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A ferida que não doía

Carlos pensou em abrir a janela para que o sol e o ar pudessem entrar, pulverizando o ambiente sombrio e abafado que ele chamara muitas vezes de quarto, ou casa. Era manhã de domingo e ele sabia bem o que era preciso fazer:
- Hoje novamente irei permanecer em casa. - pensou Carlos ao hesitar se escovaria ou não os dentes.
Pegou a lata que estava sobre o criado-mudo ao lado da cama e sentou-se. Seus dedos da mão direita, polegar e indicador, estavam com uma ferida em carne viva e suas mãos estavam pretas das cinzas que queimara poucas horas antes do amanhecer. Carlos acendeu e queimou mais um cigarro inteiro e depois quebrou, com seus dedos machucados, mais um grama do bagulho que seria mesclado com as cinzas. E assim fez: mesclou tudo num papel de caderno e pôs cautelosamente sobre os furos da lata amassada que pegara ao lado da cama. Com o isqueiro de "cabeça para baixo", acendeu o cachimbo. Na primeira tragada ele já não era mais o mesmo. Seus olhos arregalados denunciavam seu medo. O barulho dos carros do lado de fora, que passavam na rua, fizeram com  que ele tivesse alucinações. Achava que alguém estava tentando capturá-lo e então levantou-se da cama subitamente, com os objetos para consumo em mãos, e trancou-se no banheiro sujo e escuro para preparar mais uma porção das substâncias. Do banheiro ele só saiu quando os cigarros acabaram, quando o gás do isqueiro acabou e quando o bagulho também acabou. Já era noite. E ele então pensou: - Vou descer até o estacionamento e arrombarei um carro para pegar os pertences que estiverem dentro, para trocar por mais uma porção de ilusão.
A realidade era demais para ele. Servia apenas como ponte de acesso aos seus desejos e ilusões de consumo mais profundos e obscuros.
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Atualizado em: Seg 5 Nov 2018

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