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OS ESCRITOS REVELADOS, DE UM GAJEIRO ITINERANTE (Tomo - 1)

FROTA DE CABRAL, EMBAIXADA APARATOSA 
Lisboa, 8, março, 1500  

Eu consegui apurar em fontes oficiais, o cuidado, a grandeza e a importância emprestados pelo Rei à expedição de Cabral. Os tripulantes casados receberam um ano de vencimentos antes de embarcar. Esse é apenas um dos inúmeros pontos que atestam o especial interesse da Coroa em dispensar cuidados extraordinários à expedição comandada por Cabral. Os mantimentos, em grande quantidade, são os melhores já fornecidos a tripulações de navios. Os capitães fidalgos levam suas mais luxuosas vestimentas para as recepções nas Índias. Os cofres, principalmente os do Capitão-Mor, Pedro Álvares Cabral, e do feitor para Calecute, Aires Corrêa, estão abarrotados de moedas de ouro, incluindo-se além das portuguesas, coroas, florins, ducados e até mesmo dobrões mouriscos. A nau de Álvares Cabral está cheia de presentes para os monarcas de Melinde e da Índia, principalmente ricos trabalhos em prata. A expedição tem, assim, um cunho de embaixada de luxo, solene e aparatosa. Jóias, tecidos e as alfaias mais ricas, compradas nos famosos armazéns do florentino Marchioni, se amontoam no navio do Capitão-Mor. Apurei, também, que todos os tripulantes, de volta a Portugal, terão direito de trazer especiarias compradas com as mesmas vantagens do Estado; e, praticamente, terão uma participação geral nos lucros da expedição.

RETROSPECTO DA VIAGEM

Esta esquadra que, militarmente, é a mais poderosa que já saiu de Portugal desde há vinte anos, quando, para conquistar Arzila e Tanger, se reuniram 338 navios de todos os tipos, contava ao zarpar de Lisboa, com treze unidades, das quais dez naus e três navetas. Sua construção, assim como o armamento moderníssimo, obedeceu às instruções de D. Vasco da Gama, mestre no assunto. Foram introduzidos grandes melhoramentos no velame, nas acomodações da tripulação e nos paióis de mantimentos. As naus variam entre 200 e 300 toneladas. As navetas são bem menores. Entre as naus se destacam “El-Rei” do comando de Sancho Tovar, “S. Pedro”, de Pero Ataíde (apelidado – O Inferno) e “Anunciada”, de Nuno Leitão. O pessoal a bordo, somava, além de oficiais, religiosos, degredados, capitães, escrivães, etc., um total de 1.500 homens de armas e cavaleiros, entre eles Vasco da Silveira e João de Sá. Os outros comandantes além dos citados, são Simão de Miranda, Aires Gomes da Silva, Bartolomeu Dias, Diogo Dias, Gaspar de Lemos e Luís Pires. Sancho de Tovar é o imediato da esquadra. A bordo da nau-capitânia, com missão aparente de diretor de rotas, mas, evidentemente, com outra secreta que não consegui apurar, viaja D. Duarte Pereira, navegador e cientista de renome, talvez o principal membro da delegação portuguesa que tomou parte na discussão, aprovação e fixação do Tratado de Tordesilhas. Afora o armamento poderoso – canhões modernos nos dois bordos das naus – transportam elas, bombardas grandes no convés, destinadas a destruir posições fortificadas em terra.

OS PREPARATIVOS

No dia 8 de março deste ano, no Restelo, perto de Lisboa, o Rei D. Manuel e sua Corte vieram assistir à missa pontifical e comandar a procissão de despedida da esquadra que ali estava fundeada. Depois que o Rei e a sua Corte se retiraram, ficaram contemplando as naus onde já todos haviam embarcado, mulheres e crianças choravam a partida de seus pais, filhos, maridos, irmãos e noivos. No dia 9 pela manhã a esquadra zarpou. De panos abertos, partimos para Calecute, nas Índias, com rumo sul - sudoeste e com ventos propícios logo à saída da baía de Cascais. Ninguém poderia imaginar que, exatamente 44 dias depois, a 22 de abril de 1500, avistaríamos o monte a que o Capitão-Mor deu o nome de Pascoal e, depois, a terra que batizou como de Vera Cruz.
 

A BORDO DA NAU-CAPITÂNIA – CABRAL DESCOBRE A TERRA DE VERA CRUZ

Depois de 44 dias de viagem ininterrupta, singrando o “Mar Tenebroso”, nove naus e três navetas portuguesas, compondo uma esquadra comandada pelo Capitão-Mor Pedro Álvares Cabral, fundearam no dia 22 de abril, próximo a um monte que foi denominado Pascoal, na costa de uma terra que é assim descoberta, e à qual se deu o nome de Vera Cruz. Quando partiram de Lisboa eram 13 os navios; porém, no dia 23 de março, a nau comandada por Vasco de Ataíde desapareceu. Durante dois dias toda a esquadra navegou para o norte à procura da nau de Vasco de Ataíde, que, misteriosamente, desapareceu esta noite no Mar Tenebroso, exatamente na madrugada do dia 23 de março de 1500. Não houve temporal e nem mesmo ventania que pudesse justificar a perda da nau. Os tripulantes murmuraram sobre monstros marinhos e coisas desse tipo. Um dos oficiais declarou-nos que a única justificativa aceitável para aquele desaparecimento, é a de ter o barco sofrido, por motivos ignorados, avaria grossa. Fazendo água perdeu velocidade e, pouco a pouco, soçobrou, fora do alcance da esquadra.   
A descoberta da nova terra se deu no dia 22, à tarde, quando eu mesmo bradei, emocionado, como gajeiro, lá de cima da gávea da nau-capitânia: TERRA! TERRA A VISTA! E tudo teve início. Protegidos pela imagem de Nossa Senhora da Esperança, padroeira e sacra protetora da nossa esquadra. Ela acompanhou a expedição que descobriu a terra de Vera Cruz.
Na véspera, quando ainda navegávamos, grande nervosismo reinou a bordo de todos os navios, porque foram vistos, sobre as águas, ramos, sargaças e plantas marítimas. Ao mesmo tempo, sobre as nossas cabeças, esvoaçavam inúmeros pássaros. Sancho Tovar, sota-capitão, ou imediato, da esquadra sob o comando de Cabral, nos declarou, então: “É certo que amanhã, pela manhã, teremos à proa das naus, algo de novo. Cumprindo ordens do Capitão-Mor, mandamos à frente as três navetas que, pelo seu menor calado, menos riscos correrão se, de fato, estivermos próximos de novas terras”.
De fato, a 22, alertados e em alvoroço com os meus gritos, pudemos todos ver, no fundo do horizonte, um alto monte arredondado. Cabral anunciou à esquadra que, estando na Semana da Páscoa, o monte, primeira terra avistada, recebia, por sua ordem, o nome de Pascoal. Vivemos momentos de grande emoção a bordo da capitânia. Ao nosso lado, frei Henrique de Coimbra, chefe dos oito franciscanos que se encontram na esquadra, disse trêmulo: “Louvado seja Deus”.

DIA 23: EM TERRA

“...17, 16, 15, 14...9 braças!” – A voz do contramestre de um dos batéis que seguiu à frente da esquadra, anunciou a profundidade que ia medindo com a sonda. “Lançar ferros!”, ordenou o Capitão-Mor. E a esquadra fundeou ali, nas primeiras horas da manhã abafada e quente diante da foz de um rio com altas barrancas vermelhas e brancas. Gonçalo Madeira intérprete da esquadra indicou a praia, mostrando vultos nus que se moviam em alvoroço, apontando para as naus. Lá estavam eles na praia, as mãos sobre os olhos, a tentar descobrir o que significamos e o que somos.

O PRIMEIRO ESTRANGEIRO

O primeiro homem civilizado visto pelos índios da nova terra foi o português Nicolau Coelho que, na quinta-feira, 23 de abril de 1500, rumou até a foz do rio, junto à praia, num batel a remos. Lá estavam cerca de dezoito vinte nativos. Coelho voltou à nau-capitânia, dando conta de sua missão e explicando que não pôde entrar em contato direto com os índios, inclusive porque o mar quebrava com força na praia e foi impossível aproximar-se muito. Nicolau Coelho é um dos que estiveram ao lado de Vasco da Gama na viagem do descobrimento do caminho marítimo da Índia. Foi ele o comandante da nau “Berrio”, naquela expedição. 

DIA 26: SELVAGENS A BORDO

No dia 26, depois de uma reunião realizada no camarim do Capitão-Mor, com a presença dos doze capitães, ficou decidido enviar um dos barcos de volta a Portugal, para comunicar a D. Manuel a descoberta da nova terra. Pela manhã efetuamos p primeiro desembarque, pisando o solo de um dos ilhéus desta baía. Nele, frei Henrique de Coimbra disse a primeira missa junto a uma cruz feita de madeira colhida nas matas do ilhéu. Estiveram presentes todos os Franciscanos, mas o inegável receio que ainda sentimos de nos aproximar de terra firme, onde se encontram os naturais, sempre nos espreitando, fez com que o Capitão-Mor tomasse medidas acauteladoras, deixando os batéis a patrulhar a beira da praia. Pela tarde os capitães desfilaram ao longo do litoral em batéis cheios de soldados, soprando as trombetas. Os vistosos uniformes, as lanças, os arcabuzes e todo o aparato militar, fizeram com que os selvagens, aos poucos, fossem deixando-se dominar pela admiração e respeito. Na véspera, Afonso Lopes, piloto da capitânia, por ordem de Cabral, foi à terra firme, e de lá voltou em seu pequeno barco com dois nativos. O Capitão-Mor os recebeu em seu camarim. Eles se apresentaram totalmente nus. Não quiseram comer nada do que lhes foi oferecido. Interessaram-se muito pelo grande colar de ouro que o Capitão-Mor traz no peito, assim como pelos castiçais de prata. Pareciam querer dizer que em terra existem esses metais preciosos. Apesar de tudo dormiam no camarim do Capitão e, pela manhã, foram levados de volta a terra. Pero Vaz Caminha, escrivão que acompanha a esquadra, contou-nos coisas interessantes sobre os visitantes: “Tudo que provaram jogaram fora. Não toleraram o vinho. Mal tomaram um gole e afastaram as taças da boca, fazendo horríveis caretas. Até a água que lhes oferecemos, eles se negaram a beber e coisas assim.” Cabral mandou depois que Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias levassem os nativos de volta. Em outras declarações Caminha que os acompanhou no pequeno barco disse: “Lá em terra estavam muitos deles. De 400 a 450 índios, dando nessa quinta-feira a melhor das recepções que a expedição já teve. Em nenhum ouro dia se verificou confraternização tão grande dos índios com que foram à praia em nova missão exploradora. Todos nus e com ossos atravessados no beiço. Distribuímos campainhas e colares de contas. Usam arcos e flechas como armas. Mas não nos ameaçaram com eles. Eles deram seus arcos, suas flechas e seus enfeites de penas em troca de qualquer coisa, desde guizos até colares de contas. Ficamos a distância, enquanto permaneceu em terra o degredado que queríamos deixar lá, o Afonso Ribeiro. Eles o mandaram de volta sem lhe fazer mal algum. Nenhum ato de hostilidade teve lugar até hoje. Sancho Tovar, de volta, declarou: “Comeram conosco do que lhes demos e, desta vez, ao contrário de outras, alguns deles beberam vinho, enquanto outros continuaram se negando a beber. No entanto, tenho a certeza de que, se acostumarem, todos hão de beber, vinho à vontade”. O mais fielmente possível, unicamente dando às palavras de Caminha o indispensável cunho informativo, transmito a narrativa de episódio pitoresco acontecido no domingo de Páscoa com Pedro Álvares Cabral: “O Capitão ia subindo o rio que corre rente à praia. Parando o batel, em certo ponto, esperou por um velho índio que, uma vez chegado à sua presença, falou-lhe em língua que ninguém entendeu. Nem ele entendia a nossa. O Capitão se interessou muito em interrogar o velho sobre a existência de ouro em Vera Cruz, sem resultado. Esse velho tinha o beiço tão furado, que cabia, no orifício, um dedo polegar bem grosso. Pelo lado de fora, via-se, a tampá-lo, uma pedra verde que não devia ter nenhum valor. O Capitão Cabral, por meio de sinais, fez com que ele tirasse a pedra verde do beiço. O velho, com a pedra na mão, não sei que diabo de coisas dizia, mas insistentemente tentava introduzi-la na boca do Capitão. Cabral se viu atrapalhado, para livrar-se dele, enquanto nos divertíamos com isso, e improvisávamos chalaças sobre a tentativa do índio”. 

A SEGUNDA MISSA

Assistida pelo Capitão-Mor, por todos os capitães, frades e oficiais, assim como homens de armas e cavaleiros, foi realizada missa, anteontem. Dia 1 de maio. Cerca de duzentos nativos assistiram a ela. Muitos deles ajudaram a fincar no chão a cruz de madeira. Nos últimos dias o pessoal da esquadra estabeleceu contato com os índios. Água e lenha foram transportadas nos seus possantes braços para bordo das naus de mantimentos. Quase sempre eles vinham em grupos, trazidos pelos capitães e imediatos, visitar as naus da esquadra. E alguns nelas dormiam. Um judeu, Gaspar da Gama, quando os índios e os portugueses cortavam lenha para as naus, descobriu a existência em Vera Cruz, do “pau-de-tinta”, que os italianos chamam de “verzi” ou “verzino” e, outros, em Portugal, chamam brasil. Gama estava na expedição por ordem do Rei D. Manuel, como perito em coisas do Oriente. Portugal vem importando o pau-de-tinta ou pau-brasil, do Ceilão e do Sião. Pero Vaz Caminha fez curiosas e interessantes declarações: “Pelo que pude ver, eles não conhecem os animais domésticos. Alimentam-se quase que exclusivamente de inhame e raízes de árvores. E veja que assim mesmo são tão ou mais fortes do que nós. Não possuem instrumentos de ferro. Pena que o senhor não tenha visto o interesse e a curiosidade com que eles acompanharam o talhamento da madeira para a fabricação da cruz. Seus instrumentos de corte se resumem a uma pedra afiada apertada entre dois paus. Eles não lavram nem criam. Moram em toscas choupanas coletivas. Mas, repito, o seu escrito deve destacar que gozam de extraordinária saúde. Entre gargalhadas nos contou o escrivão da esquadra: “Imaginem que, anteontem, quando mostramos uma galinha aos dois primeiros índios que vieram a bordo, eles demonstraram tremendo medo. Nunca haviam visto bicho igual. Só depois é que se acostumaram com ela”.

A ÚNICA MULHER

Uma só mulher acompanhou e assistiu à missa. É moça e estava nua. Pequenos crucifixos de estanho foram colocados por Nicolau Coelho em volta do pescoço de cada um dos índios. Frei Henrique benzia-os e eles demonstraram alegria com as prendas recebidas.

CORREIO MARÍTIMO

A 2 de maio de 1500 levantou ferros e partiu rumo a Lisboa o navio de mantimentos que obedece ao comando de Gaspar Lemos. Ele foi incumbido de levar a D. Manuel, Rei de Portugal, as notícias do descobrimento. Lemos leva consigo várias cartas e relatórios, além de objetos colhidos aos índios. Inaugurou-se assim a linha de correio marítimo entre a nova terra e a metrópole.

DECLARAÇÕES DE UM DOS CAPITÃES

Sem assumir a responsabilidade das declarações que prestou a mim, um dos capitães da esquadra externou a seguinte opinião: “Acredito que esta terra desde o extremo sul até o extremo norte, conte, pelo menos, com vinte e cinco léguas de costa. No entanto, suponho que é uma terra imensa e com vastas possibilidades”. Pero Vaz Caminha, que me informou ter escrito a S. Alteza D. Manuel, Rei de Portugal, enviando detalhes sobre a descoberta, mais uma vez se mostrou interessado em transmitir a esse modesto gajeiro, suas impressões: “Pelo sertão que conseguimos divisar daqui, é uma terra muito grande e cheia de matas. Não é possível, assim tão rapidamente e tão longe do interior, dizer se aqui existe ouro ou prata, ou ferro ou outro qualquer metal, precioso ou não. Estou tão entusiasmado com essa terra de Vera Cruz que, aqui deste Porto Seguro, estou escrevendo ao Rei para dizer-lhe que ela é de tal maneira graciosa que se quisermos aproveitá-la, nela conseguiremos tudo”.    
 

INTRIGA DE BORDO

Quando Pero Vaz Caminha se afastou, um dos oficiais de bordo da nau-capitânia fez questão de dizer a mim, com um sorriso: “Ele não lhe disse o que escreveu no final da carta que mandará ao Rei?”. E diante da minha resposta negativa, acrescentou com ironia: “Nas duas últimas linhas tinha de pedir alguma coisa em troca do relatório que fez. Tanto assim que terminou solicitando ao Rei transferir seu genro Jorge de Osório, de São Tomé para Lisboa”.
 

DUAS CORRENTES DISPUTAM A ELEGÂNCIA - A MODA COMO ELA É

Duas correntes dividem hoje a moda dos vestidos das damas nobres: a italiana e a da tradição francesa. A vestimenta francesa completa compreende uma camisa de longas mangas de fino tecido da Holanda, calções internos de pano, pretos e vermelhos, bordados e atados nos joelhos por meio de fitas. Até 1500, o corpete era usado sobre a camisa e preso ao busto. Nessa época já se suprimia a “colerete” e a gargantilha de cambraia, que foram substituídas pelos peitilhos ricamente bordados a seda, prata, ouro ou mesmo pérolas. Esse peitilho saía de um decote quadrado sobre o busto, que se apresentava em forma alongada nas costas. Hoje os vestidos à italiana apresentam mangas sobrepostas, em duas partes, deixando ver a camisa através de abertura. Do punho ao cotovelo fica a “manchete”, cobrindo o antebraço, e o “mancheron”, espécie de manga bufante até os ombros. Os vestidos flamengos (de Flandres) têm um corpete de veludo e saia de damasco, com mangas soltas, deixando ver as malhas internas. Os cintos chatos foram substituídos por cordões grossos e longos, com grandes borlas nas extremidades. As saias, muito rodadas, feitas com muita fazenda, são pesadas e, por isso, suspensas por broches, na maioria das vezes verdadeira jóias. Na cintura há dois cintos. Do primeiro pende um pequeno punhal dentro de sua bainha. Do segundo, pendem o rosário e outros objetos femininos.   
 

MODA MASCULINA

Os elegantes de hoje começam a usa uma pequena capa, a “manteline”, cobrindo apenas os ombros, e o gibão, feito todo da mesma fazenda. Nas grandes cerimônias, vestem uma longa capa, aberta, na frente, de alto a baixo. As lapelas de arminho prolongam-se, terminando numa gola caída pelas costas. A roupa masculina é aberta dos lados em toda sua altura, desde o ombro. Essa abertura é fechada por broches, pregados espaçadamente, os quais serão retirados para melhor movimentação dos braços, quando necessário for, deixando fechada a parte inferior.  


MODA NO BRASIL

A moda entre os nativos é muito rude e singela. Os homens se pintam de preto e vermelho. As mulheres, em sua nudez, usam também, pinturas pelas pernas. As mulheres usam uma espécie de faixa de tecido rudimentar, feito de fibras, para carregar os filhos presos aos seios. Os homens trazem o beiço inferior furado, e nele, atravessado, um osso ou uma pena. Às vezes, homens e mulheres usam um tecido feito de penas de cores berrantes entrelaçadas. Na cabeça põem alguns como que coroas enfeitadas de penas verdes, vermelhas e amarelas, principalmente de papagaios.  

MORTE DE CAMINHA

Por intermédio do Capitão-Mor Cabral, fui informado de que Pero Vaz Caminha, escrivão, natural do Porto, mestre da balança da Casa da Moeda da mesma cidade, e um dos meus maiores informantes, morreu nas batalhas travadas em Calecute, no dia 16 de dezembro de 1500. 

DESCOBERTA DO RIO

Em 1, janeiro, 1501, a esquadra de André Gonçalves descobriu a entrada da baía do Rio de Janeiro. Segundo fui informado, Gonçalves, foi deixado em Cananéia o bacharel Duarte Perez, fidalgo português, degredado, que lá ficou entre os índios. Sobre estes, acresce notar que tanto Vespúcio, como os capitães e oficiais, afirmam que não encontraram em outros ancoradouros índios ferozes como os do cabo de São Roque. Pelo contrário. Com muitos daqueles outros, puderam entrar em entendimentos. O capitão Gonçalves informou que a esquadra voltou reduzida a dois navios, porque o outro foi queimado por sua ordem, num porto africano, por não estar mais em condições de prosseguir viagem.

PREMISSA 1 – A RIQUEZA QUE SURGE

A Europa, desde a metade do século passado, caminha para grandes modificações no seu sentido de vida. Desde que o sultão otomano Maomé II, já estabelecido em Adrinopla, e dominando grande parte da antiga Trácia, se lançou com o peso esmagador dos seus exércitos sobre a isolada capital do Império Bizantino, em 1453, deixou entre a Europa e o Oriente uma cortina de aço. O poderio do Islão, abatido pela reconquista da Espanha e de Granada pelos ocidentais, quase que ao mesmo tempo em que se anunciavam as novas descobertas de Colombo, recobrou novas forças com a tomada de Constantinopla e o conseqüente predomínio que essa vitória deu, em todo o Levante, ao Império do Grão-Turco.  As dificuldades criadas ao comércio, com a perda do Mediterrâneo, obrigaram as nações marítimas européias a buscarem no Mar Oceano novas rotas para seus negócios.  As artes, a ciência, as descobertas e o aprimoramento cultural, resultaram, pelo enriquecimento do povo, na obrigatoriedade de maior intercâmbio para atender ao aumento de consumo e à satisfação de novas necessidades. Têm grande destaque nessa verdadeira revolução na vida de hoje o aperfeiçoamento da arte naval e o emprego de novos instrumentos náuticos, que possibilitam aos navegadores, maior raio de alcance com menor risco. O Mar Oceano, por uns considerado interdito, por outros chamado de tenebroso, perdeu sua categoria de fantasma da navegação com as viagens dos pilotos de Sagres, desde o infante D. Henrique, de gloriosa memória, até a descoberta das terras das Índias Ocidentais, por Cristóvão Colombo. Pode-se dizer, hoje, que, a não ser para a marujada, estão superados os tão decantados perigos e lendas do Mar Oceano.  Em busca das riquezas do Oriente, o navegador Vasco da Gama conseguiu vencer o Cabo Tormentório, dar volta à África e chegar à Índia e descobrindo assim, largos horizontes e verdadeiras ambições de riqueza dos povos peninsulares, como a propagação da fé cristã entre as gentes das mais longínquas paragens. Depois, na segunda expedição enviada pelos portugueses às Índias, foi o capitão Pedro Álvares Cabral quem encontrou uma nova terra de bons ares e grandes arvoredos à qual deu o nome de Vera Cruz e que, mais tarde, passou a ser chamada de Santa Cruz e recentemente de Brasil. A descoberta teria sido premeditada, ou deve-se ao acaso? O silêncio e as declarações dúbias e nem sempre merecedoras de fé, de altas personalidades da corte portuguesa, estenderam como que um véu sobre essa questão, impedindo que o observador imparcial possa responder com segurança. É fora de dúvida, no entanto, a importância da descoberta. É cedo para se avaliar dos recursos da terra, mas, sabe-se, que, pelo menos em pau-brasil ela é muito rica. Por ouro lado, representa uma excelente escala na viagem às Índias. O interesse comercial que ela vem despertando se faz sentir em toda a Europa. A alta de preço do pau-brasil na Feira de Flandres, causada por dificuldades criadas pelos turcos à navegação do Mediterrâneo, faz com que os importadores tradicionais do produto se voltem para a nova terra. Um dos primeiros a entrar no negócio em grande escala é o Sr. Fernando de Noronha, que, associado a outros comerciantes, arma navios e frotas inteiras para importação de pau-brasil. A nova riqueza que surge, deverá alcançar, dentro de pouco tempo, lugar de destaque no comércio europeu, assim como contribuirá decisivamente para aliviar as dificuldades enfrentadas pelo erário português, bastante onerado com os enormes gastos das últimas armadas. O papel do pau-brasil, que empresta agora seu nome à terra descoberta pelo capitão Cabral, está destinado a se destacar nos meios comerciais europeus e, muito em particular, nos portugueses.

BOMBARDEADA CALECUTE PELOS PORTUGUESES
Lisboa, 2, maio, 1501

Com apenas quatro, dos treze navios que daqui partiram a 9 de março do ano passado, fundeou no porto a esquadra de Pedro Álvares Cabral. O descobridor da Terra de Vera Cruz retorna à Pátria, depois de quase 14 meses de ausência. O cais esteve apinhado de gente, que, com ansiedade, buscava parentes e amigos, entre os tripulantes. Muitos choravam e se lamentavam. Outros vibravam de alegria, não só pelas glórias que a expedição trouxe, como também por reconhecer nas amuradas das naus os entes queridos que voltavam.  Houve festa nas ruas de Lisboa, que se engalanaram para saudar o Capitão-Mor da esquadra, seus oficiais, homens de armas e tripulantes. Em declarações aos portugueses, Cabral relatou em breves palavras o sucesso da expedição: “Logo no início da viagem perdemos a nau de Vasco Ataíde. Saímos de Porto Seguro com onze barcos. Desgraçadamente, a 23 de maio do ano passado, uma terrível tempestade nos assaltou ao dobrarmos o Cabo da Boa-Esperança, levando para o fundo do mar as naus de Bartolomeu Dias, Luís Pires, Aires da Silva e Simão de Pina. Já então ficamos reduzidos a 7 naus. Dividimo-nos em três grupos. Diogo Dias tomou rumo ignorado e os seis restantes nos reunimos em Moçambique. Dali rumamos à Índia. As insídias e represálias de alguns chefes indianos me obrigaram a reagir com violência, quando minha missão era mais política e comercial, do que de guerra. Fui forçado a bombardear Calecute. Apesar da diferença numérica, levamos vantagem em todas as batalhas travadas. Dali seguimos para Cochim e Cananor, onde nos abastecemos das especiarias que trazemos a bordo em grande quantidade. Deixamos a Índia em 16 de janeiro. Já na costa da África perdemos a nau de Sancho Tovar, que naufragou. Irei agora ao Rei D. Manuel, apresentar um relatório minucioso da expedição”. 
  
LUCRO OU PREJUÍZO

De volta a Lisboa, da viagem em que descobriu a Terra de Santa Cruz, Cabral trouxe da Índia grandes quantidades de pimenta, gengibre, noz moscada, almíscar, açafrão, cana, diamantes, pérolas, rubis, etc. As informações sobre os resultados da expedição divergem muito, inclusive porque os interessados não estão dispostos a fornecer elementos concretos a respeito. Duas versões completamente diversas se apresentam como voz corrente em Lisboa. A primeira afirma que a expedição deu prejuízo e a segunda, ao contrário, calcula que a sua renda atingiu o dobro do custo.

VERA CRUZ – SANTA CRUZ
Lisboa, 9, julho, 1501

Escrevendo hoje a seus sogros, os Reis católicos Fernando e Isabel de Espanha, D. Manuel o Venturoso rebatizou a nova terra. Chamando-a de Santa Cruz, em vez de Vera Cruz. Nessa cara, o soberano de Portugal não empresta muita importância à descoberta da qual lhe trouxe notícia, por ordem do comandante Cabral, o Capitão Gaspar de Lemos, que, abandonando a esquadra descobridora, voltou a Lisboa com uma das naus de mantimentos. D. Manuel se refere à Santa Cruz como “uma ilha grande e boa para refresco e aguada dos navios que fossem à Índia”.

NEGÓCIOS DE PIMENTA E CANELA
Antuérpia, 1501

Chegaram a esta cidade as duas primeiras caravelas que utilizaram a rota do Cabo da Boa-Esperança, trazendo de Calecute, na Índia, pimenta e canela. A mercadoria foi adquirida pelo negociante Nicolau van Rechterghem, que a expediu para a Alemanha, onde os grandes mercados de Nuremberg e Augusta representam os principais centros de venda para os produtos orientais na Europa Central. 

OS QUE TRAZEM A MORTE NA BOCA

O armamento moderno tem aumentado em muito a mortandade nos campos de batalha e nos encontros navais. A fabricação de canhões de modelos diferentes, em escala já bastante grande, reforça e torna cada vez mais terríveis os exércitos em combate. São eles os grandes canhões de campanha e os menores utilizados nos cercos e sítios de cidades. 

VENEZA PERDE MEDITERRÂNEO
Veneza, 24, dezembro, 1502

Depois de quase dois anos e meio de guerra venezianos e turcos assinaram hoje, nesta cidade, um tratado de paz. As hostilidades tiveram início em junho de 1499. Os de Veneza vão abandonar Lepanto, assim como outras ilhas do sul da Grécia, mantendo em seu poder algumas da costa oeste. Este tratado de paz foi recebido com tristeza pelos venezianos, uma vez que representa um golpe de more no controle do Mediterrâneo, até agora por eles exercido. Com a descoberta pelos portugueses, de novos caminhos para as Índias, descoberta de eu já se tem conhecimento, se tornam obsoletas as rotas usadas por Veneza. Parece que a supremacia comercial veneziana está definitivamente liquidada. As compras e trocas com o Oriente ficam quase que inteiramente nas mãos de portugueses e holandeses.

MOUROS EXPULSOS DA ESPANHA
Madrid, 12, fevereiro, 1502

Por decreto de hoje, a Coroa espanhola acaba de determinar, que sejam expulsos das suas fronteiras, sem exceções e com a máxima urgência, todos os mouros não convertidos ao catolicismo. A drástica medida é a repetição da de 1492, atingindo os judeus, que tiveram os bens confiscados para financiar a expedição de Colombo.

EM SOCIEDADE
Lisboa, junho, 1502

Os paços do Castelo Real se engalanaram para receber a fina flor da sociedade lisboeta, assim como o corpo diplomático, no batizado do príncipe herdeiro D. João nascido a 6 desse mês.

ENVENENADO O PAPA?
Roma, 18, agosto, 1503

Toda Roma, em efervescência poucas vezes vista, discute à meia-voz sobre a verdadeira causa que teria contribuído para a morte, hoje, do Papa Alexandre VI – Rodrigo Bórgia, embora o comunicado oficial declare que o chefe da Igreja Católica foi vítima de malária, cuja violência é maior neste mês de agosto. Em cada esquina, em cada casa, em cada igreja, em todos os lugares, enfim, murmura-se alguma coisa que envolve sempre o terrível “veneno dos Bórgia”, que tem levado o pânico e morte a tantas famílias e grupos políticos inimigos da oligarquia dominante. No entanto, ninguém tem a coragem de afirmar em voz alta que Alexandre VI tenha sido vítima, ele próprio, da terrível arma que, de tão tragicamente famosa, tomou o nome de sua família. Seus filhos, César e Lucrecia, que dominam a Cidade Eterna, demonstram grande dor, embora pese sobre eles a mais ignominiosa suspeita, qual seja a de terem contribuído diretamente para a morte de seu pai, chefe e indiscutível protetor. De qualquer forma, repito, não foi possível aos meus escritos, em meio à consternação e por que não dizer, à indisfarçável alegria de certos setores políticos e religiosos, causada pela morte de Alexandre VI, colher sequer um depoimento que atestasse a procedência da tremenda suspeita que paira sobre Roma.  Alexandre tinha 62 anos. Foi Papa durante 12 anos. Roma e a Igreja conheceram, no governo dos Bórgia, uma das mais escandalosas fases de sua vida; dos desregramentos e abusos praticados e do fausto nababesco em que vivem. A Cidade Eterna, no dia de hoje, e certamente durante ainda muitos outros, se fará a si mesma esta pergunta: Malária ou veneno?

PAPA POR UM MÊS
Roma, 1503

Pio III foi papa apenas por um mês. Eleito, com a morte de Alexandre VI, faleceu trinta dias depois, sendo então sucedido por Júlio II.
 

FOME E PROGRESSO EM PORTUGAL
Lisboa, 1503

Os Welser, poderosos banqueiros e negociantes internacionais se estabeleceram nessa cidade em condições verdadeiramente vantajosas. Seu representante é o habilíssimo Lucas Rem. Os Welser abriram o caminho que vem sendo seguido, agora por grandes firmas da Europa tais como os Fugger, Affaitati, Imhof e outros, abrindo filiais em Lisboa, atraídas pelos lucros que o comércio com as Índias está propiciando. Releva notar que este é um ano muito desfavorável para Portugal, uma vez que as colheitas foram fortemente afetadas pelos fenômenos meteorológicos. As classes menos favorecidas têm sofrido privações e até fome.

A VOLTA DE VASCO DA GAMA
Lisboa, setembro, 1503

Sob nuvens de fumo e pedras das casas desabadas a tiros de canhão, inúmeros habitantes de Calecute, na Índia, derramaram seu sangue, vítimas do segundo bombardeio dos portugueses, em apenas três anos. Vasco da Gama retornou triunfante, com seus dez navios abarrotados de especiarias diversas e riquezas de toda espécie, indo logo à Corte, onde, sob intensa curiosidade dos palacianos, deu conhecimento a D. Manuel, do extraordinário sucesso de sua missão. Depois da audiência secreta que manteve com o Rei, Gama fez declarações exclusivas a este gajeiro.

A VIAGEM E AS MISSÕES

“A honra de Portugal está vingada. Calecute tomou uma lição de fogo e sangue. Nunca mais se atreverá a massacrar súditos portugueses. Bombardeei a cidade sem dó nem piedade para que seus habitantes compreendessem bem que não é proveitoso, nem fica impune, atentado da ordem do praticado contra os comerciantes portugueses que lá se encontravam”. Foi depois do bombardeio de Calecute que Vasco da Gama se dirigiu a Cochim, onde, além de carregar as riquezas que trouxe, deixou assinado em nome do Rei, vantajosos tratados comerciais. Nas ruas o povo se comprimiu para ovacioná-lo, gritando: “Viva o vingador da honra de Portugal! Viva Vasco da Gama!”  

EM SOCIEDADE
Lisboa, 1503

Aconteceu nesta cidade com grande pompa e na presença da alta sociedade, o casamento de d. Pedro Álvares Cabral, descobridor da Terra de Santa Cruz, com d. Isabel de Castro, descendente do Rei D. Fernando de Portugal, filha de Fernando de Noronha e sobrinha de Afonso de Albuquerque.  

PAPA APROVA TORDESILHAS
Roma, 14, janeiro, 1504

Foi dada a público importante bula do Papa Júlio II, aprovando a Convenção de Tordesilhas, de 7 de junho de 1494, entre Portugal e Espanha. Essa convenção dividiu as zonas de expansão marítima e territorial entre as duas potências por um meridiano traçado a 370 léguas a oeste da ilha mais ocidental do arquipélago de Cabo Verde.

ÍNDIOS COMEDORES DE GENTE
Lisboa, 18, abril, 1504

Fazendo graves acusações ao Capitão-Mor Gonçalo Coelho, que diz ter sido “presunçoso, soberbo e obstinado”, desembarcou hoje em Lisboa o navegador Américo Vespúcio, que comandava uma das seis naus daqui saídas sob a chefia de Gonçalo, em 10 de maio do ano passado. As declarações de Vespúcio a mim referidas, logo após pisar em terra firme, não são de todo claras. Disse ele que fizeram uma viagem tormentosa. Logo de saída, por insistência de Gonçalo Coelho, os outros capitães foram obrigados a aproximar-se demais da costa da Serra Leoa, onde tempestades fortíssimas, quase afundam toda a frota. Escapando, rumaram para Santa Cruz. Depois de 300 léguas, avistaram uma ilha à qual Vespúcio desceu, por ordem do capitão.

O DESASTRE

É Américo Vespúcio quem afirma: “Ali se deu o desastre. O Capitão-Mor, que desde a partida se obstinava em contrariar a maioria dos comandantes, acabou jogando sua nau, de 300 toneladas, contra um recife, afundando-se o barco totalmente. Conseguimos salvar a tripulação. Mas perdeu-se toda a carga, aparelhos e o que de mais essencial havia para a frota”. Vespúcio acusa ainda o capitão Gonçalo de haver mandado que ele fosse à ilha com apenas metade da tripulação do seu navio. E revela: “Tudo começou a 10 de agosto. Deixei os outros navios a cerca de quatro léguas. Na ilha esperei o Capitão-Mor durante oito dias. Ele desaparecera com os 4 navios”.

A ILHA

Sobre a ilha, afirma o navegador estar maravilhado com o que viu: “Tem duas léguas de comprido e uma de largo. Desabitada. Muita água e lenha. Inumeráveis aves marítimas e terrestres, tão mansas, que se apanham com a mão. Além delas, só existem lá ratos, lagartos de duas caudas e víboras”. Deixando a ilha depois de três meses, Vespúcio foi ter a Cabo Frio, onde foi construído um forte. Nesse trabalho, lá ficou por cinco meses. Depois de fazer um grande carregamento de pau-brasil, zarpou do Cabo, rumo a Lisboa, deixando na fortaleza 24 homens com doze bombardas e outras armas.

A VIAGEM ANTERIOR

É oportuno salientar o que se divulgou em 7 de setembro de 1502, quando do regresso da primeira expedição em que tomou parte Américo Vespúcio. O escrito dizia: “Embarco nesta esquadra porque o pedido de um Rei é para mim como uma ordem, e tive de consentir no que me rogou D. Manuel”. Desde o dia 10 de maio de 1501, quando o navegador e astrônomo Américo Vespúcio nos fez esta declaração, aqui mesmo neste porto, já transcorreram exatamente dezessete meses, e ei-lo de volta com a esquadra, depois de uma viagem plena de descobrimentos e explorações. O que foi a expedição de três naus sob o comando-geral de André Gonçalves, uma nova entrevista com Vespúcio, feita hoje, logo após o desembarque, nos dá uma perfeita e resumida idéia: “Depois de ligeira estada na África, singramos o Mar Tenebroso por 67 dias. Em todas as minhas longas viagens, nunca enfrentei tempestades iguais. As naus pareciam cascas de nozes em meio às terríveis tormentas. Finalmente, a 17 de agosto, avisamos terra. Era na altura do cabo de S. Roque”.

COMIDO PELOS NATIVOS

Vespúcio relembra ainda angustiado, um espetáculo impressionante: “Vimos que a região era habitada por homens nus, armados de arcos e flechas. Não conseguimos entrar em contato com eles. No sétimo dia, mandamos à terra três marinheiros, enquanto outros, armados, ficavam nos batéis. Foi, então, que se deu um espetáculo bestial e desumano! Dois dos nossos desapareceram na mata. O outro deixou-se ficar na praia, sendo admirado e tocado por mulheres índias. De repente, uma delas veio por trás dele, e derrubou-o com um grande pau. As outras o arrastaram pelos pés para o alto de um monte, onde vimos, apavorados, as índias assarem o seu corpo numa fogueira e, depois, cortando-o aos pedaços, ofereceram-nos aos homens, que os devoravam com prazer! Ao mesmo tempo uma chuva de flechas caiu sobre os batéis. O capitão mandou que se disparassem as bombardas sobre eles, o que foi feito, dispersando-os. Uns 40 homens dos nossos rilhando os dentes e apertando os arcabuzes nas mãos, queriam ir à terra vingar o companheiro devorado. Mas os comandantes não permitiram. Levantamos ferro e prosseguimos a viagem. O capitão André Gonçalves me apresentou um relatório sobre as descobertas feitas pela expedição em terras de Santa Cruz. Entre elas, anotei cabo de Santo Agostinho (28/08/501), foz do rio São Francisco (4/10/501), baía de Todos os Santos (1/11/501), baía de Vitória (13/12/501), cabo de São Tomé (21/12/501), Angra dos Reis (6/01/502), ilha de São Sebastião (20/01/502) e finalmente São Vicente (22/01/502)”.   

MÚSICA – MORREU OBRECHT
Roma, 1505

Vítima da peste morreu nesta cidade o compositor, músico e professor Jacob Obrecht que foi, inclusive, mestre de Erasmo. Ele nasceu em Utrecht em 1450, segundo se supõe. Obrecht contribuiu decisivamente para melhorar a escrita musical, tendo lutado para humanizar a música. Sua obra é toda ela cheia de vibração e sensibilidade. Os hinos que compôs à Virgem Maria têm o mesmo encanto suave e a mesma pureza dos de Ockeghem, grande músico falecido em 1495. Suas missas contêm inovações harmônicas ousadas, tendo sido ele o primeiro a usar várias vozes no ofício, dos mortos, que, até então, só havia sido cantado por uma voz.

POPULAÇÃO
Lisboa, dezembro, 1505

Calcula-se em milhão e meio de habitantes a população de Portugal neste princípio de século. Ao mesmo tempo, estimativas não confirmadas dão para todo o continente europeu um total de 50 milhões de habitantes.
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Atualizado em: Sex 22 Set 2017

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