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O SOPRO DA VELA

Eu não conseguia respirar. Parecia não haver oxigênio suficiente para o tanto de ar que eu precisava naquele momento. Estava me sufocando. Tentei levantar e sentar na cama, mas logo fui forçado a deitar-me novamente.
- Muita Calma, Medeiros. Muita calma. –disse o homem de voz rouca e envelhecida que com a mão espalmada em meu peito conduziu-me a minha posição inicial.
- Que lugar é esse? – perguntei enquanto percebia o ar reaparecendo aos poucos. – Isso é um hospital?
- É, meu amigo. Você está num quarto de recuperação da emergência deste hospital. Você está bem agora, mas você passou por um susto grande.
Aos poucos eu ia passando a respirar melhor, mas ainda me sentia tonto e com ligeiras náuseas. Percebi alguns tubos de soro que me abasteciam e alguns curativos manchados de sangue numa mesa a minha esquerda.
- Você perdeu muito sangue, Medeiros. Vai sentir indisposições ainda ao longo do dia, mas tudo dentro do normal. – continuou a me dizer o homem que já deixava claro ser médico ou enfermeiro, enquanto tirava as luvas e lavava suas mãos na pia. – Sua família virá para vê-lo em mais algumas horas. Enquanto isso procure assistir à televisão ou fazer as palavras cruzadas que estão ao lado da sua cama.
Procurei entender o que acontecia a minha volta. A última coisa de que me lembrava era de estar saindo da festa de aniversário do Marco Antonio, e ter entrado no carro pra voltar pra casa.
- Eu sofri um acidente? Perguntei ao homem enquanto tentava ligar a televisão com o controle remoto que parecia não funcionar.
- Tecnicamente, sim. – respondeu sem parar o que estava fazendo. Parecia estar escolhendo alguns medicamentos no armário.
Naquele momento, senti uma ardência insuportável que vinha dos meus quadris. Era uma mistura de dor, calor e ardência que parecia estar subindo aos poucos até o meu abdômen. Não contive alguns discretos gemidos e
minha cara retorcida já mostrava algo errado para o homem que agora estava a minha frente com uma seringa na mão. Larguei o controle remoto sobre a mesinha, e levei minhas mãos à barriga, na tentativa de aliviar a dor que sentia.
- Está passando o efeito do seu medicamento, vamos aplicar uma nova dose a cada oito horas. – disse o homem, aplicando o medicamento através dos tubos. – Logo se sentirá melhor.
- Você é enfermeiro aqui?
- Sou o Dr. Kimura. Sou o cirurgião-chefe deste bloco.
Eu já me sentia um pouco melhor, e então pude perceber que os traços do homem faziam justiça ao nome. Tinha os olhos orientais, bem como o resto de sua compleição física. Cabelos lisos e negros que reluziam o florescente das lâmpadas do quarto.
- Cirurgião? – perguntei um pouco confuso - Eu passei por alguma cirurgia?
- Medeiros, seu acidente foi mais grave do que você deve pode imaginar, e tomou grandes proporções, afetando não só a você, mas também outras pessoas. – disse o doutor, sentando ao meu lado e olhando diretamente nos meus olhos. – Você passou o sinal vermelho a quase cem quilômetros por hora.
- Eu não me lembro disso. O que aconteceu? – perguntei impaciente.
- Não me admiro não lembrar, o teor de álcool no teu sangue estava vinte vezes acima do permitido. Não sei nem como você conseguiu colocar a chave na ignição. – respondeu, pegando o controle remoto e ligando a televisão em um canal de esportes. - Seu carro atingiu em cheio outro que vinha pelo cruzamento. Só você sobreviveu. Uma mulher de meia idade e um casal de crianças, todos morreram no local.
O sentimento que me invadiu diante daquela noticia era indescritível. Uma mistura de tristeza e vergonha formavam um sentimento novo, que jamais imaginara existir.  Eu sentia como se estivesse chorando, mas nenhuma lágrima caía.
- Você chegou aqui em estado muito grave, Medeiros. Você ficou preso às ferragens e os bombeiros levaram quatro horas para te retirar de lá. Suas pernas foram esmagadas. Fizemos tudo que estava ao nosso alcance pra te salvar, e felizmente conseguimos.
Imediatamente comecei a tocar meu corpo de cima até embaixo. Percebi que minhas costelas doíam muito e continuei abaixando as mãos até chegar a um dos momentos mais aterrorizadores de toda a minha vida. Minhas pernas não estavam lá. Todo aquele calor que irradiava dos meus quadris subiu subitamente até a minha garganta. O quarto começou a girar e eu novamente parecia não saber mais onde estava. A sensação de que tudo ali não passava de uma brincadeira me invadiu por cinco segundos, e se dissolveu assim que recoloquei minhas mãos sobre os curativos pouco abaixo dos meus quadris. Definitivamente, eu não tinha mais pernas. Entrei em estado de choque e não consegui dizer mais uma só palavra. Tirei de cima de mim o lençol que cobria minhas pernas e só o que conseguia fazer era fixar meus olhos naqueles dois tocos de coxas que saiam por baixo dos meus quadris. Tive a certeza, naquele momento, de que minha vida sofreria mudanças consideráveis, com o perdão do eufemismo.
- Não foi possível salvar as tuas pernas, Medeiros. A tua vida corria muito risco e a situação se complicou demais. Foi o único meio de te salvar. E mesmo assim foi difícil te manter vivo durante a cirurgia. Você foi muito forte, meu amigo.  Eu sinto muito, de verdade. – disse o doutor em tom de compaixão – O medicamento vai te fazer relaxar um pouco, talvez tire até uma soneca. Procure não pensar muito, relaxe. Pense apenas que você é um homem de sorte em estar vivo e estar se recuperando bem.
- Como assim doutor, não pensar? Você me deixou aleijado e ainda me diz pra não pensar? – disse alterando a voz e percebendo também que o calmante era realmente bem forte.
De fato, aquelas últimas palavras que o doutor me dizia já soavam ao longe, como se eu estivesse quase dormindo com os olhos abertos. Seguramente o medicamento já fazia efeito àquela altura. A adrenalina da tristeza e da trágica notícia começava a dar lugar a uma sensação agradável de adormecer iminente. Foi quando enfim, adormeci.
- Como está se sentindo? – foi a primeira frase que ouvi assim que acordei. – Você capotou mesmo, chegou a sonhar e falar enquanto dormia. –
disse doutor Kimura com um leve sorriso, em pé a minha frente e parecendo fazer algumas anotações numa prancheta.
 - Nossa. Quanto tempo eu dormi?
- Não muito. Cerca de uma hora e meia, mas foi um sono bem pesado. Sente-se melhor?
- Doutor, é verdade mesmo o que você me disse sobre o acidente? Todos morreram no outro carro? – perguntei, invadido novamente por aquele sentimento misturado e desconhecido que havia sentido quando recebi a noticia.
- Infelizmente, sim. – respondeu abaixando a prancheta. – queria poder te dar notícias melhores.
- Uma mulher e duas crianças. – falei em voz baixa tentando imaginar a dor da família destas pessoas. – você sabe algo mais sobre o acidente?
- Não muito. Você chegou aqui por volta das oito horas da noite. Agora a pouco ficamos sabendo que o marido desta mulher e pai do casal de crianças deu entrevista logo após o acidente, ainda um pouco chocado, mas visivelmente transtornado com o que aconteceu. – respondeu o médico enquanto examinava meus olhos com uma pequena lanterna. – Ele chorou bastante e mal conseguia falar, coitado.
Eu não conseguia mais dizer nada a respeito. Qualquer coisa que eu falasse naquele momento, por mais sincero que fosse, soaria ridículo e totalmente dispensável.
- Doutor, como fica minha situação? – perguntei, tentando mudar o assunto. – Quando poderei pensar em fazer próteses e tentar retornar a andar?
- Medeiros, não tenha pressa. Você precisa primeiro recuperar-se bem dessa cirurgia delicada, recuperar a imunidade descansando o máximo possível. Onde suas pernas foram amputadas, e da forma que tiveram que ser amputadas, é pouco provável o sucesso de próteses. É difícil dizer ao certo. Vamos deixar isso pra depois.
- Então estou condenado a me resignar com uma cadeira de rodas pro resto da minha vida?
- Não vou mentir pra você, Medeiros. É o caminho mais provável. Não há muito mais o que fazer em relação a isso. Por outro lado, a vida não acaba aqui, meu amigo. A vida continua e você tem uma família muito bonita e preocupada contigo. – me disse doutor Kimura voltando a fixar os olhos em sua prancheta.
- São quatro horas da manhã. Em duas horas sua família estará aqui pra primeira visita. Eles já estão sabendo do teu estado e sabem que você esta bem e que logo irá pra casa. – continuou enquanto controlava os aparelhos que ficavam ao lado da minha cama. Espero que isso que aconteceu a você tenha pelo menos servido de aprendizado importante pra sua vida. Nada acontece por acaso, Medeiros. Tenho certeza de que sua dor é imensa e sua perda é claramente irreparável, mas as pessoas envolvidas direta e indiretamente neste acidente tiveram dores e perdas ainda maiores. No fritar dos ovos, teu castigo foi proporcional a tua irresponsabilidade. Reflita sobre isso, Medeiros. A justiça divina cedo ou tarde faz sua parte. É o sopro da vela.
- Muito bem , doutor. Ganhou o prêmio “Sermão do Ano”! Mas vou te adiantar que não estou muito aberto a sermões na situação em que me encontro agora. – disse a ele, tentando trocar daquele canal chato de esportes, e novamente sem sucesso, com um controle que parecia não querer me ajudar.
- Durma um pouco mais. Às seis horas terá sua família por perto. Vai ficar tudo bem. Vemo-nos no fim da tarde. Provavelmente no fim da semana já poderá ir pra casa. – deixou sua prancheta sobre a mesinha ao lado da minha cama e saiu pela porta, apagando a luz do quarto antes de sair.
Assim que ele saiu, começou a passar um curta-metragem em minha cabeça. Uma espécie de compilação de todas as conquistas e fracassos que protagonizaram a minha vida. Todas as atitudes infantis e destrutivas que naquela hora pareciam ter tão pouca importância. Todas as vezes que deixava de aproveitar minha vida, e todas as vezes que exagerava achando que estava aproveitando demais. Pensei também em como seria minha vida a partir daquele momento. O que seria de mim, com quarenta e cinco anos, condenado a viver o resto da vida em uma cadeira? Um turbilhão de sentimentos agitava meu corpo naquela hora. Mas nem estas emoções e pensamentos impediram que o sono me dominasse pouco tempo após o apagar das luzes.
Acordei com a risada estridente da minha mãe que dava pra ouvir mesmo sem ela ainda ter entrado no quarto. Olhei no relógio, marcava seis e quinze. Fiquei um pouco surpreso com o bom humor da minha mãe, bem como com
seu improvável atraso, considerando a gravidade do meu acidente que todos já tinham o  conhecimento de sua proporção.
- Filho, você já acordou, meu querido? A enfermeira nos disse ontem à noite que você acordaria logo e que tudo não passou de um grande susto pra você, meu filho. – disse ela entrado pela porta do quarto junto com minha tia e caminhando rapidamente em direção a minha cama para me beijar.
Em seguida entrou uma enfermeira morena de meia idade, nos olhou de relance e com um leve sorriso no rosto caminhou em direção a televisão, ligando-a e mudando para um canal de noticiário.
- Filho, você vai ter problemas agora com a família das vítimas. Foi muita irresponsabilidade sua fazer o que você fez. Você tem que parar de beber. Mas estamos aqui e estamos do teu lado sempre. Agradeço a Deus por você estar bem e não ter passado de uma pancada na cabeça e uma costela fissurada.
Eu não sabia bem o porquê, mas era certo que minha mãe não estava sabendo o que realmente tinha acontecido comigo. Os irresponsáveis do hospital não informaram a ela o que aconteceu e ficaria pra mim o fardo de  contar a ela um pequeno detalhe: o filho dela tinha virado um aleijado.
- Mãe, eu fiquei preso durante horas nas ferragens. Não foi tão simples assim. – eu disse segurando a mão dela.
- Como assim, preso nas ferragens? – respondeu ela sorrindo. - Você ainda está sobre o efeito dos remédios, filho. O air-bag foi o teu anjo. Você teve pequenas escoriações e uma costela fissurada. À noite estaremos em casa, amor.
- Mãe! –disse em voz alta – Eu perdi minhas pernas. Elas foram amputadas. Eu sou um aleijado agora. Toda a minha vida acabou aqui, neste hospital. – gritei com ela, retirando violentamente o lençol de cima das minhas pernas e expondo aquela forte imagem.
- Mas como?  Que brincadeira é essa – disse ela num misto de pavor e surpresa, já começando a chorar copiosamente – O médico me disse que foi só um susto. Ele disse, a enfermeira confirmou. Eu me lembro.
Minha mãe saiu correndo em direção a porta gritando pelo médico que havia me atendido. Minha tia ficou ali, sentada na cadeira ao lado da minha cama, chorando e segurando minha mão. A enfermeira que até então olhava o noticiário, passou a me olhar de uma forma que mostrava claramente sua incompreensão em relação ao que eu estava dizendo a minha mãe.
Um homem alto e de óculos, que parecia ser um médico entrou com minha mãe pelo quarto e caminhou direto para minha cama a fim de conferir o que minha mãe estava dizendo a ele.
- Não é possível, o que ta acontecendo aqui? – disse o homem ao me ver naquele estado.
 Com a fisionomia de grande espanto, deu a volta foi em direção a porta quando esbarrou com outro homem que entrava abruptamente pelo quarto.
- Doutor Arnaldo, o senhor tem quem ver isso. – disse o homem, nervoso.
- Ver o quê, Josias? – Eu to com um problema gravíssimo com este paciente, não posso sair daqui.
- O bloco cirúrgico interditado da ala um. Alguém fez uma bagunça imensa por lá esta madrugada. É sangue pra todo o lado. – continuou o homem, cujo crachá de enfermeiro já me parecia mais visível.
Minha mãe nesse momento intrometeu-se na conversa.
- Meu filho tinha apenas quebrado uma costela. Como é que ele está agora sem as duas pernas? Alguém chama a polícia. Eu quero a polícia aqui, agora.
- Mãe, procura pelo doutor Kimura, ele vai te explicar o que aconteceu comigo. – eu disse já indignado com a confusão e incompetência daqueles funcionários do hospital. – Olha! O noticiário sobre o acidente – interrompi apontando para a televisão. - É aquele homem falando lá, o doutor Kimura, que fez a cirurgia, e que salvou minha vida.
- Filho, teu medico é este aqui, doutor Arnaldo. Aquele homem, é o pai das meninas e marido da mulher cujo o acidente tirou as vidas. – disse minha mãe com um olhar estranho na minha direção, como se estivesse conversando com um louco esquizofrênico. – Ele já saiu em todos os jornais, coitado. Nosso advogado está tentando falar com ele desde ontem a noite. Senhor Hitaro é o nome dele.
- Hitaro Kimura. – resmungou doutor Arnaldo.
- Hitaro Kimura? Você o conhece? – perguntou minha mãe, se mostrando impaciente, confusa e abanando o rosto com a revista que estava em cima da mesa.
- Ele foi o cirurgião chefe aqui até dois anos atrás. Aposentou-se ano passado. Eu não sabia que era a família dele no acidente. Eu conhecia as crianças. – disse o médico sem tirar os olhos da televisão – Ele provavelmente ainda tem acesso fácil aqui no hospital. –continuou, abaixando a cabeça. – Não to acreditando nisso.
Por mais que perguntas viessem a minha cabeça, e minha cara estampasse muitas dúvidas, no fundo eu já tinha percebido tudo que estava acontecendo. Um leve e improvável sorriso surgiu no canto dos meus lábios quando resolvi pegar a prancheta deixada na mesinha pelo doutor Kimura horas antes. Não havia papéis e nem anotações. Só uma foto colorida de um casal oriental com um casal de filhos. “Família Kimura”, era o que dizia o rodapé.
“A justiça divina fez sua parte.” Tudo se encaixava naquela hora. Sem dúvida, eu jamais dirigiria novamente.  Mas neste caso, a justiça do homem fez a sua parte. Eu arranquei de uma só vez a estrutura na qual a vida dele se apoiava. De certa forma, ele fez o mesmo comigo. É o sopro da vela.

 

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Atualizado em: Qui 9 Abr 2020

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