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Embarque

 
Pego-me pensando num provérbio africano que a minha falecida vó profetizava, sempre quando eu saía: “O sol caminha devagar, mas atravessa o mundo. Um dia você vai entender, fio.” Não havia entendido, até hoje. 
Notei algo diferente no embarque. Devo ter de escolher apenas um portão, dos nove para embarcar. O meu futuro dependerá desta escolha. Não será fácil. Chega um momento da vida em que devemos escolher qual rumo seguir. Tenho tudo e, ao mesmo tempo, sinto que não tenho nada. E mais uma vez terei de decidir. 
No primeiro portão, está a felicidade. Ah! Quem não quer ser feliz para sempre? No segundo, a tristeza. Chega de tristeza na minha vida, se tenho a opção de escolher, certamente não será aqui que irei embarcar. No terceiro, o amor. Poderia ser este, amar e ser amado, quem não quer isso para sempre! Viver um grande amor... No quarto, a perseverança. Hum... acreditar que sempre é possível, mesmo quando dizem o contrário. No quinto, o medo. Ele vive diariamente com a gente, às vezes temos de ir com medo mesmo, isso nos dá um pouco de vantagem para seguir em frente. No sexto, a dor. Não, dor não! Como disse sobre o portão da tristeza, se posso escolher, não será este também! No sétimo, a coragem. Acredito ser uma boa escolha, ser forte perante o perigo nos dá a sensação de que não iremos desistir e, talvez, isso nos deixa um passo à frente de todos. Não é má ideia. No oitavo, todas as alternativas anteriores. Pensando bem, tem algumas que não quero vivenciar. No nono e último portão, não está escrito nada, porém, surpreendo-me com aquele brilho vindo ao lado do embarque. Uma senhora idosa, vestida de branco, com seu turbante entrelaçado na cabeça, sentada numa cadeira linda de madeira, transmitindo paz naquele olhar sereno, convidando-me para embarcar no nono portão. 
Já estava prestes a entrar no portão número um, quando ela balançou a cabeça dizendo não, mas eu perguntei: Por que não pode ser este? É o portão da felicidade. Porque você não quer ser feliz para sempre – disse ela. Então, vou embarcar no portão sete! Você também não vai querer ser corajoso sempre. Qual devo escolher? Escolha o meu. O seu? Não diz nada! Não sei como será a minha vida! Se posso escolher, escolherei o oitavo portão e fim da conversa. 
Deve escolher o meu. Aqui você irá viver todas as emoções, mas não saberá como e quando elas ocorrerão. Isso é viver, meu jovem, sem saber como será a vida. Não poderá viver todos os seus sonhos, mas terá momentos felizes, momentos de esperanças, de incertezas, medos, mas tudo na hora certa. O amanhã não podemos controlar, e isso é viver, fio. Embarque com uma passagem só de ida, sem olhar para trás, com o coração cheio de esperança, com novos projetos e sonhos lindos. O mais difícil você já está fazendo, escolher. 
Viva, aproveite cada momento e depois volte aqui, sente nesta cadeira e mostre para outro jovem que, neste portão, ele viverá. Sentirá a pele enrugar por tomar banho de sol demais, deixará o cabelo ficar todo branco, pois não terá mais forças para pintar ou paciência para deixar outro fazer, sentirá dores no corpo todo por ter dançado, corrido, pulado muito e agora o corpo pede descanso, isso é viver. Voe, vá devagar, aprecie cada momento, atrevesse o mundo e, ao pousar, não se esqueça desta “véia” sem graça que lhe aconselhou a embarcar. 
Vou neste, não tenho dúvida. Embarco, sento e levanto a cabeça, olho para cima e com os olhos cheios d’água, agradeço, pois, hoje, entendo as sábias palavras daquele provérbio. Adupé, ìyá àgbà. 
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Atualizado em: Seg 8 Fev 2021

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