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UM LOBISOMEM EM MINAS GERAIS

Carnaval. Enquanto muitas pessoas se acotovelavam entre trios elétricos em ritmo alucinante e outros preparassem suas fantasias para desfilar na Avenida, Anna Jacinta fazia as malas, conferindo os itens, para uma tranqüila estadia em São Thomé das Letras, Minas Gerais. Como era seu hábito, procurou sua amiga Renata, uma cartomante, para conhecer os augúrios da viagem prestes a ocorrer. A amiga, contudo, estava atarefada, atendendo a outras pessoas em cidades vizinhas. Por isso, rumou para a casa da yalorixá Nicinha de Yemanjá, Mãe Nicinha, com quem também mantinha contato freqüente. Iria consultar Ifá.

Os búzios se abriram com notícias que deixaram a yalorixá apreensiva.

- O jogo fala em caminhos de perigo e de morte. Uma viagem que trará algo muito negativo a princípio, desespero e morte. Aconselho você a não fazer essa viagem...e se o fizer mantenha-se afastada da floresta.

Anna Jacinta refletiu sobre as palavras. Indagou muito sobre a questão da floresta, pois não a visualizava onde estava indo. A cidade era uma cidade de pedras, montanhas, cachoeiras...mas, como não era de natureza impressionável retornou para casa afim de concluir os preparativos. Queria aproveitar o carnaval para descansar um pouco, reeditar metas, estabelecer estratégias, desejava muito investir no difícil caminho literário, quem sabe ter um de seus livros entre os Best Sellers. Não iria sozinha nessa viagem, contava com a companhia do amigo Gabriel, que dava os primeiros passos na carreira como fotógrafo. Ele tinha como objetivo captar imagens da cidade e realizar sua primeira exposição.

Distante dali, há uns trezentos e sessenta quilômetros, Daniel e Alice também se organizavam. Queriam fugir da badalação e dos batuques refugiando-se nas grutas e cachoeiras ou apenas curtindo, em silêncio, o mais belo por do sol que existe. A saída estava atrasada, pois Alice a cada momento esquecia-se de um detalhe.

Daniel estava investindo em sua empresa de marketing e Alice estava esgotada da vida tumultuada e turbulenta daquela cidade. Queria paz ! Já nutria desejos terroristas e atentados para realizar dentro do metrô. Estava desgastada. Muito ouvira falar de São Thomé e agora a oportunidade reluzia como ouro ao sol. Daniel e Alice estavam juntos há oito anos e também era o momento de vivenciarem novos ares e novos momentos juntos.

Na mesma cidade, buscando fugir da capital, Milton e Sylvia lotavam o porta malas do carro de tudo que poderiam necessitar, apesar de já terem reservado um espaço em uma das pousadas. Era a primeira vez deles na cidade e estavam divididos entre a expectativa e a ansiedade. Milton buscava dedicar-se agora empresa onde fora contratado e com grandes chances de um longo caminho de sucesso profissional. Sylvia dedicava-se ao seu mais novo trabalho. Havia mudado de empresa e estava empenhando-se para que a mudança fosse produtiva. Estavam juntos há seis meses, mas já se conheciam bastante, havendo bastante sintonia entre eles. A decisão de viajar também resumiu-se em fugir da agitação carnavalesca e como desejavam conhecer a cidadezinha mineira tão bem falada pelos amigos, optaram por visitá-la.

A chuva havia chegado antes deles e parecia que iria persistir ao longo de toda semana. Uma intensa neblina recheava cada rua de pedra, como se fossem flocos de algodão. Em alguns momentos não era possível ver o que se desenhava há poucos metros. Mas mesmo assim a cidade mantinha seu encanto.

Aos poucos os turistas foram se aglomerando. Pessoas querendo descansar, outras curtindo o bom e velho rock, outros apenas transitando pacatamente admirando a paisagem, as opções de artesanato e alimentação, sempre imantados num místico odor de incensos. Uma cidade peculiar, que faz jus a idéia de ser um portal, fazendo com que cada um se sinta em outra dimensão, outra realidade, vibrando na essência da serenidade e liberdade.

Apesar da persistente chuva, Anna Jacinta e Gabriel desafiaram-se em fazer a rota mística em um dia, visitando a Pedra Furada, a Gruta do Chico Taquara, a Gruta do Carimbado e a Ladeira do Amendoim e o Vale das Borboletas. Na verdade já conheciam esses lugares e outros como Shangrilá e a Gruta do Indio, mas eram locais que nunca se cansavam de visitar.  No outro dia fariam as grutas e cachoeiras. E foi nesse propósito que procuraram um senhor que estava estacionado na praça com seu jipe. Enquanto conversavam e definiam o percurso, aproximaram-se também Daniel e Alice, e Milton e Sylvia, todos dispostos a mesma aventura. Apertaram-se no veículo e tomaram rumo a saída da cidade.

O motorista e guia era Euclides, já sexagenário, nascido e criado na cidade, conhecendo-a com a palma da mão. Logo ao descer pela estrada de terra apontou para o despenhadeiro que ladeava a estrada. Questionado por Daniel sobre a altura, disse que não tinha idéia, mas era muito alto, mas ninguém havia descido a ladeira pra contar. A estrada de terra estava repleta de barro, poças de água e buracos que chacoalhavam o velho jipe, fazendo as pessoas se segurarem onde podiam. Todos riam, conversavam e contavam estórias pessoais que nunca terminavam emendando-se com outros assuntos.

Nesse roteiro visitaram a cachoeira da Eubiose, Flávio, Véu da Noiva e Paraíso. Milton, ousadamente, despiu-se e penas de sunga mergulhou nas águas geladas da primeira cachoeira, repetindo o ato nas demais, enquanto era aplaudido e fotografado. Apenas no Véu da Noiva os demais encorajaram-se a fazer o mesmo. Foi em uma dessas peripécias que Daniel escorregou deixando a correnteza levar sua máquina fotográfica com todos os registros. Anna Jacinta continuou junto a mata, onde gostava de ficar, meditando e deixando-se desligar absorvendo a energia e pureza do lugar.

A chuva recomeçou e considerando o entardecer entenderam já ser o momento de retornarem a cidade. A estrada estava modificada devido as águas, escorregadia e com visão difícil em razão das brumas. Em uma das curvas, dois faróis toparam com o jipe, obrigando Euclides a jogá-lo para a esquerda. A estrada lisa empurrou o veículo ladeira abaixo. A inclinação era quase vertical e podia-se sentir além dos corpos serem lançados de um lado para o outro dentro do jipe, os troncos finos das árvores sendo quebrados, galhos e cipós sendo arrastados. A queda parecia interminável. O terror se apossou de todos. Gritos, gemidos e invocações eram ouvidas em total confusão. O jipe, no entanto, estacou de súbito, jogando todos para frente, enroscado por uma cerca e muitos cipós.

Os corpos estavam doloridos e um procurava socorrer o outro. Hematomas, nariz sangrando, alguns cortes, mas aparentemente todos estavam bem, apesar de apavorados, com a respiração ofegante e trêmulos. A tensão fazia com que chorassem, alguns externa e outros internamente. A chuva havia parado totalmente, dando lugar a um luar claro, típico da lua cheia. A escuridão era intensa se não fossem os raios do satélite.

Euclides informou que era impossível escalar o despenhadeiro, além de perigoso, em razão de animais peçonhentos, e tomou a frente. Propôs caminharem ali, onde o espaço se alargava em um grande pasto, entremeado por moitas e arbustos. Daniel pediu que todos ficassem juntos e tomassem muito cuidado onde viessem pisar. Depois de uma grande caminhada, o cansaço os venceu e preferiram sentar-se na grama para um rápido descanso. Alice, aproveitando-se da parada, precisava esvaziar a bexiga e foi até alguns arbustos próximos. Retornou de olhos arregalados. De onde estava pôde visualizar Euclides despir-se no meio do pasto mais adiante. Intrigados todos foram até os arbustos, subiram nas pedras e puderam acompanhar uma cena inesquecível e que marcaria a todos.

A lua prateada refletia no campo aberto deixando avistar Euclides nu, contorcendo-se, como se algo o consumisse. Viram-no postar-se de quatro, seu corpo cobrir-se de pelos e emitir um uivo lancinante. Os corpos dos jovens arrepiou-se. Euclides tornara-se um lobo de imensas proporções.

Por um instante ficaram paralisados. Sylvia começou a gritar e chorar intempestivamente e saiu correndo para o lado oposto, todos a seguiram, considerando ser a opção mais pertinente naquele momento. Um barulho como que de palmas pausadas, entremeadas de um estranho arfar, os seguia e parecia estar cada vez mais próximo. Todos se arrastavam levando os galhos dos arbustos no peito, sendo ricocheteados e arranhados. Decidiram embrenhar-se entre as árvores que sustentavam o despenhadeiro. Grandes árvores, cipoais e muita vegetação. Acocoraram-se através das folhagens da floresta nativa, apurando os ouvidos. Um tempo se passou ouvindo-se apenas um ou outro pássaro da noite. Milton respirou profundamente e saiu do esconderijo, sob aclamações de que tomasse cuidado. Avançou alguns passos pelo pasto. Aliviado ia retornar ao grupo, quando viu-se diante do lobisomem.

O monstro o estapeou como se fosse uma bola de meia, sendo atirado para distante com um rasgo na barriga. O animal enfurecido mordeu-o no pescoço, arrancando sua cabeça.

Instintivamente todos saíram correndo, porém cada um para um lado. Daniel puxava Alice para junto de si, mas aterrorizada escapou e desapareceu na escuridão. Diante da aproximação do ser lendário, Daniel avançou entre os arbustos, sendo tragado por um brejo profundo.

O lobisomem seguiu adiante. Queria sangue. Queria a morte. Anna Jacinta foi alcançada e dilacerada. Aos poucos a fera cercava e matava cada um. Levado pelo instinto, Gabriel subiu em uma árvore consideravelmente alta e que em tempos normais jamais seria capaz de escalar. Alice enfiou-se entre rochedos, sendo surpreendida pela presença do lobisomem. Ele escavou, circundou, cheirou, tentou arrancá-la daquele espaço de todas as formas, demonstrando rápido raciocínio, até que conseguiu alcançá-la e executá-la impiedosamente.

Sylvia foi a próxima da carnificina. Havia mergulhado entre os lírios do brejo, mas não conseguia controlar seu choro e suspiros. Logo foi identificada, num salto, ele a abocanhou e destroçou, como quem mata um frango.

O bicho passou arfando perto do charco onde Daniel mergulhara. Por um milagre a lama o protegeu, ocultando seu corpo e seus odores. Manteve-se escondido. Uma sucessão de uivos e silêncio. O sol em breve se ergueria.

Daniel deixou o lamaçal com o dia já claro. Caminhou temeroso atento a cada som e detendo-se a qualquer ruído. Aos poucos deparou-se com pedaços de corpos. Diante do rochedo foi acometido por um choro compulsivo, o corpo de Alice jazia imóvel, despedaçado. Encontrou a câmara fotográfica de Gabriel e colocou-a no pescoço. Com dificuldades escalou o despenhadeiro. Chegou a estrada exaurido, uma parte de sua alma já não estava mais consigo.

A polícia anotou os desaparecimentos. Riram muito alegando que provavelmente ele havia tomado algum chá, talvez lírio ou cogumelo. Insistiu que o acompanhassem até o lugar. Para seu desespero não havia jipe, nem corpos.

Daniel foi internado em estado de choque e crise depressiva. Foram meses de cuidados.

Os exames no sangue de Daniel, curiosamente, identificaram a presença de escopolamina. Ele era o grande suspeito pelo desaparecimento das pessoas. Talvez os tenha matado em decorrência do uso de alucinógenos.

Em sua escrivaninha, muito tempo depois, passou a ver as fotos arquivadas na máquina fotográfica de Gabriel. Seu corpo estremeceu quando viu as fotos do animal. Gabriel havia conseguido fotografá-lo. E mais...havia filmado, filmado o lobisomem no momento em que o atacou.

Teria para si uma importante tarefa. Escreveria um livro para realizar o sonho de Anna Jacinta e seria dedicado a amada e eterna Alice, nele contaria todos os desejos e potenciais de Milton e Sylvia, e seria ilustrado com as fotos tiradas por Gabriel.

Foi até a janela do apartamento. Era lua cheia, como naquela noite em que rolaram pelo precipício. Em São Thomé das Letras, Gabriel despia-se entregando-se a sua metamorfose.


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Atualizado em: Sex 13 Maio 2011

Comentários  

#1 ANTENA 17-06-2011 11:47
Um belo conto de terror, parabéns!


abraço anarquista

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