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O HOMEM DE CAPA PRETA

Mais uma vez o galo cantou apoiado na velha goiabeira, sob o olhar curioso e o cacarejar displicente das galinhas que vasculhavam o solo. O ambiente rústico e tranqüilo permitia relaxar afastado das turbulências da cidade grande, refugiando-me na mata nativa, em um sítio afastado, após longo caminho entre estradinhas de terra invadindo canaviais. Absorto e entregue a minhas reflexões, esticado na rede, balouçando num balanço atemporal, deixei-me dominar pelo sono, após longa pescaria e já não dominando mais as pálpebras que insistiam em cerrar-se para o mundo externo.

Os sonhos vieram confusos, gerando certo medo e ansiedade. Imagens de uma presença espiritual que parecia querer chegar até mim, materializava-se e se diluía, como que impedida de realizar seus intentos. Um homem de chapéu e capa preta, botas...barba no estilohandlebar and goatee. Os sonhos se sucediam fazendo que meus músculos se contraíssem, em alguns momentos apavorados pelas diferentes situações vivenciadas.

Despertei inquieto, suado e desconfortável, olhando dos lados com se estivesse sendo observado. Ao meu redor tudo muito quieto a não ser os conflitos entre as galinhas fazendo com que uma ou outra gritasse. Distante da casa o pasto verdejante, como aventurinas, árvores, muitas árvores nativas e frutíferas, algumas vacas abanando a cauda incomodadas pelos insetos. Respirei aliviado, realmente havia sido apenas “coisas de minha cabeça”. Estava realmente só. Assim permaneceria até a chegada de Renato e Adelino que somente estariam ali ao amanhecer do outro dia. Seria ainda uma noite sozinho. Isso nunca havia tido importância, mas agora por alguma razão me incomodava.

Talvez não devesse ter ido procurar Dona Isaura, mas as preocupações em resolver determinados problemas e conhecer um pouco mais sobre o que o futuro estava me reservando tenham acionado um contato indevido com algum ser de outra dimensão. Problemas no trabalho advindos de uma antipatia e constante perseguição de Adalberto, um dos funcionários da Royal Eletric, empresa em que trabalho já há quatro anos, e que foi tomando consistência a partir da possibilidade de minha ascensão profissional. Por outro lado, discussões familiares freqüentes e agora Kátia, uma garota que eu vinha ficando, estava grávida. O problema se intensifica pelo fato de eu ter vinte e dois anos e ela catorze. Certo de que alguma coisa estava errada em minha vida, onde tantas coisas começaram a dar errado, que Daniel me aconselhou procurar a senhora para mudar o rumo das coisas.

Nunca fui de acreditar no sobrenatural, mas vi-me inclinado a concordar que a sucessão de problemas não era algo normal. Cheguei à casa de Dona Isaura já no escurecer conforme ela havia solicitado. Fui convidado a entrar em um quarto onde se via um imenso altar como um prateleira onde se confundiam um número assustador de imagens de santos e outras entidades, algumas feitas de gesso, outros talhadas em madeira, além de garrafas com líquidos e ervas, e muitas velas acesas. O lugar era iluminado apenas pelas velas. A um canto em uma cadeira de vime, belamente trançada, estava sentada uma mulher de pelo menos oitenta anos, com lenço na cabeça e uma saia pregueada que ia até os pés. Estava descalça. Fumava um cachimbo enchendo o lugar de fumaça e um odor de fumo e alfazema.

Pediram que eu fosse até ela. Sentei-me em um banquinho bem a frente e antes que pudesse abrir minha boca, ela colocou sua mão sobre minha cabeça e senti meu corpo arrepiar, depois uma sensação de tontura e vazio como se ela tivesse arrancado meu cérebro e eu estivesse impedido de pensar. Baforou em minha muitas vezes resmungando alguma coisa, enquanto passava a mão pelos meus ombros e braços. Ela mantinha os olhos fechados como que mergulhada em outro tempo e espaço.

- Sunsê vai simbora na força de Zambi. As coisa vão si miorá, no trabaio amanhã num tem mais nada...de restu o veio cuida...

- Fico muito agradecido, disse eu, mas devo fazer alguma coisa ? Acender uma vela, tomar um banho de alguma planta?, insistindo conforme haviam me orientado.

Mas a mulher calou-se, emudeceu-se, de maneira que uma moça veio me retirar dali. Confesso que fiquei decepcionado, é o mesmo que ir ao médico, ele dizer que está tudo bem e não receitar nem uma aspirina. Voltei para casa de certa forma caçoando de mim mesmo sobre minha tentativa frustrada de resolver facilmente um problema que se arrastava a meses. Como no dia seguinte era meu dia de folga em razão de alguns acertos e descontos por horas a mais trabalhadas, combinei com meus amigos de emendar a sexta-feira ao sábado e domingo, somente retornando à vida normal na segunda-feira.

A noite lançou seu véu rapidamente, escurecendo tudo. Preparei um lanche rápido e abri um refrigerante olhando as estrelas, acompanhando uma ou outra estrela cadente. As galinhas estavam agitadas no grande pé de aroeira próximo a casa. Pacau, um fila brasileiro muito amoroso e residente no sítio, mostrava-se atento e vez ou outra saía em disparada avançando em algo ou apenas latindo olhando o nada. Peguei uma revista já antiga para folhear e ver se o tempo passava. Sentei-me no chão encostado na parede da varanda. Vagalumes desfilavam em seus rituais de acasalamento. Foi quando senti uma baforada de fumaça em meu rosto. Meu coração acelerou e uma descarga fria agitou minha coluna. Levantei-me olhando a minha volta. Os grilos, uma mariposa cabeceando a lâmpada, e o silêncio da noite. Assumi que estava morrendo de medo. Deitado a um canto Pacau rosnava. Nova baforada e o cheiro de fumo penetrou minhas narinas quase sufocando-me. Meu coração parecia querer sair pela boca.

Uma luz atingiu-me em cheio. Era o carro de Renato. Foi um alívio. Retirar coisas do porta-malas, arrumar quartos, contar novidades, afastando os pensamentos dos atuais acontecimentos. O final de semana passou sem maiores novidades e sem que eu voltasse a ter qualquer outra percepção extra-física.

A grande surpresa aguardava-me no trabalho. Adalberto, por alguma razão urgente e particular, pedira demissão da empresa na sexta-feira. Sem ele a promoção seria certa e tranqüila. Pensei imediatamente em procurar Dona Isaura e agradecê-la, mas resolvi esperar, pois ainda havia o problema familiar e o pior deles, Kátia grávida. Decidi dedicar-me ao trabalho, embora pesasse sobre mim o que poderia acontecer com a revelação de que vinha me encontrando com uma menina. Absorvido pelas atividades profissionais os dias correram céleres, impedindo inclusive o contato com a garota.

Em casa as coisas pareceram amenizar-se, os conflitos diminuíram tornando-se mais suportáveis. Comecei a alimentar a possibilidade de morar sozinho após me tornar gerente. Empolgado comecei a procurar imobiliárias e ler classificados, apenas para me manter informado e começar a construir um novo projeto de vida.

Tais pensamentos me puseram em outra vibração. Sentia-me mais animado, motivado e predispostos, embora de vez em quando o coração apertasse com receio da bomba da gravidez explodir.

Cheguei cedo ao trabalho e apanhei o jornal local para conhecer as mais recentes notícias e manter-me conectado ao que acontecia na cidade.  Meu corpo enrijeceu-se gelado ao ver a foto do pai de Kátia ao lado da notícia na primeira página “Pai violentava a filha com consentimento da mãe”. Li engolindo abundante saliva a reportagem que ilustrava a difícil vida da menina que sofria terríveis abusos do pai. A reportagem ressaltava que a menina estava grávida do próprio pai. Caí estático na cadeira do escritório, tendo milhares de pensamentos confusos desfilando na passarela de minha cabeça. Mais uma vez a imagem da velha senhora estampou-se diante de mim. Era inacreditável o que estava acontecendo.

Procurei Daniel para contar-lhe os detalhes. Ele ficou estupefato, mas sorriu cúmplice dizendo que Dona Isaura não falhava nunca, as entidades eram fatais.

Precisava agradecê-la e nesse intento, ao sair do trabalho, rumei a pé para a casa dela pensando como poderia recompensá-la. A noite já se destacava. A casa ficava posicionada em bairro afastado, em local arborizado, meio que isolada. Mas ao chegar na grande encruzilhada que a antecedia casa topei com a estranha figura do meu sonho, o homem de capa negra. Ele fitou-me com olhar penetrante, congelando minha alma. Com certa imponência cobriu-se com sua capa e despareceu nas sombras.

Já era meia noite quando deixei naquele local um litro de um bom conhaque, charutos caros e uma vela acesa. Foi o que ele pediu.


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Atualizado em: Sex 13 Maio 2011

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