person_outline



search

CAPÍTULO XII

HGH

CAPÍTULO XII

 

— Eu ainda não acredito que ela fez aquilo.
Sehedin olhou para o irmão louro de olhos verdes. O rapaz estava encostado na parede, olhando para a extensa janela de vidro do castelo de Lúcifer. Sehedin suspirou, cansado.
— Conforme-se — Sehedin disse com calma. —, ela fez.
Roudin olhou para ele, com os olhos verdes opacos contorcidos de dor.
— Ela era nossa mãe — Roudin disse com a voz rouca e fraca. — Ela era a maior vadia da história, uma das piores súcubos, dos piores demônios... Mas. Ela. Era. A. Maldita. Da. Nossa. Mãe. Ela não devia ter feito aquilo.
Em ela, eles referiam-se a Diablo. Seu nome — Lilim, sendo esse seu original — se tornara proibido nos domínios de Lúcifer desde que Roudin voltara para casa com sua resposta negativa de retorno. Por mais que ela seja filha legítima de Lúcifer, ele proibiu que seu nome fosse pronunciado sob seus domínios. Disse também que não aceitaria vê-la atravessar por aquela imensa porta de entrada do castelo, ao menos que estivesse morta e entre os dentes de um Chimera, ou nas mãos de um de seus demônios.
Declarara também, no mesmo dia, que daria quinhentos corpos para aquele que trouxesse a cabeça dela para ele. Lilith, no começo, protestou, justamente por ser sua filha e sua preferida; entretanto, tamanha generosidade da parte do marido acabou atiçando-a para também participar da temporada de Caça à Lilim/Diablo. Infelizmente, quem acabou morta e queimada fora Lilith, e não sua filha.

--------------------------------------------------

Quem fora confirmar sua morte fora Aurius, o mensageiro e protetor de Lúcifer. O mesmo fora mandado ir procurar Lilith e a encontrou no galpão em chamas — mas já era tarde demais. Todavia, em meio às chamas, ele conseguiu reconhecer o rosto dela. E quem não reconheceria? Um belo rosto como aquele, de uma beleza esplêndida e extraordinária. Um rosto pelo qual vários demônios já se tentaram e vários humanos já tiveram em seus sonhos.
Sehedin suspirou ao lembrar-se dos acontecimentos dos últimos dias. Estava preocupado com Diablo, não podia negar. Afinal, era sua irmã — sua família. Ele a adorava, e não queria que ela se machucasse.
Ele olhou para o lado. O castelo inteiro estava de luto por Lilith. Algumas Alrunes de Lilith — ou seja, suas filhas, vindas de outros casos com outros demônios — estavam lá, chorando juntas e compartilhando a perdão da tão amada mãe. Todas elas eram bonitas, mas sua beleza era incomparável com a de Diablo e da própria Lilith.
— Há quanto tempo ele está lá?
Sehedin olhou para frente. Uma Alrune, conhecida como Isis, estava na sua frente. Trajava um vestido negro de alças, com os braços pálidos totalmente descobertos e mostrando a pequena tatuagem de uma rosa cheia de espinhos que tinha no braço esquerdo. Seus olhos estavam um pouco avermelhados. Dentre as Alrunes, Isis era a mais bela delas. Tinha cabelos castanho-avermelhados ondulados e olhos azuis safira belíssimos. Era filha do caso de Lilith com Scox, o Duque do Inferno, conhecido pela sua fama de ser mentiroso e ladrão. Por algum milagre, Isis não adotara esses aspectos do pai que mal lhe dava atenção, ou sequer sabia de sua existência.

Sehedin percebera que Isis se referia a Lúcifer. O mesmo estava na sala principal fazia algum tempo.
— Há algum tempo... — ele disse com indiferença. O silêncio instalou-se entre os dois.
— Inacreditável, não? — Isis disse, abraçando-se, espantando o estranho frio que invadia aqueles corredores do castelo. — Logo ela, que se dizia ser imortal e invencível... E acaba morrendo de uma maneira ridícula.
— Você nem sabe como ela morreu.
— Obviamente, foi de uma maneira ridícula. E ela foi queimada, afinal de contas. — Isis deu de ombros. — Sabe, eu estou surpresa com a capacidade dela. Não que eu não duvidasse... Ela nunca foi fraca, e sempre foi determinada. Mas fico imaginando se ela está arrependida.
— Ela odiava Lilith. — Sehedin disse com calma. — Sempre odiou. Quero dizer, ela odiava isso tudo e fazia questão de não esconder isso de ninguém. Acredite, ela pode estar bem, ruim, feliz, triste... O que for. Mas arrependida ou com peso na consciência? Ah, não... De maneira alguma. Deve estar até mais radiante do que nunca. Eu conheço a irmã que tenho.
— Ou que tinha.
Sehedin estreitou os olhos para Isis. Ela se encolheu.
— Ora, me desculpe. Não pude evitar. — disse com calma e sinceridade. — Mas quem garante que ela estará viva nos próximos dias? Metade do Inferno ou até mais do que isso está atrás dela. Um pequeno descuido e a cabeça dela será servida em uma bandeja de prata para Lúcifer. Olha, eu a adoro mesmo. Mas estou apenas lhe contando uma realidade, Sehedin.
Sehedin suspirou.



— Como eu disse — ele falou. —, eu conheço a irmã que tenho. E sei que ela não vai se descuidar. Ela sabe se cuidar e muito bem, se quer saber, Isis.
A Alrune se encolheu. Olhou para o meio-irmão e disse:
— Me desculpe.
Os ombros de Sehedin relaxaram. Isis era um doce, um total contrário de Scox ou Lilith. Ele estendeu os braços para ela, e sem demora, ela o abraçou. Ele a envolveu num abraço confortável. Os dois amavam Diablo de coração. Os dois estavam aflitos por ela. E os dois estavam compartilhando sua aflição por ela.
O silêncio caiu sobre os dois novamente durante alguns segundos. Os braços de Sehedin estavam firmes ao redor de Isis e seu queixo estava apoiado sobre o topo da cabeça da mesma. O “momento” dos dois não durou muito; logo fora interrompido pelo berro de Lúcifer, vindo da sala principal do castelo.
— Eu não admito isso! — o berrou do Príncipe do Inferno fez com que todos dessem um pulo, assustados. — Aurius! Espalhe por todo inferno: mil corpos por ela. Aumentarei a oferta... Mas dessa vez quero que a traga viva para mim! Assim eu a matarei, e com muito gosto!

 
Sehedin sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao ouvir aquilo. Lúcifer a mataria com as próprias mãos caso a trouxesse e até ele — e, acredite, a sua morte não seria rápida nem indolor. Por que ele mesmo não a procura?, Ele pensou, há dias atrás quando declarou por iniciada a Temporada de Caça à Lilim/Diablo. Ele não conseguiu chegar a qualquer outra conclusão que não fosse a que Lúcifer ainda se importava com ela; que ainda nutria sentimentos paternos em relação a ela.

Entretanto, ele não conseguiu captar resquício algum de dor ou tristeza em suas palavras, berradas agora há pouco. Ele só captara raiva.
A mais pura raiva.
Ele olhou para Isis, que o olhava aflito com as duas grandes e belas safiras que ela tinha. Ela mordia o lábio inferior e seu cenho estava franzido. Sua expressão era de uma mulher assustada. Sehedin teve certeza de uma coisa naquele momento:
Os dois estavam rezando... Apenas rezando para que Diablo ficasse bem a partir daquele momento.

--------


A parede da janela do quarto estava destruída. Cinco corpos de demônios jaziam inconscientes no chão. Era só questão de tempo até que a bala de água benta perdesse seu efeito e os fizesse abrir os olhos novamente.
Diablo riscou o palito de fósforo. Uma pequena faísca saiu e em seguida, veio uma chama. Diablo jogou sobre os dois corpos que estavam amontoados no chão. Ela pegou os outros três que estavam jogados por lá e os colocou em cima dos dois corpos em chamas. Eles pegaram fogo no mesmo instante.
Ela pegou apenas o necessário; balas com água benta, pistola e duas novas caixas de fósforo. Enfiou tudo no bolso interno do capote e foi até a beirada da nova “varanda” do quarto. Eram três andares. Ela deu de ombros e pulou, sabendo que não se machucaria.
Pular de lá lhe deu acesso a rua. Ela deu uma última olhada para o quarto surrado do hotel; ele estava quase inteiro pegando fogo. Não demoraria até que alguém ligasse para os bombeiros.
Suspirou, resignada. O único local protegido para que ela pudesse ficar havia sido destruído. Procurar outro estava fora de questão; até lá, ela já teria virado o lanche da meia-noite de vários demônios. Agora, precisava encontrar um local já protegido pela Vela de Deus, e que fosse de algum conhecido que a convidasse para entrar em seu lar — afinal, ela era apenas metade súcubo. Ela não tinha todos os poderes das súcubos e, entrar em uma casa sem permissão não se encontrava nos poderes que ela tinha.

Agora, eis a questão: quem? Eloistier vivia mudando de residência, e quando soubesse do que acontecera, a chamaria de tudo quanto era nome, indo de irresponsável para cima — e a última coisa que Diablo queria naquele momento era um sermão de Eloi.
Pedir ajuda a Legna também não adiantaria, pois a mesma estava, digamos, “cabreira” com Diablo por ela ter matado a própria mãe. Aliás, ela não tinha residência na Terra. Mas, afinal, o que ela tinha a ver com isso?, Diablo se perguntou, referindo-se a Lilith. Não entendia o surto de Legna. E nem queria entender.
Diablo virou uma esquina, cujas luzes estavam fracas. Ela fez uma força desumana para não revirar os olhos. Mais demônios?, ela se perguntou. Ela estava de saco cheio, devia admitir, mas não poderia abandonar aquele... Ramo. Naquele momento, ela só queria se jogar numa cama e esquecer do mundo por algumas horas... Dormindo, e não usando seus poderes de súcubo.
Quando ela ia chegar perto do meio fio da outra rua, sentiu uma mão pegando no seu braço e puxando-a para o lado. Ela cambaleou e encontrou-se num beco escuro. Ia dar um belo berro para o demônio ou humano que estivesse fazendo isso, mas sua boca fora tampada. Ela se debateu nos braços da coisa que a segurava.
— Ei... Ei! Calma! — ouviu a voz masculina familiar. — Ah, que inferno Diablo, acalme-se!
Ela olhou atenta para o rosto da pessoa pela primeira vez. Os olhos negros e sem brilho algum a relaxaram. Ela relaxou os ombros e parou de se debater. Era Sehedin. Ele tirou a mão da sua boca e ela deu um meio sorriso.

— Eu poderia lhe enfiar a mão no meio das suas fuças por isso, Sehedin — ela disse com falsa doçura. —, mas acho melhor deixar para mais tarde.
— É — ele disse, mas sem sorrir. — Escute, eu tenho algo importante para lhe dizer.
— Nós temos.
Diablo olhou para o lado dele e viu a garota de cabelos castanho-avermelhados e olhos azuis para ao seu lado, se abraçando para se proteger do evidente frio que fazia naquela noite. Diablo arqueou uma sobrancelha.
— Isis?
A Alrune sorriu.
— Há quanto tempo.
Diablo retribuiu o sorriso, mas não se mexeu para abraçá-la ou qualquer coisa do tipo. Ela olhou novamente para Sehedin, que tinha um semblante sério no rosto.
— Escute — Sehedin disse e colocou as mãos nos seus ombros. — Lúcifer aumentou a proposta.
— Para quantos?
— Mil corpos — Isis disse, aproximando-se dos dois. — Mas disse que quer você viva. Diz ele que quer fazer justiça com as próprias mãos.
Diablo não pode evitar em arregalar os olhos.
— Mil corpos? Mil corpos?! Ele enlouqueceu!
— A proposta apenas aumentou com a morte de Lilith — Sehedin disse. Diablo procurou algum pingo de raiva ou amargura em suas palavras, mas não as encontrou. Nada. Ele disse de maneira totalmente calma, como se estivesse mais aliviado em falar aquilo para ela. — Ele ficou realmente puto da vida com a morte dela.
— Ela veio atrás de mim — Diablo disse, com indiferença. — e ela não tinha intenção de me convencer a voltar para casa. Ela queria me matar. Eu fui obrigada a matá-la para sobreviver e... — ela parou ao ver o rosto de Sehedin. — Que cara é essa?
— Nós... — Isis começou, ficando pálida. — Não sabíamos que Lilith tinha ido atrás de você. Ela disse que tinha coisas a resolver na Terra, mas... — ela engoliu a seco. — Não sabíamos disso.

— Todos no castelo estão lhe julgando por ter matado ela por livre e espontânea vontade. As Alrunes estão enlouquecidas de raiva. 
Diablo franziu o cenho.
— E Roudin?
Sehedin mordeu o lábio inferior.
— Ele... Ele está inconsolável — disse com hesitação. — Não acredita que você foi capaz de fazer isso. 
— Ela era a maior vagabunda de todas. Todos sabiam disso. — Isis disse. — Mas... Ela era nossa mãe. Também fiquei triste no começo... Mas superei. Entretanto... Outras não superaram. Algumas Alrunes estão loucas da vida com você. Elas querem tanto a sua cabeça quanto Lúcifer quer.
— Eu não pude evitar — Diablo disse com calma. — Eu precisava me proteger... — ela franziu o cenho mais ainda. — Droga. Eu decepcionei Roudin mesmo, não é?
— Pra caramba.
Ela se encolheu.
— Não me importo com as Alrunes. Nenhuma delas, para ser sincera — ela olhou para Isis, como se pedisse desculpas. Ela deu de ombros, sem dar importância para o que a súcubo havia dito. — Mas me importo com você e Roudin. Eu queria poder me desculpar com ele... Eu...
— Eu sei. — Sehedin disse.
— Nós sabemos — Isis acentuou.
Diablo olhou para ela e depois olhou para Sehedin.
— Vocês estão, tipo o quê, juntos? — ela perguntou rapidamente. Sehedin olhou incrédulo para ela.
— É claro que não — Isis respondeu com calma, antes que Sehedin falasse alguma coisa. — Ele é meu meio irmão, Lilim.
— Diablo — ela corrigiu, estreitando um pouco os olhos para a Alrune ruiva. — Além do mais, Sehedin também era meio irmão de Sulpicia, mas isso não o impediu de dar uns pegas com ela no quarto no final do corredor do terceiro andar — havia certo sarcasmo em suas palavras. Sehedin passou de branco para vermelho.

Isis olhou para ele com curiosidade.
— Ah, é?
Diablo revirou os olhos.
— Vão para um quarto, por favor.
Sehedin suspirou.
— Eu trato Isis com uma irmã para mim...
— ... Que você queria transar... — interrompeu.
— ... E só vim aqui para lhe alertar — ele disse com a voz pouco irritada. — Por favor, Diablo, tome cuidado. Agora mesmo vão chover demônios atrás de você. Mil corpos é um preço muito alto. — sua voz passou de irritada para tensa. — Aliás... Quero saber o que você está fazendo fora do seu quarto de hotel. 
Ela se encolheu um pouco.
— Eu tinha uma Vela de Deus. Pedi para Legna fazê-la logo depois que você foi embora. — disse com calma. — Mas ela se apagou.
— Se apagou? Uma Vela de Deus?! — Sehedin quase gritou. 
— Por causa da morte de Lilith. — explicou.
— Então... — Isis começou a falar, mas logo Diablo a interrompeu:
— É. — ela olhou para Isis. — Eu estou sem proteção alguma. Preciso de algum lugar para ficar, onde tenha proteção. Mas a questão é: onde?
Os olhos azuis de Isis brilharam.
— Uma igreja. 
Diablo riu com sarcasmo.
— Ah, claro. Vou queimar se ficar tempo demais lá dentro. É um local sagrado. — ela disse. — Não tenho permissão para ficar.
— É só pedir.
Diablo estreitou os olhos para ela.
— Não irei pedir. Quero um local onde eu possa guardar minhas coisas, minhas armas e principalmente procurar poder com... — ela se calou no mesmo momento. Sehedin a olhou com um ponto de interrogação na testa. Mas depois, cruzou os braços e encostou-se na parede.
— Eu posso fazer uma pra você.
— Você  o quê?

— Eu aprendi a fazer uma — Sehedin explicou. — Aconteceu algo entre... Bem... Eu e uma... Anjo. — ele falou, ficando roxo de vergonha. — Ela me ensinou a fazer. Disse que era bom para proteger locais especiais... Mas que se apagava quando decepcionávamos Deus. Ou se perdêssemos nossa fé.
— Sim. — Diablo falou, sentindo o ponto de interrogação crescer em sua própria testa.
— E então... Bem, ela me ensinou.
— Não foi aquela que Lúcifer mandou destruir quando... — Isis parou de falar ao ver os olhos negros de Sehedin faiscando para ela. 
— Era. — ele disse, por fim. — Seu nome era Aurora.
Diablo lembrou-se rapidamente dela. Aurora procurava por demônios e os destruíra — mas quando ela tombou com Sehedin, que estava zanzando por um país qualquer, foi amor a primeira vista. Lembrava-se que ainda estava no Inferno quando Sehedin a conheceu. Ele sentiu o ar angelical vindo dela, mas não conseguiu se afastar. Ele a descreveu para Diablo totalmente; olhos azuis como o céu, cabelos longos, lisos e louros, belos lábios, um corpo magro e pequeno...
Eles viveram tempos e tempos de amor. Até Lúcifer ter conhecimento de Aurora. Mandou um de seus demônios de suas legiões matá-la quando descobriu; o demônio a destruiu e alimentou-se de seu poder espiritual, fazendo com que ela não pudesse mais voltar. Quando Sehedin foi encontrá-la, ela estava com seu corpo no chão, branco e pálido e se desfazendo aos poucos, largada no chão daquele quarto de hotel luxuoso onde sempre se encontravam.

Sehedin nunca perdoou Lúcifer por isso. O trata como pai, mas mesmo assim, ainda tem grande ressentimento e rancor por isso. Roudin o ver acreditar que aquilo era o melhor para ele; o fato de perder Aurora era doloroso, sim. Mas ele superaria, e até agradeceria a Lúcifer mais tarde. Entretanto, Sehedin não agradece. Superou, sim. Mas não consegue perdoá-lo por isso. Quando está sob o mesmo teto, age com indiferença, para não demonstrar toda raiva e rancor que sentia em relação ao padrasto.
— Então — Diablo disse, olhando para os próprios pés. — Você pode me ajudar, não pode? Só precisamos ir até o hotel mais próximo para fazermos o ritual e...
O cheiro forte de enxofre invadiu as narinas dos três. Eles prenderam o ar no mesmo instante, e seus peitos estufaram por alguns segundos. Eles se olharam, com os olhos arregalados. Sehedin olhou para o lado discretamente, e depois, sussurrou para Isis e Diablo:
— Corram. — ele disse. — Mas corram muito.
Diablo se atreveu a olhar para o lado, e logo se arrependeu.
No meio da rua, olhando para eles, encontrava-se a maior Chimera que ela já tinha visto. Tinha três cabeças, sendo elas uma de bofe, uma de leão e uma de dragão. A parte da frente do corpo tinham duas grandes patas de leão em cor levemente dourada, e a parte de trás — sendo seu tronco e as patas traseiras — era de um corpo de um bode. Onde deveria estar o seu rabo, estava uma cauda de serpente cor areia. No tronco, um par de asas grandes e avermelhadas de um dragão se encontravam.
A espinha de Diablo gelou. Costumava lutar contra Chimeras onde havia apenas uma cabeça — ou que sofriam algumas mutações, como por exemplo, uma que enfrentara há um tempo atrás; cabeça de leão, corpo de bode com as duas patas dianteiras de leão e cinco cobras arroxeadas tentando picá-la o tempo todo saindo de sua cola. Não era difícil, mas também não era fácil — o tamanho da Chimera era mediano, fácil de enfrentar. Mas aquela Chimera era gigante. Quase cinco metros de altura.
— Fo... — Diablo começou.
— ...deu. — Isis terminou.
O leão rugiu e o dragão cuspiu fogo para o céu.
— Corram! — Sehedin sibilou. — Agora.
— Mas e você?!
— Cale essa boca, e vá. Estou indo logo atrás! — Sehedin disse.
Isis puxou a mão de Diablo, mas a mesma não se moveu.
— Diablo, vamos!
— Eu não vou deixar você aqui! — ela gritou para Sehedin. — Nunca!
Sehedin olhou para ela.
— Não quero que você vire torrada! — ele gritou de volta, após o leão rugir novamente e ir à direção deles. — E é melhor nós corrermos agora.
— É, eu concordo com você. — Isis disse.
Os três não demoraram. Correram na velocidade desumana que tinham, mas mesmo assim não conseguiram despistar a Chimera. Ela passou por aquele lugar quebrando e rachando paredes e queimando tudo o que via pela frente. O chão onde as patas de leão passavam ficava marcado, por uma grande pata.
— Ele está fazendo um puto estrago! — Diablo gritou enquanto corria. — Tenho que detê-lo!

— Não pode! Já viu o tamanho daquela coisa?! — Sehedin gritou de volta. — Não vai durar um minuto! Nem tem armas apropriadas! E queimar não vai adiantar, ele é feito de fogo!
— Quem foi o idiota que criou essa merda?! — ela gritou com raiva. Atravessaram um quarteirão em menos de um minuto. Isis estava logo atrás deles, com os cabelos castanho-avermelhados esvoaçando-se. 
— Pensei que a intenção era levar Diablo viva para o Inferno — Isis disse em tom alto. — Não morta.
— Acho que Lúcifer não foi tão claro — Diablo disse com ironia. — Afinal, todos nós já estamos mortos, não é? 
— Parem — Sehedin disse e parou. Diablo e Isis pararam alguns metros a sua frente e logo voltaram para perto dele. — Acho que parou de nos seguir.
— Ou não. — Isis disse e olhou para os lados. A rua onde estavam estava completamente vazia. 
— Vão embora — Diablo disse. — Voltem para o castelo antes que Lúcifer desconfie. Agora. Vão!
— É claro que não! Precisamos lhe ajudar! — Sehedin disse indignado.
— Não precisam bosta alguma! — Diablo reclamou. — Já me deram o aviso de que Lúcifer aumentara a proposta. Não o faça aumentar novamente por dessa vez, eu e vocês dois. Eu me viro.
— É claro que n...
— Sehedin, cale a boca, por favor. — Diablo disse. — Isis, leve-o para o castelo. Vão para os seus quartos. Ajam normalmente, não deixem Lúcifer desconfiar de na...
Buuum. Uma porta de carro saiu voando pelos ares.
— Merda. — disseram em coro.
O dragão da Chimera colocara fogo em um carro cujas portas eram negras. O mesmo, é claro, não pode segurar tamanha temperatura e explodiu.
— Vão. Agora. — Diablo disse e empurrou os dois para o lado.
— Diabl...
— Vão! Que inferno! — ela olhou para Isis. — Seja útil pelo menos uma vez na vida e leve-o agora. Não o deixe voltar!
Isis assentiu com a cabeça. Sehedin iria se afastar dela, mas ela foi rápida demais e grudou em seu braço. Num piscar de olhos, eles haviam sumido. Diablo suspirou, aliviada. Ouviu de longe o rugido alto do leão. Respirou fundo e fechou os olhos. Em seguida, os abriu e viu a cauda de serpente a alguns metros da onde ela estava.
— Vem cá, gatinho... — disse com doçura e seguiu em direção até a cauda de serpente.

Pin It
Atualizado em: Seg 7 Mar 2011

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222