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SONHAR COM ATITUDE

PERSONAGENS:

01- JOÃO
02- ANJO
03- CONSCIÊNCIA 01
04- CONSCIÊNCIA 02
05- CONSCIÊNCIA 03
06- CONSCIÊNCIA 04
07- CONSCIÊNCIA 05
08- JERCINA
09- DI
10- PEDRO
11- JUREMA
12- MANÚ
13- RENITE
14- PAULÃO


Dentro de uma favela surge uma criança diferente das outras, sua missão vencer de qualquer maneira seus obstáculos e traumas, ele era diferente real ou fictício? Criador ou criatura? Esse é João cheio de mistérios em seu surgimento. Em uma cenografia abstrata formada por pneus que simboliza a busca de direcionamento de todos os personagens e objetos circulares representando o mundo em movimento João conduz sua própria estória ou história, essa é sua vida cheia de indefinições de seu ser existencial.


CENA I – A Cena da início com os personagens em forma circular simbolizando o criador do universo enviando João para o planeta terra, enquanto a voz dos personagens vão se desenvolvendo João está no centro nu de todos os vícios terrenos seu semblante passa medo, alegria e insegurança .

PERSONAGENS- Chegou tua hora, vais e conhecereis a verdade, te fiz minha imagem e semelhança, e te dou o poder de criar e recriar, em nenhum momento de tua vida pense que eu te abandonarei, estarei sempre ao teu lado, eles são minha criação e você renasceras no meio deles para mostrar-lhes o caminho, nunca pense em voltar para minha morada antes de cumprir sua missão, toda vez que fraquejares estarei eu contigo seja de que forma for, o mundo que irás habitar te dará a oportunidade de evoluir e redescobrir teu caminho assim como guiar o caminho deles também, eu os confio em tuas mãos, não fraqueje eu sou a tua direção e eles serão dirigidos por ti... dirigidos por ti... dirigidos por ti...

João delira como um louco quase não suportando a situação em que se encontra tenta suicida-se.

JOÃO- Não!!!!! Como posso acreditar? Que futuro posso ter ? O mundo que me deste é esse? Eu não tenho culpa dos atos de meus pais, eu não pedi para vir, ajuda-me senhor! Não sei nada da vida!! Vida... será que posso chamar isso de vida; todos zombam de mim; leva-me papai do céu, esse mundo que tu crias-te eu não suporto, sou pequeno demais sou como esse grão de areia que as pessoas pisam e nem olham; vou ao teu encontro, me leva!

(APARECE UM ANJO)

ANJO- João, não faça isso!

JOÃO- Quem é você?

ANJO- Sei que é difícil pra você , ainda é muito jovem pra entender as linhas tortas da vida!

JOÃO- Me responda quem é você?

ANJO- Sou o enviado daquele com quem você conversava.

JOÃO- Meu pai do céu?!

ANJO- Isso mesmo, ele está olhando por você, não tema nada, nem ninguém

JOÃO- Leve-me com você, quero ficar ao lado de meu pai

ANJO- Mas você não precisa ir comigo para está ao seu lado(ANJO SE APROXIMA DE JOÃO) Sinta! Ele está dentro de você... e sempre que precisar de ajuda escute a voz de sua consciência e do seu coração, e a resposta dele surgirá, mas tenha cuidado com a consciência do mundo ela às vezes condena inocentes e absorve culpados, siga apenas a sua.

JOÃO- Tenho medo, vim a este mundo pobre, e as pessoas me recriminam, me maltratam , nunca conseguirei ser gente como eles.

ANJO- Você como todos habitantes da terra são criação do Senhor. Aqueles que te humilham, são os que esqueceram que isso aqui é uma passagem, um dia irão prestar conta com o pai que tudo vê; não temas às vezes as linhas tortas da vida são para ensinar que ela vale a pena, siga em frente e nunca esqueça que você pode ser eterno, plante hoje e se alguém te julgar, lembre-se que o único que poderá julga-lo é teu pai! (SAI DE CENA)

JOÃO- Não vá! Me leve, me leve! (ABAIXA-SE) Eu sou pobre, pobre ,pobre, de ma vé ma vé ma vê, eu sou pobre, pobre, pobre, de ma vê, desci!
(ENTRAM AS CONSCIÊSCIAS EM UMA COREOGRAFIA , SÃO AS CONSCIÊNCIAS DO MUNDO TENTANDO E ZOMBANDO DA FRAQUEZA DE JOÃO.)


COSNCIÊNCIAS- Nós somos ricos, ricos, ricos, de ma vê, ma vê, ma vê, somos ricos, ricos, ricos, de ma vê subimos!!!!

CONSCIÊCIA 1- Veja o pobre João, lutou, brigou com os, outros espermatozóides, e pra quê?

CONSCIÊNCIA 2- O coitado pensava que era um espermatozóide de rico

CONSCI~ENCIA 3- Infeliz! Se enganou, veio parar em uma favela nua e crua!

CONSCIÊNCIA 4- E os seus pais?! Sua mãe se entregou a um “cagamento” para se livrar das moléstias sexuais de seu padrasto , quinze anos ela tinha, imatura é o que ela era.

CONSCIÊNCIA 5- O pai de João pobretão, logo abandonou ele e sua mãe!

CONSCIÊNCIA 1- E sua mãe por sua vez abandonou João pobretão, falou que iria dá-lo para outro pobre de Jó.

CONSCIÊNCIA 4- Oh! Mas sua avó, outra pobretona, disse que iria cuidar dele, coitada não conseguia nem se manter, como iria um pobre criar outro pobre

CONSCIÊNCIA 2- A velha vendia cafezinho, veja só, deixava João sozinho, lamentando-se e com fome!

TODAS- Fome! Fome!

CONSCIÊNCIA 3- A fome que aterroriza o mundo e que transforma João Bonzinhos em João marginais, ladrões, drogados e prostituídos.

CONSCIÊNCIA 1- Então João o que esperas da vida? Vai João faz o que tem que fazer, seja corajoso ao menos uma vez!

CONSCIÊNCIA 4- A covardia e a preguiça são características de todos os pobres e você agora é um pobre, vamos João seja corajoso!

CONSCIÊNCIA 5- O que te resta ? teu destino está aí, é isso aí, tu escolhes: quer ser ladrão, drogado ou prostituído?

CONSCIÊNCIA 2- E aí João! Ainda és novinho, se fizeres agora será recebido lá em cima, com festas pelos anjos!

CONSCIÊNCIA 4- Já nos cansamos ! Tu já sabes que esse mundo não te aceitarás, ( COM CINISMO) somos seus amigos e viemos abrir-te os olhos, faz logo o que tem que fazer, vai ser muito melhor!

TODAS- João pobretão! Pobretão, pobretão, pobretão...

JOÃO- Parem! Parem!

CONSCIÊNCIA 5- Hum até que enfim o João enxergou seu fim!!!

JOÃO- Eu tenho o poder dentro de mim, eu posso transformar o mundo!

CONSCIÊNCIA 5- Engana-se o mundo é que transformará você!!!!!

JOÃO- Fora! Fora! Todos fora de mim!

CONSCIÊCNIA 1- João irá se arrepender cruelmente.

JOÃO- Eu vou pagar esse preço! (AS CONSCIÊCIAS VÃO FORMANDO UMA POSIÇÃO UNIFICADA REPRESENTANDO A CONSCIÊNCIA DO MUNDO)


CENA II- Anos se passaram aparece em cena, a Avó de João chegando do trabalho


D. JERCINA- (GRITANDO) João! Joãozinho onde está você meu netinho? Deve está escondido de baixo das coisas (PROCURA) João!! Responde menino, ai meu São Jorge, cresceu mas não perde essa mania de se esconder de todo mundo, anda menino sai!!! Ê... parece que não está aqui! (ENCONTRA UM BILHETE) O que é isso aqui, (VAI LENDO E SE ESPANTANDO) Ô meu Deus! Valei-me meu São Francisco das Chagas, cruz credo, pela amor de Deus! ... O João fugiu! Pobrezinho tão indefeso o condenado (CHAMA O OUTRO NETO GRITANDO) DI! DI! Ave Maria, cadê esse cão?

DI- (DI ENTRA COMO SE ESTIVESSE SOLTANDO UMA PIPA) O que é avó?, deixa de ser gasguita

D.JERCINA- O que é não! Senhora...

DI (IRÔNICO) Está bem senhora, o que é?

D. JERCINA- O teu primo fugiu, diabo!

DI- Também o que a senhora queria? A senhora não falou pra ele, que se ele quebrasse o seu litro de cachaça, iria mata-lo

D. JERCINA- E o desgraçado acreditou?

DI- Ah! Avó a senhora sabe como é o João, vive sonhando acordado, acredita em tudo que dizem pra ele

D. JERCINA- É um lezado! Isso é o que ele é, mas um lezado que eu gosto, vai cão vai ver se tu encontra ele! (DI SAI DE CENA) A gente cria esses diabo, e olha o pago que recebe! (ESCUTA UMA MÚSICA) Ah meus velhos tempos, com uma música dessa da vontade de tomar uma, mas o retardado do João inventou de quebrar minha cachaça! Ah! Ainda tem um restinho que escondi dá pra virar a perna! (CANTA E DANÇA ) Beber para esquecer os problemas esse é meu dilema, problemas quem pode viver sem eles,(VISUALIZA UM ALBUM E VAI RECORDANDO SEU PASSADO) Meu álbum, meu passado, como o tempo foi cruel, apagou meus sonhos, de que vale a pena sonhar, se meus sonhos foram com o passado!

APARECEM CENAS DA VIDA DE JERCINA


PAULÃO- O próximo... Bom dia! Como é o seu nome?

JERCINA- Bom dia moço, meu nome é Jercina

PAULÃO- Qual sua experiência de trabalho

JERCINA- Infelizmente não tenho, mas estudei um pouco e sou esperta, se vocês me derem uma chance, eu não decepcionarei vocês.

PAULÃO- Sinto muito D. Jercina só estamos admitindo pessoas com experiência comprovada em carteira

JERCINA- Mas moço como posso ter experiência se todos batem a porta em minha cara?

PAULÃO- Infelizmente não podemos ir contra o sistema

JERCINA- E o senhor chama isso de sistema, um massacre a população, veja a sola do meu calçado se acabou, estou cansada tenho filhos pra sustentar, eu imploro moço, me dê uma chance, eu faço qualquer coisa.

PAULÃO- Calma! A senhora tem carta de referência?

JERCINA- Como posso ter carta de referência se moro numa favela e ninguém nunca me deu uma chance de um mísero emprego? (Em desespero abre a blusa mostrando os seios ) Eis a minha referência: Jercina nascida no lixo, lutou muito pra sair de lá, mas o tal sistema não permite

PAULÃO- Sinto muito minha senhora, mas não posso fazer nada, saia agora já está chamando a atenção!

JERCINA- Mentira sua, se realmente eu chamasse atenção, não estaria passando fome! Eu tenho fome! Fome! (PAULÃO SAI TENTANDO ACALMAR JERCINA)

D.JERCINA- Naquela manhã sai desesperada, tinha no bolso, cinquenta centavos, dinheiro mísero, moeda fraca, não dava pra manter meus filhos, foi nessa manhã que eu conheci você, seu cheiro, sua ação, foi como se alguém me puxasse e me levasse até você, não pensei duas vezes gastei todos meu dinheiro com você minha porção mágica, e fiquei bebinha, bebinha...


NOVAMENTE JERCINA É LEVADA AO PASSADO

JUREMA- Cadê a mamãe que não chega Pedro? Já é tarde da noite!

PEDRO- Ela não disse que ia procurar emprego, então na certa deve ter conseguido!

JUREMA- Mas eu estou trêmula de fome, queria ao menos que aqui tivesse um “mói” de farinha, isso enganaria minha tripas.

PEDRO- As minhas roncam mais que porco, tenho vontade Jurema de sair por aí pegar qualquer coisa pra nós dois comer, e é isso que vou fazer...

JUREAMA- Pra onde você vai Pedro?

PEDRO- No mercantil aqui perto, lá eles tem muita comida não se importariam se eu pegasse algo emprestado, nos sinais não consegui nada, as pessoas nem me vêem! Tchau maninha vou tirar nossa barriga da miséria!

JUREMA- Mas Pedro isso é roubar, nossa mãe não permitiria...

PEDRO- Isso é sobreviver maninha, se conseguir alguma coisa compartilho contigo, até logo!

JUREMA- (REZANDO) Pai do céu protege meu irmão, livra ele dos perigos da rua, e traz minha mãe, quero vê-la, tenho certeza que ela está empregada, ah pai tenho medo desses bichos que saem dos lixos, das baratas que mostram suas patas secas, e os ratos que convivem conosco, esses eu queria que estivessem nos sapatos dos cidadãos que se chamam civilizados, me sinto como um bicho escroto que saem dos esgotos e dividem comigo meu lar, meu jantar, isso quando tenho (NESSA HORA ENTRA JERCINA BEBADA COM UM PARCEIRO)

JERCINA- De noite eu rondo a cidade a te procurar, bebendo, bebendo e bebendo, bebendo, bebendo...

JUREMA- Mamãe o que houve? Quem é esse bêbado?

MANÚ- Bêbado não, muito prazer em conhecê-la mocinha, me chamo Emanoel, mas para os íntimos Manú!

JERCINA- A partir de hoje Manú vai ficar com a gente filha

JUREMA- Mas mamãe a senhora nem conhece ele direito

MANÚ- Sou Manú!

JERCINA- E quem conhece alguém filha, nem eu mesma me conheço, quem sou eu, diga quem sou eu?

JUREMA- Você é a minha mãe, aquela que acreditava nos sonhos, acreditava na vida!

JERCINA- Que bosta de vida é essa que me deixou assim?

MANÚ- É isso mesmo, que bosta de vida é essa que deixou ela assim? Assim como meu amor?

JERCINA- Deixe pra lá Manú, de hoje em diante eu serei feliz com vocês e minha porção mágica

JUREMA- Mas mamãe... e o emprego?

JERCINA- Manú vai me ajudar

MANÚ- É eu vou ajudar, mas ajudar em quê? Não se preocupe nós seremos felizes como nos contos de fadas..., eu sou príncipe e você é a princesinha, vai rapunzel joga tuas transas de mel!

JERCINA- Contos de fadas?... Que contos de fadas porra nenhuma, eu quero aproveitar o meu momento de felicidade

MANÚ- Vamos Jurema, vou tratá-la como uma filha, vamos os três dá uma volta nas redondezas...(AGARRA JUREMA)

JUREMA- Me solta seu bêbado nojento, mamãe, me ajude

JERCINA- Solta ela Manú

MANÚ- Também meu amorzinho, farei tudo o que você mandar

JERCINA- Jurema onde é que está o Pedro?

JUREMA- Foi bem ali e já volta mãe

MANÚ- Quem é Pedro?

JERCINA- É o futuro da casa...(NESSA HORA O FUTURO E PASSADO SE AGLUTINAM COMO SE TOMASSEM CONTA DA CONSCIÊNCIA DE JERCINA)

D.JERCINA- (RINDO MUITO E DELIRANDO) Futuro da casa... “desgraceira“ O Manú disse que ia me dá todo o seu amor, falso é o que ele era , vivia “bulinando” minha Jurema, a pobre menina fugiu de casa e embuchou a desmiolada, o desgraçado do Manú a única herança que me deixou foi essas garrafas de café que passaram a ser meus maridos (FICA DELIRANDO PENSANDO EM MANÚ, ),Ah! Manú por que você morreu? Apesar de tudo eu te amava? Manù... Manú.... E o Pedro só vive de prisão em prisão, começou a roubar pra matar a fome, e agora está entregue a marginalidade, também acabou embuchando uma garota da vida fácil, será que existe vida fácil? Filhos, filhos! Só trazem problemas, e pensar que eu depositei todos os meus sonhos neles, e agora me encontro sozinha com João e Di e neles mais uma vez deposito meus sonhos, mas enquanto isso não acontece, minha companheira me anima, viva a vida!!!

(FICA EM DELÍRIO E O ESPÍRITO DE MANÚ SE APROXIMA)

MANÚ- Isso Jercina, beba! Beba! Jogue todos os seus sonhos na nossa velha bebida, estou perto de você minha velha, divida esse cheirinho de cachaça comigo vamos (JERCINA OFERECE A BEBIDA AO SANTO) Ah como sinto saudade desse cheiro, como é gostoso! Está sentindo como a vida é cruel? Assim ela foi comigo, sofri e continuo sofrendo, pensando pelas ruas, agora vou sentir o seu cheiro (Cheira o seu pescoço)

D.JERCINA- Ai que arrepio é esse, vou tomar mais uma

MANÚ- É isso aí minha velha, se o mundo se embriagasse com amor, como nós nos embriagamos com a nossa cachaça, tudo seria mais fácil pra você, mas esses seres carnais preferem esnobar, maltratar, humilhar, e o que resta pra nós que vivemos vagando e vagabundando nas encruzilhados sujas e fedidas? Apenas as migalhas da raça podre que mesmo estando encarnado, o fedor de suas almas são terríveis.

JERCINA- Acho que minha amiguinha está me deixando legalzinha, parece até que tem alguém aqui comigo, devo está alucinada

MANÚ- Todos nós velha somos alucinados, nascemos puros e inocentes, daí crescemos a margem da sociedade que nos transforma e sonhamos poder transformá-la, mas aí acabamos sendo levados, como se fossemos puxados pela maré, morremos e continuamos pagando nossos martírios, cadê o seu netinho querido?(JERCINA SUSSURRA:JOÃO) Outro sonhador que quer muito transformar esse mundo que vocês vivem, mas quantos não passaram por aqui com esse mesmo desejo? E o que temos? Guerra, sangue, Pobre João seu nome combina com ilusão!! (RI, JERCINA MAIS UMA VEZ SUSSURRA), Deixe de falar o nome desse sonhador e coloque mais um pouquinho da nossa porção mágica, (JERCINA PÕE A DO SANTO) Ah! Que delícia, já estão me chamando, mas não se preocupe estou sempre ao seu lado... (ENTRA DI E ENCONTRA JERCINA QUASE EM COMA)

DI- A senhora já está assim? É por isso que o João fugiu dessa família, se é que eu posso chamar isso de família, dizem que o equilíbrio do ser humano está na família

D.JERCINA- Família, família, papai mamãe, titia, família, família passa fome todo dia...

DI- Devia ter vergonha uma velha na sua idade

D.JERCINA- Velho é o mundo, me respeite, e mesmo assim dá suas voltinhas, porque que eu não posso dá também? E cadê o João já voltou?

DI- Desculpe avó... ninguém sabe do João, não deixou nenhuma pista de seu paradeiro, mas não se preocupe ele volta. Venha vamos enfrentar a fila do hospital, espero que você aguente.

D.JERCINA- Tomara...

(ENTRA UM SER DE CAPUZ QUE CONDUZ OS PERSONAGENS FORA DE CENA, OBSERVA E TRÁZ OS PERSONAGENS QUE IRÃO COMPOR A PRÓXIMA CENA)



CENA III- Um conflito familiar

(ENTRA UM SER DE CAPUZ QUE CONDUZ OS PERSONAGENS FORA DE CENA, OBSERVA E TRÁZ OS PERSONAGENS QUE IRÃO COMPOR ESTA CENA)


JUREMA- Ainda bem que minha velha ainda está no “trampo”, vou fazer uma surpresa ( COMEÇA A ARRUMAR A CASA) tudo continua do mesmo jeito, pobre mamãe ainda não conseguiu comprar uma máquina de lavar roupas, também com o que ganha naquele mercado... mas esse ano ela se aposenta, coitada vai se sentir inutilizada, até aposto que mesmo aposentada continuará trabalhando, ela que está certa, quem consegue sobreviver com uma merda de salário mínimo, é uma vergonha e os bonitinhos dizem que com ele a família garante sua alimentação, moradia, educação e lazer (COMEÇA A GRITAR) Ladrões, mentirosos

DI- (ENTRANDO COMO SE ESTIVESSE ESPIONANDO) Está ficando doida titia?

JUREMA- E aí moleque, cadê o malandro do teu pai?

DI- Meu pai não é malandro, não fale assim dele

JUREMA- (IRONIZANDO) Oh! Desculpe, onde está o cidadão do ano?

DI- Também não precisa debochar, minha avó disse que ele deve está chegando hoje, e a senhora o que faz aqui?

JUREMA- Vim passar uns tempos com mamãe...

DI- Tia me responda: a senhora está trabalhando?

JUREMA- Bem eu... eu... e quem encontra emprego seu fedelho, estou “fazendo uns bicos” a noite, afinal esse país já está sendo conhecido como o país dos bicos.

DI- Mas a senhora ganha bem?


JUREMA- Está trabalhando como repórter garoto?

DI- Não tia... é que a vovó o que está ganhando mal dá pra gente comer, e a senhora aqui é mais uma boca, entende?

JUREMA- Moleque atrevido, está ficando igual ao pai, só falta ir para os sinais e começar a roubar

DI- Vejo titia que a senhora está por fora das coisas de nossa família, saiba a senhora que eu estou nos sinais sim, mas não roubo ninguém.

JUREMA- (BAIXINHO) Por enquanto...

DI- O que a senhora disse?

JUREMA- Que encanto meu sobrinho querido, que encanto (ENTRA PEDRO POR TRÁZ DE DI) adivinha Di quem é o cidadão do ano que tapa seu olhos?

DI- Papai!

PEDRO- E aí bicho, sentindo a falta do paizão?

DI- Muita! A tia Jurema estava chamando o senhor de malandro.

PEDRO- Ei sua piranha, vê o que fala para o garoto, sacou?

JUREMA- Não saquei nada, porque eu não entendo fala de malandro...

DI- Não vão brigar a vovó já está para chegar, e iria expulsar vocês!

PEDRO- A velha não está com essa bola toda

DI- Papai... não gosto que fale assim da minha avó!

PEDRO- Está bem bicho, relaxa, (ENTRA JERCINA COM O ESPÍRITO EM SUA COLA) olha aí minha velha, e aí coroa dá aqui um abraço no seu filho querido...

D.JERCINA- Desencosta de mim abacaxi que eu tomei leite,(PEDRO APERTA JERCINA) Ai sua coisa, não aperta que meu reumatismo está muito aguçado, (PARA JUREMA) e tu traste o que faz por aqui?

JUREMA- Que é isso mamãe deixei suas roupas limpinhas, veja

D. JERCINA- Essa alma quer reza

JUREMA- Senti saudades mamãe e vim passar uns dias com a senhora.

D.JERCINA- Eu não disse! Meu Deus são duas bocas a mais, mas onde passa fome um passa todos...

PEDRO- A coroa não perde o bom humor.

D.JERCINA- Coroa é sua avó seu diabo, eu sou uma mulher moderna

DI- Avó já que a senhora é uma mulher moderna, troca nossa radiola por um toca CD maneiro

JERCINA- Sou moderna, mas não sou estribada, e tu Jurema ainda está naquela vida?

JUREMA- Que vida é essa que a senhora tá falando?

D.JERCINA- Não se faça de “lesa” a Renite já me contou tudo.

PEDRO- Xi... está bem... andando com a Renite, boa coisa não faz...

D.JERCINA- E tu seu palerma, quer bem dizer que não sabia que a tua piranha levou a Jurema para inferninho?

PEDRO- Deixa de “lero” coroa, estou em outra, pouco me importa o que aquela outra faz ou deixou de fazer.

JUREMA- Deixa de ser mentiroso a Renite disse que tu só vive perturbando ela, prometendo um mundo cor de rosa (RI)

PEDRO- Olhe pra mim, veja se eu sou homem pra oferecer mundo cor de rosa, isso é coisa de maricas

D.JERCINA- Vamos parar com “fuzuê” afinal quem canta de galo nesse galinheiro ainda sou eu...

DI- “Dali” vovó galo...

D.JERCINA- E você vê se não põe o seu “bedelho” onde não é chamado.

PEDRO- Vamos maneirar se não a coroa pode ter um troço

D.JERCINA- Meus troços são vocês pestes ruins, acabou o meu sossego (CHORA) João cadê você porque nos abandonou? Você falou que iria mudar nossa vida, e fugiu, covarde você é o responsável por tudo que se passa nesse inferno

JUREMA- É um ingrato, isso é o que ele é, mas a senhora é culpada de tudo, não quis que eu abandonasse aquele condenado, agora agüente, acabou te abandonando e deixando todos nós nessa.

PEDRO- Essa nossa situação tudo é culpa dele, só ele deve ser punido, forca aos traidores, que ele seja punido, ele que transformou minha vida numa droga

MANÚ- Ele é o culpado de tudo Jercina, e tu sabes como pode esquecer (D.JERCINA CAMINHA SOLUÇANDO E CHORANDO) Muito bem velha, coragem, esquece o que o médico te disse, o que adianta está sóbria diante de um mundo desse? Vai é nossa porção mágica e não esqueça de mim...

DI- Vovó não faça isso algo me diz que João vai voltar

ESPÍRITO- Não escute esse fedelho, João nunca voltará...

DI- Vovó o João irá voltar

D.JERCINA- Cale sua boca Di, e nunca mais pronuncie esse nome nesse casebre.

MANÚ- Mandou bem velha, mandou bem velha, mandou bem..

RENITE- (HIRONIZANDO) Hum que coisa linda, uma reunião de família, só falta ...

DI- Pare D. Renite, não pronuncie o nome de meu primo, não vê que minha avó está sofrendo por isso?

RENITE- Pepê deveria ensinar bons modos ao moleque, ou melhor porque não conta a ele?

DI- Contar o quê, eu não quero saber de nada...

PEDRO- Nada seu fedelho, essa mulher é louca

RENITE- Posso ser louca Pepê, mas não minto como você, desembucha quem sabe esse moleque passe a me respeitar

DI- E quem é que respeita uma “Kenga” que todo moleque passou a mão?

RENITE- Quem anda colocando essas minhocas em sua cabeça seu anormal?

DI- E quem não conhece a Renite Furacão?

JUREMA- Di respeite a amiga de sua tia

DI- Está bem minha tia querida, que também é super respeitada no bairro, todo pirralho sabe quem é Jurema a mulher fatal, vive tentando dá o golpe do baú, mas sempre acaba aqui nas costas de minha avó

PEDRO- Cala a boca seu filho duma...

RENITE- Vê lá como vai me chamar Pepê...

DI- Deus me livre de ter uma mãe como você, sua Renite Fu...

RENITE- (COM ÓDIO)... Pois você vai morrer com esse desgosto, porque eu sou sua mãe queira ou não

PED/JUR Renite!!!!!

DI- Mentira sua, minha mãe morreu quando nasci, diz pai pra ela...

PEDRO- Infelizmente é verdade...

ESPÍRITO- Não ligue pra nada Jercina, deixe o barraco rolar

DI- Mas eu não quero ouvir a verdade, prefiro acreditar na minha, a minha mãe morreu, morreu...

PEDRO- Está vendo sua “biscaite” o que você fez?

JUREMA- Vamos Renite, está na hora de faturar

RENITE- Pepê você nunca me terá só sua

PEDRO- Piranha! (VÊ D. JERCINA ENTRANDO EM COMA) Mamãe! Mamãe! Fale comigo! Meu Deus a coroa está em coma novamente

MANÚ- Engana-se meu caro, ela está viajando comigo! (Apagam-se as luzes)


CENA IV- O MISTÉRIO DE JOÃO É DESENROLADO

ENTRA O PERSONAGEM DE CAPUZ PELA PLATÉIA CONGELA DE BRAÇOS ABERTOS, ENQUANTO ESCUTA-SE GRITOS DE DOR E SOFRIMENTO NA ESCURIDÃO DO PALCO, ACENDE-SE AS LUZES DO PALCO E OS PERSONAGENS APARECEM COMO MAMULENGOS.

MANÚ- Seu miserável! Olhe o que você fez com a vida deles! (TODOS FICAM GEMENDO, GRITANDO) e eu nem vida tenho mais, você arrancou de mim o que o ser humano tem de mais precioso a vida, me separou do meu amor, ah como eu queria ter vida, queria sentir novamente o calor de cada um deles, falar para cada um o que eu nunca tive coragem de dizer, revelar que existe uma arma preciosa em cada um deles, agora eu sei que o amor vence tudo: a guerra, a dor, a infelicidade, a miséria, mas só agora eu compreendo tudo isso, perdoa-me e reescreva nossa estória, só você poderá fazer isso, não deixe eles se entregarem como eu fiz, nós criamos nossa própria guerra, nos destruímos sem saber, eu imploro vire nossa página de sofrimento!

JERCINA- Estou aprisionada nesta página do desespero, que fiz eu dos meus sonhos? Eu uma mulher que fui criada para ser feliz e fazer os outros também felizes, Eu só queria amar e ser amada, fui amada por Manú e também o amei, mas não tive força suficiente para livrá-lo da bebida, acabei entrando na dele e destruindo toda minha vida, me tire dessa página do desespero, não sei como sair daqui!

PEDRO- Minha velha, não consigo sair da página da marginalidade, meu corpo está ferido, minha alma encontra-se despedaçada, eu que queria apenas ser um cidadão de respeito, uma autoridade, mas nem sobre mim tenho essa autoridade, sonhamos em vão, não sei porque ele nos criou se já sabia como seria nosso fim, se pudesse escolher neste momento, escolheria morrer que ficar preso eternamente nesse livro, João vem me libertar transforma nossa estória!

RENITE- Pepê! Pepê! Não consigo sair da página da prostituição, eu te amo Pepê, mas é mais forte do que eu, sempre sonhei em ter uma família com você, mas acabei abandonando você e o Di, tudo é culpa de João Pepê, foi ele que escolheu nosso destino, eu não me acho mais no direito de sonhar, tudo é só ilusão, sou comandada por uma força maior que eu, Pepê se ele me tirasse dessa página te prometo que ficaria contigo e com o Di, perdão meu filho, eu os amo, e ei de encontrar força para me livrar dessa página.

DI- Minha mãe, estou condenado e preso na página da juventude eterna, peço desculpa por não aceitá-la, descobri tarde demais que o perdão alivia qualquer dor, que cura feridas, minha mãe será que João terá piedade de nós, estou encruado, quero crescer, quero expandir minha mente, mas agora mamãe meus sonhos não valem nada, cada página que estamos fica cada vez mais amarelada, nossa estória amarelou...

JUREMA- Tem razão Di, cada página nossa nos afundou e destruiu nossos sonhos, tudo que fiz dói muito, quando me vejo presa no livro da amargura, sozinha, sem poder chegar perto de meu filho, mas estou confusa, não sei se realmente João nasceu de mim, ou se eu sou só uma criação sua, quem somos nós, porque estamos aprisionados nestas páginas, que fizemos nós? Pra onde iremos? João perdão, não sei se tu és meu filho, ou se és meu pai, estranho agora essa sensação que me passou, será que eu sou um ser real?

RENITE- João ajuda-nos a descobrir quem somos, porque esse sistema impediu nossos sonhos, será que eu poderei mudar esse sistema?, você conhece a verdade João, não nos abandone

TODOS- João nos ajude... nos ajude...

MANÚ- Está vendo João, como estamos todos sofrendo, estamos preparados para o pior, sabemos que nossas chances acabaram, o que não aguentamos é está aprisionados, principalmente eu que não sou ouvido por ninguém, se minha Jercina soubesse que estou ao seu lado...

JERCINA- Manú! É você? Como pode ser isso, você está morto?

MANÚ- Minha Jercina você me ouviu?

JERCINA- Tanto ouço como o vejo...

MANÚ- Sai da prisão... estamos livres... livres... João Obrigado João! (OS PERSONAGENS SAEEM DE SEUS LUGARES LIBERTANDO-SE CADA UM E JUNTANDO-SE FORMANDO UMA FORÇA ENERGÉTICA)
TODOS- Obrigado João... Obrigado.... estamos libertos, sentimos que você está conosco, você está voltando

( AS LUZES DO PALCO APAGAM-SE, E ACENDE A DA PLATÉIA,O PERSONAGEM DE CAPUZ VAI TIRANDO A MÁSCARA E DESCONGELANDO, O ROSTO É DE JOÃO QUE PASSA A FALAR COM CADA UM DE SEUS PERSONAGENS)

JOÃO- Não me agradeçam, vocês conseguiram, descobriram que o criador e a criatura andam juntos, eu os criei da minha mente, dei formas a cada um de vocês, apostei todos os meus sonhos em minhas criações, desafiei os temores de minha consciência, venci a pobreza, quando falo pobreza não me refiro a material, mas a pior de todas que é a espiritual o não sentir-se bem consigo mesmo! Enfrentei críticas ao passar todo esse tempo sem saber qual seria o destino de vocês, pois o meu destino dependia de cada um, assim como o meu criador depende de mim e eu dependo dele para fazer o mundo cheio de paz e amor, eu como criatura acredito em meus sonhos, pois sem eles a razão de está aqui seria em vão, acreditei e eis que de criatura virei criador, sonhei e estou realizando meus sonhos em cada um de meus personagens... (A CADA PERSONAGEM QUE JOÃO VAI CITANDO ESSE LEVANTA-SE FORMANDO UMA POSIÇÃO QUE SIMBOLIZE O SONHO PELA PAZ DO MUNDO) MANÚ... um espírito forte que conseguiu evoluir superando as barreiras da morte, assim somos nós criaturas dosados de uma força interior que quebra todas as barreiras... JERCINA uma mulher de luta, venceu suas barreiras encontrado o amor espiritual, amor... amor... quem de vocês vive sem amar? Amor verdadeiro é aquele que não exige nada se satisfaz em ver o outro feliz... PEDRO está estampado em cada adolescente que se esconde de seus problemas entregando-se as drogas, e acabam tornando suas vidas uma droga esquecendo de seus sonhos, Pedro superou e realizou seus sonhos como conseguiu? Com a força que cada um de nós tem dentro de si... RENITE quantas não existem por este mundo, mulheres que se sentem diminuídas diante dos homens vendendo-se, algumas jogam a culpa no sistema, mas Renite ela conseguiu vencer o sistema... DI Se todos nós conseguíssemos ser um Di, seríamos melhores, pois nós adultos às vezes insistimos em esquecer que ainda temos uma criança dentro de nós que pode fazer da vida melhor... JUREMA essa foi a mulher que me abandonou, mas eu não a culpo, pois ela é apenas uma personagem que eu como criatura, passando agora para o papel de criador estou recriando, eles são fictícios, eu sou fictício, mas vocês são reais, eu como criador e criatura estou realizando os meus sonhos, vocês como criaturas também tem o seu criador o que estão esperando? Junte-se a ele e lute por seus sonhos e pela paz, assim como eu me juntarei aos meus personagens e juntos recriar nossa estória! (JOÃO JUNTA-SE AOS OUTROS PERSONAGENS E UMA LUZ CLARA VAI CRESCENDO SIMBOLIZANDOA PAZ)









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Atualizado em: Seg 15 Set 2008

Comentários  

#2 Geraldo Mota Valintim 06-10-2008 05:31
Caro amigo,
Sou contabilista também e somos conhecidos, aliás, fiquei surpreso com seu modo de escrever e suas idéias, bem como outras coincidências. Gostaria de conhecer de perto os seus projetos e dialogar, visto que temos muito em comum e trabalho com jovens carentes da periferia do São Cristóvão.

Grande abraço,

Geraldo Mota valintim
#1 Geraldo Mota Valintim 06-10-2008 05:31
Caro amigo,
Sou contabilista também e somos conhecidos, aliás, fiquei surpreso com seu modo de escrever e suas idéias, bem como outras coincidências. Gostaria de conhecer de perto os seus projetos e dialogar, visto que temos muito em comum e trabalho com jovens carentes da periferia do São Cristóvão.

Grande abraço,

Geraldo Mota valintim

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