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A batalha dos ossos

“Não pensem que eu vou para a Quadra 9”, repetia Maria sempre que o tema em debate fosse a sua morte. Talvez tivesse ela razão em repudiar esta possiblidade, afinal esse assunto, incômodo por natureza, necessita de elementos que atenuem sua índole flagelante e não que o tornem ainda mais indesejável e aziago. É verdade que dita quadra, onde se localizava a sepultura da família, jazia em uma área nobre do cemitério, mas, no conjunto, aquele depósito público de corpos necessitava de esforços sobrenaturais para atrair a preferência de qualquer defunto, por mais indigente tivessem sido suas condições anteriores ao derradeiro suspiro.

– Você sempre foi muito medrosa, e agora, aos 65 anos, parece que ficou ainda pior, disse certa vez, em tom de zombaria o esposo de Maria.

– Medo eu não tenho, mas ser enterrada ali é o mesmo que ser jogada em uma lata de lixo, respondeu ela.

– O que te assusta, Maria, não é a beleza nem o estado de conservação do cemitério e sim imaginar-se repousando eternamente ao lado de outros cadáveres, sendo visitada por suas almas correspondentes. Lembre-se, isso acontecerá seja lá qual for o lugar escolhido, a menos que você seja cremada, rebateu o marido.

– Nunca! Sou católica e essa opção não faz parte da cultura mortuária da família.  Corpo em chamas, inferno antes do juízo final; prefiro ficar quietinha a sete palmos em um cemitério decente, como aquele recém-inaugurado lá na zona leste. Eu sempre fui contra a aquisição da sepultura. Se você não quer vende-la faça bom proveito. Para mim é “noves fora”, concluiu também em tom de brincadeira.

Preferências e cagaços à parte, o fato é que o investimento, que tanto descontentava Maria, vinha ao longo dos anos prestando bons serviços à família e amigos mais próximos. Ficar sem ter onde cair morto, ninguém ficava. Ano após ano era corpo que chegava e ossos que saiam.  Entretanto, a remoção nem sempre acompanhou o ritmo da entrada. Quando faleceu uma sobrinha de Maria, por exemplo, havia cinco condôminos amontoados, compartilhando em paz e harmonia o buraco que Maria tanto detestava.

Já na superfície o clima não era dos melhores. A irmã de Maria odiava a sogra que estava enterrada lá e não aceitava que a filha compartilhasse o túmulo com a megera. Seu marido inconformado com a falta de respeito firmou o pé e disse que não iria pagar por outra cova.

Ela, irredutível, exigiu então que o sepultamento só se realizasse depois de removidos todos os ossos. Precisava ter certeza que nem uma mínima falange da velha permanecesse lá, em condições de cutucar o corpo da filha indefesa. Daquela bruxa ela esperava qualquer coisa. Foram chamados, então, os representantes de cada esqueleto para proceder à separação dos ossos que, por descuido dos coveiros, acabaram sendo misturados em remoções anteriores. Estes haviam realizado uma pré-classificação que não agradou aos respectivos donos.

– Isso está errado gritou um dos parentes envolvido no “da cá meu osso”. Neste saco plástico existem quatro tíbias e, pelo que me consta, meu pai morreu bípede.

– Gente, por favor! Que falta de respeito, retrucou o gay convidado para a infausta tarefa.  Aliás, faça o favor de me entregar essa dentadura. Tenho certeza que era da minha mãezinha querida, disse ele trêmulo, agradecendo a Deus pela oportunidade de rever resquícios dos doces sorrisos maternais recebidos na infância.

– Alguém ai se interessa por este paletó?, bradou outro, que remexia alguns objetos também resgatados da sepultura. Com uma boa lavada ele ainda serve para ser usado em casamentos ou até velórios, ambiente com o qual já está muito bem familiarizado, completou em tom de gozação.

O principal confronto, entretanto, deu-se quando, na seleção dos crânios, ninguém aceitou ser parente de um que era muito grande e meio chato. O gay logo se antecipou argumentando que o cabeçudo possuía dentes, portanto não tinha necessidade de dentadura. Outro contestou: – Como ele iria provar naquele momento que sua mãe era banguela? Ofendido, o gay jurou que não mentia. Os demais resolveram então encerrar a celeuma e acatar sua versão.

Na falta de consenso, e para não complicar com exames de DNA, os demais resolveram sortear para ver quem ficaria com o cabeção, ou a cabeçuda. No fundo eles sabiam que não faria qualquer diferença se algum esqueleto estivesse usando a perna de um, a bacia de outro. Mas da cabeça ninguém queria abrir mão. Ao final concordaram que osso é só osso e o que mais importava eram as boas lembranças deixadas por aqueles magricelas queridos.

O parente contemplado com o cabeção sentiu-se prejudicado, mas como tinha aceitado o critério de sorteio, calou-se.  Escolheu levar na brincadeira e, com o crânio sobre a palma da mão direita, proferiu sua versão adaptada à dúvida de quem o acaso o tornara legítimo titular: “és ou não és, eis a questão”?

Depois de mais de 20 anos da batalha dos ossos, a sepultura herdada por um dos filhos continua prestando bons serviços a defuntos menos exigentes.  O cemitério, administrado pela prefeitura, segue assustando a maioria que dos que o visitam, menos a Maria que não só já se foi como também teve seu desejo respeitado: “quero distância da Quadra 9”.

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Atualizado em: Sáb 17 Jan 2015

Comentários  

#1 PauloJose 07-03-2015 14:50
SENSACIONAL!!!
ESTRELEI.

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