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Maços

Mendigo: Homem grisalho e sujo, portador de pouca roupa.
Caneca: Homem de pouco cabelo e rosto branco manchado.

Ato Único

(Noite chuvosa. Mendigo está sentado sobre um papelão no chão, debaixo do viaduto. Ao lado, encontra-se uma caixa de frutas adaptada como uma mesa. Abraça um cobertor e fuma um cigarro. Entra Caneca, com sua roupa e seu pouco cabelo molhado. Pára ao lado de Mendigo.)

Caneca: Posso sentar?

Mendigo: (continua tragando seu cigarro e o olha. Ajeita-se mais ao lado do papelão e dá um lugar para Caneca.) Boa noite.

Caneca: Boa? Pra mim, não. E pra você?

Mendigo: Aqui as noites são sempre iguais.

(Silêncio)

Caneca: Qual seu nome?

Mendigo: Não sei. Normalmente me chamam de "velho", "vagabundo", "comedor de lixo". Mas o que mais me chamam é de "Mendigo". E o seu?

Caneca: Mendigo? Um nome... Muito adequado, eu diria. (pausa) O meu é Caneca.

Mendigo: Engraçado. Por que Caneca?
Caneca: Quando eu era criança, meu pai estava comigo num supermercado, e eu, arteiro que era, derrubei uma pilha de canecas na minha cabeça. Fiquei com pontos na testa durante umas três semanas.

(os dois riem bastante. Param. Silêncio)

Mendigo: (levanta-se, vai atrás da caixa, apaga o cigarro no chão e acende outro) Por que está aqui?

Caneca: Não tinha mais nada pra fazer lá. Tudo se acabou.

Mendigo: E por acaso ficar aqui mudará alguma coisa?

Caneca: Não tenho outra saída.

Mendigo: Sempre há uma saída. (aproxima-se com um maço marrom) Quer um cigarro?

Caneca: (com desconfiança pega um cigarro e acende. Tosse) Cigarro horrível, como pode fumar uma coisa dessas?

Mendigo: (risadas) É... Não faz bem, eu sei, alem do mais, tem um gosto... Que dá até desgosto! (gargalha) Mas me acostumei. Desde que estou aqui fumo essa droga. (assustado levanta-se e recua vagarosamente) Seu rosto está manchado... Sai daqui já. Você vai querer me matar.

Caneca: (levanta-se) Não. Acredite. Não tenho porque fazer isso.

Mendigo: Tem sim, você é um deles. Um daqueles que outro dia vieram ai e acabaram com a raça de dois velhotes que dormiam ali na viela. (Abaixa-se e abraça o cobertor) Não me faça nada, por favor. Nunca causei mal algum. Sou um pobre inocente, sem família que perdeu o emprego. Sem nenhum amigo e com pouco estudo. Não podia estar em outro lugar, tive que ficar aqui.

Caneca: Acalme-se. Não te farei mal algum. Meu rosto está manchado sim, mas é por conta de uma maquiagem borrada em meu rosto.

Mendigo: Maquiagem? Você é Quenga? (ri) Uma quenga na minha morada? (Sério) Tu é traveco?

Caneca: Nada disso. Sou palhaço. (triste) Era um palhaço!

Mendigo: Então é por isso que também está vestindo esse sapato colorido? (gargalha) Palhaço, Palhaço... (reflete. Sério) Por que um palhaço estaria aqui, triste, senão num Circo? Um palhaço não deve ser feliz?

Caneca: Deveria. Mas nunca somos. Estou aqui, pois não tenho mais nada. Foi o fim do meu único amor...

Mendigo: Amor?

Caneca: É, meu circo. Que meu bisavô havia criado no século passado. E por minha incompetência, tudo foi por água abaixo. (volta para o papelão e senta) Tudo por minha culpa, caralho... Por minha culpa. (abaixa a cabeça)

Mendigo: Por favor... Se acalme. (vai até Caneca e senta) Um palhaço não pode chorar. Não desista. (pensativo) Você não pode ficar aqui. Vá embora logo. Antes que se acostume.

Caneca: Me acostumar? (chorando) Então me acostumarei. Não tenho pra onde ir, nem o que fazer e muito menos o que pensar. Passarei meu fim aqui

Mendigo: Lembra da história do cigarro? Eu me acostumei a esse lixo, a essa merda de caixa velha. (chuta violentamente a caixa) Me acostumei a essa porra de lugar. À chuva violenta, ao barulho infernal de carros. A toda essa poluição que me mata aos poucos. Não fique aqui. Vá agora mesmo e nunca volte.

Caneca: Não tenho pra onde ir.

Mendigo: Mas tem sua arte com você. Você é um palhaço, não se esqueça.

Caneca: Eu era um palhaço.

Mendigo: (anda firmemente até Caneca, o levanta, e dá uma tapa na cara) Me escuta, caralho.

Caneca: (com a mão no rosto) Tudo isso acontecendo e você ainda me bate?! Seu filho da puta.

Mendigo: Filho da puta é você se continuar aqui. Me escuta, Caneca, vai te embora daqui. Não faça como eu. Eu to aqui há anos e nada mudou. Pensei como você, queria passar o resto dos meus dias aqui. Agora me arrependo, mas não tem mais jeito. Você pode ainda. Viva tua vida, meu filho.

Caneca: (Dá as costas pro Mendigo e abaixa-se) Não sei... Não sei!

Mendigo: Escuta esse velho aqui. (Pega a mochila do Caneca, vai até ele e o levanta) Toma! (entrega a mochila) Sai daqui agora e nunca mais volte. Boa sorte.

(Vira rispidamente, pega um nariz de palhaço na bolsa, veste-o. Saindo de cena, vê muitos maços de cigarro molhados. Pára, vira e tira uns maços brancos de cigarro da mochila. Entrega-os para Mendigo)

Caneca: Segure. Fume esses a partir de agora. Você se acostumará, tenho certeza. (os dois riem. Caneca sai)

(Mendigo arruma a caixa de frutas, coloca os novos maços sobre a caixa, tira um cigarro e o acende. Black out)
FIM


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Atualizado em: Sex 26 Set 2008

Comentários  

#2 Dinha 15-06-2012 23:58
interessante
#1 Dinha 15-06-2012 23:58
interessante

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