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Uma pequena casinha turquesa.

Uma pequena casinha turquesa
Ele passava todos os dias em frente àquela casinha turquesa. Era uma casa pequena, com apenas um pavimento e que permanecia sempre fechada. Até mesmo as janelas tinham suas cortinas cor creme bloqueando a visão.
Naquele dia, como usual, o rapaz passou pela casa, a olhou por instantes e seguiu seu caminho.
Entrou na cafeteria em que tomava café antes do trabalho e pediu o que sempre comia:
- Por favor, uma fatia de bolo de limão e um cappuccino. – disse o jovem.
Beatriz, com seu sorriso encantador, serviu o pedido e disse que ele ficasse à vontade. Esse era o tratamento usual aos clientes, afinal. Ele a achava linda. Pensou em chamá-la pra sair algumas vezes, mas desistiu todas as vezes.
A vida não estava muito simples, o trabalho de auxiliar de gerência em finanças no New Bank não era nem de longe o que desejava para o seu dia-a-dia. Apesar disso, precisava ganhar dinheiro, pagar seu aluguel e a TV a cabo, uma de suas únicas diversões.
- O senhor Thompson está lhe chamando na sala dele. – disse a secretária executiva do diretor.
- O que será? – retrucou.
- Não sei, mas ele disse que era urgente.
O que não seria urgente naquele banco. Talvez o pagamento do bônus do final de ano, que sempre dependia da boa vontade e humor do diretor.
Bateu na porta.
- Sr.Thompson?
- Entre rapaz, preciso lhe pedir algo urgente. – e continuou – Nós estamos fazendo a compra de uma banco menor e preciso de alguém de confiança para analisar os números da transação. Posso contar com você? Você é um dos meus melhores analistas financeiros! – exclamou naquele elogio forçado para elevar a moral e ajudar a escravizar mais ainda o funcionário.
- I trust you! – usou seu bordão de incentivador.
- Pode deixar comigo! – respondeu o rapaz com um sorriso entredentes.
- Ahhhh... pra segunda! – falou fechando a porta.
Como era uma sexta-feira, ele já saiu pelo corredor imaginando que seu final de semana seria super emocionante.
O expediente acabou e todos se despediram para voltar para suas casas, curtir o final de semana com suas famílias. Ele não tinha ainda uma família e seus pais haviam falecido muito cedo. Sua companhia para o final de semana seriam os números.
O dia estava muito bonito, um céu sem nuvens e com um azul de reflexos perfeitos. Apesar disso, a temperatura estava amena. Ligou a TV e o noticiário local mostrava famílias no parque central da cidade se divertindo em piqueniques. Havia até um pequeno palco montado com uma programação musical bem agradável.
Por alguns segundos olhou o material de trabalho em cima da mesa e pensou em começar logo. Afinal, dessa forma, poderia acabar mais cedo e conseguir maratonar alguma série à noite.
Olhou novamente.
Olhou novamente.
Olhou para a TV. E para o parque com seus piqueniques.
Resolveu sair. Ver o dia. Fazer algo que nunca fazia.
Saiu confiante.
Descia a rua que o levaria ao metrô e sabia que passaria novamente em frente à pequena casa turquesa.
Quando chegava próximo à casa começou a ouvir gritos abafados. Parecia que vinham de dentro da casa. Mas não fazia sentido pois nunca viu ou ouviu nada que indicasse que alguém morava ali.
Chegando mais perto, realmente, alguém gritava de dentro da casa.
- Socorro! Socorro! Ajudem! Não consigo levantar do chão.
O grito abafado era de uma mulher, uma voz que expressa com clareza o sentimento do momento em que se encontrava.
- Olá! Olá! Precisa de ajuda? – disse ele ao se aproximar.
- Graças a Deus! Entre, entre! A porta está aberta. – pediu a voz de dentro da casa.
Girou a maçaneta e a porta abriu com facilidade. Nossa, pensou, será que essa casa sempre fica aberta. Como nunca há sinal de movimento, poderia ser alvo de ladrões.
- Com licença. – disse o rapaz.
- Entre, meu filho. Graças a Deus alguém me ouviu. Achei que iria ficar estatelada aqui no chão todo o final de semana. – respondeu a senhora.
Ao entrar, o visitante inesperado viu uma senhorinha no chão. Estava um pouco acima do peso e, por isso, não conseguia levantar.
- Muito obrigada, meu filho! Além de estar um pouco cheinha, também tenho problemas nas articulações. – disse a senhora com voz amável.
Colocou-a sentada em um sofá antigo, que lembrava muito o de sua casa porém mais surrado do tempo.
- A senhora está bem? – perguntou.
- Estou, sim. Fico muito sozinha nos finais de semana porque meus filhos moram em outros estados e a pessoa que cuida de mim não vêm nos finais de semana.
Naquele momento ele sentiu pena e se identificou um pouco com a história, afinal ele também era muito sozinho.
- A senhora quer que ligue para alguém?
- Não é necessário. Estou bem e prometo que tomarei mais cuidado para não cair de novo.
- Bom, então, já vou indo pois tenho muito a fazer.
- Ahhh... não diga isso. Tem mesmo? Tem certeza de que é tão importante assim?
- Tenho, preciso entregar esse trabalho até segunda-feira.
- Ihhhh... parece meu pai. Não agora, claro, ele já faleceu. Na época em que era mais jovem só o via trabalhando. Dias de semana e finais de semana. Minha mãe ficava muito sozinha e triste. Mas isso não importa, fique pelo menos para um cafezinho. Fiz um bolo de cenoura com cobertura de chocolate que é irresistível. Meu pai adorava quando fazia, é receita da minha mãe.
Com pena, ele respondeu.
- Hummm... não diga isso, é meu preferido também.
- Perfeito! Então, vamos comer na mesa da cozinha?
Ele a ajudou a levantar e foram para a cozinha. Era uma cozinha com azulejos azul claro na parede e um piso que com peças de porcelanato menores. Apesar de um aspecto antigo, ele gostou muito da combinação. Era meio esquisita, mas o agradava. Havia um relógio na parede, mas estava parado, não funcionava mais.
- Sente-se, meu filho. Posso lhe perguntar uma coisa. Qual seu nome? Esqueci também de me apresentar, meu nome é Amélia.
- Meu nome é Davi. Minha mãe gostava muito do nome e, por isso, me chamo assim.
- Nossa, que coincidência imensa! Meu pai se chamava Davi!
- Nossa, é mesmo, o nome não é tão comum assim.
Ele se sentou à mesa enquanto ela passava o café. Cortou uma fatia generosa de bolo e o serviu. Colocou duas pequenas xícaras de ágata sobre a mesa e serviu aos dois.
- Me conte mais de você, meu rapaz. Já casou? Têm filhos?
- Não, não. Trabalho demais e acabo não tendo muito tempo para conhecer pessoas.
- Ahhh... meu filho, não faça isso. Só se percebe que não se tem mais tempo quando não há mais tempo para se pensar nisso. Acredite!
- A senhora tem razão.
- Meu pai trabalhava muito, assim como você, e quase não tinha tempo para mim e para minha mãe. Não faça o mesmo com sua futura família. Isso magoou tanto minha mãe que acho que morreu de puro desgosto.
- Do que ela faleceu?
- Não se soube ao certo. Era jovem, trabalhava, como meu pai, mas também cuidava de mim. Ela tinha um emprego de apenas meio período em uma lanchonete aqui do bairro e, no período da tarde, ficava comigo.
- Nossa, seu bolo é muito bom! O melhor que já comi! Sério!
- Agradeça a minha mãe, a receita é dela. Ela tinha muitas receitas por conta do trabalho na cafeteria.
O bolo estava mesmo muito gostoso. O elogio que ele fez tinha sido realmente sincero.
- A senhora pode me dar a receita? Vou levar a uma amiga minha que também trabalha numa cafeteria. Vai fazer o maior sucesso.
- Claro.
Levantou-se, abriu uma gaveta e pegou um papel.
- Aqui está.
O papel já tinha a receita escrita. Pareceu estranho ou, no mínimo, o ego da senhora era imenso. Ter uma receita já escrita para entregar a quem pedisse. Parecia que já esperava essa reação de mim.
- Pode levar a receita original. Já tenho tudo aqui na minha cabeça. – disse a senhora e piscou seu olho direito.
- Muito obrigado! A senhora é muito simpática! O café e o bolo estão ótimos, mas agora preciso ir mesmo.
- Ahhh... não diga isso. Meu pai era assim. Lembro que estava sempre correndo e não aproveitava sequer um minuto de despreocupação. Tenho muita pena de como ele foi e do que ele mesmo se provocou. Quando não estava trabalhando, ficava horas vendo televisão. Dizia que era sua forma de desestressar. Posso lhe dizer uma coisa, Davi?
- Claro.
- Não seja igual ao meu Davi. Meu pai não viu a vida e nem a vida o viu. Podia ter sorrido muito mais e contado anedotas, ter viajado mais e levado a família para lugares horríveis, mas que ficariam na memória. Podia ter me visto quando me formei, depois quando tive meus filhos, os netos dele, mas morreu cedo. A vida se cansou dele.
Ele levantou e foi em direção à porta.
- Que bom que a senhora está bem. Voltarei outro dia para conversarmos mais e para mais um cafezinho com seu delicioso bolo de cenoura.. Posso?
- Sim, meu filho! Não vou a nenhum lugar. Estarei te esperando.
Nos despedimos, lhe dei um abraço e sai.
Foi um tempo muito agradável. Ele se deixou envolver com o bate papo sem nem pensar no tempo. Parecia que o tempo havia parado para que aquele encontro acontecesse.
Estava indo em direção à lanchonete. Resolveu passar lá pra entregar a receita para Beatriz. Havia ouvido tudo que a senhora disse e estava cheio de si. Sol, parque, um papo descontraído, estava sendo um ótimo dia.
- Bom dia, Beatriz! – disse ele ao entrar na cafeteria.
- Bom dia, Davi! Você aqui em um sábado? – respondeu a atendente.
- Pois é, você não acreditaria, mas acabei ajudando uma senhora no caminho e bati um longo papo com ela. Ela me serviu um bolo de cenoura muito, muito gostoso e pedi a receita para trazer pra você.
- Nossa, que legal! Deixa eu ver.
- Aqui está, ela disse que era a receita original que recebeu de sua mãe.
A atendente olhou a receita e, com uma voz espantada, perguntou.
- Quem escreveu isso aqui no verso da receita? Olhe.
    Receita 27: Bolo de cenoura com cobertura de chocolate caseiro
- Não sei, talvez ela mesma ou a mãe.
- Davi, essa letra é minha e sempre escrevo isso no verso das receitas que acho que ficaram perfeitas. Faço isso porque vou passar todas as receitas se tiver uma filha no futuro. Receitas de família. Já tenho até o nome dela, será Amélia.
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Atualizado em: Qua 28 Out 2020

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