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OS ESCRITOS REVELADOS, DE UM GAJEIRO ITINERANTE (Tomo - 3)

DEVORADO O PILÔTO SOLIS
Lisboa, 1516
João Dias de Solis, vulgo “Bofes de Bagaço”, foi trucidado e devorado, juntamente com oito tripulantes de sua nau, pelos indígenas das margens do rio da Prata.
Depois da morte de um companheiro, quando desceu para enterrá-lo, Solis foi vítima de uma emboscada dos nativos. Viajava a serviço de Carlos V da Espanha e partiu de Lepe em 8 de outubro de 1515, com a missão de demarcar as terras espanholas e conseguir comunicação com o novo oceano descoberto por Balboa. Solis é o mesmo que, de acordo com o que noticiamos anteriormente, matou a mulher na véspera da saída da esquadra de Albuquerque (1506) para as Índias.

EM SOCIEDADE
Londres, 1516

Este serviçal gajeiro registrou curioso e pitoresco fato que bem demonstra o grau de vaidade de que é possuído o rei Henrique VIII. Na recepção a Justiniano, embaixador de Veneza, Sua Majestade, perante toda a corte, em voz alta, interpelou seguidamente o diplomata quase que exclusivamente sobre Francisco I, rei de França, que, embora tão jovem, desfruta da fama de ser um dos mais elegantes do mundo. Eu estava próximo ao trono e pude anotar as seguintes perguntas do rei, respondidas com evasivas pelo embaixador em questão.
- “O rei de França é grande como eu sou?”
- “É forte, assim?”
- “Suas pernas, são tão bem feitas e tão fortes quanto as minhas?”. Podemos informar em absoluta primeira mão, que, em decorrência desse encontro, Henrique VIII vai deixar crescer a barba, no que será seguido por todos os elegantes do reino, isto porque Francisco I usa esse adorno facial com o mais absoluto sucesso.

PORTUGAL TEM NOVO REI – DESAPARECE DOM MANUEL
Lisboa, 17, dezembro, 1517

Os vereadores desta cidade, de capuzes e com varas negras nas mãos, acompanhando a bandeira também negra, cujas pontas se arrastavam pelas velhas e sujas ruas de Lisboa, em sinal de luto, prantearam ontem, publicamente, a morte do rei D. Manuel, ocorrida dia 13. Ao se quebrarem os três escudos negros de praxe, uma voz anunciou ao povo que soubesse sentir a morte do rei sob cujo reinado Portugal descobriu o Brasil, fez conquistas na África e se estabeleceu na Índia. Em declarações a este humilde gajeiro, D. João III, que subiu ao trono, declarou que seu pai desde o dia 5 de dezembro se encontrava enfermo. Nesse dia estava em Almeirim e foi chamado às pressas de volta a Lisboa. Encontrou-o com muita febre e sonolência, um mal que grassa na cidade. Dom Manuel casou-se três vezes. Seu primeiro casamento, em 1497, foi com Isabel, filha de Fernando de Aragão e viúva do príncipe português Afonso, filho de D. João II. Em 1498, em virtude da morte do infante de Castela, foi com sua mulher, jurado herdeiro da coroa de Leão e Castela, na Sé de Toledo. Desse matrimônio teve um filho (Miguel) em 1498. Mas a rainha morreu de parto e o principezinho faleceu em julho de 1500. Em 30 de setembro do mesmo ano, D. Manuel casou-se com a cunhada, D. Maria, em Alcácer do Sal. Desse matrimônio teve, em 6 de junho de 1502, o príncipe herdeiro D. João e mais Isabel Beatriz, D. Luis, D. Fernando, D. Afonso (feito cardeal aos 7 anos), D. Duarte, D. Henrique e D. Antônio. Em março de 1517 morreu a rainha e, no ano seguinte, em novembro, D. Manuel tornou a casar-se, com Leonor, irmã do imperador Carlos V. Desse casamento nasceram D. Carlos (que logo morreu) e D. Maria, em junho último. Dentro as realizações de D. Manuel, além das conquistas que fêz, cabe destacar as ordenações das leis do reino, encomendadas em 1505 a renomados juristas, começada a publicar em 1514 e só agora terminada. Do balanço de seu reinado de 27 anos fica-lhe um saldo de grandes realizações. O homem que subiu ao trono quase que por obra da fatalidade (a morte do príncipe D. Afonso e do duque de Viseu, seu irmão) teve também omissões e pecados, como a substituição de Afonso de Albuquerque e a perseguição aos judeus.

O CAPITÃO QUE NÃO REGRESSOU – MAGALHÃES NO BRASIL
Espanha, 1518

Fernando de Magalhães nasceu no Pôrto, em 1470. Navegador e geógrafo tomou parte no ataque a Goa; na expedição a Malaca e no descobrimento das Molucas. Tendo Portugal se negado a dar-lhe um pequeno aumento de soldo, ofereceu seus serviços à Espanha em 1518, renunciando à nacionalidade portuguesa. Assinou um contrato com Carlos V e recebeu o comando da esquadra para tentar alcançar as Molucas por caminho inverso ao do Cabo da Boa Esperança, costeando as Novas Terras. O Rei de Portugal tentou fazer retornar Magalhães, oferecendo-lhe uma bela soma. Mas ele se negou, dizendo que já assinara um contrato e tinha de cumpri-lo. Pigafetta afirma que Magalhães era um bravo até à loucura; inteligente, sábio e excelente comandante, sempre solidário com os homens da tripulação nas suas agruras e sofrimentos.

LEONCICO – O CÃO GUERREIRO
Darien, Panamá, 1519

Um cão de fila, vermelho, de focinho preto e cheio de cicatrizes, vaga abandonado e triste pelas ruas sujas de Darien. Quando o chamam pelo nome de “Leoncico” as orelhas se põem em pé, alerta. Todos aqui conhecem a história desse cachorro, o fiel amigo e companheiro de lutas de Balboa. Feroz na luta contra os índios matou mais inimigos e fez mais prisioneiros que seu próprio amo ou qualquer dos soldados espanhóis. Por isso, sempre se destacou em meio à grande matilha de cães utilizados pelos conquistadores na caça aos indígenas. De faro sem igual, dificilmente um índio lhe escapava. Preso pelo pulso, entre os afiados dentes do “Leoncico”, se tentava fugir era estraçalhado. Dizem dele os soldados espanhóis que serviram sob o comando de Balboa: “Leoncico era tão temido pelos índios que, se dez espanhóis lutavam ao seu lado, se sentiam mais garantidos que vinte sem ele”. Sua bravura e ferocidade e os serviços prestados aos conquistadores, fizeram com que estes lhe dessem parte dos botins do ouro, e escravos. Recebia às vezes mais que muitos soldados. Seu tesoureiro pessoal e administrador de bens era o próprio Balboa.  

TABASCO
Sul do México, março 1519

Cortez e 9 homens encouraçados e a cavalo puseram em fuga os exércitos tabasquenhos. Havíamos saído de Havana em 10 de fevereiro com 11 navios; 700 homens, 10 canhões, 32 bestas, 13 arcabuzes, 16 cavalos e muitos cães. Ao desembarcar tivemos de enfrentar 10 mil tabasquenhos. Os cavalos, nunca vistos pelos mexicanos, foram tomados como monstruosos deuses. Depois da vitória, os caciques prestaram submissão e nos deram muito ouro e 20 virgens. Os padres disseram missa e batizaram as mulheres.

PIRATARIA NO BRASIL
Lisboa, 9, maio, 1519

Piratas franceses estão agindo nas costas do Brasil, contrabandeando madeiras, macacos e papagaios. A atividade desses corsários foi denunciada por Cristóvão Jacques, que regressou com sua esquadra esta semana, depois de permanecer naquelas costas desde 1516, em missão de patrulhamento. Apesar do silêncio oficial e da recusa do capitão Cristóvão em fazer declarações à imprensa, podemos informar, com a absoluta exclusividade, que foram travados combates com piratas franceses na Guiné e na baía de Todos os Santos. Os corsários seriam comandados por certo Jean Angot, que opera no Atlântico desde o ano passado. A Coroa Portuguesa estaria disposta a agir energicamente para garantir seus direitos sobre o Brasil. Confirmando esta disposição, podemos informar, em furo de reportagem, que saiu de Lisboa uma frota de repressão, provavelmente comandada por Pero Capico.

EXECUTADO BALBOA - CONSTERNAÇÃO POPULAR NO PANAMÁ
Darien, janeiro 1519

Um golpe seco decepou a cabeça do capitão espanhol Vasco Nuñez Balboa, diante de considerável massa popular, cuja revolta era contida por poderosos corpos de guarda, “armados até os dentes”. Balboa, descobridor do Mar do Sul e um dos maiores capitães desta época, tinha sido processado por seu sogro. Pedrarias Davila, governador da cidade, que o acusou do crime de traição, última das intrigas tramadas contra o conquistador. A derradeira noite de Vasco Nuñez foi passada em cela estreita e segura. Tinha os pés e as mãos presos por pesados grilhões. Ninguém pôde visita-lo, inclusive sua amante Anayanse, filha do cacique Careta, um dos maiores aliados nas guerras de domínio desta colônia. Foi outro capitão espanhol, Pizarro, quem conduziu Balboa ao cadafalso, ao qual subiu sem qualquer auxílio. Esse modesto gajeiro perdido nas primeiras filas dos que à frente dos arcabuzes e alabardas cruzadas, assistiam revoltados à execução, ouviu o arauto apregoar com voz forte: “Esta é a justiça que manda fazer o Rei, nosso senhor, e Pedrarias, seu lugar tenente, em seu nome. A este homem, por traidor e usurpador de terras sujeitas à Coroa Real”. Em meio ao silêncio compungido e triste da multidão, a voz de Balboa rasgou como um trovão que fez tremer os próprios soldados que guarneciam o cadafalso: “É mentira e falsidade que se me levanta e nunca me passou pela mente tal coisa, nem pensei que de mim tal se pudesse imaginar. Sempre foi meu desejo servir ao Rei como fiel vassalo com todo o meu poder e força”. Sua cabeça foi logo colocada sobre o cepo e Balboa deixou de existir quando o machado do verdugo lhe separou a cabeça do tronco. Em meio aos soluços de homens e mulheres, um cão de fila, gania e uivava o seu desespero. Era “Leoncico”, o fiel e inseparável companheiro de Balboa. 
  
LEONARDO DA VINCI – DESAPARECE UM GÊNIO
Paris, 2, maio, 1519

“Tão cedo o mundo não conhecerá um gênio”, declarou a mim um dos mais destacados nobres da corte da França, logo que se anunciou a morte do incomensurável Leonardo da Vinci, ocorrida hoje no castelo de Cioux, onde residia há três anos a convite de Francisco I. O magnífico gênio que foi nos seus 67 anos, pintor, escultor, arquiteto, engenheiro, músico, filósofo, inventor de imaginação fertilíssima e porque não dizer também um pouco mágico, deixou em quase toda a Europa o rastro fulgurante de sua passagem. O castelo de Cioux é pequeno para conter centenas e centenas de pessoas que a ele acorrem logo que se tornam sabedoras da morte de da Vinci. Afirma-se que à sua cabeceira, assistindo-lhe os últimos momentos, esteve o próprio rei e protetor, Francisco I. O grande da Vinci nasceu na Toscana. Seu pai, quando ele era ainda muito criança, mostrou alguns dos seus desenhos ao artista Verochio que os achou prodigiosos e levou o menino para a sua Academia, onde permaneceu 14 anos. Mais tarde, em Florença, pintou vários quadros para os poderosos Médicis e para várias igrejas. Entre eles figura o célebre “Adoração dos Magos”. Um projeto audacioso lhe foi entregue em 1483 em Milão, por Ludovico, “O Mouro”. Tratava-se da execução de uma estátua equestre de Francisco Sforza, pai de Ludovico, estátua que deve3ria ser de bronze e de 8 metros de altura. Da Vinci acabou não concretizando a obra, mas, em compensação, publicou um tratado sobre a anatomia dos cavalos e outro sobre os métodos de fusão do bronze. Sua obra prima, “A Ceia”, foi pintada para o Convento de Santa Maria das Graças. Foi arquiteto e engenheiro hidráulico, tendo executado um sistema de canalização para aproveitamento dos rios da Lombardia. Deixando Milão, da Vinci esteve depois em Veneza, Florença e Roma, onde César Bórgia, filho do Papa, nomeou-o mestre de obras das fortalezas da cidade. Pintou então outra grande tela a “Mona Lisa” ou “Gioconda”. Depois do casamento de seu novo protetor, Júlio de Médicis, irmão do Papa Leão X, é que aceitou o convite de Francisco para viver na França; A multiplicidade da inteligência e do gênio do homem cuja morte enluta o mundo inteiro foi verdadeiramente admirável. Curioso do organismo humano dissecava cadáveres para estuda-los. Sobre anatomia executou desenhos incomparáveis de grande sucesso. Destacam-se entre as dezenas de invenções e projetos de da Vinci, uma roupa estanque destinada a permitir que se mergulhe na água sem se molhar o corpo, assim como uma incrível máquina de voar. Este é um rápido retrato, ainda muito longe da realidade maravilhosa do que foi esse homem, esse miraculoso gênio que deixou a vida, cercado da admiração, do respeito e da tristeza de todos nós.

MANJARES DE SANGUE
Cempoalan, 20, maio, 1519

Manjares astecas cobertos de sangue humano foram, entre ricos presentes, oferecidos à Cortez por emissários de Montezuma, quando lançamos ferro, vindos de Tabasco. Esta nação dos totonecas presta estranha submissão, juntamente com seus dominadores astecas, à Cortez. Em sua homenagem queriam fazer o sacrifício divino: abrir com pedra afiada o peito de um homem e arrancar-lhe o coração para que o capitão lhe bebesse o sangue. Depois comem suas pernas e braços.

FIM DE LUCRÉCIA BÓRGIA
Ferrara, 24, junho, 1519

Vítima das complicações de um parto morreu hoje, nesta cidade, Lucrécia Bórgia, duquesa de Ferrara. Lucrécia, que foi instrumento nas mãos de seu irmão César e de seu pai Alexandre VI (Rodrigo Bórgia), desaparece aos 39 anos de idade. Divorciada de João Sforza, em 1497 casou-se no ano seguinte com o duque de Bisaglia, de quem teve um filho que foi reconhecido como de Alexandre VI e, depois, de César Bórgia. Estes fatos valeram a Lucrécia a acusação de incesto. Os cronistas sociais sempre propalaram as más qualidades de Lucrécia, no que alguns se excederam. Anotei sua presença numa noitada de orgia, em 31 de outubro de 1501. Após seu casamento com o duque de Ferrara, pouco se ouviu falar dela, afirmando muitos que se tornou inatacável. Mulher de rara beleza, falava perfeitamente francês, italiano e espanhol. Conhecia música e desenho e era habilíssima no bordado e na pintura de faiança. Reuniu à sua volta uma corte brilhante de homens de letras. Seu desaparecimento prematuro enche de tristeza os círculos literários e políticos.

CORRUPÇÃO E SUBORNO NA ELEIÇÃO DE CARLOS V
Madri, 25, junho, 1519

Foi comprada a peso de ouro a eleição de Carlos I da Espanha para Imperador do Santo Império Romano-Germânico. Fazemos esta denúncia com documentos incontestáveis, que comprovam terem sido seis (dos sete eleitores) subornados com uma fabulosa quantia em florins, equivalente a 2.100 quilos de ouro puro. Já se conhecia detalhes da corrupção e do tráfico de influência que precederam as eleições hoje realizadas. Graças a informantes idôneos e altamente colocados, podemos com absoluta exclusividade, colher, logo após o pleito, os informes e os sensacionais documentos que comprovam a tal corrupção, e o suborno. Temos em mãos as letras de câmbio assinadas pelo próprio Rei da Espanha, em favor dos banqueiros e grupos econômicos que financiaram a compra dos eleitores. Dos vários candidatos que se apresentaram para colher os votos dos 7 príncipes alemães, só dois disputavam, de fato, a eleição: Francisco I de França e Carlos I de Espanha. O Rei gaulês chegou a ser o favorito, uma vez que dispunha do mais rico tesouro em moeda sonante. No entanto, à última hora e mediante vergonhosas promessas do Rei de Espanha, os maiores banqueiros da Europa se dispuseram a cobrir os lances oferecidos por Francisco I. Um único eleitor, apesar das tentadoras ofertas, manteve-se fiel a Francisco I.   
 
EIS OS NOMES E VALORES
Madri, 10, julho, 1519

Conseguimos finalmente obter a comprovação total e absoluta da denúncia que fizemos. Nome por nome, e valor por valor; foram os seguintes os grandes banqueiros que “financiaram” a eleição de Carlos V: Jacó Fugger, de Augsburgo, com 544 mil florins; Bartolomeu Welser, da mesma cidade, com 143 mil florins; Filipe Gualteroti, de Florença; Benedito Fornari e Lourenço Vivaldi, ambos de Gênova, cada um desses três com 55 mil florins. Sem possibilidade de desmentidos, conseguimos obter, por escrito, uma declaração do recebedor-geral Juan Lucas, na qual afirma que as despesas eleitorais do Rei de Espanha somaram mais 850 mil florins ou 2.100 quilos de ouro puro.

GOLPE DE CORTEZ
Vera Cruz (perto de Cempoalan), 10, agosto, 1519

Cortez se fez sagrar “Capitão-general de Carlos V”, deixando assim de estar sob as ordens do governador de Cuba, Velasquez, e fundando a cidade de Vera Cruz. Continuam chegando emissários de Montezuma trazendo ouro e reiterados pedidos para que “Cortez se afaste de Tenochtitlan, sua capital”. 

ÍDOLOS DESTRUÍDOS
Vera Cruz, 15, agosto, 1519

Os totonecas aderiram a Cortez contra Montezuma, seu dominador. O capitão conquistou esta nação vassala dos astecas, quando, com audácia e bravura destruiu-lhes os deuses monstruosos e entronizou Nossa Senhora, proibindo os sacrifícios humanos. 

INCENDIADOS OS NAVIOS
Vera Cruz, 15, agosto, 1519

“Conquista ou morte”, foi o grito de Cortez, quando apavorados, assistimos ao incêndio da frota destruída pelo capitão. Só a conquista poderá salvar-nos, agora. Portocarrero escapou, pois foi mandado com um navio à Espanha para levar o Rei as notícias da expedição. Vamos iniciar a marcha, sobre a capital asteca. Escalante ficou com 150 homens guarnecendo Vera Cruz. Temos pela frente 400 quilômetros e somos 500 espanhóis e cerca de 40 guias totonecas. Cortez parece um novo César à frente deste punhado de homens que vão enfrentar o desconhecido. 
 
BATALHAS ÉPICAS
Subúrbios de Tlaxcala, 1, setembro, 1519

6 mil tlaxcaltecas foram derrotados hoje, numa batalha terrível, a segunda travada contra esta nação. Ontem enfrentamos um primeiro exército de 3 mil homens. Estamos estropiados, famintos e de moral baixo. Só Cortez, com sua energia e coragem, consegue impedir que recuemos. Depois de sair de Vera Cruz, durante 15 dias atravessamos montanhas, vulcões e planaltos gelados de até 3 mil metros de altitude. Estamos liquidados. Xocotla, cidade onde fomos bem recebidos, sacrifica jovens aos milhares. Vimos nos templos cobertos de sangue montanhas de crânios humanos, cerca de 100 mil. É como um aviso do que nos pode acontecer. O Tlaxcalteca é o único povo livre do jugo Asteca. Escrevemos na fila da confissão, pela amanhã, se Deus não resolver em contrário, teremos de enfrentar um poderoso exército de 50 mil homens, quando já não passamos de 450. Perdemos o primeiro cavalo e os índios ficaram sabendo que os “Deuses” não são imortais. 

ENFIM, TENOCHTITLAN
Tenochtitlan, 8, novembro, 1519

Montezuma em pessoa recebeu Cortez numa das calçadas que ligam à terra firme esta enorme e impressionante cidade lacustre, a 2.500 metros de altitude. Tlaxcala quando já nos tinha liquidado, rendeu-se a Cortez como se ele fosse um “Deus”. Na última cidade em que passamos, Cholula, Cortez, desconfiando de uma cilada, prendeu os príncipes da cidade e massacrou 3.000 habitantes. Somos 450 espanhóis e outros tantos tlaxcaltecas aqui em Tenochtitlan. Fomos hospedados num magnífico palácio com honras que fazem lembrar as honras aos “Deuses”.
 
MONTEZUMA PRISIONEIRO
Tenochtitlan, 20, novembro, 1519

Cortez obrigou Montezuma a residir no nosso palácio. Isto se deu depois que o exército asteca atacou Vera Cruz. Cortez julgou os culpados, um príncipe e 3 oficiais, e, com a aquiescência de Montezuma, queimou-os vivos. Apesar de sua total e estranha submissão a Cortez, Montezuma se negou a acabar com os inúmeros sacrifícios humanos feitos diariamente. Presságios de mau augúrio pairam sobre nós. Estamos como ratos numa ratoeira; cercado por todos os lados.

MAGALHÃES NO BRASIL
Brasil, 13, dezembro, 1519

A esquadra de Fernando de Magalhães esteve no Brasil, de 13 a 27 de dezembro de 1519. Confirmando informe anterior. Pigafetta nos disse que os brasileiros “chegam ordinariamente a viver 125 e algumas vezes 140 anos”. Afirmou que comem gente só como vingança de guerra. Todos foram respeitados pelos índios porque havia uma grande seca e quando a esquadra chegou começou a chover. Em troca de qualquer coisa ofereciam suas filhas como escravas. No entanto, para as mulheres casadas, não se pode nem olhar. Elas são de um pudor total. São as mulheres que exercem os trabalhos mais penosos. Os negócios feitos pelos tripulantes foram da seguinte ordem: uma carta de baralho por meia dúzia de galinhas; um cinto por um cesto de batatas; um pente por 2 gansos; um anzol por 6 galinhas; 1 espelho por peixes para 10 pessoas. Com ligeiras retificações, os informes sobre o Brasil coincidem com os da esquadra do seu descobridor, Pedro Álvares Cabral. Dois brasileiros seguiram na esquadra dos quais o mais moço era filho de Juan Carvajo. Um morreu e outro foi aprisionado durante a tormentosa viagem. 

MORREU CABRAL
Lisboa, 1520

Com pouco mais de 50 anos, morreu em Belmonte, Pedro Álvares Cabral. Tão esquecido estava ele, que foi impossível apurar a data exata do falecimento. Deixou 6 filhos e a viúva, Dona Isabel de Castro. Descendia de Fernão de Cabral, apelidado, pela sua estatura, de “Gigante da Beira”, e de Dona Isabel de Gouvêa, sendo natural da mesma cidade em que morreu. Pedro Álvares se assinava “De Gouvêa”, até as vésperas da saída da frota que em 1500 descobriu o Brasil. Contava, então pouco mais de 30 anos. Daí para cá passou a assinar Pedro Alvares Cabral. Teve 10 irmãos. Dele pouco se sabe. Em 1484 era fidalgo da Corte onde obteve o hábito da Ordem de Cristo e uma pensão pecuniária. Sem credenciais que lhe valessem o importante comando de 1500, até hoje murmuram que sua nomeação se deveu a Vasco da Gama, seu grande amigo, que vinha de descobrir o caminho das Índias. Outros ainda atribuem o fato às influências de dois de seus irmãos; João Fernandes e Luís Álvares, então membros do Conselho de Dom Manuel. Desde a volta do Brasil e das Índias em 1501, não mais se fez ao mar. Sabe-se que deve ter feito grave ofensa ao rei, pois Alfonso de Albuquerque, em 2 de dezembro de 1514, pedia perdão para ele a Sua Majestade. Se foi ou não atendido, ignora-se. O certo é que Cabral passou o resto de sua vida no ostracismo, em Belmonte. Desde muito moço sofria seguidas crises de impaludismo.  
 
PORTUGUÊSES NA CHINA
Pekin, 1520

Chegou a esta cidade Tomé Pires, navegador português que já esteve na China em 1517, como enviado especial do Rei de Portugal. Naquela ocasião, a 15 de agosto, precisamente, uma esquadra lusa, sob o comando de Fernão Peres de Andrade, aportou a Cantão, onde manteve contatos cordiais com as autoridades. O interesse português pela China foi aguçado com a entrada no porto de alguns juncos vindos do Japão e de outros portos do Extremo Oriente, arregrados de ouro e de várias mercadorias e grande valor.

MORREU RAFAEL SANZIO
Roma, 1520

Vítima de um resfriado e com apenas 38 anos, morreu nesta cidade o grande pintor Rafael Sanzio. Ele estava visivelmente esgotado com o excesso de trabalho. Cercado de luxo e riqueza levava uma vida desregrada. Junto ao seu leito de morte encontravam grandes personalidades dos salões romanos e da corte Papal, discípulos e admiradores. Sem falar, é claro, na bela “Fornarina”, sua amante, por ele imortalizada num quadro de rara beleza. Rafael nasceu em Urbino, em 6 de outubro de 1483, tendo sido discípulo de Pérugin, sob cuja inspiração executou suas primeiras obras de arte, como o “Casamento da Virgem” executada em 1504, na cidade de Milão. A emancipação intelectual de Rafael foi atingida nos quatro anos seguintes, na cidade de Florença, quando criou o seu tipo de “Madona” em oval puro, impessoal e ideal, com a “Madona do Grão Duque”, feita em 1505. Chamado pelo arquiteto Bramante, Rafael veio para Roma em 1508, pintando para o Papa Júlio II, até 1511, uma serie de obras, entre as quais se destacam: “Escola de Atenas” e o “Parnaso”. Tanto na corte desse Papa, como na atual de Leão X, Rafael desfrutou de situação excepcional; amigo de dois Papas, arquiteto-chefe da Basílica de S. Pedro, superintendente dos edifícios, amigo de Bembo, de Agostinho Chigi, de Baltazar Castiglione e do cardeal Bibiena. Rafael levou em Roma uma vida principesca de homem rico e elegante. Nunca, no entanto, mesmo muito se entregando aos prazeres, deixou de trabalhar exaustivamente.
          
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Atualizado em: Qua 27 Set 2017

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