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POSTO EM DESASSOSSEGO

Bernardo Soares desassossega-me. “Literatura”, diz-me, “que é a arte casada com o pensamento e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, e não uma superfluidade do animal”.

Brilhante definição, sem dúvida: “arte que se casa com o pensamento” e que gera filhos com jeito de eternos. Nesta afirmação, e na que se lhe segue, colho contundente recado: arte não é espontaneísmo, “nóia” que vem no vento e tange as cordas da inspiração. Não é qualquer “porra-louca” que pode se arvorar a ser artista, principalmente criador de arte literária.

Urgente o casamento de arte com pensamento. Arte é visão pensada, ou recriada, ainda “reinventada”, como nos diz a Cecília, mas necessariamente fruto de um processo mental.

Não acredito muito em “artistas” que derramam transbordantemente seus pseudo-poemas, achando que fazem literatura. Cabral de Melo Neto já chama a atenção: afirma não pertencer “a essa família espiritual para quem a criação é um dom, dom que por sua gratuidade elimina qualquer inquietação sobre sua validade, e qualquer curiosidade sobre suas origens e suas formas de dar-se”. Escrever é feito “catar feijão”, ensina-nos, ainda, o mestre pernambucano. Exige muito de quem se pretende artista literário.

O produto desse casamento é a realização de algo original, que catapulta o leitor ao espaço mágico do texto. Realidade virtual, porque pura, porque sem a mancha deturpadora da “realidade-real”, sem suas mazelas, seus conflitos. O mundo literário é o mais agradável dos mundos, porque nos encontramos e nos reencontramos nele sempre que lemos ou relemos uma obra.

Soares insiste: é para a Literatura que deve tender todo o esforço humano. Arte literária é labor, pouco tendo a ver com a superficialidade da apenas inspiração. Mesmo que Alberto Caeiro lamente: “Que triste não saber florir! / Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro / E ver se está bem, e tirar se não está!...”. Esses poetas “trabalham nos seus versos como um carpinteiro nas tábuas”, ironiza o Mestre. Apesar do atenuante caeiriano de que “a única casa artística é a Terra toda / Que varia e que está sempre bem e é sempre a mesma”, inquieta-me o “puxão de orelhas” do heterônimo prosador Soares.

Mas, aí, o Rainer Maria Rilke me acena com uma “dica” excelente para que nos certifiquemos se somos realmente escritores: somos se respondemos afirmativamente à pergunta “morreríamos se não escrevêssemos?” E esse criterioso mergulho em nós mesmos, sugerido por Rilke ao jovem poeta Franz Xaver Kappus, já evidencia a necessidade de critérios e, portanto, de “pensar” sobre literatura.

Definitivamente, desassossegam-me as palavras de Bernardo Soares. Servem-me de proveitoso balizador sobre a importância de que escrevo, se terá algum valor literário, ou se não passa de lixo escrito. Mas acho também que tem muito “fabricador de porcarias” escritas por aí que precisaria rever suas “melecas” literárias e se convencer de vez que os olhos do leitor não têm cordinha de descarga.

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Atualizado em: Sex 30 Out 2009

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