person_outline



search

RO-459

- Alguém me ajude !, ecoou uma voz cansada e desalentada vindo de uma profunda vala paralela à rodovia.

O local deserto, cercado de floresta nativa e fina neblina, ocultava alguém mergulhado na escuridão. A voz periodicamente insistia já esgotada e sem esperanças de que fosse localizada. A movimentação de veículos era rara, horas separavam a passagem entre um veículo e outro.

Um caminhão de carga se aproxima. Dentro dele Zé Cotovia ouvia música altíssima, cantando e seguindo a pista sinuosa. Estava exausto. A viagem para Rondônia era longa e alguns trechos esburacados e solitários poderiam assustar os desavisados, mas ele conhecia cada palmo, há anos fazia aquele mesmo caminho e gostava de seguir sozinho. Desde pequeno aprendera a se virar. A mãe lavadeira, morena e boazuda, era cortejada amplamente pela vizinhança e não se fazia de rogada. Tinha oito irmãos. Era facilmente perceptível que de pais distintos. O pai, alcoólatra, vivia metido nas mais diversas confusões e provocava outras tantas em casa. Ele gostava de Edinei, que acreditava ser seu filho, lourinho, olhos verdes, pele branca e macia. Quando a mãe Zina não estava, ele acostumava arrastar o menino para outro quarto.

Esse estilo de vida fez com que Zé Cotovia buscasse desesperadamente a liberdade. Juntava-se aos moleques de sua idade e exploravam o submundo da cidade. Não bebia ou usava drogas, a experiência com o pai ensinara muita coisa. Mas aprendeu a malícia do mundo, os trambiques, a tirar vantagem em tudo e sair por cima. Dificilmente era passado para trás. Jogava cartas como ninguém, obviamente utilizando os mais incríveis métodos ilícitos. Aos treze anos conheceu Riselda, de 46. Negra bonita, de imensos seios e enorme quadril. Era dona de um boteco, logo na esquina, chamado Zamzi-Bar. Ele ia lá tomar refrigerante e olhar a mulher. A todo momento tinha uma desculpa para ir até lá. No final da tarde subia no muro para ver Riselda enquanto ela se banhava. Virou, virou até que teve sua primeira vez. Ela riu muito e disse que ele tinha muito que aprender.

Zé estava apertado. Freou o caminhão para aliviar-se.

O caminhão estacionando não foi alivio apenas para ele, a voz trêmula voltou a vibrar.

- Alguém me ajude !, já sem forças.

O caminhoneiro apressou-se em subir o zíper e aproximar-se no buraco. Não era possível ver o que quer que fosse. A escuridão era total. Correu até o caminhão para buscar a lanterna que mantinha sempre acessível. Projetou a luz buscando de onde provinha a voz. Decidiu escorregar pelo barranco, seguindo pelo fraco som da voz. Deparou-se com uma moça em penosa situação, entre as raízes e folhagens. Estava quase inconsciente. Tentou despertá-la, que ela respondesse, mas sem êxito. Agarrou-se como pode a ela e escalou a inclinação escorregadia com grande esforço. Estava distante de qualquer hospital ou possível socorro. Acomodou a moça da maneira mais confortável possível e seguiu a estrada, esquematizando inutilmente como poderia ajudá-la.

Após longo caminho, uma luz entre as árvores chamou-lhe a atenção. Tudo indicava ser uma casa e se havia luz, certamente encontraria pessoas. Desviou sua rota, adentrando uma estradinha de terra rodeada de capinzais. Não seria possível entrar com o caminhão mais próximo da casa. Havia uma cerca feita de mourões e um mata-burro bastante estreito. Desceu do caminhão ágil e aflito e ia dirigir-se a casa quando ouviu os latidos grossos dos cães, demonstrando que eram de grande porte. Retornou ao caminhão apressadamente. Buzinou várias vezes observando cinco grandes cachorros rodearem. Pensou em invadir com o caminhão derrubando tudo e chegar a casa.

Estava confuso olhando a moça inerte, quando alguém bateu no vidro.  Um homem forte, muito peludo e longas barbas foi avistado. Ordenou que os cães se afastassem sendo prontamente obedecido. Era bem mais mal encarado que seus cachorros.

- Boa noite ! Encontrei uma moça caída na estrada e preciso de ajuda ! Não temos nenhum hospital aqui por perto !

- Quem é ela ?, questionou duvidando.

- Está inconsciente. Por favor, deixe-me entrar. Precisamos fazer alguma coisa. – insistiu.

- Deixe eu ver ela....

Zé Cotovia abriu a porta do caminhão para ele pudesse observá-la.

- Trás ela...determinou seguindo adiante.

A casa era modesta, com móveis rústicos. Aparentemente morava sozinho. A moça foi colocada na cama de solteiro, num quarto bem pequeno e desconfortável. Estava com profundos arranhões e perdera muito sangue. Estava pálida. O vestido bastante rasgado como se tivesse sido atacada por um animal e se embrenhado na mata, enroscando-se a cipós, galhos e espinheiros.

- Desculpe, sou José Alonso, mas todos me chamam de Zé Cotovia. Agradeço ter permitido que a gente entrasse, - falou estendendo a mão em um cumprimento, no qual não foi correspondido.

- Assim que ela acordar, leve ela daqui...disse virando de costas e sentando-se próximo a janela olhando a noite.

 Acendeu um cigarro e permaneceu alheio ao que ocorria.

Indignado Zé Cotovia voltou a estapear levemente a moça e limpar os seus ferimentos. Após horas entre gemidos abriu os olhos. O caminhoneiro cochilava recostado a cadeira próxima a cama. Ela tocou-lhe a mão.

- Salve- se...resmungou.

O moço acordou num salto.

- Que bom que você acordou ! O que aconteceu ?, metralhou ele.

A moça o olhava estupefata como se pudesse vislumbrar horrores através dele.

-  O fogo que arde...que consome... vocejou.

- Quem é você ? Qual o seu nome ?

O silêncio foi a cruel resposta.

- Leve-a daqui !, ordenou o homem grosseiramente.

- Por favor, deixe ela melhorar um pouco. Está se recuperando...suplicou.

- Leve-a daqui ! berrou olhando o caminhoneiro nos olhos.

- Ela não vai sair daqui até que melhore!, levantou-se e olhou entre as sobrancelhas do antipático dono da casa.

- Vocês vão sair agora !, disse empurrando e pegando um facão.

- Me explique por que não podemos ficar mais um pouco! Ela precisa de cuidados!, tentando o diálogo.

Alheio a qualquer tipo de conversa, avançou com um facão, buscando violentamente feri-lo. O facão foi atirado para junto da porta. Assustado, Zé Cotovia afastou-se enquanto a moça com uma força sobre-humana segurava e torcia o braço do homem com a facilidade com que se manipula um aspargo cozido. Empurrou-o de tal forma que chocou-se contra a parede derrubando um grande quadro ali fixado. Estava morto !

- Quem é você ?!, insistiu Zé Cotovia, entre curioso e temeroso, diante do poder demonstrado por uma moça tão franzina. O homem era um touro.

Mas a moça voltou ao seu torpor. Pensou em ir embora, mas os cães rosnavam ao redor da casa.

De súbito ela agarrou-lhe pelo queixo e de olhos esbugalhados revelou algo íntimo, amargado apenas nas remotas lembranças de sua mente.

- Você sempre deixou Edinei ser levado...nunca impediu ! Sabe onde ele está agora ?

E segurando-lhe a testa com uma pressão indescritível, Zé Cotovia foi transportado para as penumbras de uma larga avenida pouco movimentada. A um canto uma loira, fumava, com trajes brilhantes e de mau gosto. Não demorou para um carro estacionar a seu lado.

O coração acelerou quando avaliou as expressões da moça. Era seu irmão. Há muitos anos não o via, perdera o contato, cada um seguiu sua vida, mas ele nunca havia percebido qualquer alteração no comportamento do irmão. Sempre se acusara de nunca ter feito nada para evitar que tudo acontecesse. Agora encontrava o irmão prostituindo-se para sobreviver...O coração se partia em mil pedaços. Viu Edinei postar-se de quatro e seu amante fugaz enrolar-lhe um cordão no pescoço levando-o a terrível asfixia. Sentiu um estrondo percebendo o irmão tombar sem vida.

Despertou inundado de lágrimas, enquanto a moça o fixava impassível. Como que com efeito de uma droga voltou a mergulhar nas visões. Pôde ver seu pai agarrado ao pescoço de Riselda, ameaçando denunciá-la por ter feito bobagens com seu filho. Queria dinheiro e essa era oportunidade para estorquí-la.

Acompanhou a mulher entregando aos poucos suas míseras economias, cada vez mais ameaçada, chantageada. Sentia a tristeza e o arrependimento dela, relembrando aqueles momentos tão sem importância, onde tudo se traduzia em risadas e brincadeiras, até de certa forma ingênua. Um copo com raticida eliminou as instabilidades e pôs fim ao tormento de Riselda.  O corpo estendido sobre o tapete velho da sala, os gatos passeando alheios pela casa, apodrecendo aos poucos, sozinha, como sempre fora.

Um ruído como um assobio intensificava-se dentro da cabeça, quase enlouquecedor. Zé Cotovia gritava para que parasse, que não tinha culpa de nada, que não queria ferir ninguém. Começou a chorar copiosamente, estirado no chão empoeirado da casa. Os cães ladravam junto à porta, arranhando-a, querendo adentrar e talvez dilacerá-lo. Tudo parecia de enormes proporções. O som do grilo emitia ecos insuportáveis. Os arranhões na porta pareciam rasgá-lo.

Cenas se sucediam evidenciando todos os momentos em que trapaceara, enganara, desde um simples jogo de cartas ou a não devolução de um troco a mais até ações mais graves e imprudentes.

A imagem de Natália, uma menina que conhecera no bar da Lola, se desfigurava em múltiplas cores. A barriga da menina expandia e dentro dela seu filho se agitava. Pobre e desanimada, tratou de dar um fim à menina assim que nasceu, envolvendo-a em um saco de lixo preto e depositando na lixeira na entrada do bairro. Depois saltou da ponte desaparecendo nas caudalosas águas do rio.

O choque foi violento. Sentiu-se um monstro, imundo, inútil. Mas não sabia que Natália estava grávida ! Se soubesse teria se casado com ela, cuidado da criança? Provavelmente não, a teria abandonado da mesma forma. Seu caráter leviano e independente o teria levado a viver outras aventuras. Teria tido outros filhos ? Seria só aquela menina ? Morta, enrolada em plástico e entregue ao lixão municipal? Comida por urubus ou simplesmente decomposta?

Abriu os olhos e viu-se diante dos olhos profundos da moça, que lhe acariciava a face e ternamente o fitava. Aproximando-se beijou-o longamente, com estranho calor e sedução. Suas mãos macias percorreram o corpo trêmulo de Zé Cotovia. As carícias, beijos se intensificaram gradativamente até que dominados pelo desejo entregaram-se ao chamado de seus corpos.

Cansado e com uma sensação de êxtase que nunca antes experimentara, sentou-se na cadeira enquanto contemplava o corpo belo e inocente, delicado e flagelado da moça. Por um momento arrependeu-se avaliando os cortes e arranhões, ao mesmo tempo em que a estranha sensação de alegria e prazer se confundiam em seu interior.

Entregue às suas reflexões viu a porta do casebre tombar arrombada, levantando-se e recostando-se a parede. Dois seres translúcidos, onde podia-se deduzir seus órgãos internos, muito altos, olhos pequenos e penetrantes, donos de uma força descomunal, adentraram a casa e seguraram a moça pelo braço. Colocaram a mão sobre sua cabeça levando-a a viagens ao passado.

- Sou sua filha !, revelou a moça aconchegando-se bem próximo quase unindo os dois narizes.

O homem ficou atordoado, impactado com a notícia e tudo que acontecera. Sem que houvesse tempo para qualquer avaliação, agitada e em prantos a moça narrou que naquela madrugada em que sua mãe a deixara na lixeira uma luz iridescente incidiu sobre o lugar e como nos filmes foi erguida no ar, sendo sugada para dentro de um estranho veículo. Ali fora criada. Com aqueles seres fora educada. Em uma das sondagens e coletas que eles costumeiramente faziam, fugiu e sendo perseguida caiu na vala onde fora encontrada.

Zé teve tempo de arrastar-se para junto da porta e correr para a floresta.

Os cães estavam dilacerados e espalhados ao longo do caminho.

Atravessou a escuridão esbarrando em plantas urticantes, cipós espinhosos, atolando-se no barro e rolando em descidas íngremes. Foram horas tateando a escuridão e buscando uma saída. Escorregou do alto do morro, rolando para baixo e enroscando-se desfalecido nas raízes de uma árvore.

- Alguém me ajude !, clamou com a voz cansada e desalentada da profunda vala paralela à rodovia.

O local deserto, cercado de floresta nativa e fina neblina, o ocultava mergulhado na escuridão. Zé Cotovia periodicamente insistia já esgotado e sem esperanças de que fosse localizado. A movimentação de veículos era rara, horas separavam a passagem entre um veículo e outro.


Pin It
Atualizado em: Sex 13 Maio 2011

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222