola!  

Ferdinando- Não acho graça

Bete- Muito menos eu.

Ferdinando- Quem era aquele cara com quem você estava conversando durante o enterro? 

Bete- Sei lá que cara você está falando!   Conversei com tantas pessoas.

Ferdinando- Claro que conversou. Quando é que te escapa a oportunidade de falar com estranhos. Você só não fala comigo, mas com os outros você sempre tem assunto.

Bete- Eu não tenho culpa se você vive calado remoendo o teu passado. Eu gosto de viver o presente.

Ferdinando-Já percebi como você gosta de viver o presente. De preferência com pessoas estranhas como aquele homem que ta abordou no cemitério.

Bete- Deixa de ser ridículo. De que homem você está falando? 

Ferdinando- Não se faça de sonsa. Estou me referindo aquele homem de jaqueta marrom com quem você estava conversando durante o enterro. Você acha que não percebi que você olhou para trás para ver se eu estava observando? 

Bete- Não estou dizendo que você é ridículo?  Aquele homem é amigo do Bruno. Ele veio me dar os pêsames. Ele certamente teria feito o mesmo com você se você não tivesse esse maldito hábito de se esconder das pessoas. E eu olhei para trás para te dar um toque. Queria que você se aproximasse ao menos para cumprimentar as pessoas que estavam ali.

Ferdinando- Eu não me escondo de ninguém. Esse é o meu jeito. Você me conheceu assim e tem que respeitar.

Bete- Você também me conheceu alegre, cheia de vida e com vários amigos. Por que você também não respeita a minha maneira de ser? 

Ferdinando- Você é uma mulher casada.

Bete- Sou casada, mas continuo sendo um ser humano como qualquer outro. Tenho desejos, anseios, tenho fome de vida.

Ferdinando- Eu conheço muito bem esse tipo de anseios a que você se refere. Conheci mulheres com esses desejos que te consomem!  

Bete- Não me confunda com as vagabundas com quem você andou a vida inteira. Principalmente aquela piranha italiana que se deitava com pai e filho sem o menor constrangimento.

Ferdinando- Eu sabia que se te contasse isso, você iria jogar na minha cara para o resto da vida. São inerentes as mulheres esse tipo de comportamento.

Bete (irônica)- Assim como é inerente aos homens esse tipo de comportamento machista. No prato que comeu o pai come também o filho. Se é que você me entende. Depois fica aí se consumindo de remorso pela mãe. Maldizendo Deus ou o que é pior, renegando sua existência como se isso aliviasse em alguma coisa. Enfia-se naquela maldita loja maçônica todas as terças-feiras como se fosse encontrar nesse lugar as respostas para todas as suas perguntas.

Ferdinando-  Você nunca se opôs que eu freqüentasse esses lugares!  

Bete- E adiantaria alguma coisa eu me opor? 

Ferdinando acende um cigarro.

Bete- Fora aqueles livros de filosofia barata que mais complicam do que explicam. Agora para encerrar com chave de ouro, você fica para cima e para baixo com aquele livro, como é mesmo o nome?(bete fecha os olhos para se lembrar e com os dedos faz aspas imaginárias no ar)Ah!   ”Eram deuses os astronautas?” Agora eu tenho que agüentar você com essa papagaiada de que Deus era um astronauta de outro planeta e que desceu a terra para “trocar o óleo da nave espacial” e os ignorantes daqui acharam que era O DEUS DO UNIVERSO. E que tudo na Bíblia sagrada tinha uma explicação. Uma intervenção alienígena eu diria. Não é a toa que você faz tanto sucesso com suas roupas. Criatividade não lhe falta.

 Fico pensando como um homem tão bem sucedido nos negócios pode ser tão inseguro no campo emocional. Deixa-me só lhe dizer uma coisa. A sua mãe morreu porque tinha que morrer. Você não provocou aquele tremor de terra. Tão pouco foi punido porque se deitou com aquela  calabresa. Você não é tão importante assim para Deus para que ele perca seu precioso tempo com isso. E seu pai não gostava de você muito menos de sua mãe. Aceite isso de uma vez por todas. Isso é um fato!   

Ferdinando- Você esta jogando baixo. Eu não mereço isso. Eu prometi a você quando nos casamos que nunca a trataria com o mesmo desprezo com que meu pai tratou a minha mãe a vida inteira. E cumpri o prometido. Eu tenho muito amor para te dar e você não quer receber!   Logo você que um dia disse que queria morrer de amor!  

Bete -Você já me matou de amor e agora me mata com o seu ciúme!  

Ferdinando- Minha mãe daria  a vida para que meu pai fosse tão presente pra ela como sou pra você.

Bete- E eu dou a minha alma para você me deixar em paz!  

Ferdinando (incrédulo)– Você não disse isso!

Bete  - Você acha que é fácil passar a vida inteira trancada dentro de casa. Você me proibiu de trabalhar, de fazer uma faculdade de farmácia que eu tanto queria. Pensei até trabalhar ao seu lado, mas nem isso você permitiu.

Ferdinando- Você tem uma filha para cuidar.

Bete- Foi bom você tocar no assunto. Porque até sua filha você quer acorrentada aos seus pés. A menina não pode ter amigos, não pode sair de casa. O mesmo ciúme que você tem por mim você tem por ela também.

Ferdinando- Não é ciúme. É zelo. Não é porque eu fui abandonado pelo meu pai que vou fazer o mesmo com ela.

Bete- Isso não é zelo nem aqui e nem na China. Isso não passa de tirania.

Ferdinando- O quê?  Você está dizendo que sou tirano?  Justo eu que trato as pessoas com igualdade!   Pergunte aos meus funcionários como eles são tratados?  Pergunte aos meus clientes?  Não ganhei prestigio abusando da minha autoridade muito menos sendo cruel com meus funcionários.

Bete- Tenho certeza que não. A sua tirania só é revelada dentro das quatro paredes de nossa casa.

Ferdinando– Qual o seu problema?Você não gosta mais de mim é isso? 

Bete (com ternura)Eu amo você!  Mas é complicado viver com um homem que vê fantasmas em todo lugar. Pare de uma vez por todas de procurar em seu passado, desculpas para explicar o seu presente. Você sofre com isso e faz as pessoas que estão ao seu redor sofrerem também. Definitivamente você não tem culpa de nada. E queria que você parasse de se humilhar para o seu pai. Você fica implorando por migalhas. Esperando por um amor que nunca existiu. Para o seu pai filho é o Bruno e a única mulher que ele respeitou na vida repousa agora no silencio definitivo dos mortos. Você de uns anos para cá passou a ser apenas a caixa forte de um banco.

Ferdinando– Não é bem assim. Aquela maldita mulher não gostava de mim,por isso meu pai se afastou ainda mais.O Bruno também é gente boa.

Bete- Não confie muito nisso. Você não é bom quando se trata de sentimentos alheios. E também não sei por que insiste tanto em querê-los por perto. Você não sabe conviver com pessoas. Você é sozinho por vocação.

Quinto Ato

Cena 1

Um quarto. Nela há uma cama de solteiro, ao lado um criado mudo com cinzeiro e bitucas de cigarro. Ouve-se o som de violino. Ferdinando está tocando Chopin op.9. n.2. A música para. Ouve-se a voz de Ferdinando  e seu Giuseppe.

Ferdinando (aborrecido)  - Mas o que o senhor está fazendo aqui no corredor pai? 

Giuseppe- Eu vim aqui pedir para um de vocês desliga aquele peste de ar que vocês têm aqui na casa. Eu estou com muita tosse, caspeta. Será que tão querendo me matar?  Se for isso fala logo, que eu me jogo de aqui do alto e acabo com o sofrimento de vocês!  

Ferdinando-Para de fazer drama pai. O senhor não pode sair da cama. Está fraco. Poderia ter tropeçado em algum tapete e caído a qualquer momento. O senhor tem uma campainha sobre a cama justamente para tocar quando precisar de alguma coisa.

Ferdinando e Giuseppe entram no quarto. Giuseppe está com um braço apoiado no braço do filho e com a outra mão tenta segurar a calça do pijama que está caindo.Giuseppe caminha com dificuldade..

Giuseppe – (quase sussurrando)Mas eu toco, toco esta porcaria e ninguém aparece, porca miséria!    Acho que vocês são tudo gente surda!  

Ferdinando-  Já pensou se a Dominice vê o senhor com as coisas de fora?  O senhor precisa ter mais cuidado quando anda pela casa. A Dominice já é uma moça.

Giuseppe- Mas o que você queria que eu fizesse caspeta!   Essa porcaria de calça ta frouxa!  

Ferdinando- Ta frouxa porque o senhor não amarrou o cordão. Além disso, o senhor deveria estar com a fralda geriátrica. Por que tirou? 

Giuseppe- Eu não quero ficar parecendo um bambini!  

Ferdinando- Mas o senhor precisa usar. O senhor não tem mais condições de ir a toda hora ao banheiro. Já troquei seu colchão mais de três vezes em menos de dois meses. Não dá para trocar de colchão cada vez que o senhor fizer necessidades. Vou pedir para a enfermeira colocar novamente. Cadê ela? 

Giuseppe- Sei lá onde está aquela porca gorda. Deve estar na cozinha enchendo aquela pança enorme. Eu não gosto dela.

Ferdinando- O senhor não gosta de ninguém.

Giuseppe- Aquela enfermeira só pensa em me dar banho!   Acho que ela gosta de me ver pelado. “Vamo toma banho seu Giuseppe?”(voz afeminada)Qualquer hora mando ela segurar meu cazzo.

Ferdinando- Pai não começa. A dona Maria é muito boa enfermeira.

Giuseppe- Ecco. De boa ela não tem nada.

Ferdinando- Essa já é a quarta enfermeira que eu contrato para cuidar do senhor. Se o senhor espantar essa também, juro que te coloco num asilo!  

Giuseppe- Era só o que faltava mesmo. Você jogar teu pai num depósito de velho! 

Ferdinando– Assim como seu filho predileto fez?

Giuseppe se cala constrangido.

Ferdinando- O senhor deveria se envergonhar. Estamos no Brasil, não na Itália. Aqui se toma banho todos os dias. O senhor parece que gosta de ficar fedendo pelos cantos da casa!   Ninguém é obrigado a agüentar velho fedido!   Olha só esse quarto que porquice!   Nem parece que é limpo todos os dias. Que situação lamentável está esse cinzeiro. Nunca vi tantas bitucas num único lugar!   Qualquer dia o senhor bota fogo no apartamento.

Giuseppe- Você só reclama!  

Ferdinando estica o lençol e ajeita o travesseiro.

Ferdinando– Porra caralho! Esse quarto cheira a couro velho com tabaco!

Giuseppe– nhenhenhe...

Ferdinando- Vem velho malcriado  lhe ajudo a se deitar.

Giuseppe- Ma eu não quero deitar!  

Ferdinando- E o que o senhor quer?

Giuseppe- Eu quero comer uma banana.

Ferdinando- Agora?  O senhor já comeu duas na hora do almoço? 

Giuseppe— Agora vai ficar regulando as porcaria das banana? 

Ferdinando ajuda o pai a  se sentar

Ferdinando- O médico falou para o senhor diminuir o carboidrato.

Giuseppe- Médico... Médico... Esses médicos num entende de nada.

Ferdinando- Ta bom pai, eu vou lá na cozinha pegar a sua banana.

Giuseppe- Eu quero duas.

Ferdinando- Vou pegar uma só.

Ferdinando sai de cena. Volta logo em seguida com uma banana descascada e um saco plástico.A banana ele entrega ao pai que a recebe com as mãos trêmulas  e cara amarrada e o saco ele deixa sobre o criado-mudo.

Ferdinando- O que foi dessa vez?   Não era a banana que o senhor queria? 

Giuseppe – (choramingando)Quantas vezes eu tenho que falar que não gosto quando me dão banana descascada? 

Ferdinando (aborrecido)- O SENHOR VAI MANGIARE A CASCA POR ACASO? 

Giuseppe fica calado. Ferdinando pega a fruta de volta e a come com raiva. Sai contrariado para pegar outra. Volta logo em seguida com outra.

Ferdinando- Toma pai!   Essa está com a casca. Ta bom assim para o senhor?  Era isso que o senhor queria? 

Giuseppe- A outra era maior.

Ferdinando- Agora eu vou ter que andar com uma trena para cima e para baixo para medir as bananas para o senhor? 

Giuseppe não responde.

Ferdinando- Vê se come logo essa porcaria, caso contrário ela volta para fruteira.

O velho teimoso começa a descascar lentamente a banana enquanto Ferdinando esvazia o cinzeiro dentro do saco plástico. Ao notar a lentidão do pai ele se irrita.

Ferdinando- Me dá aqui essa porcaria que eu descasco. Toma. Vê se come logo e se deita. Dá um pouco de sossego.

Giuseppe come a banana lentamente.

Giuseppe- Essa porcaria suja toda a mão!  

Ferdinando- Sujou toda sua mão porque o senhor não tem cuidado!

Ferdinando pega um lenço umedecido e limpa as mãos e a boca do pai.

Ferdinando- O senhor é pior que criança!   Da próxima vez vou pedir para a empregada amassar a banana. Se quiser r vai comer no prato com uma colher.

Giuseppe- Mas ta pensando o quê?  Que sou porco para comer lavagem? 

Ferdinando- Pronto, o senhor já está limpo. Agora vê se deita e dorme um pouco. Entendeu? 

Giuseppe- Nesta casa velho só serve para dormir, caspeta!  

Ferdinando ignora as reclamações do pai e o ajuda a se deitar. O cobre com uma manta fina ao sair seu pai reclama.

Giuseppe- Este travesseiro está me importunando!

Ferdinando joga  o saco de lixo sujo com estupidez sobre o criado mudo.Ergue a cabeça do pai e o ajeita no travesseiro.

Ferdinando- Ta bom assim?

Giuseppe- Agora é.

Ferdinando está fechando a porta do quarto. Seu pai mais uma vez reclama.

Giuseppe- O ar!  

Ferdinando volta e contem o riso. Caminha até onde está o ar condicionado e o desliga. Sai com uma rapidez meteórica. Sequer olha para o pai, cujo olhar ele sente queimar na nuca.

Cena 2

Na cozinha de casa

Uma mesa com o café da manhã.

A enfermeira Maria entra apressada na cozinha.

Maria- O seu Giuseppe vai me deixar doida!  

Bete- O que foi que ele aprontou dessa vez? 

Maria-  Ele virou a tigela sem querer e caiu toda a sopa de pão com leite no carpete.

Ferdinando faz menção de levantar, mas bete o Impede segurando-o pelo braço.

Bete- Tome o seu café Ferdinando. Maria peça para a empregada limpar a sujeira, por favor.

Maria -Eu mesmo limpo dona Bete.

A enfermeira sai de cena.

Bete -Está muito difícil conviver com seu pai nesta casa.

Ferdinando não responde. O silêncio é torturante.

Dominice- Mãe, me deu o maior medo essa noite!  

Bete-O que foi que aconteceu Dominice? 

Dominice-Aquela paralisia novamente.

Ferdinando- Que paralisia? 

Bete- Há tempos sua filha tem tido uns pesadelos estranhos. Ela diz que acorda no meio da noite e não consegue mover o corpo.

Ferdinando- Como assim não consegue mover o corpo? 

Dominice- É pai. Às vezes eu me deito, fecho os olhos e de repente não consigo mais mover o corpo.

Bete- Você não consegue mover o corpo porque está dormindo Dominice.

Dominice- Mãe, eu não to dormindo quando isso acontece. Eu estou acordada, estou consciente, sei tudo o que se passa a minha volta, só não consigo abrir os olhos ou me mexer.

Bete- Claro que está dormindo filha. Isso é pesadelo. Todo mundo tem.

Ferdinando- Eu nunca tive isso.

Dominice- Mãe. Para uma pessoa ter pesadelo ela precisa estar dormindo, quando isso acontece comigo eu estou acordada!   Eu tento me mexer, mas o meu corpo parece não ouvir os comandos do cérebro!  

Bete-Ta bom filha, qualquer dia desses te levo num psicólogo para ver o que você tem.

Dominice -A senhora não está me levando a sério, mas é verdade. É muito ruim ter esse tipo de sensação. Já faz muito tempo que eu tenho isso, mas agora está piorando.

Bete -Isso deve ser cansaço filha. Você tem estudado muito e agora que resolveu trabalhar na parte da tarde na loja do seu pai. Você não tem tido tempo para descansar. Deve ser um alerta do corpo. Pode estar relacionado também com a adolescência. Seu corpo esta sofrendo transformações constantemente.

Dominice- Não é cansaço mãe.

Bete- Esta semana vou à igreja da Achiropita fazer a sua inscrição para o catecismo, já aproveito e peço para o padre  benzer você.

Ferdinando- Essa menina está precisando de um médico e não de um padre!   E que papo é esse de catecismo? 

Bete- A Dominice vai fazer o catecismo.

Ferdinando- Você já me obrigou a batizá-la e agora vem com esse negócio de catecismo? 

Bete-Você fez não fez?

Ferdinando-Fiz e não acrescentou nada na minha vida. Hoje enxergo as coisas por outro ângulo.A única coisa de bom que a igreja me deu foram as alas de violino,mais nada.

Bete- Quem sabe o dia em que eu não pegar mais você fazendo o sinal da cruz eu acredite em suas palavras. Enquanto isso não acontecer ela vai fazer o catecismo como eu e você fizemos. E não se esqueça que foi a dona Catarina que fez questão que ela fosse batizada porque ela e o seu João queriam ser os padrinhos.

Ferdinando- Aquilo foi uma conspiração entre você a dona Catarina e o seu João. Estão todos mancomunados na intenção de me converter novamente ao catolicismo. Sinto decepcioná-los, mas aviso que isso é perda de tempo.

Dominice- Pai, eu posso fazer um baile de debutante no meu aniversário de quinze anos?

Ferdinando- Como assim, baile de debutante? 

Dominice- Ah pai. Vai me dizer que o senhor não sabe o que é um baile de debutante? 

Ferdinando- Claro que sei o que é um baile de debutante, eu quero saber para quê você quer um baile. Não pode comemorar seu aniversário com um bolinho como tem feito todos os anos? 

Dominice-Se liga pai. Todas as minhas amigas fazem baile quando completam quinze anos.

Ferdinando-Pensei que isso tivesse caído em desuso.

Dominice- Me causa espanto o senhor que é uma pessoa ligada à moda não saber dessas coisas.

Bete- Você não conhece seu pai Dominice?  Com certeza ele não quer que você faça festa. Imagina se ele vai querer estar num lugar cheio de gente?  Ele quase não comparece aos eventos de moda, quem dirá um baile de debutantes. É bem provável que ele prefira comemorar seu aniversário dentro do quarto do seu avô.

Ferdinando- Já vai começar Bete?  .

Ferdinando- O que você vai precisar para esse tal baile? 

Dominice- A gente precisa alugar um salão de festas e contratar um serviço de bufet. Tem salão que já tem o serviço de bufet incluso. Preciso de no mínimo dois vestidos longos de festa...

Ferdinando- Dois?

Dominice- Claro pai. O senhor não quer que eu vista o mesmo vestido à festa inteira quer?  E conto com a sua genialidade para desenhar os modelos exclusivos para mim.

Ferdinando sorri.

Ferdinando-Não está muito cedo para pensar nisso? 

Dominice– Claro que não. Mãe vamos pegar a lista telefônica para procurar um bufet!

Ferdinando— Calma.Eu não disse que concordava.

Bete– Ferdinando...

Ferdinando–Tudo bem eu concordo.

Dominice se levanta e vai abraçar o pai.

Dominice - Meu paizinho... Meu paizinho... Eu sabia que você iria permitir. Você é rabugento, mas nem tanto!

Cena 3

Sala de estar.

Uma sala elegante em tons pastéis.Há um aparador com castiçais e arranjo de flores.Um suntuoso sofá com poltronas,mesa de centro.

 Ferdinando anda de um lado para outro enquanto Bete sentada no sofá lê folheia uma revista.

Ferdinando –Você não deveria ter permitido que Dominice passasse a semanaem Borá. Vocêsabe que não gosto que ela fique fora do alcance de meus olhos.

Bete –Já vai começar Ferdinando?Amanhã ela está de volta.Você sabe que ela foi pra fazer companhia para a neta da dona Catarina.A Sofia quase não vem ao Brasil.A única pessoa que ela conhece é a Dominice.

Ferdinando– Não sei por que a dona Catarina e seu João foram morar tão longe!

Bete– Eles nasceram lá, esqueceu?

Ferdinando– Não Importa. Não gosto nada disso. Eles já estão velhos para tomar conta de uma criança.

Bete- A Dominice já não é mais uma criança. Não se esqueça que depois de amanhã ela completará quinze anos.

Ferdinando senta-se no sofá.

Ferdinando– Quinze anos... Minha menina já vai completar quinze anos.A propósito,como estão os preparativos para festa.

Bete– Está quase tudo pronto.

Maria a enfermeira está passando com uma bandeja nas mãos.

O telefone toca.

Bete –Atende ao telefone Maria, por favor!

Maria pousa a bandeja no aparador.

Maria- Mas como foi acontecer isso Sofia?  Quem a socorreu?  Como ela está?  Não acredito!   Santo Deus!  

Maria começa a chorar.

Bete- O que foi Maria?  Cadê minha filha?  O que  ta acontecendo? Fala Maria? 

Ferdinando toma o telefone das mãos de Maria.

Ferdinando– Alô, Sofia, me deixa falar com a Dominice; agora!   O que foi que aconteceu?  Pare de chorar se acalma e me diz o que aconteceu. O QUE FOI QUE ACONTECEU PORRA! 

Os olhos de Ferdinando enchem-se de dor.Ele desliga o telefone.

Bete –Cadê minha menina. O que foi que aconteceu?O QUE FOI QUE ACONTECEU FERDINANDO?

Ferdinando (aos prantos)– A Sofia disse que a Dominice foi tirar um cochilo no final da tarde, como ela não acordou para o jantar a dona Catarina foi chamá-la. Ela não acordou. Chamaram uma ambulância na cidade vizinha...

Bete– E aí Ferdinando, fala, o que aconteceu?

Ferdinando– Quando os médicos chegaram ela já estava sem os sinais vitais.

Bete- NÃO! MINHA FILHA NÃO!

Cena 5

Narrador -Jardim Marajoara (São Paulo, Brasil) 22 de setembro de 2001.

Cemitério de Congonhas.

Uma sala escura iluminada pela chama de uma vela. Ouve-se barulho de chuva e vento forte.

No centro do sala está o caixão de Dominice iluminado por velas,e rodeado de coroas de flores.Do lado direito há um bolo de aniversário sobre uma mesa.Sobre o bolo 15 velas cor de rosa.Todos estão chorando em volta do caixão.Seu Giuseppe esta sentado numa cadeira de rodas.

 

Bete (entre lágrimas)Ferdinando está na hora.

Ferdinando pega seu violino enquanto Bete acende as velas do bolo.Ele começa os primeiros acordes.Logo é acompanhado pelos amigos.

Todos começam a cantar.

 

Parabéns a você

Nesta data queria

Muitas felicidades

Muitos anos de vida

João –Para dominice nada!

Todos– Tudo!

João –E com é que é?

Todos –É pique...é pique...É hora é hora é hora. Ratimbum!

Dominice...Dominice...dominice.

Dois funcionários do cemitério aproxima-se do caixão com a tampa.Ferdinando debruçasse sobre o caixão e começa  rezar desesperado.

 

Ferdinando -Creio em Deus pai, todo poderoso,

criador do céu e da terra

E em Jesus cristo seu único filho...

Todos os presentes choravam comovidos.

 

Ferdinando- Deus, me perdoe porque pequei. Perdoe-me se enlameei seu santo nome. Mostre-me agora a tua força e a tua bondade!   Traga-me de volta minha filha que eu prometo servir a ti durante o resto da minha vida. Concedei-me esse milagre o Deus todo poderoso!  

Seu João pousa a mão no ombro de Ferdinando.Nesse instante  um homem desconhecido vestindo um jaleco branco se aproxima do caixão de Dominice.Ele coloca um estetoscópio no peito de Dominice.

Ferdinando- O que você está fazendo? Saia daí!   Deixe-a em paz!  

João- Não se preocupe Ferdinando. Ele é o meu filho Pedro. Ele sabe o que está fazendo.

Pedro tira um pequeno espelho do bolso e o coloca na frente do nariz de Dominice.

Pedro- Ela está viva!  

Pedro tira a menina do caixão

Pedro- Preciso levá-la com urgência até um hospital. Ela tem catalepsia!

Pedro sai de cena carregando Dominice nos braços.

Bete (desesperada)- Para onde ele a está levando? O que é catalepsia?

Bete olha pra Ferdinando.

Bete– Ele roubou nossa filha!Aquele homem roubou nossa filha!

Todos os presentes ficam atônitos.

 

Seu João puxa Ferdinando pelo braço e Ferdinando faz o mesmo com Bete e saem de cena.

Apagam-se as luzes

 

(Narrador) -Província de Crotone (Calábria) Itália 2010.

Ferdinando está com 53 anos de idade.

 

Ferdinando está sentado e encostado a sombra de um pinheiro negro. Ele olha para o horizonte. Ouve-se barulho das águas do mar batendo nas pedras.

 

 Ferdinando- “Eu nasci em março de 1956 numa pequena casa de pedra no ponto mais alto de uma colina verdejante. O lugar era tão alto que às vezes eu tinha a impressão de poder tocar o céu com as pontas dos dedos”.

A tal casa de pedra já não existe mais, nem as mesmas pessoas, nem as outras casas. Ainda assim, Crotone é um paraíso. Fico extasiado olhando para a imensidão azul de águas límpidas do Mediterrâneo. Eu ainda tenho a sensação de poder tocar o céu com a ponta dos dedos. Apesar de ser um homem maduro, ainda me sinto pequeno diante da magnitude da natureza.

Olho para o horizonte, não mais para encontrar Deus. Olho com saudade por saber que as pessoas que tanto amo estão a minha espera do outro lado do oceano. Minha querida Bete, minha adorável Dominice e os poucos amigos que fiz durante trinta anos de Brasil.

Saí de Crotone em busca de respostas e voltei sem elas. Mas isso não mais me apavora. Vivo um dia de cada vez e tento fazer isso da melhor maneira possível. Hoje não me culpo mais pela morte de minha mãe. Agora sei que a culpa não foi minha. As pessoas se cercam de culpas o tempo todo, umas entram em desespero como eu, outras levam a vida adiante e conseguem ser felizes. Nunca fui culpado também pelo desamor de meu pai. Não se pode obrigar as pessoas amar você.Ele morou comigo até sua morte em dois mil e sete quando um infarto fulminante ceifou-lhe a vida numa tarde quente de verão.

Minha querida Dominice, agora está com vinte e quatro anos. Formou-se em medicina e namora com um médico do Hospital em que trabalha. Nunca mais teve problemas com catalepsia, mas não são raras as vezes que me pego a noite entrando sorrateiro em seu quarto com um espelho nas mãos. Só fico sossegado quando aproximo o espelho de suas narinas e percebo a mancha provocada por sua respiração.

Continuo amando loucamente minha Bete. Tento agora controlar meu ciúme.As marcas do tempo começaram a aparecer assim como os quilinhos a mais.Mesmo assim ela continua linda...

Se foi um milagre o que aconteceu com Dominice?  Sinceramente eu não sei e acho que nunca saberei. Existem perguntas na vida que não tem respostas e humilde é aquele que aceita esse fato. Há certas verdades que não são para meros mortais como eu. A única coisa que eu sei é que a vida me deu uma nova oportunidade para ser feliz. E dessa vez eu agarrei com unhas e dentes. (pausa)Fiz as pazes com Deus.

Apagam-se as luzes.

Toca a música Naquela Mesa (Nelson Gonçalves)

A vida não faz sentido.

Esse texto foi registrado pela Fundação Biblioteca Nacional


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Atualizado em: Ter 3 Abr 2012

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