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JULIA

Todos os dias na hora do recreio, Julia observava cuidadosamente cada gesto dele. O jeito que ele franzia a testa quando sorria, a forma como segurava aquele pastel gorduroso, deixando cair metade do recheio na mesa. Todos os dias se repetiam e Julia tinha cada vez mais a certeza de que aquele menino era seu príncipe encantado. Na plenitude de seus quinze anos, ela poderia namorar muitos meninos bonitos e interessantes do colégio, mas inexplicavelmente apaixonou-se por Roger, que não possuía grandes atributos físicos, mas tinha um senso de humor e uma inteligência muito precoces pra tal fase da vida. Os dois se cumprimentavam regularmente, já que estudavam na mesma sala de aula, mas jamais haviam trocado mais de duas palavras. Até aquela sexta feira.
- Oi. - disse Julia sorrindo, como de costume.
- Oi, Julia, como você está bonita hoje. - sorriu .
Apesar da grata surpresa com o comentário inesperado de Roger, ela não se intimidou e pôs em ação o que há muitos meses apenas fantasiava em sua cabeça.
- Posso lanchar com você?
- Claro que sim. Senta aí. Eu notei que você está diferente hoje.
- Nem sabia que você me notava. - disse ela, toda sem jeito.
- Tá brincando, Julia? Acho você a menina mais linda do colégio, sem concorrência.
Conversaram tanto naquela manhã que esqueceram de comer seus lanches. Também esqueceram que o sinal já havia batido e não fosse pela bronca do inspetor, teriam ficado ali até segunda-feira sentados naqueles flocos de nuvens. Na saída da aula foram até a praça central da cidade e lá iniciaram o primeiro romance de suas vidas. Não existia mais nada ao redor. Apenas o banco da praça ele e ela.
Desde aquele primeiro beijo, tudo mudou. Fizeram dezenas de juras de amor e só se separavam para irem pra casa dormir. Sem dúvida, o casal mais apaixonado da cidade. Roger foi o primeiro homem da sua vida. Não havia passado de beijos e amassos com os meninos que havia ficado. E os dois
tinham tanta certeza desse amor que, passados tres meses, resolveram noivar.
Contra a vontade das famílias, sobretudo a dela. Roger trabalhava com o pai e seguramente herdaria as finanças da empresa da família, mas todos achavam que isso não o fazia pronto pra casar aos dezesseis anos.
- Você me ama? - perguntava ela de hora em hora.
- Mais que tudo. - respondia sem exitar.
- Você não vai me deixar nunca?
- Jamais. Vou te amar pra sempre. Jamais te vou te abandonar.
E noivaram no dia cinco de dezembro, já pensando no futuro . Roger continuava
muito seus estudos com muito mais entusiasmo. Ia ser administrador de empresas e precisava passar no vestibular deste verão. Julia, por sua vez, já tinha plenas condições de passar pelo tanto que estudou. Ingressaria no curso de Arquitetura.
- Você não se acha muito nova pra assumir esse tipo de compromisso, Julia? - dizia sua mãe sempre que tinha oportunidade.
- Mãe, vou me casar e nada vai mudar isso.
- Mas vão se sustentar sozinhos. Se sair dessa casa, não conte com um centavo meu. - dizia seu pai enquanto mastigava no jantar.
Julia tinha problemas com seu pai. Autoritário e vindo de família de militares rigídos e conservadores, ele pregava com a família o que lhe fora ensinado durante toda a vida. Talvez aquela geração estivesse colocando as maiores barreiras para a continuidade da herança de costumes e tradições de sua família, e talvez por isso ele tenha tanta raiva e mágoa ao tratar dos assuntos referentes a sua filha. Ele já havia batido em Julia algumas vezes, e sua mãe era indiferente as atitudes de seu marido.
Toda a dificuldade que tinha em casa era compensada com o carinho de Roger. Eles sentiam um no outro a segurança de que o mundo poderia acabar e ainda estariam felizes. Eles aprenderam muito um com o outro e realmente esse amor parecia inabalável.
Muitas vezes Julia mentia que ia dormir na casa da melhor amiga Renata e entrava pela janela de Roger as onze horas da noite.
Naquela noite quente de janeiro Julia resolveu mentir mais uma vez.
Ventava muito, muito mesmo. Tanto que comprometeu a fiação dos postes
de luz do bairro inteiro. Havia ocorrido um apagão total. Mesmo assim Julia decidiu que iria pra casa de Roger.
- Você não vai com esse tempo! - disse sua mãe.
- Vou sim mãe. Já combinei de estudar com as meninas.
- Então seu pai leva você.
Naquela noite, Julia teve que voltar sozinha seis quarteirões até a casa de Roger, pois seu pai a deixara em frente a casa de Renata.
- Você demorou. - disse Roger preocupado.
- Foi uma novela chegar aqui hoje. - contou sorrindo.
A casa estava, como todas as outras, iluminada pela velas. E os dois estudaram naquela noite sob luzes naturais.
Julia acordou no meio da madrugada muito assustada. O cheiro de fumaça era muito forte. Roger acordou em seguida e os dois correram pra sala de onde parecia vir a fumaça. A sala estava em chamas. E pior, o quarto de seus pais também estava.
- As velas! - murmurou Roger presumindo a origem da tragédia.
Roger tentava se livrar do fogo e da fumaça, mas estava tudo quente demais. Insuportável.
- Vem amor, vamos pra rua. Vamos pedir ajuda! - dizia ela em prantos.
- Não. Vai agora. Vou pegar meus pais. Vai!
- Não vou deixar você sozinho aqui. Eu vou junto.
- Vai agora! Eu vou ficar bem. Já estou saindo atrás de você.
E Julia e os bombeiros esperaram por quatro horas o retorno de Roger. Até que o fogo foi acalmando e permitindo observar a presença de tres corpos carbonizados em cima da cama de casal. Naquele momento, no momento em que seus olhos baixaram junto com a crina da última labareda que escondia a cama, sua vida esvaiu-se de dentro de seu corpo. Seus olhos brilhantes escureceram e nunca mais voltou a sorrir a não ser por educação.
Dias e dias se passaram e Julia havia largado os estudos e saia do quarto apenas para ir ao banheiro. Recebia alimentação no quarto, caso contrário morreria de fome. Seus pais já haviam feito vários testes neste sentido. Não ficou sem falar totalmente. Ainda murmurava alguns “sim” e “não” eventualmente para seus pais. Não via televisão e nem ouvia música. Passava os dias dormindo, olhando para as fotos de Roger e lendo suas dezenas de cartas.
Uma manhã de maio tornou-se bastante curiosa para todos. Julia desceu do quarto. E como se fosse de rotina sentou-se a mesa do café.
- Bom dia. - sorriu pegando o pote de geléia.
- Bom dia filha. - disse a mãe sem querer interromper bruscamente aquele momento.
- O Biju tem tem que tomar banho, mãe. Ele está fedendo. - comentou olhando para o cão da família.
Julia sorria bastante e conversava com todos. Passou a sair de casa e rever os amigos. Voltou ao seus estudos e tentou recuperar o período sem estudar, afinal havia vestibular de inverno chegando. Começou a frequentar a casa dos amigos e logo tudo voltara ao normal na vida de Julia. Finalmente havia conquistado sua tão esperada recuperação psicológica.
Fez o vestibular para arquitetura e passou. Foi a felicidade de todos na família. Nesta mesma época conheceu Willian, um colega de turma por quem mais tarde se interessaria e iniciariam um bonito namoro.
- Mãe, quero te apresentar o Willian, o menino de quem te falei. Estamos namorando e queria que conhecessem. - apresentou-o sentando no sofá.
- Muito prazer, Willian. - disse a mãe, dona Olga. - espero que vocês namorem um bom tempo antes de pensarem em algum compromisso mais sério.
- Claro que sim, senhora. Gosto muito da Julia, e sei que respeitar os principios da familia é o primeiro passo pra todos sermos felizes convivendo juntos.
Julia observava a conversa de sua mãe e Willian enquanto fazia carinho em Biju, que estava sentado em seu colo. Seu pai estava sentado em frente a televisão e sequer olhava
para o rapaz, mas seguramente ouvia a conversa atentamente. Ele também ouviu quando Biju latiu naquele momento.
- Ai! - Julia levantou segurando um dos dedos que sangrava.
- O Biju me mordeu. - disse ela espantada com a atitude do cão. - Tem curativo aí, mãe?
- Tem sim. Deixe-me ver. - Dona Olga segurou o dedo de Julia analisando-o. - Não
foi nada grave, praticamente um arranhão. Ele está estranhando nosso novo visitante e descontou em você Julia.
- Cachorro estúpido. - disse Julia enquanto ia pro banheiro fazer um curativo.
- Desculpe, Willian. – a mãe levantou-se sorrindo. – Ele nunca foi muito certo da cabeça, e com o estresse dos últimos tempos aqui em casa.
- Tudo bem senhora, eu entendo. Vai ver ele tava com fome. -brincou.
Naquela noite, Willian despediu-se de Julia no portão e foi pra casa. Julia foi pra cama pensando em como estava feliz em conseguir voltar a viver novamente.
Dona Olga, após ter uma forte discussão com seu marido a respeito da filha, deitou-se na cama e pôs-se a dormir. Acordou no meio da noite pensando ter ouvido latido de Biju na cozinha. Não era incomum que biju latisse na madrugada, mas aproveitou a sede para descer as escadas e tomar um copo de leite. Descendo as escadas, dona Olga não ouvia mais barulho algum e então começou a chamar por Biju. Mas Biju não aparecia. Chegou na cozinha e ali percebeu porque da desobediencia de Biju. Estava no chão, estirando, com o pescoço virado pra trás e quase vinte centimentros de lingua pra fora da boca. Estava morto, isso não havia dúvida. Sentada na cadeira da cozinha com a cabeça baixa e chorando muito, estava Julia.
- O que aconteceu aqui, Julia?
Julia não respondia. Apenas chorava. Dona Olga então verificou portas e janelas rapidamente. Tudo em ordem como sempre.
- O que você fez menina?
Julia apenas chorava.
- Sobe pro teu quarto agora. Vou dar um jeito nisso. Sobe. Antes que seu pai veja isso. Ele seria capaz de te espancar até te desacordar menina.
Julia subiu sem falar nada. Trancou-se no quarto até a tarde seguinte. Dona Olga colocou Biju na rua para poder dizer a seu marido que ele havia escapado e teria sido morto por algum vândalo. Foi o que aconteceu. Biju foi enterrado no terreno desocupado ao lado de sua casa.
Quando Willian veio pegá-la para ir ao cinema no fim da tarde, o clima não estava lá essas coisas na casa de Julia. Apesar disso, foram a pé até o cinema da cidade e lá deram boas risadas do filme em cartaz.
Voltaram pra casa e Willian insistiu para que fizessem algo diferente naquela noite. Queria que entrassem e fossem para a dependência de empregadas no andar de baixo da casa. Julia e Willian já tinham feito muitas aventuras amorosas em vário locais perigosos, mas ali seria realmente um desafio. Ainda não haviam tido uma noite plena de amor, mas tudo indicava que havia chegado a hora. Julia relutou por algum tempo, mas acabou concordando desde que fossem muito breves. Willian nem esperou entrarem no quarto, e já no corredor começaram com amassos e beijos entusiasmados. Entraram no quarto e deitaram na cama. Foi quando Julia sugeriu que parassem. Não queria que fosse daquele jeito, ali naquele local. Como toda menina, ainda tinha suas fantasias de fazer daquele momento uma lembrança especial.
Willian tentou argumentar bastante, mas Julia estava irredutível. Era mesmo pra ser especial aquele momento.
Estaria tudo correndo bem, não fosse pelo rotineiro copo de leite de dona Olga que, já na cozinha e com a porta da geladeira aberta, ouvia os barulhos que vinha do quarto de empregadas ao lado da cozinha.
Estava tão tomada de preguiça naquela noite que tentou convencer-se de que eram os ratos que há muito tempo dividiam a casa com eles. Ela só queria um copo de leite e voltar a deitar. Mas os barulhos que se seguiram acordaram até o pai de Julia no andar de cima. Barulhos fortes, como se quebrassem coisas lá dentro. Dona olga correu até a porta do quarto de empregadas e forçou abri-la. Estava trancada. O pai de Julia desceu as escadas e juntou-se a mãe na tentativa de abrir a porta. Subiu até o quarto novamente enquanto sua mãe verificava o quarto de Julia, obviamente sem encontrá-la. O pai de Julia voltou com uma pistola automática em uma das mãos e dona olga descia ao lado dele.
- Calma, querido. Pode ser a Julia. - disse ela assustada.
- Se não for, vou descarregar essa arma, seja quem for.
Chegaram a beira da porta. Desta vez a porta estava entreaberta. Eles abriram a porta lentamente e viram Julia, semi nua, em cima da cama, olhando para o nada.
- Julia, o que aconteceu minha filha? - disse dona Olga abraçando-a enquanto sentava na cama.
- Mas que diabos é isso? - espantou-se o pai de Julia ao chegar mais a frente, acendendo a vela que ficava na prateleira já que não havia lampada no quarto.
Willian estava ali caído no chão, como o pescoço virado pra trás e quase vinte centímentros de lingua pra fora da boca. O pai de Julia acendou mais duas velas e as colocou lado a lado para observar melhor aquela cena bizarra. Dona Olga começou a chorar desesperadamente, pois não era a primeira vez que via algo do tipo.
- O que você tem minha filha? O que você fez. Por que isso tá acontecendo com você. Nós vamos te ajudar Julia.
Então dona Olga contou ao seu marido o ocorrido com o cachorro. Ele ficou perplexo e não sabia o que fazer. Mas sabia que mais cedo ou mais tarde teria que chamar a polícia.
- Tentativa de estupro! É isso. É isso que vamos dizer a polícia. - disse ele em voz alta e ficando cada vez mais furioso com a situação.
- Isso, filha. Fica calma. Ele tentou te machucar? - disse a mãe.
- Não, mãe. Eu não sei. Eu não fiz nada. - dizia Julia confusa.
- Olga! Vá chamar a polícia enquanto converso com Júlia – O que aconteceu aqui menina, diga pra mim! Diga ou vou te partir a cara ao meio, sua vagabunda pirada do
inferno!
E seguiram alguns bofetões de seu pai até que Júlia falasse algo.
- Para pai, pelo amor de Deus! Para!
Dona Olga havia chamado a polícia e chegou ao quarto com dois copos de agua com açúcar para acalmar os animos. Mas ambos os copos caíram de suas mãos na porta do quarto. Júlia estava sentanda na cama, e seu pai estava sentado no canto do quarto, com suas duas mãos no próprio pescoço, sem ar, ao lado do corpo de Willian. Ele parecia não conseguir respirar e sua lingua saía da boca cada vez mais. Ele olhava pra Julia, com os olhos vermelhos-sangue, como se pedisse ajuda. Julia apenas chorava. Chorava muito. Ele se contorcia muito, como se fosse um boneco de borracha, até que, de uma só vez e muito bruscamente, seu pescoço virou-se completamente ao contrário, dando fim a sua agonia.
- Meu Deus! O que você fez menina! O que você fez! - disse dona Olga sacudindo a garota – O que é você? O demônio?
- Mãe... - disse Julia olhando fixamente para a parede as costas de dona Olga.
Dona Olga virou-se devagar e o vento começou a entrar pela porta. Não ventava naquela noite, exceto ali, dentro do quarto. As chamas das velas na prateleira acima dos corpos começavam a se mover freneticamente, e pareceram adquirir vida própria antes de começarem a desenhar formas negras na parede branca.
- “Jamais te .........- demorou um pouco a completar a frase-.....deixarei.” - e completou-se – “Sinto sua falta”.
- Sangue de Jesus! – gritava a mãe que há muito não ia na igreja, levantando-se para fazer o sinal da cruz.
- É ele, mãe. Ele prometeu nunca me abandonar. Ele cumpriu. Ele só queria me proteger. - disse ela abaixando-se para pegar a pistola do pai, caída ao lado da cama. - agora é minha vez de retribuir e selar nosso amor.
Colocou a arma na boca e antes que sua mãe conseguisse reagir, apertou o gatilho, caindo pra tras, ensopando os travesseiros de sangue e algumas partes de seu cérebro.
Ainda hoje, os novos proprietários da casa afirmam ouvir de tempos em tempos, barulhos estranhos na dependencia de empregada.
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Atualizado em: Qui 9 Abr 2020

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