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“Anima e Cuore - Publicidade & Eventos Limitada”

Texto Teatral

Gênero: Tragicômico

Introdução: O texto é sobre uma agência de comunicação em franca decadência e o envelhecimento profissional dos seus funcionários; sobre o relacionamento de compaixão e amizade que o dono da agência tem por esses funcionários e a chegada de um velho amigo, que o dono da agência contrata, para reestruturar e promover a inovação na agência.

Personagens:

Giordano ( 68 anos, dono da agência )

Bruno ( 69 anos, amigo do Giordano contratado para modernizar a agência )

Ticiana ( 35 anos, filha do Giordano – Rh da agência )

Afif ( 36 anos, genro do Giordano– dir. comercial da agência )

Luca ( 38 anos, filho do Giordano- financeiro da agência )

Pires ( 62 anos, amargurado, amigo antigo do Giordano. Está sem função, já foi tudo na agência )

Carlo ( 64 anos, mentiroso, dir. de planejamento )

Marco ( 60 anos, grosseiro, produtor, ex- técnico de vôlei )

Mario ( 65 anos, bondoso, assessor de imprensa )

César ( 58 anos, medroso, atendimento, ex- cliente da agência )

Walter ( 60 anos, vaidoso, redator e dir. de criação )

Luiz ( 65 anos, melancólico, dir. de arte )

Lucia (56 anos, avoada e trafego da agência – irmã do Giordano).

Elton ( 57 anos, japonês, estrábico, revisor )

Carla ( 39 anos, deslumbrada, gostosa, sobrinha do Giordano – atendimento )

Cenários:

1º Ato – Sala do dono da Agência. Às 9.00 da manhã

2º Ato – Mesma sala, por volta das 10.30

3º Ato – Sala de projeção às 14.30

4º Ato – Sala do dono da agência às 19.00

1º Ato - Cenário: Sala do Giordano.

Uma sala típica de uma agência de propaganda no fim dos anos 70. Mesa em L, cadeira de couro confortável de espaldar alto. Na mesa lateral computador e impressora. Na mesa principal livros de gurus de autoajuda, marketing de guerra, empilhados sobre a mesa. Nas paredes prêmios emoldurados, fotos ampliadas de eventos realizados, duas cadeiras confortáveis para visita. Estante com anuários de arte, gift’s promocionais antigos, troféus, medalhas antigas, remanescentes de diplomas concedidas aos participantes dos inúmeros eventos publicitários, esportivos, empresariais, e campanhas de sucesso da carreira profissional do dono da agência. Na mesma estante algumas garrafas e copos sugerindo um pequeno bar. Janela com persiana com vista para o quintal.

São 9.30. Ao levantar o pano vê-se Giordano e sua filha Ticiana sentada à sua frente. Em sua cadeira Giordano, tem 68 anos de idade, estatura média, silhueta um pouco acima do peso. Rosto típico dos descendentes de italianos e cabelos quase todo branco. Óculos. Olhar bondoso e sincero. Roupa simples e correta, clássica.
Na aparência demonstra ainda vaidade profissional - competência como homem de criação. Talvez esconda alguma suspeita quanto ao seu desempenho profissional e a atualidade das suas ideias.

Ticiana tem 35 anos, é o xodó do pai. Casada com o Afif que juntos deram ao Giordano seu primeiro neto que ele adora. Talvez porque o outro filho não casou e, desconfia-se, que não vai casar. Ela tem rosto delicado, olhar inseguro, quase juvenil. Estatura baixa veste-se com roupa da moda, comportada, de acordo com seu corpo.

Formou-se na universidade, mas nunca trabalhou fora da agência do seu pai.

Se expressa bem, porém, de forma um tanto envergonhada, tem medo de não estar dizendo coisas inteligentes e ser desdenhada pelos outros.

Giordano ( carinhoso ): Bem Ticiana, precisamos melhorar e modernizar a nossa agência por isso te chamei. Mais tarde falaremos com os outros. Quero saber se você tem alguma ideia e quer propor. As coisas não vão bem e, como você sabe, contratamos o meu amigo Bruno pra melhorar o nosso negócio.

Ele tem boas ideias e conhece o negócio de propaganda, é um cara viajado, leu os clássicos, por sua própria conta estudou estratégia e marketing em nível MBA.

Tem visão estética e é capaz de identificar em que século uma tela foi pintada etc., é um cara moderno de aparência jovial que inspira confiança. Tem visão de futuro.

Ticiana ( seu pai é seu ídolo ): Giordano ( ela não o chamava de pai na agência) que tal você pensar numa solução como aquela que você encontrou em 1985. Aquela campanha de promoção pro Panetone, que virou um tremendo sucesso? (pega na prateleira uma peça remanescente da campanha). Os clientes adoraram, lembra? E a agência acabou saindo do sufoco daquele período, não é verdade? Não sei se soluções vindas de outros podem ser melhores que as suas. O Bruno tem a mesma idade que você...


Giordano ( contagiado pela lembrança dos sucessos passados ): Realmente foi um estouro essa campanha. Lembra o cliente eufórico me abraçando? Um tremendo resultado. Ganhou o prêmio Colunista da categoria. Ta ali na parede ( aponta pro diploma ). Aquela campanha trouxe de volta o faturamento e um pouco mais de prestígio pra nós. Bem, mas, já que contratei o meu amigo Bruno preciso ouvir as ideias dele, certo?

Ticiana: (entristecida) Depois falamos, então?

Giordano: Já, já. Estou terminando um trabalho no computador. Avisa o Bruno e venham todos aqui na minha sala, estarei esperando.

( Giordano vai para frente do computador em seguida entram todos: Bruno, Afif, Ticiana e o irmão Luca )

Off: Em back ground ouve-se trecho de musica “amigo é coisa de se guardar...”.

Bruno: ( tranquilo ) Bom dia Giordano, tudo bem?

Giordano: Tudo ótimo! ( ainda esta contagiado pelas lembranças de sucessos do passado ). E então o que você acha que podemos fazer para melhorar nosso negócio que não é tão ruim assim, não é verdade? Afinal são 30 anos de estrada, muitos sucessos...  “Não esqueça o meu presente”, lembra dessa campanha? E o evento internacional de esportes no Maracanã? Insuperável até hoje! Fora a minha vida em outras agências, prêmios, e, vou te dizer, muitas agências inauguradas na mesma época que a minha não sobreviveram. Fecharam. Mas, diga lá as suas ideias.

Bruno (circunspeto): Giordano, há cinco anos a sua agência era maior do que o seu tamanho atual. Tinha mais clientes, prestígio, faturamento... E isso deve dizer alguma coisa, não é?

A agência vem diminuindo e, se não atacarmos a causa e mudarmos o rumo, ela vai diminuir ainda mais e desaparecer. Ou vai continuar de forma melancólica.

Temos que concordar que a alma e o coração de uma agência de comunicação é o departamento de criação, certo? Os outros departamentos são o corpo. Importantes também, mas, como complemento. Todo mundo que trabalha na área de comunicação vive do seu repertório recente. E o que estamos produzindo atualmente não está sendo percebido como bom. Não deve estar causando nenhum impacto no mercado.

Sucesso passado não garante sucesso futuro. O Millor disse um dia “mais vale um sou, do que dois fui”. É uma frase que define tudo.

A sua equipe de criação esta com você há muitos anos e deve ser a responsável pela diminuição do volume de trabalho da agência. Estão na empresa há muito tempo, como é o caso de alguns dos seus criadores - o Luiz , o Pires e o Walter. E, na maioria, os funcionários estão com mais de 50... 60 anos. A agência tinha bons clientes e não tem mais. Agora, cabe a pergunta: o que está errado, que precisa ser mudado?

Giordano ( com certa amargura ): Você só falou da criação, não esta dando a devida relevância para o departamento comercial que é de suma importância...

Bruno: (refletindo) Penso e explico: Olha a Calient publicidade, uma agência que tem os melhores profissionais do mercado na área de planejamento e comercial, mesmo assim tem uma excelente equipe de criação, que, a rigor, não precisaria de vendedores. Só que se o que a Calient produz não fosse bom não adiantaria ter excelentes vendedores.

Penso que a combinação entre excelente criação e um time de vendedores competentes é essencial. Estamos entrando na era em que os bons produtos e serviços vendem por eles mesmos. São os produtos e serviços que mandam, e só precisam de um pouco de marketing, ou seja, comunicar, de forma criativa, ao seu público que eles existem e os seus benefícios. Os vendedores tradicionais como eu, por exemplo, estão perdendo validade. Foram fundamentais, não são mais. Você viu a peça “A Morte do Caixeiro Viajante” não viu? Aquela peça retrata bem o que eu estou dizendo. O fim dos vendedores a moda antiga. E olha que a peça foi escrita e encenada nos anos 40.

Agora, se você está querendo dizer que seu time de vendas não é bom, você esta certo. É um time medíocre que não é capaz de vender nem se nós tivéssemos uma boa criação.

A propósito, você leu o livro “Empresas Feitas para Vencer”? Resumindo: Pessoas certas no lugar certo em numero suficiente; Não se consegue o certo de pessoas erradas; Empresas excelentes não mexem mais que outras, mexem melhor.

Eu tenho 69 anos, você também, e a maioria do seu time. O envelhecimento precisa ser encarado com serenidade e realismo, sem corporativismo. Se envelhecermos com bagagem intelectual suficiente e mantivermos atualidade, contemporaneidade, podemos muito bem, atuar na retaguarda dos negócios. Conduzindo. Nunca em áreas em que são necessários jovens bem formados, atrevidos, irreverentes, que propõe o inesperado.

Isso é o que todos os clientes esperam atualmente. Eles querem ser surpreendidos com trabalhos diferenciados. Precisam garantir seus próprios empregos. Foi-se o tempo que os clientes favoreciam os amigos sem talento, por amizade. Em comunicação trabalha-se com o novo. E nós já fomos o novo um dia.

O maior vendedor de uma agência de comunicação são as peças produzidas por ela – anúncios, filmes, eventos, material promocional etc. Falam ao mercado por si só, certo?

Giordano ( melancólico ): Acontece que esse é o meu time. Estão velhos, mas são bons. O que eles vão fazer se saírem daqui? Como vão sobreviver?

Bruno ( comovido com as palavras do amigo ): Entendo a sua preocupação e a amizade que você tem pelos seus funcionários. Essa é a parte mais difícil da modernização/reestruturação.

Demitir pessoas, às vezes queridas é doloroso. Porém, se a agência não mudar não vai obter resultado diferente. Então, temos que resolver de outra forma. Apenas uma sugestão: Que tal evitar o critério de competência e admitir que todos somos responsáveis pelos péssimos resultados?

A família: Certo. E qual é a proposta?

Bruno: Vamos nos reunir com todos e escolher, de alguma forma, quem tem como continuar vivendo fora da agência.

Afinal todos eles tem filhos e filhas crescidos, genros, noras, cunhados, cunhadas que trabalham. Alguns possuem casa própria, aposentadoria... Quem sabe não conseguimos resolver de forma indolor.

Giordano (pensativo): Reúnam todos os funcionários na sala de projeção e vamos ver o que eles acham. Vamos para a sala de projeção.

Em back ground ouve-se trecho da música “O Antonico, vou lhe pedir um favor que só depende da sua boa vontade...”

Fim do primeiro ato.

2º Ato – Cenário: Sala de projeção do tipo cinema.

Sala ampla e confortável. Paredes com revestimento de tecido verde. Em fileiras poltronas tipo cinema/teatro, com encosto lateral para os braços, com aquele apoio de armar, tipo colegial.

Ar condicionado com aparelho visível, projetor instalado no teto, tela grande para projeção de filmes, DVDs ou slides. Cavalete com flip chart e púlpito de madeira. Nas paredes dois quadros pintados e doados pelo Luis – diretor de arte da empresa e velho amigo, 65 anos: uma tela com paisagem de praia e coqueiro, a outra com uma natureza morta de uma fatia de melancia. São pinturas apenas, não arte.

São 10.30. Ao levantar o pano de fundo vê-se a sala de projeção vazia. Em seguida entram e vão sentando, Giordano, Bruno (fica em pé), Ticiana, Afif – o genro (Afif estatura baixa, silhueta arredondada, óculos aro de aço oval, terno e gravata, olhar circunvago e esperto...) e o filho Luca (tímido).

Giordano (sentado, tentando manter a serenidade): Relembrando: todos já sabemos do nosso propósito de fazer uma modernização na agência e um downsizing de pessoal, certo? As coisas não vão bem e precisamos mudar. E como diz o Bruno, é preciso mudar para obter um resultado diferente.

Afif, você quer fazer alguma consideração ou proposta de um caminho novo para a agência seguir em frente, diferente desse que estamos propondo para o futuro próximo, antes que os funcionários entrem?
Afif (calhorda): Bem eu já venho dizendo há muito tempo que as coisas não iam bem.

Giordano: (meio bravo) Isso todo mundo sabia. E o que você fez? Propôs alguma coisa inteligente? Bem, não é hora de acusações, estamos tratando agora de futuro. Não é hora de passado. O que você propõe?

Afif (espertamente): Prefiro ouvir o pessoal primeiro.

Giordano (cínico): Eu já sabia. E você Ticiana? Filho?

Ticiana: Confio no que você decidir.

Luca (38 anos, alto, magro, bem apessoado, bonito, economista, introspectivo): Eu também.

Giordano (sem demonstrar surpresa com as opiniões da família): Bem, o Bruno propôs uma saída que eu acho sensata. Vamos ver o que todos acham.

Afif: (em cima do muro): Giordano desculpe não ter falado antes, quando você me perguntou, mas isso é um contra senso. Como é que o Bruno quer modernizar a agência e ao mesmo tempo não ficar com os melhores?

Ticiana: (pra dar importância ao marido): Também acho.

Filho ( sem opinião ): Concordo com a Ticiana.

Bruno ( incomodado com o retrocesso ): Achei que vocês fossem mais realistas. Uma agência que está encolhendo, do ponto de vista de negócios, não tem os melhores. Essa é uma dura realidade. E se não for admitida por todos e pelo Giordano, principalmente, vocês terão que propor algo melhor. Vejam bem: A criação não tem conseguido aprovar as poucas solicitações que aparecem; O departamento comercial alega que o prestígio da agência vem diminuindo o que dificulta as prospecções de nível apenas razoável no mercado; A produção trabalha com conceitos antigos para materiais promocionais, e não esta atualizada para reconhecer.

Giordano ( incomodado em admitir a verdade ): Ainda não estou seguro.

Vamos ouvir cada um e decidir. São pessoas amigas e precisam continuar vivendo. Concordam?

Todos: Ok!

Afif: ( maldoso ): Não sei não... Você também entra nessa história, Bruno?

Bruno ( tranquilo ): Se assim o Giordano desejar, porque não.
Giordano ( indignado ): Porra, Afif! Se eu contrato o cara para modernizar a empresa como você o quer incluir entre os que vão embora. Merda na cabeça é isso que você tem. Raciocina, cacete! Por isso que essa empresa não vai pra frente.

( olhando para a plateia) E pensar que eu vou deixar a empresa pra esses incompetentes. Madonna mia!

Ticiana ( se enlaçando no braço do marido ): Pôcha, Giordano, não exagera, foi só uma pergunta.

Afif ( recuando ): Falha nossaaaaa!

Luca ( inseguro ): E se nós...

Giordano ( achando que pela 1º vez o filho dirá alguma coisa ): Fala filho!

Luca ( envergonhado ): Não é nada não.

Giordano ( Faz uma cara de... não to dizendo? )

Fim do segundo Ato: Em back ground entra trecho de música “Salve...como é que vai...amigo há quanto tempo...”

3º Ato – A mesma sala de projeção

Abrem-se as cortinas. Luzes apagadas. Fade in da iluminação.

Estão todos na sala de projeção. Todos sentados exceto Giordano e Bruno.

Giordano (em pé, constrangido ): Fala você Bruno.

Bruno (em pé, para todos): Pessoal, diante da constatação de que somos todos responsáveis pelo desempenho pífio que a agência vem alcançando nos últimos anos, decidimos propor essa reunião geral para escolher os que serão desligados segundo a seguinte proposta: não vamos usar o critério de competência individual para resolvermos a reestruturação e enxugarmos a agencia.Vamos verificar quem tem condições de continuar sobrevivendo fora da agência.

Murmúrios: Chiii... Aí tem coisa... Eu já sabia... Num ti falei... Lá vem o passaralho... Justo agora que eu comprei a máquina de fazê macarrão...

César ( levanta dirigindo-se ao Giordano): Num tou me sentindo bem, posso tomar um pouco de água com açúcar?

Marco (levanta e diz pro César ): Fica aí, deixa de ser cagão!

Mario ( pro Marco. Acusando, meio de mentirinha ): Ta vendo, não faz  bosta nenhuma o dia inteiro e na hora do péga-pa-capá quer sair à francesa...Viteloni!

Carla ( fútil ): To com vontade de fazer xixi.

Pires (grosseiramente): Guenta aí Carla, não inventa, não vai querer mijar agora, né?

Walter ( se fazendo de desligado ): Meu, vamos se acalmar que ta tudo bem. A empresa vai muito bem, obrigado. Parece que vocês não conhecem a habilidade do Giordano. Ele sai dessa fácil, seus tontos.

Carlo ( alfinetando ): Vai bem o cazzo! Esses nêgo da criação vivem no mundo da lua. Criam umas bobagens e nem percebem que a empresa está indo pro brejo... Ma me fá um piacere!

Walter (tentando contemporizar a discussão): Carlo vê se não escacha, ta?

Carla (gozando): Escacha... Que palavra é essa? Escacha? Nunca ouvi falar...

Afif ( demonstrado conhecimento ): Escacha é esculacha, sua tonta. Bem se vê que é uma patricinha!

Luiz ( defendendo a criação se dirigindo ao Carlo ): Dê algum exemplo de alguma bobagem que nós fizemos. Você foi contratado como o grande planejador pra tirar a gente do buraco, certo? E o que você planejou de relevante pra alavancar os negócios da agência? Aquele projeto do Simpósio de não sei o que. No que deu? Nada!

Carlo ( meio sem jeito ): O simpósio de esportes deu visibilidade pra agência. E vocês da criação? Pessoal, lembram daquela campanha criada para a Cosmética, aquele layout da bocona? Puta coisa mais cafona!

Lucia ( ponderando ): O simpósio deu visibilidade na mídia nanica, que ninguém vê? Isso não traz negócios. Agora a campanha da bocona que coisa mais feia, hein pessoal? Porco cane!

Todos: Ridícula!

Carla (meio putona): Cara, fui lá... o cara meu... deu um tremendo esculacho. Fui lá apresentar a campanha. O cara viu os lay out das duas ideias da campanha da bocona. Tipo assim, na boa... não gostou. Falei que as ideias eram boas do jeito que ocês me mandaram. Não adiantou. Embaçou e não teve jeito. Disse que ainda se fosse a bocona da Angelina Jolie...

Todos: Risos.

César ( desligadão ): Carla, afinal quem é o cara?

Carla ( pra todos ): O diretor de marketing da Cosmética, meu! Parece que nem sei.

Luiz ( envergonhado por ter criado a arte da bocona ): Nem vocês nem os clientes entendem de arte. Aquilo é Pop Art. Soliti ignoti, é isso que vocês são.

Elton ( encabulado ): A campanha não foi aprovada por problema de preço.

Marcos (gozando): Japonês, revisor não dá palpite!

Afif ( todo prosa ): A ideia quando é genial não tem preço. Pode ser mais cara que os caras pagam.

Pires ( sarcástico ): De vez em quando esse merda fala alguma coisa que presta, bicho!

Afif ( faz sinal de cornuto à italiana pro Pires )

Giordano ( acostumado com as artimanhas dos amigos fala olhando para a plateia ): Não parece L’ Armata Brancaleone? ( rindo ) Lembram do filme do Mario Monicelli? O pior é que o Brancaleone... sonno io.

 ( volta pra cena ainda rindo ). Fala Bruno.

Bruno (desestimulado): Bem, como todos tão carecas de saber a agência vai mal, está diminuindo e precisamos enxugar. Como achamos, eu e a família, que ninguém é culpado sozinho, resolvemos cortar os que têm como sobreviver fora da agência. Repetindo: Não vamos usar o critério da competência individual.
Ticiana ( Assumindo o posto de RH ): Fica na agência o pessoal dos serviços gerais. Silva, Lia, Ronaldo, etc. Bom, vou começar pelo Pires. Você está em boa situação, não está?

Enquanto os personagens vão falando o Giordano estará de frente para a plateia, na beira do palco, e reage com gestos engraçados, “Alla italiana“, aos argumentos de cada um. Como quem já conhece o que vão dizer.

Pires ( sujeito amargurado  ): To nada. Que é, depois de 20 anos ralando e aturando esse bando de incompetente agora querem me mandar embora? Meu, estou com o Giordano há 20 anos. Comi o pão que o diabo amassou. Fiz gato e sapato em momentos que não tínhamos dinheiro pra nada. As fases mais difíceis da sua vida profissional ( olha e aponta pro Giordano) eu estava ao seu lado. Amparando, estimulando, não o deixando desanimar. ( pros outros ) Produzi com ele inúmeros eventos de sucesso. Agora querem me mandar embora?

Não me incomodo de ir embora, ( baixando a bola ) o problema é aguentar aquele cunhado que esta em casa sem fazer nada. Vocês não conhecem aquele bidone. Nunca trabalhou na vida e vive encostado na minha casa. Minha mulher diz que o irmãozinho, tem 45 anos o malledetto, é um artista e que não é compreendido pela sociedade. Comida, roupa lavada e passada, dinheiro pro vinho e pro cigarro. Cursos ele já fez todos. Eu que paguei. Má lavorare que é bom...niente! Vagabundo! Bufone! E com esse meu gênio ( amargurado ) não vou arrumar merda nenhuma em lugar nenhum.

Vocês que sabem!

A propósito, ( empurrando o problema ) o Walter que é um redator conhecido no mercado deve ter lugar em alguma agência, vocês não acham?

Walter ( realista, mas na defesa ): Agora eu sou um redator conhecido. Nel culo!  Com esse bando de cabeludos aonde vou arrumar espaço no mercado? Com esse meu texto? Com essas ideias que vocês acham uma merda?

Não consigo criar essas bobagens que a molecada cria. Sou pela criação consistente, pertinente, que os bostas dos clientes não querem mais.

O que fazer se os consumidores estão cada vez mais fúteis e banais? A educação no país foi ficando cada ano pior e o povo cada vez mais fácil de enganar. Entram em qualquer truquezinho de comunicação. Compram até merda em lata. Vejam com que facilidade os políticos enganam esse povinho molenga. E os bispos da vida enriquecendo com o conto do dízimo? Distorcem o que está escrito na Bíblia e esses ignorantes, que não tem nem o que comer, enche a pança desses pregadores da salvação eterna. Da vida após a morte. Como se estivessem no tempo dos Faraós.

Pires ( não engolindo as desculpas ): Como então você justifica que o Oliviero, o Prieza, o Robertinho, que tem a mesma idade que você, continuam fazendo coisas brilhantes?

Walter (recuando ): Esquece! O negócio é o seguinte: meu problema é que meus filhos são adolescentes e não vão entender o pai herói desempregado. Eles ficaram com a imagem do pai publicitário dos bons tempos, do artista que eu mesmo criei pra eles e pra mim. A culpa é minha. Bela robba o que eu fiz! Sinto muito, ( melancolicamente ) não me deixem ir.

Afif ( agregado e pouco se lixando com os dramas pessoais dos outros): O Marco ta numa boa. Vocês viram o capote dele, digo, o Overcoat Inglês que ele usa?

Marco ( medroso e envergonhado vestindo um capote): Eu sabia que vocês iam falar no cazzo do capote. Minha mulher que inventou esse capote. Não gosto, mas tenho que usar na marra. E o pior, descobri que ela comprou numa loja de seminovos. E ainda ta pagando o cazzo do sobretudo, aquela víbora. Paisá! Ela vive de aparência. Joga pra vizinhança. Quer que eu pose de executivo. Quer copiar a irmã Veneranda que casou com um cara rico. A Veneranda é um tipo “attrice di cinema”, que por ser belíssima “Che non finiche mai” casou com um mané rico, entendeu? Elas, as duas, esquecem do cortiço da Barra Funda de onde vieram. Se eu não tivesse meus filhos já tinha ido embora de casa. E a porta da geladeira ta caindo. Vazamento no banheiro e na cozinha. Não posso ir embora. Se ainda fosse ao tempo da Girelli. Técnico de Vôlei, carteira assinada, FGTS, assistência médica, carro novo, apartamento novo. Um puta vidão! Aí, os caras acabam com o time. Demizzione generale, capice? ( agora cagão) Se não fosse o Giordano, esse coração de ouro, não sei o que seria de mim. Ah! Ainda mais, o apartamento ainda tou pagando e as prestações estão atrasadas, se querem saber.

Se eu ficar desempregado minha mulher me fulmina. ( tirando o corpo fora) Ah! O único que tem casa própria quitada aqui é o César... filha única... bem casada. Andiamo benne, non’é, Cezare!

César ( meio abalado com a situação ): Eu? Filha bem casada com um impiastro que não para em emprego nenhum e eu tenho que sustentar ele, minha filha e os meus 4 netos? O figlio di una putana só quer comer a minha filha. Eu falei pra ela que o cara era um bosta, mas ela não me ouviu. Como esse stronzo era vendedor de carro, o pezzo di merda, aparecia la no bairro da Mooca cada dia com um carrão, que não era dele. Quando ele veio com um Mustang cor de sangue minha filha não resistiu e caiu no conto do riquinho. Quando descobrimos que os carros eram da loja de carros que ele trabalhava, e que não tinha aonde cair morto, já era tarde demais. A Ninnela, minha filha, aspetava um bambino ( faz o gesto da barriga de grávida). Qualquer dia eu sparo aquele deficienti. Troco minha vida pela de qualquer um aqui da Anima e Cuore Propaganda.

Giordano ( olhando pra ele e cobrando um socorro ) lembra quando eu estava na Racional e te dei a conta de promoção? Eu tava podendo. Gerente de marketing prestigiado com os sucessos das promoções que fizemos. Lembra os rinques de luta (faz movimentos a la Rocky Balboa) que montamos pelo Brasil afora, para levantar as vendas de baterias? Energia pura! E agora não sirvo mais?

( olhando pro Bruno) Só que tem uma coisa bello, se eu me invocar não sei não se eu não sou melhor que esses merdinhas desses MBA.

Luiz ( afetado falsamente com os dramas da turma ): Se ninguém quer colaborar com o Giordano eu vou embora, tudo bem. Mas antes quero dizer que sempre dei o máximo pela Agência.

Esses quadros ( aponta os quadros na parede ) foram pintados exclusivamente para a agência e doados para dar um toque de arte na empresa. E tem mais, porque vocês acham que o lay out desses mauricinhos que estão fazendo sucesso na propaganda é melhor que o meu? Fui eu o Alex, o Giô, o José e o Francisco que inventamos a estética da propaganda brasileira, sabiam? É isso mesmo! Quando esses meninos chegaram tava tudo pronto, entenderam? E agora eles querem botar banca.

Ô bello, o buraco é mais embaixo!

Elton ( empolgado com o argumento ): Vamos arregaçar com esses mauricinhos. Tão pensando o que?

Mario ( pro Elton ): Japonês, por falar em arregaçar, e aquele sítio que você tem no Vale do Ribeira com plantação de chá. Deve dar uma boa grana. Não dá pra você viver de agricultura.

Elton ( surpreso com a lembrança ): O sítio esta à venda. O meu irmão, que tem sete filhos, é quem toca o sitio, sozinho. Meu pai vive com ele e só de remédio o velho gasta 400 paus por mês. Adoeceu depois que minha mãe morreu. Era o velho que tocava a plantação de chá.

A mulher do meu irmão, a Mitico, tem num sei o que, e passa o tempo chorando. Ninguém descobriu o que é. Por falta daquilo não deve ser, porque meu irmão não saia de cima dela. O Katashana, meu irmão, mal pode trabalhar coitado, cuidando dela e do velho.

Pra ele sair da merda meu irmão inventou de plantar maconha no sítio e está preso. Vai sair do xilindró na semana que vem porque o delegado de Iguape conhece minha família e sabe que somos gente de bem. Não sei o que fazer.

Mário ( aproveitando a desgraça do Elton ): Isso não é nada. A minha nora, aquela civeta, gasta o que não pode. E aquele banana do meu filho, cheio de dívidas, vem me morder todo mês. Ele sempre foi um banana. Ela, a civeta, se encantou com o meu filho porque ele era bonitão e filho do cara, che sonno io, que trabalhava na equipe de esportes da TV Imigrantes. Tínhamos uma bela casa na Rua Caetano Pinto no Braz que agora ta caindo aos pedaços, a casa.  Não sei não se essa bisca não esta fazendo dele um cornutto. O pai dela é um pidochio rifatto. Nunca teve nada. Agora tem uma casa no Belenzinho e age como se a casa fosse no Morumbi.

Não dá porra nenhuma pra filha porque ela casou contra a sua vontade.

Eu vou embora, na boa, mas vocês têm que contratar o salame do meu filho por 3 paus por mês. 1500 que ele ganha na oficina mecânica onde trabalha e os outros  1500 é o que eu ganho aqui, e ele me garfa todo mês.

Outro dia apareceu uma escurinha lá em casa com um filhinho no colo. Disse que era meu neto... é vero! Pior é que o escurinho tem cara de italiano, o maledetto.

César (gozando o Mario): Ta chorando miséria com essa pança. Mangia benne, né? Aliche, gorgonzola, azeite do bão, macarrão grano duro, um bel vino. Cazzo ce que mais?

Mario ( desbaratinando ); Non rompere il coglione! Agora, voltando ao assunto da agência, se nóis pega firme a gente acaba com esses MBA. O que é MBA, senão práticas consagradas, procedimentos que deram certo. E quem criou essas práticas? Nós criamos e eles se apoderam, e passam a achar que a gente não serve. Va fanculo, isso sim!

Bruno (na boa, rindo): Pera aí pessoal, não é por que essa moçada não tomou sopa de madrugada no Ceasa, não conheceu o João Sebastião Bar, na Rua Major Sertório, o Ela Cravo e Canela, na galeria Metrópole... Não leram Castanêda, Rampa, Kerouac, Steinbeck, Hesse... Não conhecem Paulo Pontes, O’Neill, Miller; na viram filme do Fellini, do Dino Risi e do Milos Forman quer dizer que eles não sabem nada.

Mário (empolgado nas lembranças): Nunca assistiram jogo do Juventus na Rua Javari, comeram pizza no Castelões, nem viram a festa do San Genaro, do San Vito no Braz, da Achiropita no Bixiga...

Todos: Risos

Pires ( voltando a por fogo na conversa ): O Carlo administra os bens da mãe e mora no Jardim Europa. Pode viver sem nós na boa, certo Carlo?

É um planejador consagrado trabalhou na Compson 18 anos. O que você me diz?

Carlo ( e agora Carlo? ): Não tem bens nenhum.

Afif ( testemunha ): Tem sim, que eu vi você contando garganta pro Bruno. Disse até que teve em uma festa no iate Cristina do Onassis na Costa Azul francesa, entre outras façanhas que não vem ao caso.

Carlo (na defesa e envergonhado com as mentiras que contou):

É tudo cascata. Minha mãe só tem uma pensão de 900 mangos que gastamos pra comer. O Apartamento é verdade é da mamãe, mas como o prédio é no Jardim Europa o condomínio é uma nota e sou eu que pago com o que eu ganho aqui. E mais luz, telefone, internet, TV a cabo, água, gás... Sabe a faculdade que eu tou fazendo?
Deram-me bolsa de estudo com pena da minha idade avançada.

O tal iate Cristina só vi em foto. Inventei essa história da festa para iludir a mim mesmo. Autoengano. Sabe o que é isso? Pergunta pro Prof. Eduardo Gianetti da Fonseca. É quando acreditamos ser aquilo que não somos. É isso. Preciso me enganar, para continuar vivendo senão entro em depressão. O sonho e as ilusões são melhores que a realidade. Essa que é a merda. Vocês são minha família. Meus filhos não querem saber de mim. Dizem que sou um perdedor. Perdedor eu, que modernizei toda a estrutura de planejamento da Compson nos 18 anos que lá estive?

Mais de uma vez, ganhei viagens para Europa como prêmio pelo meu desempenho profissional. Convites anuais para os principais eventos da propaganda brasileira... “Profissionais do Ano” da Rede Globo entre outros. Ajudei amigos caídos. Eduquei meus filhos nos melhores colégios de São Paulo. Moraram nos melhores bairros de São Paulo. E agora me evitam. Filhos de uma putana, isso é o que eles são.

Agora, ( retomando a compostura de um planejador da antiga ) o que temos que fazer aqui na agência, daqui pra frente, é parar com a preguiça e repensar a agência, e deixar de viver das glórias do passado que a gente se levanta.

Velho é o cu da mãe desses coxinhas.

Bruno (amigavelmente): Não somos o que gostaríamos de ser, já dizia o Paulinho Mosca.

Marco (desatualizado): Joga em que time esse cara?

Pires (esculachando): Não joga em lugar nenhum, seu bosta. É um cantor da nova geração. ( para a plateia) Vejam só a atualidade dos nêgo?

Pires (provocando): Giordano, não é por nada não, mas, a sua irmã Lucia não é fazendeira? E o Afif, seu querido genro, não é professor universitário?

Afif ( confessando ): Professor substituto e o salário é uma merreca. Não fosse isso eu poderia ir embora, na boa. To cansado de ser visto como o genro que deu o golpe do baú e não faz nada o dia inteiro.

Pensam que eu não sei que vocês vivem falando de mim pelas minhas costas, que eu sou preguiçoso e outros bichos? Deixa estar jacaré. Ta pra pintar uma promoção lá na universidade e, se sair, dou um pé na bunda de todo mundo.

Lucia ( desabafando ): Não tem mais fazenda desde a minha separação do meu marido. Vendemos a fazenda, investimos mal o dinheiro e perdemos tudo.

Mas, voltando à vaca fria. O nosso problema, aqui na agência é de gelosia. Ciúme, uns dos outros.

Quando pinta uma ideia que não é da gente logo vem o ciúme. Se a ideia não for nossa encontramos logo um defeito e, em seguida, quando a ideia entra na pauta da agencia não colaboramos, e fazemos corpo mole para que não dê certo. Fazemos de tudo para que a ideia do outro não tenha sucesso. Acontece, que ao fazer isso, e fazemos, diariamente, há anos, afundamos a empresa.

Poderia perguntar quem algum dia não detonou a ideia de alguém por puro ciúme? No discurso semanal do Giordano ele insiste que somos uma equipe. Só se for uma equipe de perdedores porque uma verdadeira equipe trabalha em colaboração uns com outros em busca de bons resultados. Se não acabarmos com o ciúme e a vaidade aqui na agência ela vai afundar mesmo. O Bruno tem razão.

Marco (provocando uma fofoca): Que é ta tirando linha com o Bruno, é?

César ( completando o Marco ): Ta apaixonada pelo verdugo?

Lucia (justificando): Só por que eu pedi pro Bruno ir ao meu apartamento da Praia Grande consertar a minha privada que estava vazando?

Marco (brincando): O Bruno foi à praia grande só pra consertar a correntinha do sifão da privada dela que estava vazando. Será que ele conseguiu?

Todos: Risos

Lucia ( decidida ): Eu vou embora.

Ticiana (entristecida): Vai embora pra onde tia? Desquitada, desempregada, sem profissão e sem dinheiro? Fica quieta aí!  Desculpe Giordano, mas isto aqui ta virando uma cena tragicômica. Se nós tivéssemos na frente de uma plateia ela estaria rindo da gente, ou chorando.

Fim do terceiro Ato. Em back ground ouve-se trecho da musica “Nada do que foi será do jeito que já foi um dia...”

4º Ato – Sala do Giordano– Dono da Agência.

Abrem-se as cortinas – Sala do Giordano vazia. Entram Giordano e Bruno.

Giordano ( Com as mãos no ombro da Bruno faz menção pro Bruno se sentar e vai à estante ( bar ) preparar um uísque para os dois )

Sentados e em silêncio bebem calmamente suas bebidas.

Fade out na iluminação. Ficam os dois em silêncio na penumbra.

Entra foco de luz no procênio e no centro do palco. Os personagens vão entrando e saindo do foco de luz, um de cada vez, e dizem seus textos.

- Sabem quem são esses yuppies da reestruturação, reengenharia, downsizing, smartsizing e os cambaus?

- São como esse bosta do Bruno que nós conhecemos a 20 anos, uns bon vivant.

- O cara mora num Flat no Itaim Bibi que ele diz que é o que sobrou.

- Viajou a metade do mundo, o viadinho.

- Namorou mulher em tudo que é canto.

- Catou uma artista plástica francesa em Nápoles.

- Em Paris catou de novo.

- Em Acapulco uma chinesa e uma mexicana.

- No Japão uma americana, no Hawai uma brasileira da sociedade nordestina.

- Conhece Bangcok, Hong Kong.

- Foi de requixá ao lendário Rafles Hotel em Singapura.

- Negra catou na matriz e também uma Indiana e uma Grega.

- Esteve no Cairo, Istambul, Grécia, Itália, Holanda, Inglaterra, Espanha, Portugal.

- Perambulou 40 dias de Renault Laguna do ano pela Europa; de jeans, tênis e camiseta, com o bolso cheio de dolar.

- Visitou os estúdios da Universal.

- Ouviu jazz em São Francisco.

- Ganhou uns trocos em Las Vegas.

- Jantou no La Coupoule, restaurante que era frequentado pelos caras que fizeram a revolução francesa.

- Em Amalfi um spaguetti all vongole.

- Tomou café em Sorrento e no Donei’s de Roma, onde o Fellini filmou a Dolce Vita.

- Depositou uma rosa no tumulo do Federico e da Gelsomina em Rimini.

- Em Portofino, penne ao pêsto, na mesma mesa onde comeu o John Malkovitch.

- Em Valencia uma paella na dona Papica.

- Tourada assistiu em Málaga e Barcelona.

- Assistiu a representação de um texto do Harold Pinter em Londres.

- A Ópera Carmen viu na arena de Verona e o Barbeiro de Sevilha na Allá Scala di Milano.

- Visitou os principais templos, catedrais, mesquitas, museus e galerias de arte do mundo.

- Viajou o Brasil de ponta a ponta.

- Apreciou os grandes mestres da pintura no original.

- Outro dia mandou por e-mail um poema do Baudelaire; quem conhece esse tal Baudelaire?

- Agora vem aqui pra mandar a gente embora! Que filho da puta!!

- Canalha sem coração.

Sai foco de luz do centro do palco. Fade in da iluminação na sala do Giordano.

Giordano (Levanta-se e Bruno também - aliviados): Bruno, vou te contar o que resolvi. Conheço você há muito tempo e sei dessa sua obsessão por reestruturação o que já te causou uma série de problemas profissionais. Não vou mandar ninguém embora. Cada um tem uma cruz pra carregar. Arrumaram-me esse puta monte de cruzes, o que posso fazer?

Só que é o seguinte: eu fui um dos responsáveis pela popularização do esporte no Brasil; Enchi o rabo do cliente de dinheiro; Inventei o Marketing esportivo brasileiro; Fiz o 1º passeio da primavera de bicicletas; O desafio de esportes no maracanã, lotado com 95.000 pessoas; Eventos de Verão nas praias; Isso na década de 70, ta ouvindo? Os eventos de hoje são uma repetição de ideias minha. Brilhei nas agências por onde passei. Inovei a direção de arte. “Não esqueça do meu presente” é uma campanha lembrada até hoje como uma das melhores campanhas jamais produzidas. Sou membro da Academia Brasileira de Marketing por serviços prestados a comunicação. Exijo respeito e não abro mão de estar trabalhando com quem eu quero e escolhi. Por que eu sou fodido e moro longe. Capice? Se você quiser ficar na agência, fica. Uma cruz a mais não vai fazer diferença.

Bruno (rendido ao seu coração): Giordano, quero te contar sobre esta minha obsessão por reestruturação: Começou quando eu voltei da África, onde vivi por três anos trabalhando como técnico industrial em uma multinacional Italiana. Ao voltar ao Brasil com 25 anos fui trabalhar em uma fábrica de papéis industriais no bairro de Santo Amaro aqui em São Paulo.

Os donos da fábrica e, imagino, que a maioria dos outros industriais brasileiros nunca tinham ouvido falar em racionalização de trabalho e já estávamos nos anos 70. Implantei a racionalização na fábrica e os resultados apareceram logo. E quando fui receber meu 1º mês de salário ele já veio com um aumento.

No 2º mês e 3º e 4º a mesma coisa. Aumentos seguidos. Os caras deviam achar que eu tinha a mágica, mas não era mágica nenhuma. Reestruturei a linha de fabricação deles. Coloquei as máquinas em sequência, só isso. Na multinacional italiana onde eu trabalhei, que era uma metalúrgica, essas práticas gerenciais modernas hoje, eram corriqueiras já na década de 60. O Brasil sempre foi o país do futuro que nunca chega. Talvez essa minha experiência profissional de 1º mundo, com apenas 22 anos, tenha deixado marcas profundas em mim. Daí eu estar sempre querendo reestruturar as empresas onde trabalho. E fracasso. Na Varig, meu emprego seguinte, porque eu não queria mais ser operário, foi uma decepção. Imagina uma marca como aquela, com prestígio internacional tocada por gente tão incompetente que dava pena. Eu, promotor de vendas, não precisava fazer nada. Ninguém me cobrava nada. O primeiro charter que negociamos nos anos 70, junto com a Viajes Meliá - hoteleira e operadora internacional de turismo -, para levar cardiologistas para um congresso em Viena, não tinha ninguém que sabia como processar o fretamento. Perguntei: - Porque não olhamos o manual da IATA, que é o órgão internacional que regulamenta as empresas aéreas e tem todos os procedimentos que precisamos? Foi um Abre-te-Sezamo.

A Varig só podia acabar onde acabou com a baixa qualidade daqueles diretores, gerentes e funcionários. Por onde andei me decepcionei. Com exceção da Meliá, meu emprego seguinte, onde aprendi alguma muita coisa com os espanhóis. O resto dos empregos e dos colegas de trabalho, um fiasco.

Eu não fico na agência. Vou continuar minha peregrinação.

Fade Out da iluminação. Tempo para aplausos ou vaias da plateia.

Volta foco de luz retorna ao centro do palco. Giordano e Bruno voltam a sentar na penumbra.

Carla ( entra no spot de luz e com certa euforia fala para plateia ): A peça não acabou e vocês vão ver outro final. Um final diferente desse que acabaram de assistir. Depois de assistir o 2º final pediremos os seus votos para decidir o futuro dos profissionais da Agência.

Sai foco de luz – Fade In da iluminação da sala do Giordano.

Giordano ( Levanta-se da poltrona e o Bruno também. É uma repetição da cena do final 1. Muda o texto. ): Bruno, me deixa contar o que eu resolvi. Vou dispensar a velha guarda. Vamos fazer uma reestruturação.

Contratar jovens brilhantes e criativos que entendam as novas leis da comunicação.

Que sabem usar os artifícios de uma nova sedução para comunicar e vender produtos e serviços. As coisas mudaram e temos que acompanhar para não cair fora do mercado.

Quero deixar para o meu neto uma agência moderna e competitiva. Quem sabe ele vira um publicitário brilhante como eu fui no passado? Se depender dos meus filhos e genro essa agência vai desaparecer. Você fica?

Bruno ( pensativo ): Fico.

Fade Out da iluminação da sala do Giordano.

Tempo ( Aplausos?! Vaias?! ).

Fade In da Iluminação – Volta todo elenco.

Carla: Agora, queremos que vocês votem com os braços levantados para o nosso fotografo documentar o resultado da votação.

Cena 1 – Giordano não demite ninguém ( plateia levanta os braços ).

Cena 2 – Giordano demite a velha guarda ( plateia levanta os braços ).

Fade out. da iluminação. Volta foco de luz no centro do palco

Ticiana (final demite): No final que o Giordano demitiu todos os funcionários pareceu que foi a única saída por ele encontrada. Não há como negar que o paternalismo remete ao acomodamento. E não serve como exemplo para desenvolver nenhuma empresa, cidade ou país. Ou se estimula a busca do conhecimento através do esforço pessoal, independente do estado, ou estaremos sempre na rabeira da competitividade em uma sociedade que só premia os mais competentes. O que esses profissionais da agência dizem aos seus filhos? Que podem envelhecer com pouco conhecimento profissional e intelectual? É bem possível que sim. Pensam que nada mudou no mundo. Que os empregos são ainda para toda vida. Que os empregadores são responsáveis por eles enquanto viverem, como no passado. A nossa mão de obra é reconhecida como precária pelos especialistas. Não se cria valor agregado para produtos e serviços sem mão de obra qualificada e, portanto, riqueza para ser repartida. A ignorância da população produz políticos corruptos, bispos de araque, celebridades idiotas e empregadores inescrupulosos. Os profissionais sem talento autorizam os baixos salários e empresas sem brilho.

Ticiana ( final não demite ): No final que o Giordano não demitiu seus funcionários nós vimos que a modernização, reestruturação, downsizing, smartsizing e outras formas de demissão de trabalhadores não tem sentimentos.

A sociedade moderna age sem piedade, e esquece que a piedade e a compaixão são as coisas mais nobres do ser humano.

A busca insana pelo sucesso e o lucro transforma a sociedade em um bando de lobos famintos. Sem um mínimo de humanismo. Torna-nos frios e calculistas porque é assim que a sociedade moderna funciona.

Busca o progresso como pretexto de aliviar a vida dos mais necessitados. No entanto, estamos cada vez mais atolados na tristeza e intolerância. Transforma-nos em seres humanos mesquinhos e sem alma.

Amizade, quase sempre, só por interesse. Sem interesse só se o amigo for divertido. Um palhaço. Que nos faça rir e esquecer nossas angustias e frustrações.

Essa peça é um tributo à compaixão e amizade dos Giordanos da vida.

Luzes: Voltam todos os atores para se despedirem da plateia.

FIM

Outubro de 2007

P.S – Desculpe os prováveis erros gramaticais.

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Atualizado em: Dom 21 Jul 2013

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