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CAPÍTULO X

Diablo recuou um passo ao ver que a mulher se aproximara, dando apenas um passo.
Ela sabia bem quem era aquela mulher — ou melhor, aquele demônio. A mulher tinha feições muito próximas às suas; aos olhos dos humanos, elas poderiam ser irmãs. Não que elas não tivessem um parentesco, pelo contrário. Elas tinham. Mas não eram irmãs. Eram mãe e filha.
— Como você cresceu. — a mulher comentou com a voz levemente amorosa.
— Eu não mudei nada. — Diablo retrucou rispidamente.
A mulher deu um sorriso gentil para ela, exibindo um pouco dos dentes brancos imaculados.
— Não exatamente... — ela disse calmamente. — É incrível como os filhos sempre discordam das mães. Ah, querida Lilim, você mudou tanto...
— Não está se referindo à minha aparência — Diablo disse com o canto direito da boca repuxado para cima, num sorriso debochado. — e sim aos meus atos. Que novidade.
— Sua percepção é ótima. — a mulher disse, aproximando-se de Diablo com mais um passo. — Não tanto quanto deveria ser, se continuasse a morar conosco em Infernus... Mas creio que dessa maneira está bom.
— Vá direto ao assunto, Lilith. — Diablo disse rapidamente. — O que você quer?
O sorriso da mulher desapareceu.

— Seu pai aplicou a competição por sua cabeça a todos. — a mulher disse. — Até mesmo para os seus familiares. Oh meu bem, acredite em mim, dói muito ter de matar você, pois você sempre foi meu anjinho... Mas quinhentos corpos? Oh, quinhentos corpos é muita coisa! Acho até generosidade o suficiente da parte do seu pai; e vamos combinar: generosidade da parte dele é quase que um milagre. — ela levou a mão até os lábios e um risinho fino escapou pelos mesmos.
— Quer dizer que você entrou na caçada também? — Diablo estreitou os olhos na direção da mãe. — Como se já não bastasse às crianças e bebês que você mata e atormenta! Agora quer mais quinhentos corpos de pessoas inocentes?
— Quem disse que são inocentes? — outro riso fino escapou dos lábios dela. Lilith era delicada, sutil. Algo que ninguém esperava dela, logo dela, a súcubo que matava crianças e bebês para se alimentar, e atormentava mulheres em sua gestação. — Lúcifer sabe ser bem generoso, minha querida. Ele vai pegar os mais pecadores... Caso contrário, os anjos cairão em cima dele. Creio que ele vá fazer a limpa no presídio mais próximo... — a mulher disse com indiferença. — Ou em qualquer outro lugar com um grande número de assassinos ou estupradores. 
— Como aquele demônio de Malphas?
As duas sobrancelhas castanhas de Lilith se arquearam, fingindo confusão.
— Não sei do que você está falando. 
Diablo segurou-se para não avançar no pescoço da própria mãe.
— Ah, não sabe? — ela disse com ironia. — Aquele demônio de Malphas que fugiu do Inferno, migrando para a Terra para estuprar e matar adolescentes que não tem nada a ver com os problemas infernais. Eu não fiz questão de pesquisar essa parte, mas creio que elas eram totalmente comprometidas com Deus, sabia disso? Evangélicas, católicas, crentes... Ou até aspirantes de freiras! — Diablo soltou tudo com fúria. — E ele não vai parar. O que acha de falar para o papai para ele pegar alguns de seus demônios para oferecer poder espiritual?
Os olhos castanhos de Lilith se estreitaram na direção dela. O canto esquerdo dos seus lábios levemente pintados de vermelho se repuxou para cima, demonstrando a raiva que sentia naquele momento. Diablo viu as longas e grandes asas negras de morcego se abrir nas costas de Lilith. Os olhos dela se avermelharam e chifres negros saíram de sua cabeça. Sua pele ficou mais pálida e o branco de seus olhos começou a ficar negro.
Ok, Diablo pensou, isso significa “fim de conversa” e um “você está de castigo”.
— Corra Lilim — Lilith disse, com a voz deformada e com um ar demoníaco; era o tipo de voz que arrepiava até o último pêlo do corpo. — Mas corra muito. Por que quando eu te alcançar...
Diablo não esperou que Lilith terminasse de falar. Que fosse para o inferno sua honra, mas ficar e apanhar da própria mãe era o fim. Ainda ser morta! Que mãe desnaturada, ela pensou. Usou seus poderes de demônio e em menos de um minuto, já tinha atravessado mais de quinze ruas após aquela.
Não se importava com que os humanos a vissem. Ela faria a covarde por uns minutos, correria e assim, arrastaria a própria mãe para um local afastado onde ela não poderia machucar ninguém. Assim, ela daria um fim ou apenas espantava Lilith.
Atreveu-se a olhar para trás. Por sorte, não vira ninguém. Não na estrada. Olhou para cima e viu, lá no alto, a mulher pálida com as vestes negras e rasgadas, com longas asas de morcego. Os cabelos, naquele momento de um louro tão claro que era quase branco, esvoaçavam-se com o vento. Ela não conseguia enxergar direito as feições da mulher, mas poderia dizer que a coisa estava realmente feia. Pois quando Lilith completava sua transformação, ela não se transformava naquela coisa simplesmente linda e irresistível que todos pensavam. Ela se transformava num verdadeiro demônio feminino com asas.
Diablo não demorou a parar próximo a um galpão abandonado, nos limites da cidade. Chutou a porta de madeira com força, quebrando parte dela e passando pela parte quebrada. O galpão estava abandonado fazia, obviamente, alguns bons anos. As janelas eram extensas e em sua maioria, estavam quebradas. Por algumas, a luz da lua passava e batia no chão de madeira gasta. 
Diablo atravessou o galpão, ouvindo seus pés baterem contra a madeira e causando um ruído alto. Algumas partes do piso de madeira se rachavam, quebravam, ou coisa parecida. Ela enfiou a mão no bolso do capote e pegou a pistola. Carregou-a com as balas com água benta, e logo sacou palitos de fósforo. Seu isqueiro estava detonado, então teria de usar aquilo mesmo.
Estranhamente, suas mãos tremiam. É claro que ela estava com medo de Lilith; sua mãe era poderosa. Uma das mais poderosas demônios fêmea. Era digna de ser esposa de Lúcifer, embora outros acreditavam que ela merecia algo muito melhor.
As portas de madeira se quebraram totalmente com a entrada da mulher. Ela estava vários centímetros maior do que antes. Sua boca estava alargada e seus dentes longos e afiados. Um sorriso maléfico tomava conta de seu rosto. Seus olhos estavam de um vermelho puro, e o branco de seus olhos estava virado em um breu total. Seus cabelos estavam mais claros do que Diablo havia visto antes e os chifres negros que saíam do meio de seus cabelos louros claros faziam contraste com os mesmos.
Diablo sacou a arma rapidamente e apontou para ela. Uma gargalhada distorcida saiu de sua boca e ela bateu com as asas rapidamente. Diablo piscou e a mulher saiu de sua vista. Ela arregalou os olhos e olhou para todos os lados. Mas, como sempre, não para cima.
Por sorte, Diablo jogou-se no chão, rolando para o lado. Se não tivesse feito isso, Lilith iria pular bem em cima dela e cravar aquelas unhas de oito centímetros na sua pele. Lilith cravou as unhas na madeira e as tirou rapidamente, quase que tirando o piso ao redor inteiro conforme a força que ela usara. Diablo segurou a arma com força e apontou para a demônio. Mas no momento que atirou, ela desviou e bateu na parede.
— Droga. — Diablo resmungou baixo.
Diablo se levantou rapidamente e correu para o lado do galpão. Podia sentir Lilith voando logo atrás dela. Sem olhar para trás, simplesmente jogou a mão para trás e atirou. Torceu para que ouvisse o grito agudo de sua mãe, mas apenas pode ouvir a bala atingir as paredes do galpão e uma janela.
Lilith aproximou-se de maneira perigosa de Diablo; suas unhas longas pegaram na sua perna e ela fez com que Diablo tropeçasse e caísse no chão. Sua arma voou quase dois metros longe do local onde ela caíra. Lilith parou em cima dela, com uma das mãos em seu pescoço, segurando-a com força. 
Diablo quase engasgou. Em seguida, tateou com a mão direita, a procura de algo que poderia atacar Lilith. Seus dedos tocaram num pedaço de madeira, e logo a idéia surgiu. 
— Esse é o seu fim. — Lilith sibilou. — Até a próxima vida, Lilim.
Um sorriso malicioso apareceu no rosto de Diablo.
— Não — ela disse com a voz fraca e rouca devido ao apertão que Lilith dava no seu pescoço. —, esse é o seu fim.
Ela arrancou rapidamente a madeira e levou até o peito de Lilith. A madeira era grossa, porém fraca. Parte dela atravessou o peito de Lilith e a outra parte caiu no chão. Lilith soltou um grito agudo e jogou-se para trás, com as mãos no local atingido. Assim, ela acabou soltando Diablo, que aproveitou o momento e correu até a arma. Sacou a mesma e logo se virou para Lilith, que tirava a madeira presa em seu peito.
Ela se aproximou, mas em uma distância segura. Apontou a arma para o meio da testa de Lilith. A demônio, ao perceber aquilo, levantou os olhos vermelhos para a filha.
— Lilim... Tenha piedade — ela disse com a voz fraca. — Eu sou sua mãe.
Um sorriso debochado brotou nos lábios de Diablo e ela disse com doçura:
— Foda-se.
Ela puxou o gatilho e atirou. A bala atingiu com tudo o meio da testa de Lilith e a cabeça se explodiu no mais negro sangue de todos. O sangue jorrou para todos os lados. Diablo colocou o braço na frente dos olhos para se proteger. Ao tirar, ela olhou para o corpo no chão. Lilith voltara a ser como antes em questão de segundos; a pele branca, os cabelos castanhos e os olhos igualmente castanhos. Porém, suas vestes continuavam negras e rasgadas e agora, um furo estava instalado no meio de sua testa, com o sangue negro vazando pelo rosto e caindo no piso de madeira.
Diablo se aproximou da mulher e agachou-se ao lado dela, colocando a arma no bolso do capote. Passou os dedos suavemente entre os olhos da mulher, fechando os mesmos. 
— Descanse em paz no inferno, minha mãe. — ela disse com indiferença. Levantou-se e pegou um pequeno vidrinho no bolso do capote. Abriu o mesmo e jogou o líquido no corpo da demônio. Era água benta. Em seguida, ela pegou a caixa de fósforo e riscou um palito. Imediatamente pegou fogo. Ela jogou sobre o corpo e ele no mesmo instante, pegou fogo, com a fumaça negra e fedorenta tomando conta do recinto.
Diablo saiu rapidamente do galpão, ao ver que o fogo do fósforo começara a atingir o piso de madeira. Quando se afastou, ficando em uma distância segura do local, viu que o galpão começara a pegar total fogo. A fumaça que saía era cinza misturada com a fumaça negra do corpo da súcubo. Ela deu uma última olhada para o galpão e, por fim, deu as costas e foi embora, voltando para a cidade.

Ela esperava, sinceramente, que o cheiro de enxofre não invadisse suas narinas tão cedo.

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Atualizado em: Sex 25 Fev 2011

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