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Histórias que contávamos a nós mesmos

Trocou o jeans por um vestido, libertou-se de si mesma, e não é que a dona merecia mesmo aquela mudança? Cortou os cabelos, deixo-os crescer, agora pintou de dourado, depois quem sabe de vermelho. Perguntaram para mim, semana passada, quando se utiliza ponto e vírgula em uma frase. Eu não sei, respondi tolamente. O rapaz que me indagara a pergunta ficara frustrado, - como não sabes?- perguntou o jovem, -não sabendo, é claro que não se sabe não se sabendo. Aborrecido ele foi embora, não foi minha culpa, não foi proposital. Mas que coisa boba e estranha é essa que escrevo, uma loucura em movimento. Hoje mais cedo pensei em algo que não devia pensar, achei que se trabalhasse mais tempo e estudasse mais evitaria pensamentos do tipo, mas que nada, quando se está até mesmo deitado pode-se lembrar. Até mesmo quando se está sóbrio, ou principalmente alcoolizado tudo que nos lembra o passado é capaz de retornar. Algumas coisas o são assim: vem apenas para nos machucar.. ficamos calados. Olho para a beira que eu circundo, olho para as estrelas, é uma ótima noite para se matar, algo tão melancólico, é chegado a hora de se despedir dos amigos, do jardineiro, do alfaiate, do jornaleiro, do menino dos almanaques, da dona Abigail, do José, do Marcelo, padeiro da esquina, do Marcelo irmão do Renato que deve setecentos reais ao João, primo de José, filho de Marcelo e neto de Abigail. É hora de lembrar-me que não devo mais lembrar, cochilar um pouco mais, são quatro da manhã e eu estou caído em panos sujos, cocaína em meu nariz e uma podridão horrível em minha alma. Eu me tornei um monstro para mim mesmo, um ser desprezível. As drogas me tornaram os meus pais. Findo agora isso e começo, ou recomeço: trocou o jeans por um vestido, libertou-se de si mesma, e não é que a dona merecia mesmo aquela mudança? Cortou os cabelos, deixo-os crescer, agora pintou de dourado, depois quem sabe de vermelho.
Ficou belíssima, estava mais bela agora, já que conto essa história pela segunda vez. É como se pudesse ter ficado duas vezes mais incrível, com aquele vestido, um colar em seu pescoço, e aquele brinco pequenino em sua orelha pequenina, eu estava delirando, não precisava de droga alguma, estava pensando e pensando demais.. apenas fitava ela, sabia que me reconheceria, mesmo que nunca tenha me visto de blusa social e toda aquela tralha social que eu estava munido, ela me fitaria de longe e reconheceria aquele ser, aquela coisa que estava social. Eu olhei
Olhei... olhei... olhei... e fiquei naquela coisa de olhares por um noite inteira.
Ela estava tão bonita, e na companhia das pessoas mais importantes daquela festa, eu sabia que ela não gostava daquilo, sabia o quanto odiava toda aquela droga, tanto quanto eu odiava estar ali. Eu delirei, e em um sonho utópico a chamei para dançar, ela olhou indiferente para mim, e eu olhei como se olha a quem se ama e vai à guerra sem data de volta, imaginando a morte ou a queda. Nossos olhos se beijaram por um momento; eu sabia que amaria vê-la, como sempre amei.
Ela mudou muito depois desses tempos, sorte a dela, pois mudanças às vezes são boas. Estava feliz, com aquele sorriso, não me falem de sorrisos! Não me falem dessas coisas de amor, falem-me de putas e álcool, pornografia barata e coisas profanas. Não quero ouvir mais esta maldita melancolia, eu não aguento mais ser está coisa que é, pois ser é uma coisa muitíssima pesada, que derruba o homem ou o deus. Essa coisa que falo, que não deve ter nome nem cabeça, sem endereço, é coisa realmente mesmo complicada. Eu só faço o que todos fazem!
-esqueço-.
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Atualizado em: Sáb 18 Ago 2018

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