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GONÇALVES DIAS 2020

 
Seu Gonçalves, peço um favor:
 
Emprestar-me tua obra prima.
 
A CANÇÃO DO EXÍLIO me inspirou
 
Pra eu tentar cá umas rimas.
 
 
 
Tu falavas em palmeiras,
 
Campos, flores, sabiás,
 
Belas coisas brasileiras,
 
Faziam a gente se emocionar.
 
 
 
Voltar pra cá era tua vontade,
 
Só que a volta não tem mais volta.
 
De fora, tu sentias saudade.
 
De dentro, eu sinto é revolta.
 
 
 
De olhar como o descaso
 
Desfez este belo país.
 
O que parecia ser atraso
 
Fazia o povo mais feliz.
 
 
 
Nossa terra tinha palmeiras
 
Onde cantava o sabiá.
 
A palmeira virou fogueira,
 
O sabiá virou jantar.
 
 
 
Nosso céu tinha estrelas,
 
Tantas, nem dava pra contar.
 
Hoje mal consigo vê-las
 
Tanta fumaça tem no ar.
 
 
 
Água pura a esbanjar,
 
Tantos rios, córregos limpos.
 
Só que não vai muito durar,
 
Com o mercúrio dos garimpos
 
 
 
As palmeiras tinham ninhos,
 
Hoje têm ninho de cupim.
 
Se estão faltando passarinhos,
 
Tem barata com asas a não ter fim.
 
 
 
Tem pet shop de montão
 
Pra nossa fauna abrigar.
 
Tem frango, porco, gato, cão.
 
Só não ouço gorjeio de sabiá.
 
 
 
Tantos bichos (mas que dó!)
 
Já se foram, não voltam mais.
 
Nossos filhos, em breve, só
 
Em fotos vão ver animais.
 
 
 
Bichos, plantas em extinção,
 
A cada dia aumenta a lista.
 
Quem cuida da preservação
 
É a bancada ruralista.
 
 
 
Se o nosso agro é mais pop,
 
O lavrador ficou sem nada.
 
Orgânico aqui não dá ibope.
 
Tome-lhe comida processada!
 
 
 
As verduras todas coloridas,
 
Cada legume colossal.
 
O segredo: os herbicidas
 
E agrotóxico a dar com pau.
 
 
 
Nossa fruta tem mais venenos
 
Pra deixar de vir bichada.
 
Só que o sabor ficou de menos
 
E um asséptico gosto de nada.
 
 
 
Todas vêm com a mesma roupa:
 
Goiaba, manga, abacaxi.
 
Enquadraram tudo em polpa
 
Ou como suco Maguary.
 
 
 
Dizem que a gente é o que come.
 
Aí vieram os transgênicos.
 
Não acabarão com a fome,
 
Mas deixarão todos anêmicos.
 
 
 
O de cima faz a conta:
 
‘A economia tá evoluindo’.
 
Só que essa conta não leva em conta
 
Que a qualidade vem decaindo.
 
 
 
Dizem que o país cresceu,
 
Subiu a renda e o produto.
 
Se aumentou não foi o meu
 
Pois dessa grana não vi um puto.
 
 
 
O produto interno bruto
 
As pessoas embrutece.
 
Quanto mais cresce o tal produto,
 
Mais vejo gente que padece.
 
 
 
Culpa do neoliberalismo,
 
Tudo centrado no mercado.
 
Uns poucos ficam com o filão.
 
O grosso, marginalizado.
 
 
 
Criou-se um oásis de riqueza
 
Numa nação que se esfrangalha.
 
Alguns se banqueteiam à mesa,
 
O resto vive de migalha.
 
 
 
Acabaram com o fiado
 
E a vendinha do Juvenal.
 
Foi todo mundo massacrado
 
Pelo poder do capital.
 
 
 
Nosso progresso é macabro,
 
Na cidade deixa mazelas.
 
Pra cada shopping que eu abro,
 
Aparecem dez favelas.
 
 
 
O governo não tem planos,
 
Executa tudo às pressas.
 
O horizonte é quatro anos.
 
Depois disso, não interessa.
 
 
 
Corta a verba da educação.
 
Mas não mexe nos gastos bélicos.
 
Nem na grana do Centrão
 
Ou pra adular os evangélicos.
 
 
 
Acabaram com a cultura,
 
Arruinaram as artes e a ciência.
 
Nem durante a ditadura
 
Houve tamanha decadência.
 
 
 
Grana não falta pro patrão,
 
Tem crédito a CNPJ.
 
Ao pobre, só na época da eleição.
 
A árvore? Corta! Ela não vota.
 
 
 
O presidente belicista
 
Quer mais polícia e armamento.
 
Meio-ambiente? “Tira da lista!
 
Só atrapalha o crescimento”.
 
 
 
O bronco ignora a natureza.
 
Não percebe o potencial.
 
Pensa poder gerar riqueza
 
Dilapidando o capital
 
 
 
Parece até o ‘esperto’ da lenda.
 
Ovos de ouro ele juntava.
 
Pra crescer logo sua fazenda,
 
Matou a galinha que os botava.
 
 
 
Um modelo que leve em conta
 
A imensa riqueza natural
 
Faria deste um país de ponta
 
Na nova ordem mundial.
 
 
 
Natureza exuberante,
 
Tanto turismo a explorar.
 
Mas nosso tosco governante
 
Quer só commodities pra exportar.
 
 
 
Feito o estrago, o responsável
 
No futuro não vai estar lá.
 
Pelo país inabitável,
 
Quem nossos filhos vão cobrar?
 
 
 
Se o poeta estivesse vivo,
 
No exílio seria mais feliz.
 
Não teria mais motivo
 
Pra tecer loas a seu país.
 
 
 
Bons dias os de Gonçalves Dias.
 
Os de hoje em dia já não são.
 
Se o inverno e o outono têm mais dias,
 
Primaveras não se verão.
 
 
 
E o infeliz do sabiá
 
Era feliz e não sabia.
 
Ressabiado, foi gorjear
 
Numa outra freguesia.
 
 
 
Palmeiras, flores, sabiás,
 
Coisa boa não se herda.
 
Meia volta, marchar pra trás!
 
Que o progresso deu em merda.
 
 
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Atualizado em: Sáb 10 Out 2020

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