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Rumo à tumba (continuação de "A primeira bruxa")

   MAIO DE 2019
   DIÁRIO DE VIAGEM
 ...vi a tripulação trabalhando para preparar o barco e vi os passageiros entrando nele.
   O caboclo Samboti é um homenzinho quase mudo, de olhar furtivo, a não ser que lhe perguntem algo do seu estrito interesse. Traz bordada no bolso da camisa a forjada patente.
   Sendo comandado há um adolescente de mais ou menos 17 anos, também mestiço legítimo. Como é chamado? Vassoura Preta. Samboti insiste que “é um nome de verdade” e o nomeado nada diz contra.
   Aí está a tripulação.
   Cinco pessoas fretaram o Marquês de Pombal; ei-las: um altamirense rondando os sessenta anos, que tão logo tenha entrado no barco virou “Waldick Soriano”; um garimpeiro de sorriso fácil e carregado de ouro na boca; seguindo-o está uma mulher insinuante e vulgar, de corpo mal escondido por tecido escandaloso. Encara os homens enquanto alarga maliciosamente o decote que antes de decote é um convite descarado ao sexo fácil. O quarto passageiro é um padre, Osmundo Camilo; negro manso e grandalhão, latinista de São Felix do Xingu que visitava a Sé Episcopal de Santarém. O quinto escreve neste diário.
   
   08H30MIN
   Esse começo da viagem, de um modo geral, se mostra uma experiência inesquecível, pois o Tapajós e a floresta se unem aqui numa conjunção mística, capaz de transcender os conceitos e emocionar as almas mais frias. Alguma coisa sublime evapora das águas e da floresta e se funde à gente.
   MEIO-DIA
   Somente agora tenho nervos para narrar o que se passou...
   Duas horas de motor gritando depois da partida, esbarramos com o macabro. Um bando de macacos-prego destilava uma fúria sem medida, realmente sobrenatural. Eram centenas deles jogando dentro do barco umas frutinhas duras do tamanho de limões, semelhantes a minicocos, quando passávamos por um canal estreito coberto por uma surpreendente e fantástica malha de cipós que pendiam de árvores das duas margens e se entrelaçavam magnificamente por todas as centenas de metros do canal.
   Os macacos, aparentemente desesperados em proteger alguma entidade oculta, portavam-se como soldados dispostos a tudo para nos expulsar dali; ou coisa pior. Os demônios faziam um barulho ensurdecedor, algo como gritos finos e estridentes misturados a sons estalados e guturais, alcançando uma nota altíssima e de completa anormalidade para qualquer espécie de macaco do planeta, ainda mais se tratando de pequenos macacos-prego. Suas presas finas e pontiagudas eram mostradas sem trégua como se fossem eles cães ferozes rosnando. Como o barco avançava, ainda que lentamente devido às pedras do leito, os macacos redobraram sua agressividade e a zoada infernal que faziam.
   De repente, mais de dez deles se jogaram da malha para o barco. Três caíram sobre a mulher vulgar, ato contínuo, enfiaram-lhe as presas no crânio, enquanto as patas iam batendo no rosto na tentativa de ferir ou matar. O sangue da cabeça esguichou forte e longe. Logo, todos os outros macacos seguiram esse impulso bestial e tomaram por inteiro o corpo da mulher. Pequenos nacos de carne iam sendo devorados de forma ininterrupta, até que conseguiram arrancar finalmente os olhos daquele rosto já desfigurado; a cega corria e gritava desgovernadamente, dando voltas no convés até perder a consciência e cair de bruços em cima duma lona amarela dobrada num canto. Foi tudo muito rápido; Samboti e Vassoura Preta, munidos de barras de ferro, só conseguiram matar os agressores quando a cena terminara. Um deles escapou a essa morte jogando-se insanamente no rio, levando um tufo de cabelos negros tingidos de vermelho vivo e quente. Um outro, o último no barco, se concentrava em correr e bater em qualquer lugar que fizesse barulho; fazia gestos abruptos e matinha as presas à mostra. Quando ele estava prestes a pular sobre mim, “Waldick” esmagou-lhe a cabeça com um só golpe certeiro de martelo; a massa gosmenta espalhou-se, tendo a metade dela lambuzado minha camisa e parte do meu rosto e cabelo.
   O cheiro de podre saído daquele cérebro, singularmente, pardacento e da carcaça do bicho era insuportável, impregnava tudo; entranhou-se, inclusive, à madeira da embarcação. Debruçado na amurada vomitei nas águas do Tapajós.
   Acima de nós, o bando conservava a selvageria desproporcional. Alguns se balançavam com nervosismo, outros pulavam, histéricos, sobre a extensa malha de cipós, chegando mesmo ao choque uns contra os outros feito seres completamente loucos e sem controle.
   De repente, e com a mesma rapidez que chegou, o bando partiu misteriosamente, em silêncio aterrador, como um cortejo fúnebre. Arrastou o terrível odor putrefato. Já não eram os mesmos animais de quando atacaram; voltaram a ser inofensivos macacos.
   Somente depois da saída deles, enfim, pudemos socorrer a vítima. Um oceano vermelho a rodeava. Desviramos o corpo e vimos, apavorados, que a dianteira do pescoço tinha sido devorada. Visão terrível! A mulher estava morta.
 – Santa Nazaré! – disse o garimpeiro após beijar, emocionado, várias vezes a imagem da santinha pendurada no pescoço por um fino cordão de ouro.
 – Nunca vi tanta valentia em macacos... – disse Vassoura Preta de um jeito mórbido e ofegante.
    Samboti estava na outra extremidade do barco examinando metodicamente a carcaça sem cérebro.
 – Feitiço... Não é desse mundo!... – sussurrou correndo olho ao redor e fixando no céu o olhar. O sol, antes infinito, se intimidou e pesadas nuvens se formavam.
   A visão macabra da morta sem os olhos pareceu saída dum filme de terror. Enrolamos o corpo na lona amarela e o deixamos juntamente com o garimpeiro numa vila chamada Trairão do Poço, onde era seu destino natural. Nesse ínterim, o homem, muito abalado, chamou o padre em particular, trocaram algumas palavras e o religioso pegou da sua mão algo que ninguém conseguiu ver.
   Seguimos viagem. A próxima curva trouxe o Arapiuns.
   14H34MIN
    Logo na entrada, à esquerda, aves coloridas e magníficas. Tantas que nem sei nomear todas elas. Interessou-me um bando de papagaios que se apertava na copa de um maciço coqueiro, estraçalhando com muita facilidade os mesmos minicocos dos quais os macacos se municiaram para nos atacar. Outro grupo chamou-me mais a atenção, nele consegui contar sete tucanos pousados em galhos grossos e secos de uma árvore alta. E como o barco passava lentamente bem próximo da margem, foi com grande susto, diante do qual recuei dois passos, que vi claramente uma densa fumaça negra envolver o tucano pousado no galho mais alto. Quase todos os embarcados se distraiam com a travessia de uma anta e dois filhotes, portanto não viram o exato momento em que o tucano, saído da nuvem negra, se atirou como um míssil teleguiado para dentro do barco. A rapidez da ação não me deu tempo de gritar ao homem e a arma letal perfurou como manteiga o crânio de “Waldick”, meio sentado na amurada. O estrondo alarmou os presentes, que também puderam ver o corpo sem vida afundar como bigorna nas águas negras do Arapiuns; o tucano kamikase também desceu ao fundo obscuro.
   Vassoura Preta, exímio mergulhador, tentou durante um bom tempo encontrar “Waldick”. Nem ele nem a ave foram encontrados.
   O padre Osmundo rezou em latim; um dèjá vu, pois as palavras ditas me pareceram as mesmas de quando morreu a mulher vulgar. Samboti fez uma mesura incompreensível, acompanhada de frases trocadas do Pai Nosso.
   15H23MIN
   O “mestre de bordo” acaba de pegar o leme, permitindo ao “capitão” que almoce. Escrevo à mesa improvisada, enquanto os outros tentam almoçar. Todos quietos; a tensão e o medo são ilimitados. Somente eu sei o que ainda nos aguarda, porém os eventos de inclinação espectral deram premonições fatalistas a todos. O destino final indicado no mapa está próximo.
   16H03MIN
   Tremo agora, mal consigo escrever. Uma treva terrível baixou sobre o mundo. O dia virou noite; o refletor do mastro central está aceso. A morte ronda; o sentimento é coletivo.
   16H53MIN
   Há trinta minutos aproximadamente uma enorme coruja preta de olhos amarelos parou no ar, perto do mastro. O “capitão” e o “mestre de bordo” entraram numa espécie de torpor maligno depois de alguns minutos encarando a infernal coruja. Travaram, então, um sangrento duelo de facas e ambos jazem agora no meio do convés banhado de sangue. Restamos apenas eu e o bom padre Osmundo Camilo. É ele quem guia o barco. Precisamos estar atentos a tudo. Por hora não é prudente escrever; talvez a morte me leve e tal tarefa se faça impossível. Que Deus nos ajude!
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   BELÉM, AO CAIR DA NOITE
   DIÁRIO DO GUARDIÃO
   Há oito dias escapei da morte ao confrontar parte da energia da Matinta materializada num corpo inocente e puro. Encontrei um ponto fraco na bruxa, o que constitui fato absolutamente novo. Um simples ornamento de fé salvou-me a vida...
   Depois que a tripulação se matou, um espesso nevoeiro cujas paredes poderiam ser cortadas com faca se uniu à fantasmagórica paisagem noturna. Nada senão o interior do barco podia ser visto; nem o rio, tomado pelo manto branco. Perdemos completamente o sentido de direção. O padre, no leme, sugeriu desligarmos o motor e esperar.
 – Só nos resta ter fé – dizia ele. – Sinto, meu filho, que você sabe a causa disso tudo, então redobre a sua fé em Deus.
   Entramos num silêncio de morte depois que o motor parou. Todos os sons foram devorados por alguma magia. O Marquês de Pombal ficou à deriva por longos minutos de espera dramática; a saliva era rascante e a respiração queimava os pulmões. De súbito os sons voltaram e percebemos que o barco se inclinava levemente numa posição diagonal forçado pela força do vento que assobiava; com velocidade éramos empurrados à esquerda, pois caímos para esse lado com violência, apesar de, estranhamente, não sentirmos em nossos corpos o vento batendo.
   Um som rasgado, parecido com o som da quilha raspando em pedras, fez o mundo parar. O nevoeiro foi sugado instantaneamente para um tipo de portal invisível e imaterial; e tudo se fez claro de novo. O relógio andava, mas marcava 16h53min. “Impossível!”, murmurei.
   O barco atracou à força de bruxaria três metros para fora do rio, comendo terra e derrubando mata. Descemos. Uma luz sobrenatural e hipnotizadora nos guiou no claro-escuro da mata fechada. Em pouco tempo nos deparamos com uma trilha espaçosa onde o teto era formado pela copa das árvores que tombavam de cada extremidade para o seu oposto, lembrando muito a engenharia da malha de cipós dos macacos. Olhamo-nos. E seguimos adiante.
   À medida que avançávamos, a arquitetura natural desenhava um túnel esplendoroso, mas dele emanava uma atmosfera insidiosa. Senti como se estivéssemos no paraíso, num lugar encantado. No túnel, os barulhos típicos da floresta ganhavam uma acústica especial, dominando os sentidos no grau máximo, como se fôssemos parte integrante da própria floresta. Senti-me especial, poderoso. A voz dos bichos, principalmente das aves canoras, o farfalhar das árvores, o assobio do vento cruzando por entre os galhos, ramagens e soprando delicadamente na direção do rio, o bater de inúmeras asas e o próprio andar das criaturas no solo revolvido de folhas secas ganhavam uma dimensão e um misticismo únicos; seduzindo.
 – Cuidado, meu filho, o mal é malicioso – disse o padre sacudindo-me.
   Um rugido só imitado pelo Leão da Nemeia ecoou na mata. O medo me tomando a alma foi indescritível. À boa distância pude ver, parada feito uma sentinela dos portões do inferno, uma onça negra vigiando atentamente em cima duma grande pedra; à sua direita observei, tomado da mais mórbida impressão, uma menina índia nua e abaixada, comendo com voracidade corpos já apodrecidos e amontoados de vários indígenas. Moscas voavam por todo lado alvoroçadas pelo odor nauseante. Vomitei pela segunda vez.
   Logo nos viram; e lentamente começaram a andar em nossa direção. A certa distância conseguimos ver o horror completo do quadro. A pantera tinha os olhos da coruja e a menina era a expressão macabra e desfigurada de uma bruxa; havia a deformidade típica das trevas no corpo todo cortado. “Deus, é a Matinta!”, sussurrei. Pelo tamanho e fisionomia, a possuída não tinha ainda catorze anos, mas a adquirida aparência monstruosa carregava a velhice mofada dos séculos e o mal mais encarniçado, contemporâneo da infância da luz.
   Diante daquela tóxica energia materializada, senti uma perda dos sentimentos, uma ausência súbita dos desejos e experimentei toda a podridão da raça humana; imensurável aversão à vida plantava o ódio e a fúria no meu coração, corrompendo células e consciência; das profundezas do meu ser o sórdido desejo de matar e destruir foi convocado. A magia negra da bruxa estava me tomando e logo eu marcharia nas suas fileiras.
   Comburent igni sacro virtutis.
   Huic corpori animalis tenebrarum.
   Imperium in nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti.
   Amen.
   O padre Osmundo salvou-me do império da desgraça com estas frases em latim. Apressou-se em tirar do seu pescoço e pôr no meu um cordão de ouro com a imagem de Nossa Senhora de Nazaré.
 – Do garimpeiro... – dizia o padre, nervoso. – Era um bom homem. Na hora não entendi o porquê da sua atitude, mas agora Deus fala ao meu ouvido e vejo tudo com clareza. Fé, tenha fé e o inimigo tombará!
   Saí do transe.
   O padre abaixou-se e num átimo atirou uma pedra no focinho da pantera. O servo da bruxa soltou novamente o rugido sinistro e correu em nossa direção. O padre foi ao encontro do animal, porém tangenciando, de maneira a sair do túnel, entrando novamente na mata densa e se ocultando da minha visão. A pantera fez o mesmo, perseguindo-o com fúria assassina, babando e rugindo alto. Também ela sumiu na mata. Depois de vários segundos de aflição asfixiante o som do grito rouco do padre fez meu coração gelar. “Estou só”, lamentei.
   Fechei os olhos e ao abri-los a bruxa estava a um metro de mim, espargindo o ranço da sua tumba e mostrando a espuma venenosa e negra da sua dimensão.
– Matintuk, O Branco, ganhará vida novamente – blasfemava a bruxa com a sua inimitável voz do inferno – e o seu sangue me libertará para sempre.
   Com um mínimo gesto de cabeça lançou-me contra uma grande árvore. O impacto fez-me quebrar o braço esquerdo e o rádio rasgou a pele do meu antebraço. A dor era imensa. Sentado, tirei do pescoço o cordão e tratei de empunhá-lo como se fosse uma espada. Uma força invisível arrastou-me violentamente pelo chão de raízes e pedras cobertas pela folhagem. A última esperança abandonou-me: o amuleto caiu de minha mão. Só podia ouvir os guizos da morte vendo a Matinta me estrangular: o coração pulsando lentamente e os dentes em minha boca rangendo esmagados pela grande pressão exercida.
   Prestes a perder a consciência, vi mãos pondo rapidamente o cordão do garimpeiro naquele pescoço trevoso e cortado; em sequência ouvi se repetirem as conhecidas palavras em latim. A bruxa se contorceu, foi revirando os olhos até ficarem completamente brancos, no que sobreveio o urro bestial e a negra fumaça deixou o corpo possuído.
    Fiquei olhando, estendido no solo crepitante, o último sorriso no rosto sereno da menina índia caída ao meu lado; então, quando gotas vermelhas gotejaram entre nós, eu desmaiei...
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Atualizado em: Sáb 2 Jun 2018

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