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Pânico

Depois que saiu da mercearia e desceu a rua em direção à sua casa, percebeu que um homem a seguia, andando na calçada, do outro lado da rua. Podia ouvir os passos abafados, cabisbaixo, caminhando despretensiosamente. Ela apertou os olhos, se espremeu na parede e continuou a caminhar. Vislumbrou sombras pelo seu corpo, nuvens negras provindas das árvores plantadas na calçada, fabricadas pelas luzes fracas e amarelas dos postes de iluminação pública.
Continuou a se comprimir na parede, trombando com os beirais das janelas. Colocou sua mão direita dentro da bolsa e sentiu a lâmina gelada. Procurou mais um pouco e abraçou com os dedos o cabo da faca, sua velha companheira, seu cão de guarda nas caminhadas noturnas.
Seu perseguidor continuava logo atrás, do outro lado, caminhando na mesma velocidade. Ela deu uma olhada por sobre os ombros, sem diminuir os passos, e percebeu que ele começara a atravessar a via; primeiro uma perna, depois a outra, e depois...
Apertou o passo. Trombou em mais um beiral. Seu coração aumentou o ritmo.
Ele vai me matar... vai me roubar. Vai...
Ela chegou na esquina. Não olhou a rua e foi atravessando displicentemente. Seu único pensamento: seu perseguidor.
Serrou os olhos, andando às cegas por alguns segundos. Subiu a guia e continuou a forçar seu corpo contra a parede, deslizando, querendo atravessá-la, com as sombras camuflando a sua face.
Pinçou seus olhos sobres os ombros novamente. Ele continuava a descer, atrás dela, mais próximo agora. Carregava uma sacola branca em uma mão e um objeto escuro na outra, que não pode identificar.
Ela apertou o passo, quase correndo. Desviou de um degrau, mais um peitoril de janela e tropeçou. Cambaleou e segurou-se na parede chapiscada, esfolando seu braço direito. Não sentiu dores, não sentiu nada; apenas medo e pânico.
Ele está mais perto.
Olhou uma última vez para trás e percebeu o homem à sua cola. Ela apertou o cabo da faca pontiaguda e tirou-a da bolsa com uma habilidade nunca anteriormente praticada. O homem levantou o objeto preto, em um reflexo natural de defesa.
A mulher deferiu três golpes. Um pegou em seu pescoço, atravessando-o. O outro, em sua bochecha, rasgando-a. O terceiro, em sua têmpora, fazendo a lâmina desaparecer.
Ele caiu de frente, com um baque oco, batendo seu rosto no chão. O objeto preto voou até os pés da mulher - era um celular. Na tela, o rosto de uma criança chamava:
- Pai... pai... o que aconteceu? Já está chegando em casa?


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OBRA LITERÁRIA NÚMERO DE REGISTRO: 312238918
TIMESTAMP: 2020-08-21 23:12:25 GMT
TÍTULO DA OBRA: PÂNICO
ARQUIVO DA OBRA: 004-08-2020.pdf [20200821_231225].zip
REGISTRADO POR: LUIZ RENATO FERNANDES (AUTOR)
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Atualizado em: Seg 24 Ago 2020

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