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OS ESCRITOS REVELADOS, DE UM GAJEIRO ITINERANTE (Tomo - 2)

MATOU A MULHER E FUGIU
Lisboa, 5, abril, 1506

Por ter assassinado sua mulher, ontem, à noite, o capitão João Dias de Solis que deveria pilotar a nau de Afonso de Albuquerque, desapareceu hoje, acreditando-se que ele tenha fugido para Castela. A nau “Cirne”, com outras embarcações parte amanhã com destino a Socotorá, no estreito de Tristão da Cunha que segue hoje para a índia. A bordo da “Cirne”, Afonso de Albuquerque me confidenciou o seguinte: “João de Solis não me fará falta. Esperarei um novo piloto até amanhã, mas, se não conseguir, eu mesmo comandarei, porque tenho absoluta presunção de saber conduzir minha nau até a índia, tão bem como o melhor piloto da Amada”. Albuquerque acha muito difícil conseguir substituto para Solis, por causa da peste que está reinando em Lisboa.

ABANDONADO E ESQUECIDO MORRE CRISTÓVÃO COLOMBO
Valadolid, 21, maio, 1506

Esquecido e abandonado pelos grandes, acaba de morrer nessa cidade o descobridor Cristóvão Colombo que, em quatro viagens, de 1493 a 1504, estendeu por novos domínios a Coroa de Espanha. Colombo nutria pela Rainha Isabel respeitosa, mas profunda admiração. Pó ela, suportou e aparentou esquecer até mesmo a grande injustiça que sofreu por causa do juiz Bobadilla, quando este, em missão real, prendeu o navegador em São Domingos e o mandou acorrentado para a Espanha. Verificou-se, depois, que o motivo dessa prisão era absolutamente descabido, uma vez eu a colônia sob a responsabilidade de Colombo prosperava em ordem e fiel ao Rei de Espanha. Entre ouras terras novas, o ilustre morto descobriu as ilhas Dominicanas, São João, São Domingos e Trinidad. Morto hoje, no esquecimento, Cristóvão Colombo deixa dois filhos, Fernando e Diogo, e dois irmãos, Bartolomeu e Diogo, que participaram de suas descobertas.

8 MIL JUDEUS QUEIMADOS 
Lisboa, 22, maio, 1506

D. Manuel condenou à morte, hoje, os cabeças do movimento popular que a 15 de abril chacinou cerca de 8 mil judeus, numa horrível matança, a maior já vista nesta cidade. A peste que obrigara o Rei a refugiar-se em Aviz, encheu as igrejas de pessoas desesperadas temerosas. Durante as preces num dos templos, alguns católicos fanáticos julgaram ver uma imagem milagrosa, mas um judeu convertido que ali se encontrava demonstrou que tudo não passava de reflexo do sol nas vidraças. Logo, aos gritos de “Heresia! Heresia!”, a multidão se atirou sobre o pobre homem reduzindo-o a pedaços. Em seguida uma espécie de loucura coletiva tomou conta da cidade e, dentro de poucas horas, toda Lisboa se entregava a uma orgia de fogo e sangue contra os judeus, destruindo-lhes as casas e erguendo fogueiras nas quais cerca de 8 mil foram queimados. D. Manuel revoltado com a chacina condenou hoje à morte os cabeças do movimento e, ainda, retirou de Lisboa seus foros e privilégios. 

BASÍLICA DE SÃO PEDRO
Roma, 1506

Após aprovar o monumental plano do famoso arquiteto Donato Bramante, Sua Santidade o Papa Júlio II colocou a pedra fundamental da nova Basílica de São Pedro, obra que certamente constituirá uma das mais altas realizações da arquitetura cristã em todo o mundo.

PREÇO DO PAU-BRASIL E LUCROS FABULOSOS
Antuérpia, 8, agosto, 1509

O pau-brasil foi cotado hoje nesta praça, em 28 soldos o cento de toros em perfeito estado.  Lucros também exorbitantes estão sendo obtidos neste mercado pelas especiarias vindas da Índia. Apurei que um quilo de pimenta que custa ao importador, em Calecute, 10 soldos, é vendido aqui por 20 vezes esse preço!  

FERNANDO DE NORONHA
Lisboa, 1510

O cavaleiro da Casa Real e cidadão de Lisboa, Fernando de Noronha, que obteve de D. Manuel o monopólio da exploração da ilha de São João, por ele descoberta, nas terras de Santa Cruz, pagou à Coroa, uma cifra imensa, infelizmente não revelada.

BOTTICELLI NÃO PINTARÁ MAIS
Florença, maio, 1510

A arte está de luto. Não só em Florença, mas no mundo inteiro. Morreu nesta cidade, onde nascera em 1444, o pintor, desenhista e gravador Sandro Botticelli (Alessandro Filipepi Botticelli), mestre da escola florentina. São inúmeras as obras de Botticelli. Fora ele encarregado de supervisionar os trabalhos da Sistina, onde pintou afrescos como o “Cristo tentado pelos demônios” e o “Sacrifício do filho de Abraão.” Também é de sua autoria a ilustração, com 92 desenhos, de uma edição do “Inferno”, de Dante Alighiere. Pintou, ainda, um grande número de “Madonnas.” Outras obras de Botticelli: “Adoração dos Magos”, “Judith”, “A Virgem venerada pelos Anjos”, “Santa Família” e “A Virgem e o Menino”. Esteve desde 1475, a serviço dos Medicis, aos quais retratou na sua “Adoração dos Magos”. Botticelli foi aluno de Frei Filippo Lippi. Em seu período de entusiasmo humanista, produziu duas obras admiráveis: “O Nascimento de Vênus” e “A Primavera”. Nesta, demonstrou a expressão mais perfeita do humanismo e da quintessência florentina. 

ELOGIO DA LOUCURA
1511

O famoso humanista holandês Desidério Erasmo, também chamado Erasmo de Rotterdam, publicou sua nova obra intitulada “Elogio da Loucura”, considerada por conter uma vigorosa crítica às práticas eclesiásticas, aos abusos da Igreja e às superstições populares. Está escrita em latim e ilustrada pelo desenhista Hans Holbein. O espírito vigoroso e original de Erasmo já se manifestara desde os “Adágios” de 1500, desejando a reconciliação da cultura antiga com as instituições cristãs. Pouco depois, em 1504, Erasmo, publicou a “Enchiridion Militis Christiani”, em que se pronuncia a favor de uma teologia unicamente fundada sobre o Evangelho, e que opõe ao judaísmo as obras da lei espiritual de Cristo.

ÍNDIOS, PAU-BRASIL, MACACOS E PAPAGAIOS, HOJE, EM LISBOA
Lisboa, 22, outubro, 1511

Trinta e cinco índios reduzidos a escravos, cinco mil toros de pau-brasil e setenta animais diversos, constituem a carga que chegou hoje a bordo da nau “Bretoa”, que obedece ao comando do capitão Cristóvão Pires. A nau regressa depois de oito meses de viagem, uma vez que havia partido a 22 de fevereiro. Falando comigo, quando fazia desembarcar os índios escravos, sob intensa curiosidade popular, o comandante da “Bretoa” fez as seguintes declarações: “Foi uma longa viagem cheia de peripécias. No dia 15 de abril, avisamos a foz do rio S. Francisco, na terra de Santa Cruz. Permanecemos um mês na baía de Todos os Santos e só a 26 de maio arribamos a Cabo Frio, onde está instalada uma pequena feitoria de resgate, comércio e defesa da cosa. A quase totalidade da carga que trazemos foi ali embarcada. Dentre os animais vindos a bordo da nau, destacamos os gatos selvagens, macacos, sagüis e aberrantemente coloridos papagaios”. A riqueza que está atraindo os piratas franceses para a costa do Brasil é o pau-brasil, mercadoria muito cotada na França e um dos motivos do corso de uma denúncia, a qual se enviou a expedição de Cristóvão Jacques. Os paus de tinturaria estão valendo bom dinheiro. Agora, descobertas as inúmeras utilidades do pau-brasil se entregam aos franceses a importação legal e ilegal do produto. A madeira é vendida em toros dos quais se retira a casca e o alburno, utilizando-se o âmago vermelho para extração de matéria corante para tintura de panos, principalmente lãs e sedas. Era empregada também, nas miniaturas e manuscritos. Antes da descoberta da madeira do Brasil, os europeus conheciam três qualidades de Brasil: 1- o “colombiano”, do Ceilão, 2- o “ameri”, da Sumatra e 3- o semi da “Índia”. O pau-brasil está sendo utilizado com grande sucesso na fabricação de móveis de luxo e trabalhos de marcenaria em geral. Por outro lado, a madeira, depois de mergulhada em água, endurece e, nesse estado, vem sendo grandemente utilizada na construção de naus.   

ÍNDIOS A 4 SOLDOS
Lisboa, 22, outubro, 1511

Para efeito de pagamento de direitos alfandegários, o valor declarado dos 36 índios de Santa Cruz, hoje chegados a Lisboa, a bordo da nau “Bretoa”, foi de 136 soldos, em média, 4 soldos cada um. O Rei D. Manuel receberá um quarto dessa importância, isso são 34 soldos a título de imposto. Essa importação de índios foi feita pelos próprios tripulantes da nau, inclusive atendendo a encomendas de terceiros. O capitão trouxe seis, o escrivão cinco, o mestre três e o piloto oito. Dentre eles, várias mulheres muito moças. 

SANTA LIGA
Roma, 1511

Sob o pontificado de Júlio II, a Santa Sé formou, juntamente com a Espanha e Veneza, a “Santa Liga”, com a finalidade de defender a Igreja e a integridade dos Estados Pontifícios.

ELOGIO DA LOUCURA
Inglaterra, 1511

O famoso humanista holandês Desidério Erasmo, também chamado Erasmo de Rotterdam, publicou sua nova obra intitulada: “Elogio da Loucura”, considerada importante por conter uma vigorosa crítica às práticas eclesiásticas, aos abusos da Igreja e às superstições populares. Está escrito em latim e ilustrado pelo desenhista Hans Holbein. O espírito vigoroso e original de Erasmo já se manifestara desde os “Adágios” de 1500, desejando a reconciliação da cultura antiga com as instituições cristãs. Pouco depois, em 1504, Erasmo publicou a “Enchiridion Militis Christiani”, em que se pronuncia a favor de uma teologia unicamente fundada sobre o Evangelho, e que opõe ao judaísmo as obras da lei espiritual de Cristo.

MORREU VESPÚCIO
Sevilha, 22, fevereiro, 1512

Foi com intensa consternação que se teve notícia da morte do grande navegador Américo Vespúcio, falecido hoje, nesta cidade, aos 62 anos. Vespúcio nasceu em Florença em 9 de março de 1451. Com seus conhecimentos de pilotagem e cosmografia, embarcou em 1497 numa frota, comandada por Alonzo de Ojeda, antigo companheiro de Colombo. A expedição explorou as costas setentrionais da América do Sul com grande êxito. Américo Vespúcio, que era fervoroso admirador de Colombo, atribuía a este apenas o descobrimento das ilhas das novas terras, reservando para si próprio as glórias da descoberta da terra firme. Vespúcio viajou para os portugueses, tendo percorrido duas vezes a costa da terá de Santa Cruz em missão oficial da Coroa Lusitana. Depois da morte de Colombo, foi chamado à Espanha e, em 1507, fez novas viagens de descobertas. Américo Vespúcio, que hoje faleceu, deixou, sem dúvida, seu nome para sempre ligado às grandes realizações deste século.

FRANÇA E VENEZA
Veneza, 1512

Notícias do Cairo informam do êxito da embaixada chefiada pelo habilíssimo Domenico Travisano, enviada, em novembro do ano passado desta Sereníssima República, ao sultão Kansouh, com a finalidade de entabular relações comerciais. Sabe-se, também, que o rei da França, Luís XII, enviou embaixada ao Cairo com a mesma finalidade, visando, ainda, a obter garantias e segurança quanto às peregrinações. O Rei da França, no entanto, vem encontrando tenaz resistência por parte do Grão-Mesre da Ordem de Rodes e dos Cavaleiros, há qual muito vem restringindo o plano traçado pela diplomacia francesa.

A PINTURA DA SISTINA
Roma, 1, novembro, 1512

Após quatro anos de infatigável labuta, o genial pintor Miguel Ângelo Buonarroti, de apenas 37 anos de idade, inaugurou, sob a proteção do Papa Júlio II, a sua famosa pintura da abóboda da Capela Sistina. Na obra, considerada magistral, Miguel Ângelo conseguiu, com sua imaginação de poeta, reconciliar, num acordo profundo, a gravidade da Bíblia e os esplendores do paisagismo.

NOME DEFINITIVO: BRASIL
Lisboa, 6, setembro, 1513

Em carta hoje enviada aos Reis de Castela, D. Manuel, Rei de Portugal, oficializou o nome de BRASIL, dado à antiga erra de Vera Cruz, por ele próprio, depois designada como de Santa Cruz. Nessa carta, o nome é fixado em definitivo, quando o Rei escreve textualmente “A nossa terra do BRASIL”.

UMA CRIANÇA NO TRONO DA ESCÓCIA
Edimburgo, 9, setembro, 1513

Uma criança sobe hoje ao trono da Escócia, porque seu pai, o Rei James IV, acaba de morrer na batalha de Flodden, em que os ingleses impuseram a este reino, uma derrota de grandes proporções. James IV caiu mortalmente ferido, quando lutava no comando dos seus exércitos, fragorosamente derrotados pelas tropas da Coroa Inglesa. O menino que tão tragicamente sobe ao trono da Escócia, sob a regência de sua mãe, também se chama James, e reinará como James V.

BALBOA DESCOBRE O MAR DO SUL
Panamá, 25, setembro, 1513

Ajoelhado, com os braços erguidos para o céu, Vasco Nuñez de Balboa, famoso capitão espanhol da Conquista, agradeceu a Deus o privilégio que lhe foi dado, de ser o primeiro a avisar o Mar do Sul. Balboa, apelidado pelos seus partidários o “Esgrimista”, é um dos mais conhecidos e valentes chefes militares enviados às Índias Ocidentais pelo Rei de Castela. Não lhe faltam as qualidades inerentes aos chamados Conquistadores, tais como o valor, a resistência física, a lealdade à Pária longínqua e a firmeza, que tão bem caracterizam esses heróicos construtores da grandeza de sua nação. Embrenhando-se pelas terras do Istmo do Panamá, enfrentando as feras, as doenças e os índios hostis, Balboa viu confirmado o seu velho sonho, o de chegar até o mar imenso, de cuja existência soubera por informações de nativos. Auxiliado pelos caciques amigos Poncã e Careta, (amancebara-se com uma filha deste último), e após vencer, em luta árdua, a Guarecua, um cacique que a ele se opusera, Balboa internou-se mata adentro, até que, em 25 de setembro, avistou, do alto de um pequeno monte, ao qual subira sozinho, o Mar do Sul. Descendo da encosta, já agora acompanhado de seus companheiros, Balboa tomou posse, em nome do Rei de Castela, do novo mar.

VASCO NUÑEZ DE BALBOA GOVERNADOR
Espanha, setembro, 1514

O Rei Dom Fernando, acaba de nomear Vasco Nuñez de Balboa, governador das terras e do Mar do Sul, descobertas por ele em 25 de setembro do ano passado. Balboa fora, em setembro de 1511, confirmado no cargo de alcaide pelo Governador de La Spanola Diego Colon (Colombo) irmão do descobridor das Índias Ocidentais, Cristóvão Colombo.

EM SOCIEDADE
Paris, 9, outubro, 1514

Com 54 anos, Luís XII, Rei da França, casou hoje com uma menina de 16, a princesa Mary da Inglaterra, irmã de Henrique VIII. As pomposas núpcias se realizaram num grande salão adornado com tecidos de ouro. Os nubentes, regiamente vestidos, estiveram sentados todo o tempo da cerimônia. Ela não trazia coroa, mas um dos mais ricos chapéus que a corte francesa já viu. Seus cabelos soltos caiam sobre as espáduas. Mary, além dos seus 16 anos, é loura, graciosa e espirituosa, tal como os ingleses haviam anunciado a Luís XII, viúvo de Ana da Bretanha. O modesto gajeiro Vieira, que acompanha a nova Rainha desde o seu desembarque em Calais há alguns dias, pode verificar que o príncipe Francisco de Valois e o jovem duque Angouleme, por seus olhares e trejeitos escondem a paixão que lhes despertou Mary. Acontecem todos os dias todas as horas os murmúrios e as intrigas, mas esse vosso amigo não levou em consideração senão um absolutamente comprovado. Trata-se do duque de Suffolk que acompanhou a grande, luxuosa e divertida comitiva da noiva e que é seu amante.

MARIGNAN
França, 14, setembro, 1515

Os franceses sob o comando do Rei Francisco I, derrotaram hoje os exércitos suíços nessa pequena cidade de Marignan. Bayard, um dos maiores vultos da moderna cavalaria, batendo com sua espada nos ombros de Francisco I, ajoelhado no próprio campo de batalha juncado de mortos, armou-o cavaleiro, pronunciando nesse momento, as palavras do ritual.

ESPANHÓIS OCUPAM PEÑON
Espanha, 1515

Os espanhóis conseguiram firmar-se em Peñon, litoral marroquino, numa ilhota que oferece excelente posição estratégica. Nessa região marroquina, os espanhóis já haviam ocupado diversos pontos, tais como Mers-el-Kébir (Mazalquivir), em 1505, Oran, em 1509, Tripoli, em 1510 e Mazalam, em 1514.

EM PAZ A MISTERIOSA CHINA
Pekin, 1515

A unificação da legislação chinesa em 1497, com o Código dos Ming (dinastia que impera desde 1368), contribuiu bastante para a paz e a apreciável prosperidade agrícola em que o país se encontra hoje. O Imperador Ching-Tih tem se mostrado pacífico, humano e tolerante. Não se conhece a intransigência religiosa nem o xenofobismo. Os missionários católicos têm encontrado facilidade na sua missão de catequese, graças aos excelentes princípios morais do povo e à inteira liberdade de que desfrutam na sua missão. No ano passado esteve na China o italiano Rafael Perestrello, enviado de Malaca pelo português Afonso de Albuquerque. Disse ele que recebera ordem de “Descobrir a China”. Sua embarcação aportou em Tamáo, perto de Cantão.   

IMPÉRIO OTOMANO AMEAÇA O OCIDENTE
Constantinopla, dezembro, 1515

Fontes geralmente bem informadas afirmam que esse grande Império Otomano está se preparando para extensas e ambiciosas expedições de conquista. Operações de envergadura foram realizadas contra uma parte da Armênia e, nesse momento, se desenvolvem batalhas no Sudão Egípcio. O serviço de espionagem do Sultão é de primeira ordem e capaz de fazer inveja à França, Espanha, Portugal e Inglaterra. O exército do Império Otomano constitui uma poderosa força, apesar da sua incrível mescla. Sua magnífica infantaria, que tenho visto manobrar, é composta de 20 mil janízaros, bem armados, bem alimentados e submetidos a uma disciplina de ferro. Os europeus dominados pelos otomanos contribuem com 40 mil cavaleiros e a Anatólia com 30 mil guerreiros. Dentro do que me é possível transmitir, tendo em vista a natural censura exercida, posso informar que eles contam com uma possante e moderna artilharia, garantia de sucesso em qualquer operação militar. 

NA TERRA DO BRASIL VIVEM 140 ANOS
Antuérpia, dezembro, 1515

Chegou às minhas mãos, um sensacional panfleto de 4 páginas, documento esse (anônimo) divulgado na Alemanha intitulado: “Nova Gazeta da Terra do Brasil”. Trata-se da divulgação em alemão de uma carta dirigida por autor anônimo a um amigo aqui de Antuérpia. A carta relata coisas fantásticas que teriam sido transmitidas ao seu auto e piloto de uma nau portuguesa que arribou à ilha da Madeira em 12 de outubro de 1514. A nau teria sido mandada para descobrir e explorar a Terra do Brasil. O piloto teria feito ao autor da carta revelações sobre as terras, os povos e as coisas encontradas na sua extraordinária viagem. Resumi em seguida os oito principais fatos citados na “Nova Gazeta da Terra do Brasil”, cujos editores não conseguimos localizar, apesar dos esforços despendidos por mim pessoalmente. Ela inicia com a ilustração da carta marinha das terras do Brasil, que Waldseemuller acabou de concluir e cujo original consta o título “Brasília ou Terra dos Papagaios” (Brasilia sive Terra Papagalli). 1 – Existem muitos bons rios e portos, tudo povoado. Quanto mais para o sul da Terra do Brasil “melhor a gente, o trato e a índole honrada”. 2 – Embora não se comam uns aos outros, como no norte, se guerreiam e se matam. Não fazem prisioneiros. Não têm leis nem Rei. Obedecem aos mais velhos. 3 – Conhecem S. Tomé, que chamam de Deus Pequeno. Dizem que em alguns lugares as neves nunca desaparecem das montanhas. 4 – Vestem, muitas vezes, peles de animais, inclusive leão, leopardo e lince. Há muitas lontras e castores, sinal de muitos rios. 5 – A terra tem enorme quantidade de frutas boas “todas diferentes das que temos em nosso país”. Peixe em abundância. Mel e cana. “Sua arma é o arco como no Brasil inferior”. Não conhecem o ferro e dão o que se quer por um machado ou faca. 6 – Têm uma espécie de pimenta que arde na boca. Cultivam uma vagem com grãozinhos dentro, parecida com a ervilha. 7 – Duzentas milhas abaixo de um grande cabo receberam notícia da existência de muita prata, ouro e cobre. Trouxeram um machado de prata para o Rei de Portugal. Trazem um metal parecido com latão que não enferruja nem deteriora. 8 – A nau trouxe um nativo da região que quer falar com o Rei de Portugal e diz existir ouro, prata e cobre, em abundância, na sua terra. A coberta da nau estava cheia de escravos, “rapariguinhas e rapazinhos”. Pouco custou aos portugueses, pois foram dados por livre vontade. O povo de lá pensa que eles vão para a Terra da Promissão. Finalmente, o sensacional documento anônimo conclui por afirmar que, segundo informações do piloto, “a gente daquele país, alcança uns 140 anos de idade”.    

MORREU DE DESGOSTO
Goa, 30, dezembro, 1515

O desgosto e a tristeza tiraram a vida ao navegador português, Afonso de Albuquerque. Ele morreu dia 15 a bordo da nau em que hoje acaba de chegar o seu corpo. Depois de conquistar esta cidade e Malaca e conseguir para a Coroa o recebimento de tributo do Sião, de Java e da Sumatra, assim como estabelecer relações comerciais com a China, ele foi nomeado vice-rei das Índias. Sabe-se agora que a sua destituição desse posto verificada há pouco tempo se deveu à inveja e à intriga que fizeram com que D. Manuel acreditasse que Albuquerque desejava tornar a Índia um reinado independente de Portugal, colocando uma coroa sobre sua cabeça. Ele deixa um filho com 15 anos que tem o seu nome.
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Atualizado em: Sex 22 Set 2017

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