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Subúrbios de Curitiba

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Sumário
O QUE RESTA DE MIM ............................................................................................... 2
UMA CARTA ................................................................................................................ 4
JEREMIAS (PARTE I) ................................................................................................... 7
O MURO E O RETRATO ............................................................................................ 19
OS ROSTINHOS BONITOS DE KALI YUGA .............................................................. 28
UMA XÍCARA DE CHÁ ............................................................................................... 45
VIVENDO LONGE DA BEIRA DO MAR ...................................................................... 60
2
O QUE RESTA DE MIM
3
O que resta de mim ainda reclama, contorce-se, debate-se, não
esquece, deseja, pede, procura. Chaves perdidas e enferrujadas nas entranhas
dos opróbrios sofridos e infligidos. Agarrado às hastes metálicas de débeis
estruturas transponho ravinas e charcos onde pequenos pássaros pretos
espadanam a água estagnada. Esgares e sorrisos confundem-se diante do
imensurável número de atrocidades cometidas, portas fechadas, rastros
perdidos e trilhas que se bifurcam. Além dos plátanos, depois do rio pardacento
e pútrido mochos piam e morrem enquanto sinto aproximar-se o acariciante
fustigar de um vento que gemeu alucinado entre abetos e bétulas espectrais
antes de chegar à minha face enraizada e seca. Às margens da escarpa à
minha frente caminho hesitante, encarquilhado, macilento, gemente, sofrendo
uma resignação árida ao perceber lá embaixo, no límpido abismo, os restos
dos sentimentos intensos já vividos. Gravetos e folhas encurralados por
errantes redemoinhos vêm cobrir meu corpo que se estende insólito, longo e
pálido sob as intempéries que desferem possantes raios mutilando as sombras,
assustando as cores que se liquefazem e escoam e não deixam vestígios e
talvez não tenham sequer existido. Preso nas fendas dos mecanismos imensos
que corroem engrenagens seculares e desfazem potentes articulações,
triturando ossos, carne e tendões, vejo, macerado, ressequido, sequioso, o
reflexo de um líquido qualquer que a montanha verte e que escorre e some nas
grotas. Minha língua áspera lambe a rocha lisa e úmida e minhas mãos
disformes, enodoadas ferem o musgo verde delicado enquanto petrificado
observo um pássaro sobrevoar o precipício. Um enlevo, um sobressalto, um
frêmito percorre minhas vértebras rangentes produzindo um forte desejo de
voar. Um vôo rápido, de abrupto fim.
4
UMA CARTA
5
Eu gostaria de ser capaz de dizer algo para você, de poder escrever
“uma ou duas linhas sentidas”, onde o coração pesasse e que ao menos um
sopro desse peso tocasse teu peito quando você as lesse, porque nem tudo
que pesa em meu coração é ruim. Mas acho que não consigo, tenho vivido
escondido por muito tempo, afastado, e é assim que quero continuar,
capitulando, se você preferir, entregando-me indefinidamente a esse silencio
que é o fermento de minhas torturas e a essência de toda paz que eu já tenha
experimentado. Não preciso mais fazer perguntas, pois as respostas estão em
toda a parte, chocam-se contra mim pesadas e inevitáveis, esbarro nelas,
evidentes e previsíveis. Não são mais vultos fugidios que tenho que perseguir,
não esgueiram-se mais tornando assim supérfluo, prescindível qualquer
diálogo. Gostaria de te olhar nos olhos, não longamente como dois amantes o
fariam, bastaria um só olhar, rápido e profundo, que te diria tudo e faria você
ver, ainda e sempre, aquela necessidade premente de estar sozinho, vital à
minha sobrevivência.
O contato com o mundo do qual não se pode escapar, aquele contato
concreto, direto que leis poderosas e inflexíveis nos impõem, torna-se mais
fluido e sutil na solidão, ela o ameniza quando não o torna um estigma e se ela
me falta, sobrevém a ansiedade, a depressão acentua-se, a tristeza assume
formas mórbidas e deixa de ser a “doce companheira” para transformar-se em
substancia nociva. Isso acontece com relativa frequência e vivo então dias de
franca dissolução, apatia e exaltação, angústia e agitação alternadamente, e
convenço-me de que esse culto, essa longa e penosa apologia à solidão
deixou-me doente, por isso abracei a melancolia grega das tragédias e o
estranho fulgor do mundo escuro e revolto das almas em sofrimento, e hoje,
em meu isolamento, meu tempo todo é perdido em elucubrações arenosas e
secas das quais o sentimento afasta-se com a lentidão agônica da maré
vazante, e então sinto falta de você, de teu silencio doce, daqueles momentos
de suave intimidade, de intensa proximidade, que vivi, sorvi em minha
embriaguez como uma dádiva imerecida. Mas agora você está longe, afastada
de mim pela distância que eu impus no sentido de te preservar, e à tudo que
ainda havia de bom à minha volta e para que eu mesmo pudesse prosseguir
vivendo, ou talvez eu devesse dizer, para que eu pudesse continuar vivo sem
causar mais danos a ninguém.
Envelhecido, transformado, envilecido, por mim mesmo julgado e
condenado, fico durante longos dias esperando, desejando inutilmente,
esterilmente, pois raramente passo além dos limites de minha rua, deparar-me
com algo ou alguém que me faça sentir forte em meu retiro, que o justifique.
Uma criança, um animal, um poema, qualquer coisa que surja assim
repentinamente numa esquina e que eu não destrua com meus pés incautos e
negligentes, que eu não assuste com minha loucura. O ideal seria algo que
brotasse abruptamente do chão da sala, da calçada, da grama, do asfalto, de
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qualquer pedaço inóspito de terra. Este insólito solo geraria um fruto ambíguo,
desconhecido, cuja visão me atingiria com a força de um vento aterrador, de
uma catástrofe abençoada.
7
JEREMIAS
(PARTE I)
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A periodontite foi o último dos males que acometeram Jeremias e não
produziu nenhuma espécie de comoção em seu espírito já combalido por uma
sucessão de reveses. Utilizei os termos "males" e "reveses" porque não tenho
o correto encadeamento de palavras para definir o conjunto de eventos que
reduziram meu amigo ao seu atual estado. Catástrofes, desgraças,
calamidades são termos fortes demais e tem um certo ranço bíblico que não
me agrada, porém não encontro outros para tentar descrever tão insólitas
situações.
Jeremias era considerado por sua família como um fracassado.
Professor na Universidade era cargo que trazia um certo status, mas era só
isso, não conseguiam entender que um homem, de lá de dentro de suas viris
estruturas, desdenhasse, verdadeira e puramente, efetivos renomes,
plausíveis, realizáveis, sem falar no principal, as boas, melhores
remunerações, ora, se mesmo padres e bispos faziam isto apoiados por
canônicos direitos... mas não, Jeremias amava seu trabalho e não tinha
nenhuma dessas ínfimas, inferiores pretensões, por isso permaneceu, grato e
sorridente, reles "professor de inglês", que nunca casou e não tinha dinheiro,
não trouxe para seus pais os grandes orgulhos esperados, até mesmo
vaticinados por Leonides, respeitado benzedor-vidente, renomado cachaceiro,
polaco mau cheiroso, cheio de frieiras e outras diversas ojerizas, cutâneas
afecções, esse Rasputin curitibano, não era desvalorizado em suas
benzeduras, curas e rezas, mesmo porque tinha seus devidos, irrefutáveis
dons.
Começar por onde? Aquilo tudo para mim foi como uma mistura de
algumas pragas do Egito e mais de uma das muitas vicissitudes vividas por Jó,
que Jeremias aceitou, até uma altura que a muitos teria já desesperado, com
espírito digno de seu profético nome. Talvez devesse começar falando dos
piolhos. Naquela noite, no terminal do Portão, entre indeciso e enfadado
coçava e cabeça e pensava sobre onde ir e o que fazer, olhou para a lua, um
fiapo de lua débil, esmaecido, que não lembrava nem um pouco o poderoso
corpo celeste que movia as marés, fazia uivar os lobos, acicatava os loucos, e
com frequência inspirava ou transtornava o coração de um pobre ser humano
apaixonado. Lembrou de uma noite passada a ligeiros trinta anos atrás na Ilha
do Mel com um amigo. Barraca, fogueira, cachaça e a lua surgindo rubra,
avermelhada lá no horizonte tranquilo do mar de poética escuridão. Essa
lembrança trouxe outras, a juvenil paixão pelos livros, poesia e ciências, sua
desmedida atração pela sinistra figura de Baudelaire e a admiração
incondicional que tinha por Kepler. Não entendia uma linha de suas fantásticas
leis mas a imagem deste alemão sofrido fazia brotar profundas empatias e o
fazia pensar em possíveis longínquas conexões, medievais, antepassadas
encarnações. Enfurecido por esses nobres amores, caceteava amigos e
colegas tentando insuflar-lhes análogos sentimentos. Olhou em volta, o
movimento encarniçado dos seres humanos havia diminuído, optou por voltar
para casa e foi o que fez depois de comprar uma garrafa de vinho. Tinha então
quarenta anos, um metro e oitenta, cabelos fartos bem penteados e todos os
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dentes na boca. Trocou de roupa, abriu o vinho e dispôs no chão da sala umas
folhas de jornal, sentou-se e começou lenta e metodicamente a passar pela
cabeça um pente fino, como já havia realizado este processo pela manhã só o
que conseguiu foi matar dois ou três bichinhos subnutridos. Contar como ele
adquiriu esta pediculose poderia ser interessante mas acho de maior
importância relatar como ele livrou-se dela, de qualquer maneira devo voltar
muitos anos na vida de meu amigo. Não sou bom narrador, nunca contei
histórias ou pretendi ser escritor nem poeta, se fiz letras foi só para estar perto
de Jeremias, devo confessar que fui apaixonado por ele desde os tempos do
colegial e por mais de quarenta anos contive-me, não cedi um milímetro e nem
mesmo cheguei a declarar-me abertamente, com certeza o fiz de outras
maneiras e o que recebi em troca recompensou-me fartamente. Toco neste
ponto somente para que compreendam e relevem eventuais afetivos deslizes
ao longo deste relato, ao qual volto agora.
Fabiana foi o grande amor da vida de Jeremias. Conheceram-se na
faculdade e ele apaixonou-se visceralmente, sem olhos, sem cérebro, só
coração e genitais. Ela o amou, como amaria muitos outros, com demandas de
posse, sofreguidões de propriedade, queria-o só para ela, mas não lhe
dedicava a mesma exclusividade, enquanto não percebeu isso ele foi feliz.
Fabiana tinha para a expressão "aproveitar a vida" uma concepção que, se não
era diametralmente oposta, ao menos diferia enormemente da dele. Para
Jeremias com seus amplos e limpos sentimentos, amigos, amores e trabalho,
por si só, davam reto início e conferiam plenos finais a uma vida. Para ela cada
um desses elementos poderia servir como útil ferramenta para atingir seus
objetivos, suas, digamos, mais "terrenas" aspirações. Estas eram,
suscintamente e sem falsos pruridos declaradas: ganhar muito dinheiro, subir
alguns poucos mas sólidos degraus na sociedade e obviamente desfrutar
daquilo que os sentidos podem proporcionar com mais requinte quando se tem
uma boa conta bancária. Ah! meu querido Jeremias ria de tudo isso enquanto
a acariciava deliciado e muitas vezes lançava-lhe sutis sermões sobre as
venturas da simplicidade que ela ouvia com divertido enfado.
Bem, esta história de oblíquo, unilateral amor, teria um triste desfecho.
Jeremias começou, aí pelo final da graduação, a perceber os já evidentes
sinais de que sua amada não lhe correspondia os extremados afetos, foram
olhares furtivos, sorrisos dissimulados ou outros carregados de grosseira ironia
ou malícia, gestos e palavras que denotavam óbvias manifestações de uma
natureza áspera, que não se coadunavam com seus mais refinados, lapidados
sentimentos. Não teve ciúmes nem ódios nem concebeu paranoicos planos de
formalizar flagrantes, sofreu somente, cada vez que ela faltava a encontros
marcados, cada vez que ouvia insípidas justificativas ou mesmo duras
reprimendas por estar sendo indevidamente acuada, sentindo-se sufocar.
Sofreu o sofrimento comum de todo homem apaixonado e traído ou ao menos
não correspondido, pois não tinha ou não queria ter certeza das traições, e deu
espaço a ela, deu-lhe tempo, não com vãs expectativas de com isso conseguir
alguma miraculosa conversão, impossíveis arrependimentos, chorosas
confissões, o fez simplesmente para que ela se decidisse e desse à relação o
fim que melhor lhe aprouvesse. Porém, quando ele se afastava, em uma
semana ou duas algo nela se agitava e voltava a procurá-lo com acusações de
mulher ofendida e fortes ânsias de amor, daquele específico carinho, amavamse
então com dissolutas fúrias por alguns dias até ela deixá-lo novamente.
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Formaram-se, Jeremias optou pela pós-graduação e sua dissertação de
mestrado intitulada "Kafka, uma obra inacabada" foi aprovada e elogiada, por
seu lado Fabiana conheceu num pub do Largo da Ordem um empresário
holandês e com ele foi morar na Europa, de lá enviou cartas em que exigia de
seu ex namorado fidelidade perpétua, prometendo visitá-lo assim que pudesse
mas só o que ele recebeu foram alguns telefonemas esporádicos e que
terminaram abruptamente. Nunca mais voltaram a encontrar-se. E ele então
conheceu a solidão, viveu-a, experimentou-a conscientemente, diariamente,
sem subterfúgios. Era real? Existia? Sim, então qual a necessidade de artifícios
para evitá-la? Era torturante em alguns momentos, mas não tão doloroso e
nem tão grande que não coubesse em seu peito e lá não ficasse doendo
suportavelmente. Só o que fez foi entregar-se a uma incerta devassidão e
comedida boemia que com o passar de alguns anos foram-se intensificando e
tornando-se crônicas. Esses hábitos ele os adquiriu quando já era professor na
mesma instituição na qual havia estudado e consistiam basicamente em
arranjar periodicamente namoradas com quem mantinha mornos
relacionamentos e intensas, vibrantes horas de sexo. Passou a beber com
regularidade, para ser mais fiel à verdade, diariamente, instalava-se num
barzinho ou restaurante onde pudesse ler, corrigir trabalhos e provas com
tranquilidade e bebia, como ele dizia, até a saudade de Fabiana voltar a encher
seu peito de poesia e da mais límpida e pura tristeza, elementos que o
impulsionavam para o dia seguinte e que, ainda segundo ele, o tornavam uma
melhor pessoa e um melhor professor. Mas os dias tornaram-se longos
trazendo-lhe febres de apressar a vida, de fazer o que fosse possível para que
a nova manhã que seria obrigado a viver não demorasse tanto para chegar.
Éramos grandes amigos e nos víamos com frequência, comigo Jeremias
conseguia se abrir, se expor, como não o fazia com mais ninguém, ao menos
eu não tinha motivos para duvidar disso, e foi por essa época que, certa noite
em sua casa enquanto ouvíamos música e tomávamos whisky, me senti, num
momento de estúpida fraqueza, tentado a arrancar de meu amigo algumas
migalhas de amor que não fosse aquele fraternal que nos unia. Ao vê-lo com o
olhar fixo na parede a sua frente, sentei-me a seu lado no sofá e num lento
gesto de insofreável ternura dolorida peguei em sua mão e segurei-a entre as
minhas e meu coração abriu-se com as desesperadas possibilidades de
doçuras nunca vividas, Jeremias olhou para mim com um suave sorriso,
depositou o copo sobre a mesinha ao lado e pôs a mão em meu joelho,
aproximou seu rosto do meu e o tocou com a ponta dos dedos, eu fiz o mesmo,
sem coragem para mais nada e ele então beijou meus lábios suavemente por
longos segundos e me disse : "Você sabe que eu te amo", respondi que sim
enquanto ele voltava à posição anterior e pegava seu copo novamente. Nunca
mais nada parecido aconteceria, meu amor, se era possível, intensificou-se, e
me impus mais severas distancias e admirei-o ainda mais. Novo retrocesso
devo fazer para falar de Valéria. Se Fabiana foi o grande amor não consumado,
Valéria foi a mulher mais importante em sua vida, ela estudava pedagogia na
mesma universidade e no mesmo tempo em que Jeremias vivia seu malfadado
relacionamento, seus caminhos e olhares cruzaram-se inúmeras vezes pelos
corredores, bibliotecas e lanchonetes e ela sentiu-se fortemente atraída pela
sua figura alta e bem-apessoada de quem parecia emanar um certo ar de
inocência. Informou-se, inteirando-se do caso de meu amigo e permaneceu por
longo tempo observando-o à distância à espera de uma possível e bastante
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provável mudança na situação, não era moça decidida, dada às fortes atitudes
e enquanto os rapazes à sua volta, insossos, não lhe chamavam a atenção,
esperava, que um dia talvez a vida proporcionasse um encontro feliz.
Esse encontro feliz não aconteceu e Valéria casou-se com um jovem
estudante de direito. Moça de ascendência ucraniana, de belos olhos azuis,
recatada, suas belezas ficavam escondidas por baixo das modestas
vestimentas, filha única de austeros pais católicos ortodoxos, casou mais por
instancias deles do que movida por fortes afetos ou femininos desejos e
constituiu uma família estável, graduou-se e continuou trabalhando na
universidade e vendo Jeremias com frequência e até mesmo, em algumas
ocasiões, conversando com ele sobre assuntos de trabalho e lá dentro de seu
comportado peito procurava inutilmente sufocar a incipiente atração que
transformara-se em consciente e inegável amor. Foram anos de duras
abnegações, de maternais felicidades e conjugais decepções. Não que o
companheiro fosse mau homem, ao contrário, trabalhador consciencioso,
marido e pai dedicado, era porém, amante morno, não tinha ímpetos viris e não
proporcionava as afoitas carícias que ela secretamente desejava e mais, não
possuía aquele encanto, aquele olhar doce e másculo que ela via em Jeremias.
E então, com todo o ardor de sua alma desprendida, conformou-se com o que
tinha, e pelos seguintes dez anos, consumiu-se em dedicações extremas entre
a profissão, seu secreto amor e o lar com seus abertos amores, isso incluía o
homem com quem era casada, a quem suportava serenamente como um rio
caudaloso e manso, mas que tem suas curvas e profundezas desconhecidas.
Este homem morreu repentinamente depois de formar sólidas sociedades e
acumular largos dividendos que legou à esposa e filhos. Ela esteve ainda mais
um ano sozinha durante o qual rendeu graças à Deus, em quem acreditava
piamente, por, entre outras coisas, livrá-la do cumprimento metódico e regular
de suas obrigações conjugais, aquelas que cumpria na cama, sem vontade, em
silencio, ouvindo os roucos arquejos do único amante que conhecera. Foi
pouco tempo depois que, durante uma conversa com Jeremias, seus olhos
brilharam mais do que usualmente acontecia e seus gestos, mais soltos, com
algo que exalava frescor chamaram a atenção dele e fizeram com que a
convidasse para jantar, convite aceito com a naturalidade de uma colega de
trabalho que concorda em tomar um café num intervalo do expediente. De
onde aquela espontaneidade que surgia do nada, aquelas alegrias
desconhecidas que preencheram as horas seguintes? Aquele jantar marcaria o
início de uma série de deslumbrantes descobertas e prazeres ignorados, mas
também uma série de longas horas de inútil espera e noites solitárias. Com ele
Valéria conheceria o sexo gentil, suave e vigoroso, teria todo seu corpo
explorado como nunca antes havia sido, teve inusitados medos que se
transformaram em inimaginados enlevos, foi tocada com sutileza e sentiu a
doce umidade dos suores e outras humanas secreções. O desprendimento e
abnegação, contudo, que foram as características de sua vida de casada,
continuariam sendo os componentes de sua relação com Jeremias.
Os piolhos foram como um prenúncio das futuras hecatombes, uma
pequena advertência que a providencia envia a seus escolhidos a respeito de
suas futuras atribulações, um crente diria talvez que o erro de Jeremias foi não
ter dado atenção a esse sinal divino e ter continuado com suas práticas
dissolutas. Bem, essas tais práticas e a boemia a que já me referi limitavam-se
a seus namoros insípidos e a uma quase contumaz embriaguez noturna que,
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porém, não o impedia de ser um funcionário assíduo e pontual, cortês e
benquisto por colegas e superiores e alunos, tudo isso não fazia dele um
candidato às delícias celestes, mas eram, porém, relevantes atenuantes na
eventualidade de ser um verdadeiro pecador. Quando ponho em destaque
certos aspectos da personalidade de meu amigo penso que posso ser criticado
por não ser a pessoa mais adequada para enumerar seus adjetivos, qualidades
ou defeitos, uma vez que sou dele muito próximo e nutro tão arraigados
sentimentos e talvez não possua os devidos atestados de imparcialidade. Não
me importo muito com isso, continuarei contando a sua história da maneira
como a vi e partilhei. Como disse no início, naquela noite de indecisão no
terminal quando acabou indo para casa, mudou de idéia após terminar seu
vinho e resolveu ir até um barzinho próximo. O lugar era simples, um boteco
com uma mesa de bilhar onde algumas pessoas jogavam, mesinhas e cadeiras
de metal, farta iluminação que feriu seus olhos saídos da penumbra da rua.
Sentou-se, pediu vinho e ficou ali observando o jogo e olhando eventualmente
para a rua meio deserta, um dos jogadores perguntou-lhe se não gostaria de
"bater uma fichinha" valendo uma cerveja ou um vinho, ao gosto do vencedor.
Em ocasiões normais declinaria de tal proposta com uma recusa bemhumorada,
mas naquela noite, um sutil e quente açoite interno o fez levantar e
aceitá-la polidamente, não era mau jogador, mas como o jogo com suas
geometrias, acompanhado em lugares como aquele, de grosseiras invectivas e
ditos de baixo calão não lhe atraía muito, perdia com frequência não se
importando em pagar as estabelecidas multas. Jogou uma melhor de três e
ganhou, seu adversário, bonachão, pediu-lhe revanche e perdeu novamente,
riu, pagou e sentou-se a uma mesa no mesmo instante em que outro freguês
levantava-se dizendo que agora era sua vez; embalado pelo vinho e pelas duas
vitórias consecutivas Jeremias aceitou, foi uma partida um pouco tensa pois
via-se que o novo contendor, pelos rictos em sua fisionomia e certos gestos
contidos de desagrado, não estava disposto a perder com ânimo de bom
competidor, mas perdeu e foi com passos decididos até o balcão e pediu mais
três fichas. Uma nova melhor de três e uma nova vitória de Jeremias que, ao
matar a última bola riu jovialmente enquanto caminhava displicente até o portatacos
e então voltando-se defrontou-se com o derrotado em fúria perguntandolhe
se estava rindo dele, "claro que não meu amigo, estamos só brincando",
mal terminou de pronunciar estas palavras e o vencedor da noite teve o olho
esquerdo acertado por violento murro que o levou ao chão. Tonto, tentando
levantar-se, cambaleante, ouviu ruídos crepitantes, viu luzes e tudo se apagou
subitamente. Acordou somente no dia seguinte no hospital, comigo e Valéria a
seu lado, havia levado um golpe de garrafa na cabeça, garrafa que estilhaçouse
e produziu no entorno da região temporo-parietal um enorme corte em forma
de Y. Tomografias, raios X e outras médicas engenharias realizadas
comprovaram a ausência de qualquer lesão craniana ou encefálica e o
paciente retornou à sua casa. Para realizar as acertadas suturas e criteriosas
assepsias teve ele sua cabeça clinicamente raspada, explico assim como
Jeremias livrou-se dos infames hematófagos que tão bem instalados já
estavam em seus fartos cabelos.
Valéria tirou alguns dias de licença para cuidar do homem que
transformara e transtornara sua vida, posto que os amores quase sempre são
acompanhados de seus cúmplices transtornos e outras revoltas dos afetivos
elementos humanos. Mas ela não sem importava com nada, olhava para ele
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com imunidades e vagos sonhos impossíveis em seus brilhantes olhos azuis,
acariciava seu rosto edemaciado, tocava tão levemente com suas mão brancas
e frescas no hematoma ao redor do olho produzindo distorcidos sorrisos de
alívio. Jeremias sentia-se um verme a cada pequeno cuidado dispensado,
somente sua presença silenciosa já agitava remorsos e gerava finas
amarguras, tornando sua saliva grossa, provocando sede. Já cultivava
anteriormente esses sentimentos de culpa por não corresponder às vastas
aberturas do coração daquela mulher que só dizia querer estar ao lado dele
sempre que pudesse. Naquele momento lembrava com duras e ativas dores
das muitas vezes em que a deixou sozinha, esperando, às vezes sem um
telefonema sequer, porque não aceitar seu generoso convite de ir morar com
ela? Não haveriam esponsais exigências e nem vãs expectativas. A proposta,
em letras bem colocadas ela já havia feito, só morariam juntos, ele teria
liberdade, não ouviria recriminações nem deprimentes lamúrias, a casa era
grande tendo os filhos mudado para estudar em Santa Catarina onde já
possuíam imóvel e vidas próprias. Porque não? Deixou a resposta para um
futuro próximo. Curativos diários, nutritivos caldos e todos os outros muitos
cuidados exigidos produziram em dez dias uma grande melhora, Valéria voltou
a trabalhar mas passava lá todas as noites, durante quase um mês ela morou
ali, nos encontrávamos com frequência e pilheriando perguntávamos porque
um homem tão egoísta merecia a dedicação incondicional de duas pessoas
como nós, contudo percebemos que essa inocente brincadeira provocou em
Jeremias um constrangimento que ele não conseguiu evitar, conseguimos tocar
na massa túmida de sua consciência. Quando seu cabelo cresceu o suficiente
para esconder a maior parte da enorme cicatriz ele voltou a trabalhar, para
todos os efeitos tinha sido vítima de um assalto.
Densos meses líquidos se passaram sem que nada mudasse em nossas
vidas, Jeremias continuava em sua rotina de solteirão porém passou a dar mais
atenção à Valéria, abriu mão de suas fortuitas namoradas e passava às vezes
uma semana ou duas na casa dela, cozinhava para ela, recitava poemas
enquanto bebiam vinho, derramava sobre ela aquele encanto do qual nascera
farto, sempre fôra assim, encantava sem esforço, sem intenção, cativava,
agora com uma novidade, com um novo componente, preocupava-se em
tornar-se, ao menos um pouco, eternamente responsável por seus cativos.
Bem, sem querer fazer deste relato um mero, cansativo e repulsivo rol de
mazelas devo, a despeito do justo embargo de leitores mais refinados, narrar
os últimos infaustos acontecimentos que levaram Jeremias a abandonar
Curitiba para ir morar em Guaraqueçaba, pequeno município do litoral
paranaense, quase que somente uma vila de pescadores. Certo dia em amena
conversação ele me falou de uma dificuldade que estava sentindo para urinar,
acompanhada de leve dor, aventei a possibilidade de um problema na próstata
e sugeri obviamente a evidente consulta urológica. Descuidado com sua
própria saúde, foi somente a severas instancias minhas que ele iniciou
tratamento, eliminada a hipótese da hiperplasia prostática, teve que realizar
invasivos exames envolvendo sofisticadas tecnologias e somente foi
constatado uma perda de sensibilidade na bexiga e fraqueza do músculo
extrusor, nenhuma grave doença, mera moléstia que só causava incômodos,
principalmente no diário transporte em ônibus lotados, isso fez com que meu
amigo decidisse pela compra de um automóvel, algo que há muito eu o instava
a fazer. Mas Jeremias tinha entre seus defeitos a teimosia e não comprara
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carro até então por que tinha lá seus justos julgados preceitos, honrados
deveres de cidadão ético ecológico, não era falta de dinheiro, para tanto tinha e
sobrava e assim ele o fez.
Em menos de um ano acostumou-se, a despeito de nossas, minhas e de
Valéria, conclusivas e justas advertências, a dirigir um tanto alcoolizado e numa
madrugada em que voltávamos, eu e ele de uma festa em casa de conhecidos
nossos, aconteceu o acidente. Lá pelas bandas do Pinheirinho, numa via
rápida ele perdeu o controle do carro, capotamos e batemos com o lado do
motorista em um poste. Vou procurar suprimir os irrelevantes detalhes e aterme
somente às consequências. Eu tive algumas escoriações e fraturei um
braço, Jeremias porém, além de sérios ferimentos teve o lado esquerdo do
corpo bastante afetado com fratura do respectivo braço, uma fratura exposta na
coxa, a tíbia quebrada em vários lugares e perdeu a maior parte da orelha
esquerda. Depois de quase dois meses no hospital voltou para casa e brincava
dizendo que era um veterano de guerra e mostrava suas várias cicatrizes
indicando em que país e em qual batalha as havia adquirido, tinha na coxa e na
perna dois enormes aparelhos de soviéticos, cibernéticos nomes, hastes e aros
metálicos providos de dezenas de parafusos, pinos e porcas e sabe-se lá mais
o que a moderna ortopedia oferecia para tentar remendar fragmentados
corpos, colocar no lugar original os dilacerados ossos. Valéria dessa vez pediu
licença não remunerada para poder ficar com ele o tempo necessário, (é bom
ressaltar que ela não precisava mais de seu salário, uma vez que tinha rendas
suficientes para viver folgadamente) seu paciente apesar de estar
recuperando-se muito bem e estar mantendo um louvável bom humor, só
reclamava de não poder tomar vinho uma vez que lutava contra uma infecção
na perna que resistia aos mais poderosos antibióticos. Mais uma vez, fiel a
meu voto de tornar o mais conciso possível esta narrativa, vou saltar ao longo
do doloroso tratamento para ir logo em linhas retas e limpas às duras
conclusões. Já havia ficado claro às primeiras clínicas inspeções que Jeremias
tinha varizes, sem saber ou sem ter dado importância a isso, em ambas as
pernas. Depois de uns seis meses de fisioterapias, sucessivas cirurgias, era
evidente que a circulação periférica era insuficiente para possibilitar a cura da
perna que já começava a necrosar e a consequente amputação logo abaixo do
joelho foi realizada, a infecção, todavia, seguiu seu curso membro acima e
nova amputação foi feita um palmo abaixo do quadril. Um ano após estes
acontecimentos nosso amigo já manejava bem as muletas e lentamente,
voltava à sua antiga rotina, isso incluía o vinho e aqueles pequenos
restaurantes de que ele tanto gostava, só não frequentava mais os barzinhos,
Valéria o acompanhava muitas vezes e ele aceitava com agrado sua
companhia mas às vezes parecia evitá-la, uma insondável contrariedade
evidentemente dominava-o. Inquiria-a repetidas vezes porque uma mulher
bonita e valorosa como ela insistia em permanecer ligada a um tipo como ele e
a resposta era sempre a mesma, que esse tipo era o preferido dela e que a
falta de alguns prescindíveis pedaços do corpo não o tornavam menos atraente
e mais que tudo, que ela o amava. Tudo caminhava bem e Valéria por não ter
conseguido até então e a despeito de tudo, ter Jeremias para ela e por não
gostar da ociosidade, voltou a trabalhar. Ele me confessou que não conseguia
mais transar com ela com fundados receios de parecer-lhe repulsivo, natural
sentimento que procurei dissipar mas sem sucesso, pediu-me para levá-lo à
uma casa noturna onde pudesse ter sexo pago, único caminho que lhe parecia
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viável de agora em diante. Tentei dissuadir-lhe, falei-lhe de como Valéria
queixava-se a mim de não ter seu amor retribuído e que às vezes pensava que
ele usava desses ditos receios somente por não ver mais nela atrativo algum e
aceitava ainda sua companhia como uma retribuição aos cuidados que ela lhe
prestara, e isso incluía dinheiro que supriu suas muitas necessidades e até a
aquisição do novo carro adaptado para suas deficiências, valores que ele
insistia em ressarcir-lhe no devido tempo. Mas de nada adiantou, Jeremias
frequentou regularmente casas noturnas, voltou a trabalhar pois a universidade
não quis conceder-lhe a aposentadoria por invalidez, e a vida, que sempre,
depois de revoluções, cataclismos, holocaustos, volta a ser vivida como antes,
efetivamente voltou à normalidade. Recolhidas as dores, ferimentos fechados,
perdas assimiladas, o ser humano, num atávico esforço torna a sorrir e ouve-se
novamente música e até a poesia ressurge.
Jeremias muitas vezes, presa de súbitas solidões e inexplicáveis
cáusticas tristezas, procurava Valéria e passava com ela alguns dias, não
tinham sexo mas ele continuava a diverti-la com vinho, poesia e literatura, no
mesmo estilo expansivo de antigamente e isso, aos poucos, apesar de trazerlhe
alegrias e confortá-la, não supria sua justificável sede de reciprocidade
amorosa e por deposição de continuadas decepções foi calando nela os mais
densos arroubos afetivos fazendo-a conformar-se mais uma vez com o que
podia obter, ou, com o que ele resolvia agraciá-la. Seu amor permaneceu,
como presente que se dá e não se pede de volta, mas desistiu de qualquer
outra compensação ou esperança. Recebia constantes visitas dos filhos que
insistiam para que fosse morar com eles, e começava a pensar nessa
possibilidade. Enquanto isso o álcool ia fazendo visíveis estragos em meu
amigo e apesar das advertências não diminuía seu diário consumo, reclamou
novamente de dificuldades urinárias, mas não quis procurar médicos e só o fez
quando as cólicas renais começaram. Novos exames revelaram início de mau
funcionamento dos rins, medicamentos, consultas regulares, hospitalar rotina
estabeleceu-se paralela à de Jeremias que diante desse agourento quadro não
quis renunciar a seus poucos prazeres. Mas a disfunção erétil, esporádica
ainda, é doença que afeta os masculinos brios de diversas maneiras, meu
amigo reagiu bem a princípio mas quando este mal foi se estabelecendo
permanente e o problema renal aliado à bexiga semiparalisada o obrigou a
usar uma sonda vesical que recolhia a urina numa bolsa plástica perdeu suas
últimas reservas de positivo humor e foi substituindo suas antigas piadas e
ditos engraçados ou poéticos por urticantes, ácidas assertivas a respeito de
tudo que o cercava, reservava para mim e para Valéria contínuas reafirmações
de arrependimento e eterno afeto. Víamos que definhava, gostava da palavra,
dizia, mas adivinhávamos os vagos medos nos ermos recantos de seu
coração, emaciava-se, esvanecia-se a olhos vistos, foi quando mencionou pela
primeira vez o desejo de ir morar no litoral e passou a assimilar certas
mórbidas delicadezas, imaginários tenazes males, rarefeitas dores, amargos
martírios, hipocondríacas manias, tudo isso suportamos com espírito positivo
mas, sem que desconfiássemos, Jeremias urdia furtivamente sórdidos planos
de nos abandonar.
Deixou-nos de um dia para o outro. Quando cheguei em sua casa certo
final de tarde, (eu e Valéria tínhamos cópias da chave), vi que ele tinha ido
embora levando somente roupas e livros e por fim encontrei um bilhete
informando-nos em poucas palavras que havia vendido aquela casa e que logo
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daria notícias. Estas demoraram quase um ano para chegar, Valéria esperou
por três ou quatro meses e foi morar com os filhos em Santa Catarina me
pedindo que a informasse imediatamente sobre qualquer novidade. Recebi
pelo correio somente um endereço com um mapa tortuosamente traçado à mão
e uma tremida assinatura de Jeremias. Fui procurar o local indicado no mesmo
dia, como já referi anteriormente tratava-se de pequena cidade litorânea e não
foi difícil localizá-lo, era um recanto idílico de onde se avistava o mar. Numa
ruazinha de areias brancas achei a casinha de madeira velha, sem pintura, em
volta tudo era restinga brava, mato e mangue, saí do carro e aproximei-me da
porta aberta e parei na soleira, quando meus olhos habituaram-se à penumbra
interior pude divisar uma grande peça que era sala e cozinha ao mesmo tempo,
uma porta lateral que obviamente era o quarto e outra, aos fundos com o
paredão verde da mata nativa a poucos metros, dei dois passos para frente e
sem querer chutei algo que saiu rolando produzindo um ruído de chocalho de
criança e já em seguida uma figura de homem apareceu na porta dos fundos,
contra a luz externa não pude reconhecer Jeremias de imediato e assim
balbuciei um cumprimento e uma voz gutural respondeu-me dizendo que me
aproximasse, cheguei bem perto e pude ver distintamente o rosto de meu
amigo e procurando controlar minhas desencontradas emoções diante do
quadro que se me apresentou abracei-o, seus braços porém somente
movimentaram-se de maneira tola e desordenada e voltaram a segurar as
muletas. Com um gesto fez com que o seguisse para fora e indicou-me uma
cadeira naquilo que era uma ampla varanda coberta de Eternit e chão de areia,
repleta de parafernálias de pesca. Jeremias acendeu um palheiro que estava
apagado sobre o banco de madeira no qual sentara-se e então olhou-me
demoradamente. O estrago dos últimos anos era evidente e assustador, a boca
murcha acusava a ausência de dentes, a pele crestada evidenciava longas
exposições ao sol e à chuva, a orelha faltante, o pedaço de cicatriz que os
cabelos embranquecidos e ralos não conseguiam esconder formavam um
conjunto realmente desolador. Entre uma baforada e outra Jeremias começou
a falar. Disse-me de como sentiu-se miserável ao nos abandonar em Curitiba
sem avisar para onde ia e que a motivação para isso foi a tristeza, o desespero
e a culpa. Quis interrompê-lo, mas ele fez-me um sinal para que o deixasse
continuar. Nunca havia retribuído, de nenhuma maneira, a todo amor que
Valéria sempre lhe dedicou, não lembrava de nenhum momento em que
tivesse sido justo com ela. Nunca havia tido um amigo tão fiel e querido como
eu, de cuja amizade não estivera à altura, não fôra digno de afetos tão
profundos. Seu rosto exprimia uma melancolia contida de internas
profundidades, não pude evitar uma humana e sofrida lágrima. Nos primeiros
meses dedicara-se à pesca e à leitura, mas aos poucos ambos foram perdendo
o atrativo e durante muito tempo só o que fez foi andar pela praia à cata de
conchas, pedaços de madeira e tudo que julgasse interessante ou que tivesse
alguma beleza, mas até mesmo isso perdeu o encanto e então isolou-se
naquela cabana e renunciou definitivamente à vida. Tinha problemas de
estomago e quase não se alimentava, descuidou-se totalmente da higiene
pessoal e lhe voltaram os piolhos agora acompanhados de carrapatos, a casa
povoou-se de pulgas e ratos, quando raramente ia até a vila, as pessoas o
evitavam. Trocava a sonda vesical regularmente em um posto de saúde de
Antonina mas tinha frequentes infecções urinárias. Começou a ter
sangramentos nas gengivas, fez bochechos com vinagre, mas a gengiva foi-se
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tornando inchada e mole até que o primeiro dente caiu, não se assustou,
pegou-o entre os dedos, observou-o por alguns segundos e jogou-o na areia e
ao dizer isso apontou para o chão à sua frente e completou: "meus dentes
estão todos enterrados aqui". "Mas uma coisa boa aconteceu, um dia, olhando
para meus livros vi um exemplar de Dickens, acho que era Bleak house,
comecei a reler e fui tomado gradualmente por uma ventura desconhecida, ri e
chorei e não parei mais de ler, só ele, mais ninguém. E este é agora meu único
interesse". Fez uma careta de dor, pegou as muletas, pediu-me licença e foi até
o banheiro, ao voltar percebi além do odor desagradável que a bolsa plástica
que ele usava pendurada ao lado da bermuda de jeans velha e rasgada estava
vazia." Voltei a pensar em vocês mais intensamente", continuou ele, "resolvi
limpar a casa e voltei a tomar banho com alguma frequência e decidi te
escrever". Voce deve estar com fome disse, e me fez entrar, sentei-me numa
poltrona de vime e perguntei-lhe se não gostaria de rever Valéria, ele teve um
sobressalto e logo em seguida paralisou-se, voltou-se lentamente para mim e
me pediu que nunca dissesse a ela onde estava, pediu-me notícias e que a
comunicasse que estava bem, mas em hipótese alguma poderia revê-la e, com
os olhos marejados apontou para si mesmo. "Olha pra mim, como posso
suportar que ela me veja assim?" Foi até a geladeira e pegou um pacote
plástico onde havia algo enrolado em jornal.” É peixe fresco”, disse ele olhando
para mim com um sorriso. Enquanto ele preparava nossa refeição com gestos
lentos e inseguros olhei à minha volta e vi a estante de madeira grosseira cheia
dos mesmos conhecidos livros cobertos por uma grossa camada de poeira,
sobre uma mesinha baixa num canto da sala havia vários volumes de Dickens,
pelas paredes todas estavam penduradas em desordem os mais variados tipos
de conchas, bolachas do mar, velhas estrelas ressequidas, muitas mutiladas
com seus braços, tentáculos, ou seja o que for caídos no chão. Depois de
comermos, falei-lhe um pouco de minha vida, de como eu e Valéria suportamos
o seu sumiço e de como ela ficaria feliz em vê-lo apesar de tudo. Seus olhos
baços abriram-se desmesuradamente, inexpressivos." Não, eu não posso, não
fale mais nisso, por favor". Aos poucos ele foi emudecendo e respondia com
monossílabos à tudo que eu dizia e um silencio pesado para mim, mas que
parecia não incomodá-lo foi se instalando entre nós, ele pegou um livro,
Nicholas Nickelby, e ficou olhando para ele longamente." Em Dickens há
pureza, graça e beleza ... Valéria é pura, graciosa e bela". Silenciou novamente
e seus olhos se perderam no vazio imenso daquela sala. Me despedi e ele
acompanhou-me até o carro." Volte sempre que quiser ... se quiser, mas por
favor ... você sabe". Compreendi-o e resolvi acatar seu pedido.
Voltei a visitá-lo mais algumas vezes, encontrando-o cada vez mais
apático. Fazia à Valéria uma descrição detalhada de nossos encontros, ela
chorava e insistia em que lhe desse o endereço, tentei fazê-la ver que sua
visita não faria bem a ele, mas ela por sua vez tentava convencer-me do
contrário e foi tão persuasiva que acabei cedendo, que mal tão grande poderia
acontecer? Talvez ela conseguisse salvá-lo. Entreguei-lhe todos meus livros de
Dickens e ela foi a seu encontro, parou em frente a casinha cada vez mais
desmantelada e saiu do carro. Jeremias, da sala, ao reconhecê-la foi tomado
de pânico, um frio percorreu seu peito, pegou as muletas a seu lado e levantouse
com esforço, viu-a aproximando-se da casa e dirigiu-se à varanda nos
fundos, fechando lentamente a porta atrás de si, teve uma vertigem rápida e
sentiu um terror crescente tomar-lhe todo o corpo e então num ato impensado,
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instintivo, saiu o mais rápido que pôde em direção ao mato e não parou em sua
corrida desajeitada até chegar ao mangue, sem fôlego e completamente
alheado, caiu algumas vezes, levantou-se e continuou até afundar-se na lama
sem conseguir mais sair do lugar. Permaneceu ali, em estado de estupor por
longos minutos, movimentou-se dificultosamente e conseguiu encostar-se à
uma árvore, não sentia nem pensava em nada, só respirava com dificuldade e
gemia.
Valéria entrou na casa e foi com passos tímidos avançando por ela, não
encontrando ninguém foi à varanda, observou as varas de pesca, os catueiros,
tarrafas e samburás, voltou para dentro e sentou-se por alguns minutos, depois
foi até o carro pegar os livros e outras coisas que trouxera para ele. Resolveu
esperar, imaginou-o pescando ou até mesmo bebendo em um bar perdido
naqueles ermos, mas as horas passaram e ele não chegava, anoiteceu e ela
acendeu todas as luzes resolvida a esperar ali, mas subitamente um medo de
ficar sozinha naquela casa a noite toda fez com que ela voltasse à vila e se
instalasse no único hotel do lugar. Pela manhã voltou à casa de Jeremias e a
mesma coisa aconteceu, esperou por horas e ninguém apareceu, o que teria
acontecido? O que fazer? Pelo final da tarde andou de carro pela região e
perguntou sobre ele para alguns moradores locais, todos o conheciam, alguns
disseram que ele costumava sair para pescar e às vezes posava fora. Desistiu,
voltou para Curitiba disposta a retornar em alguns dias junto comigo. Tinha
pensado em deixar um bilhete, mas na última hora resolveu não fazê-lo. Voltou,
triste e contrariada.
Jeremias ficou encostado naquela árvore por mais alguns minutos e
então sofreu o que na linguagem popular é chamado de derrame, e que para
as oficiais ciências é um acidente vascular cerebral sistêmico. Morreu ali,
naquele mangue, afundado na lama até a cintura e agarrado às suas muletas.
Um catador de caranguejos encontrou o corpo dias depois. Notificadas as
competentes autoridades a notícia chegou até nós, viemos em abaladas
pressas e, pela última vez, pelo bem de uma limpa apresentação da história,
me eximo de relatar os pormenores técnicos e falar de nossa desolação para
simplesmente dizer que resolvemos de comum acordo enterrá-lo no cemitério
de Guaraqueçaba.
19
O MURO E O RETRATO
20
Decrepitude acelerada. Eu olhava meu rosto no espelho e fazia caretas
sentindo o gosto adocicado do sangue que saía de minhas gengivas
cronicamente inflamadas. Síndrome de Matusalém, J.F.Sebastian e eu
sofremos desse mal. Eu olhava no espelho e tinha dúvidas. Pensava em
reencarnação, dinheiro, sexo e tinha náuseas. Marisa tinha ido embora há uma
semana e durante todos esses dias eu não consegui sentir nada a não ser uma
tristeza pesada e amorfa, cheguei a chorar em silencio, mas depois fiquei
simplesmente mergulhado num vazio espesso. Bebia e fumava o dia inteiro e
ficava vendo televisão sentindo uma dor esparsa no peito. Ela foi embora sem
dizer para onde ia, talvez para a casa de uns parentes em Foz ou Paranavaí
onde tinha uma amiga. Esse não saber do destino dela tornava tudo mais cruel.
Ela tinha passado três dias comigo, eu a amava com toda minha alma de
solitário, de lobo da estepe, mas ela não queria nada comigo, estava passando
uma fase difícil e só por isso aceitou ir lá para casa. Na noite do terceiro dia
arrumou suas coisas e disse que ia embora, tentei desesperadamente
convencê-la a ficar, mas não adiantou, ela era decidida, de personalidade forte
e eu era um panaca metido a filósofo, poeta ou sei lá que merda, acompanheia
acabrunhado até a avenida e ela simplesmente pegou um ônibus para o
centro. Vi-a pagar a passagem e acenar para mim com aquela mãozinha
pequena e delicada. “Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas.”
Só voltaria a vê-la dez anos depois. Voltei para casa aturdido, fiquei bebendo
vinho até de madrugada e no dia seguinte fui ainda pela manhã até a casa de
meu amigo Daniel. Não que eu quisesse muito ver pessoas ou falar com
alguém, mas não aguentava ficar ali sozinho onde eu tinha estado com ela há
poucas horas atrás.
- E daí cara, beleza? – Daniel me cumprimentou da maneira habitual.
- Nada, ela foi embora ontem.
- Foi embora? Mas que menina maluca, e pra onde?
- Sei lá, pra Foz ou Paranavaí, ela não queria que eu soubesse.
- Bom, logo a gente recebe uma notícia dela, nem esquente, ela é
esperta. – Daniel sorriu, ele sabia o quanto eu gostava dela.
- Tá a fim de fumar um? – Perguntou ele.
- Vamo nessa.
21
Fomos até ali onde hoje é Conjunto Rondon, naquele tempo havia uma
mistura de terrenos baldios, construções de conjuntos da Cohab e um grande
campo coberto por um mato rasteiro que por aqueles dias, acho que era
primavera, estava cheio de umas florezinhas amarelas. Sentamos sobre um
monte de caliça num dos cantos mais afastados e Daniel apertou um fino.
Fumamos em silencio. Ele estava sendo solidário comigo por isso não falava
nada, entendia minha dor e ficava quieto, o que era difícil para ele, Daniel era
um grande falador. Nunca vou esquecer aquela manhã, o céu estava azul, um
vento fresco batia em meu rosto e balançava as florezinhas amarelas, era
bonito, e a tristeza braba que eu estava sentindo parecia flutuar sobre aquela
beleza.
Três meses depois eu tinha arrumado um emprego numa lojinha de
produtos naturais e ainda não passava um dia sem pensar em Marisa. Eu
ficava lá empacotando aveia, gérmen de trigo, etc., mordendo os lábios e
pensando na porcaria de poema que tinha escrito na noite passada, de tempo
em tempo ia até a sacada que dava para a Saldanha Marinho e cuspia uma
saliva grossa e sanguinolenta, minhas gengivas não melhoravam nunca, nem
meu salário. Era uma sexta-feira, saí do trabalho as cinco e fui até o bar do
Rodriguez, um pouco depois do cinema Um, nos bons tempos em que Curitiba
ainda tinha cinemas fora dos shoppings. Este bar e restaurante não tinha nada
de especial, era um lugar escuro mesmo na mais fulgurante das tardes,
pertencia a dois espanhóis que utilizaram como decoração para seu belo
estabelecimento somente alguns cartazes anunciando touradas onde um
formoso profissional do ramo aparecia espetando setas num touro enorme.
Embaixo dessa bela figura havia os seguintes dizeres em espanhol: Esta tarde
seis magníficos touros serão abatidos, era isso ou algo parecido, eu gostava de
ficar ali bebendo e lendo para depois sair andando a esmo pelo centro. Eu
tinha lido “O sol também se levanta” e havia acabado naquele dia “Paris é uma
festa” e estava encharcado de Hemingway, com o saco cheio dele. Fui até a
Biblioteca Pública e vaguei entre as estantes sem saber o que levar. Fui até os
russos e um livro me chamou a atenção pela sua capa, mostrava uma isba com
o telhado coberto de neve, um rio congelado e montanhas sombrias ao fundo.
Já ia saindo da sala quando dei de cara com o “Misto quente” de Bukowski e
resolvi pegar para o caso daquele russo não me entusiasmar muito.
Voltei para casa e abri uma garrafa de rum, tomei um gole longo e
entorpecente e fiquei pensando em Marisa e na primeira vez que a vi. Eu tinha
conhecido Daniel há pouco tempo na casa de um camarada onde eu fui pegar
um bagulho e ele estava lá com o mesmo propósito. Saímos dali conversando
e uma amizade que já deveria estar consolidada há séculos restabeleceu-se
instantaneamente naquele momento. Morávamos na Vila Nossa Senhora da
Luz, na Cidade Industrial, Zona sul de Curitiba, zona horrível, rotina execrável,
um lugar detestável para onde tínhamos sido empurrados com certeza por
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poderosíssimos impositivos cármicos. Ele estava desempregado e eu também,
não devido exatamente a falta de oferta de trabalho no mercado, mas enfim,
fazíamos nossos bicos e íamos vivendo. Melhor do que ganhar um salário
mínimo suando oito horas por dia numa daquelas fábricas monstruosas que
rodeavam a vila. Trabalhar durante o dia, estudar a noite, tínhamos muitos
virtuosos exemplos dessa natureza, fazer faculdade, entrar para a política e
ganhar dinheiro, aderir ao greenpeace, nos tornar budistas, estes eram temas
frequentes em nossas conversas, mas acho que éramos vagabundos,
simplesmente isso, era nossa natureza. Passávamos a maior parte do tempo
na casa dele tocando violão, escrevendo letras de música, bebendo e
planejando comprar um carro e ir para o México. Marisa era prima de Daniel,
tinha dezoito anos e um sorriso lindo, dentes branquíssimos, perfeitos na forma
e na disposição. No seu rosto de linhas fortes e nos olhos escuros percebia-se
uma sutil mas constante expressão de ironia e também algo que se poderia
chamar de desdém pela grande maioria do gênero humano.
Não sei como ela conseguira instalar-se na casa de Daniel onde viviam
também a mãe dele D. Maria, uma mulher que eu admirava, gorda, com
grandes olhos azuis aos quais uma vida inteira de privações havia dado um
brilho que transmitia força e bondade. Tereza, a irmã mais velha, uma mulher
sensual sem ser bonita que tinha um olhar astuto e malicioso e três filhos de
pais diferentes. Neusa, a irmã mais nova, uma figurinha apática e inexpressiva
que conseguira enriquecer o ambiente doméstico com dois filhos igualmente
apáticos e inexpressivos. Estes recebiam com indiferença as visitas irregulares
do pai que morava numa vila próxima e contribuía para o sustento das crianças
com uma quantia generosa de caretas, sorrisos e balas. Por último havia um
irmão caçula, um rapaz magro e soturno que mais tarde tornaria-se pastor de
uma igreja evangélica ficando relativamente rico e aliviaria então o fardo da
família indo embora para São Paulo sem nunca mais dar notícias. O pai de
Daniel havia morrido quando ele era pequeno.
Eles moravam num sobrado a umas seis quadras da casa que eu tinha
alugado justamente para ficar mais perto de Marisa e Daniel. Sentávamos no
gramadinho semidestruído pela ação das crianças e de um cachorro irrequieto
do qual todos viviam catando pulgas. Conversávamos ouvindo rádio e tomando
caipirinha feita com cachaça barata e limões fornecidos por um limoeiro
raquítico e triste que havia nos fundos da casa. Marisa juntava-se a nós com
frequência e me apaixonei por ela logo de cara, mas escondi meus sentimentos
por mais de um ano, saíamos às vezes, só eu e ela, quando eu tinha algum
dinheiro e ela me contava da vida miserável que levou com os pais alcoolistas
que viviam brigando e dois irmãos que tinham uma habilidade incrível para
serem presos com regularidade por posse de maconha e cocaína. Na casa de
D. Maria ela cuidava das crianças enquanto as primas iam trabalhar e todos
gostavam dela, com exceção de Tereza que vivia arrumando pretextos para
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implicar com ela, numa reação que eu definia como sendo de pura inveja pela
sua beleza e pelo interesse que ela despertava nos homens da vila de um
modo geral.
Depois de quase um ano e meio de silencio, com uma timidez estúpida e
descabida num cara de vinte e três anos, confessei meu amor e ela manifestou
uma surpresa tão grande que me desconcertou completamente. Sorriu entre
satisfeita e constrangida e pegou em minhas mãos.
- É muito bom ouvir isso, que mulher não gosta de saber que é amada?
Mas é que você tem sido tão bom comigo esse tempo todo que eu te vejo
como um grande amigo e... – parou indecisa, escolhendo as palavras e eu
aproveitei a pausa para falar.
- Mas é o que eu quero ser sempre, em primeiro lugar, um grande
amigo, mas isso... - ela não me deixou terminar.
- Mas isso para mim não existe, ou você é meu amigo ou é meu
namorado, sei lá... eu não consigo me imaginar transando com você, desculpe,
eu não quero dizer que você...
- Eu entendo – apartei – mas eu não tô falando só de transar e namorar,
tô falando de morar juntos, casar ... o que você quiser.
Ela ficou em silencio me olhando nos olhos, largou minhas mãos, disse
que eu era um cara muito legal, mas que não ia dar certo e começou a fazer
uma longa lista dos mais horríveis defeitos que uma pessoa viva pudesse ter e,
atribuindo-os a si própria disse ser indigna de um cara tão bom como eu. Onde
ela viu tanta bondade em mim eu não sei e muito menos de onde tirou aquele
incrível rol de impeferções que supostamente possuiria.
Para mim ela era a própria “flor do pântano”, crescendo bela e pura em
meio ao lodo que era a vila. Bem, com certeza ela era bonita e sabia como dar
o fora num cara com muita classe, quanto a pureza ninguém estava nem aí
para isso, muito menos eu, ela tinha seus namorados, bebia e fumava
maconha mas nós isso era natural. Durante os três anos que se seguiram à
minha confissão tive que suportar vê-la namorar outros caras, sair com suas
amigas no sábado à noite e voltar só pela manhã de domingo para curtir uma
ressaca braba. D. Maria, com seu jeito dócil, a admoestava pela sua conduta
mas Tereza começou a fomentar uma verdadeira rebelião dizendo que ela não
era a pessoa adequada para cuidar das crianças e um dia trouxe o suposto pai
de seus filhos para dentro da casa superlotada afirmando que a partir daí ela
mesma tomaria conta dos pequenos. Esse novo morador da casa que Daniel
teve que aceitar que aceitar a contragosto chamava-se Antônio e dizia ser
representante comercial de uma firma ali da CIC, fazia-se passar por bom pai e
genro atencioso. Ficava fora todos os dias levando uma maleta estilo executivo
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e nunca estava sem algum dinheiro. D. Maria nem suspeitava da verdadeira
natureza das atividades de seu “genro”, mas Daniel, Marisa e eu sabíamos
muito bem com que produtos ele trabalhava, mas não cheirávamos e não
queríamos saber de nenhum contato com aquela figura repulsiva com seu
bigode e cabelos lustrosos. Tereza e Neusa obviamente fingiam ignorar tudo
desde que alguma grana pingasse regularmente.
A situação começou a ficar insustentável para Marisa que passou a
procurar um emprego e recusava-se obstinadamente a aceitar minha proposta
de ir morar comigo, apesar de todas minhas reiteradas garantias de que
simplesmente dividíriamos o aluguel vivendo como bons amigos. Mas um
incidente forçou-a a decidir-se. Era um sábado a tarde, eu e Daniel estávamos
na frente da casa ouvindo música como sempre quando começou a chover.
Tivemos que entrar. Neusa lavava a louça do almoço e o resto do pessoal
estava na sala, as crianças pareciam estar em todos os lugares ao mesmo
tempo e produziam juntamente com a televisão, uma zoeira que D. Maria com
seus dois grandes e resignados olhos azuis parecia nem perceber. Tereza e
Antônio conversavam baixinho interrompendo-se às vezes para gritar com a
criançada. Eu e Daniel íamos subir para seu quarto no sótão quando a porta da
sala se abriu com estrépito dando entrada a Marisa e uma amiga,
completamente encharcadas e rindo animadamente, fecharam a porta e
encostaram-se à parede tentando conter o riso e recuperar o fôlego. Tereza
olhou para elas e vi que seus lábios contraíram-se com raiva, levantou-se,
acendeu um cigarro e disse:
- Essa aí pensa que ainda tá morando naquela zona que é a casa dela –
vi que os olhos avermelhados de Marisa fixaram-se na prima com frieza. O riso
puro e despreocupado de há pouco deu lugar a um sorriso sarcástico.
- Desculpe se eu tô incomodando Tereza, mas fique tranquila que não
vai ser por muito tempo – disse Marisa passando a mão pelo cabelo molhado.
A camiseta colava-se a seu corpo deixando visíveis as linhas do sutiã e
ressaltando os seios firmes para os quais Antônio olhava descaradamente.
Daniel sentou-se no primeiro degrau da escada que levava a seu quarto
com uma expressão de enfado e eu fiquei em pé apoiado ao corrimão sem
saber exatamente o que fazer.
- Não ligue Marisa – disse D. Maria – ela só tá um pouco nervosa, vão
se enxugar logo vocês duas.
- Não é assim mãe – retrucou Tereza dando vazão a todo seu despeito –
essa piranhazinha tem que se tocar que não pode ficar por aí puteando e fazer
o que bem quer na nossa casa.
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D. Maria abanou a cabeça desconsoladamente querendo dizer alguma
coisa mas calou-se. Daniel levantou e abaixou a cabeça, olhou para os lados e
eu pude adivinhar em seus olhos o desejo de estar muito longe dali. Antonio
sorria disfarçadamente.
Marisa pôs as mãos no ombro da amiga e foram até a porta do banheiro.
- Olha aqui Tereza – Marisa falou esperando que sua prima se voltasse
e olhasse para ela – em primeiro lugar todo mundo aqui na vila sabe quem é a
piranha, e depois eu não devo satisfação pra você mas só pra tia Maria.
- Você tá me chamando de piranha sua filha da puta? Você quer que eu
te ponha pra fora agora é? – Os olhos de Tereza chispavam enquanto ela
falava e sua voz tornava-se estridente. As crianças rodearam D. Maria,
assustadas.
- Quem é você pra me por pra fora? Traz esse vagabundo para morar
aqui e agora acha que tá com a moral toda só porque ele entra com uns
trocados que todo mundo sabe muito bem como é que ele ganha – Marisa
estava totalmente alterada, eu nunca a tinha visto daquele jeito, era se toda
sua tristeza, insatisfação e revolta eclodissem naquele momento de maneira
incontida.
- O que que você tá dizendo sua ... – disse Tereza enquanto apagava o
cigarro completamente alucinada de raiva.
- Você tá me chamando de vagabundo? – Diz Antônio ao mesmo tempo
– eu não sou homem de engolir sapo quieto não – gritou ele lançando
pequenas gotas de saliva sobre o sofá enquanto se levantava.
Daniel levantou-se e foi para fora saindo pela cozinha eu fiquei onde
estava, pronto a me interpor entre quem quisesse partir para a agressão que
parecia iminente.
- Fale mais uma besteira que eu te arregaço sua filha de uma puta! –
Disse Antônio avançando para Marisa que riu alto desafiando-o e ele foi para
cima dela, mas Daniel reapareceu com uma ripa de madeira na mão e
interceptou-o. Houve alguns momentos de silencio em que se pôde ouvir o
choramingar das crianças e os gemidos abafados de D. Maria e então a ripa
zuniu no ar e acertou a testa de Antônio. Este caiu para trás derrubando a
mesinha de centro com o cinzeiro cheio de pontas de cigarro que se
espalharam pelo chão.
A chuva tinha terminado e o sol brilhava novamente. Antônio estava
caído no meio da sala com um grande corte na testa de onde o sangue brotava
profusamente. Tereza ajoelhada ao lado dele vociferava e xingava todo mundo
sem saber o que fazer. Naquela mesma noite Marisa mudava-se para minha
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casa e três dias depois ia embora. Rememorei aquela história toda pela
centésima vez e dormi depois de tomar umas boas doses de rum. No dia
seguinte comecei a ler o Misto Quente, como se eu já não tivesse motivos
suficientes para estar infeliz, Bukowski presenteou-me com mais uma generosa
porção deles e por todo o sábado e domingo fiquei curtindo um ódio profundo e
indistinto, por patrões, pais, professores, alemães, americanos e filipinos.
Na segunda-feira indo trabalhar, entrei no ônibus e comecei a ler “O Don
silencioso” de um tal Sholokhov, que, descobri só então, tinha ganho o prêmio
Nobel e conseguiu me interessar, me tirou da boca o gosto azedo do Bukowski
e levou-me novamente para a estepe, para os mujiques, para a neve e me fez
sentir de novo o cheiro desconhecido dos choupos e abetos. Meu astral
melhorou sob a influência desse livro triste mas naquele mesmo dia um
acontecimento inusitado pôs fim àquela fase de minha vida e me obrigou a
abandonar o emprego, a vila e com ela meu amigo Daniel, D. Maria e as
crianças às quais havia me apegado tanto.
Ao chegar em casa à noite, parei em frente a porta e ouvi passos na sala
e percebi que a luz estava acesa na cozinha, dei a volta pelos fundos e
encontrei a porta arrombada. Entrei, peguei uma faca como se fosse o
protagonista de um filme de ação, eu não sabia o que ia fazer mas não me
importava, senti medo quando acendi a luz da sala dando de cara com uma
figura estranha que remexia a estante me fitou com o olhar esgazeado. Não
lembrava de ter visto aquele cara na vila antes, ele havia revirado tudo, livros,
papeis e roupas estavam espalhados pelo chão.
- E daí meu amigo? – Perguntei escondendo a faca ao ver que ele
estava aparentemente desarmado – o que que tá havendo?
No meio da desordem pude ver no chão uma fotografia de Marisa que
ela havia me dado, nessa foto ela tinha quinze anos, usava um vestidinho
simples e estava sentada num sofá desmantelado na casa dos pais dela.
- Não, não tá havendo nada, é que... – ele abaixou-se e começou a
ajuntar alguns livros – eu tava passando e me disseram que... – com uma
rapidez que me surpreendeu ele voou em minha direção e me derrubou,
desequilibrei-me batendo com as costas e a cabeça na parede atrás de mim
deixando cair a faca e já em seguida levei dois socos no rosto, consegui evitar
o terceiro e ele acertou a parede soltando um grito e recolhendo o braço junto
ao peito. Aproveitei a chance e acertei-o com força no nariz que imediatamente
começou a sangrar enquanto ele caía sentado no chão. Chutei-o no rosto e ele
caiu deitado, gemendo, respirei fundo e me recompus e então vi a foto de
Marisa manchada pelo sangue nojento daquele cara. Aquilo me encheu de
raiva e de uma repulsa enorme e viscosa por toda aquela vida de merda que
eu vinha levando. Lembrei do Bukowski e uma onda de um estranho e intenso
prazer me invadiu diante do quadro daquela sala em desordem e da figura
27
patética que gemia no chão. Ele ergueu a cabeça e fez menção de levantar-se.
Sorrindo me aproximei dele e comecei a chutá-lo por todo o corpo, a raiva que
eu despejava em cada chute e o som produzido por eles me embriagou, ri
satisfeito enquanto o cara se enrodilhava e se encolhia todo querendo escapar.
Ajuntei a fotografia de Marisa, limpei-a na calça e fiquei olhando para ela.
“Sabe Deus o que você está fazendo agora”, pensei, “espero que esteja tudo
bem com você minha querida, minha safada, outros caras estão apertando teus
seios e tua bunda linda que eu não tive coragem de tocar, e estão passando a
língua nos teus dentes de Berenice que deveriam ser meus”. Eu estava
delirante de ódio, tristeza e vazio. Minha mente funcionava numa velocidade
incrível. “Então, onde estarias, junto a que gente, dizendo que palavras?” Os
versos de Neruda atravessaram a corrente confusa de meus pensamentos.
Peguei a faca novamente, era uma faca grande dessas de cortar carne, olhei
para aquele verme retorcido no chão da sala e pensei: “Vou cortar fora a orelha
desse filho da puta! ” Ajoelhei-me ao lado dele e puxei sua orelha com força e
ele gemeu alto, num movimento rápido com a faca cortei-a deixando somente
um pedaço disforme do qual o sangue brotou e escorreu para o chão. Ele
soltou um grito lancinante levando a mão ao local do ferimento.
Depois de lavar minhas mãos e reunir meus poucos pertences saí dali,
acendi um cigarro e fui andando até o ponto de ônibus. Dois meses depois eu
estava no Rio de Janeiro na casa de um conhecido e recebia cartas de Daniel
dizendo que após todos aqueles infaustos acontecimentos a vida na vila
continuava a mesma. Ele estava trabalhando numa daquelas fábricas que tanto
odiávamos e Antônio tinha saído fora com uma enorme cicatriz na testa. Marisa
escrevera de Paranavaí dizendo que se casara e estava esperando um filho.
Combinei com Daniel que trabalharíamos pelo tempo necessário para
podermos comprar um carro e cair na estrada. Sabíamos que era só um sonho
estúpido e juvenil, havia à nossa volta, ou dentro de nós, um muro muito alto
que nenhuma estrada chegaria a transpor, que nenhum dinheiro ou poder
humano conseguiria derrubar.
28
OS ROSTINHOS BONITOS DE KALI YUGA
29
I
Como falar dessas coisas invisíveis, imensuráveis, que só se pode
imaginar, das quais só se tem uma vaga e longínqua percepção? Ideias podem
ser expressas, esmerilhadas em coesas e medidas palavras, os sentimentos,
contudo, não se entregam ao esmeril nem ao buril, são entes elementais,
placentários, virginais, que escapam às parcas possibilidades de descrição dos
humanos comuns, os poetas o conseguem, não sei como, não existe receita e
não sou poeta, só sei viver, precariamente, de maneira errada. Como saber o
que é verdade, se existe alma ou não? O que dizer dos disformes horrores,
negrumes, que habitam o homem como a seiva habita as plantas? Eu não
saberia dizê-lo, e se esta história está sendo contada é porque aconteceu, sou
o protagonista, mas não sou o autor, sou de pouca instrução e carente de
muitos milhões de neurônios, destruídos nas libações da juventude dissipada,
talvez eu seja médium, mero instrumento passível de duvidosos usos.
Em todas as culturas e religiões de todos os tempos ouviu-se falar
daquilo que o catolicismo chama de inferno, que os doutos ocupem-se das
homônimas designações. De minha parte li, em opúsculo ao acaso encontrado,
que estamos vivendo já há milhares de anos numa época que na Índia é
chamada de Kali Yuga. Nefasta era na qual as qualidades do homem decaem,
todos os humanos predicados corroem-se, onde gradativamente não haverá
mais harmonia nem beleza, tudo dando lugar a iras e luxúrias, cobiças e
avarezas, um não acabar de torpezas e maldades. Pois então é nessa era que
nos encontramos, é nesse “inferno” que eu me acho e reconheço, sou eu,
entranhado sozinho nesses elementos. Meus semelhantes, quero dizer, esses
outros seres humanos que os biólogos dizem pertencer à mesma espécie que
eu, meus próximos, a quem, já ouvi falar, eu deveria amar, estão exatamente
como descritos no tal livrinho, muito desprovidos dessas características que
compõem o que se chama de pessoa, ser humano. Claro que conheci
exceções, algumas, Gandhi, que fez grandes coisas e viveu vida longa, séria e
boa. Mandela, negro africano que tornou-se herói passando grande parte da
vida na cadeia sem ter feito nada de errado, uma médica de nome Zilda que
aqui no Brasil mesmo salvou da morte tantas crianças famintas, doentes. Têm
outras, mas não lembro seus nomes nem edificantes histórias, como já disse
antes, sou iletrado, não fui agraciado com o dom das palavras, só o que guardo
mesmo e releio é aquele livro da Índia, e como também já mencionei, se a
história escreve-se utilizando-se em certos momentos até mesmo de refinado
vocabulário e é minha mão que o faz é porque algum fantasma me inspira ou
ameaça.
Tive infância passável, destituída de grandes sofrimentos, mas também
não alimentada por doçuras, cresci meio sonso, indiferente a quase tudo que
acontecia à minha volta mas logo fui chegando numa idade em que
inquietações diversas me dominaram, medos pavorosos me diminuíam
fazendo-me assustado e medroso, desejos e curiosidades sobre coisas que
tinham me dito ser pecado me atormentavam trazendo precoces culpas e
arraigando avessos sentimentos sobre os quais psiquiatras debruçariam-se
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mais tarde, preocupados com sinceridade alguns, outros movidos somente pelo
dinheiro, visto que, em adulto, por uma longa fase de minha vida tive
abastadas contas em banco. Cresci na zona sul de Curitiba, cercado de bares
e movimentadíssimas vielas dominadas pelo narcotráfico onde muita gente
morria, asfaltadas vias expressas com muitos velozes carros e caminhões onde
muita gente morria, grandes arredores de mato nativo e quilométrica represa,
lugares escuros e escusos onde também muita gente morria e dezenas de
cadáveres eram "desovados". Acho que já é o suficiente, milhares cresceram
comigo em idênticas condições em Curitiba e no mundo. Nunca estudei muito,
mas não era burro, depressa aprendi a me comunicar com todo tipo de
pessoas, com as diferentes classes de simples moradores, comerciantes de
diversas naturezas, gente honesta ou não a quem com frequência prestei
serviços honestos ou não, favores múltiplos, pagos alguns, de coração
concedido, outros. Mas aquele ambiente me aborreceu, havia algo em minha
natureza que não se coadunava com aquela espécie de vida e procurei
honesto trabalho nas grandes empresas devoradoras de gente que havia às
dúzias à nossa volta. Era emprego em indústria da informática, suportei
bravamente dois longos anos de rígidos horários e magros rendimentos até
que, para minha surpresa, fui elevado à melhor função, mais leve e melhor
remunerada, mais alguns anos, poucos, fui novamente promovido, ganhei
confianças e ainda melhores rendas. Estava então com vinte e cinco anos e
tinha tido algumas namoradas, nenhuma envolvente, sedutora ou provida de
outros quaisquer especiais encantos que me fizessem sentir amor, paixão ou
coisa parecida, só uns pequenos amolecimentos do coração que eu logo
repelia e com facilidade eliminava.
Não me afastei de todo da parcela execrável de minha vizinhança uma
vez que frequentava um ou outro barzinho com a mera intenção de tomar umas
cervejas e um ou outro gole de destilado de minha predileção. Foi assim que
um dia acercou-se de minha mesa um antigo conhecido com quem tinha
fumado uns baseados, hábito já abandonado. Este tipo era um cara alto,
magérrimo, densa barba ruiva, dentes pequenos amarelados, de nome Vicente,
cuja casa eu havia frequentado, cuja família eu conhecia. Vivia ele com a mãe,
D. Estela, boa pessoa, com o irmão Vítor e a irmã mais nova Roseli, que eu
conhecera com treze anos. Vicente contou-me que Roseli tendo ficado noiva e
engravidada por respeitável rapaz trabalhador, acabara de ser abandonada
sem maiores explicações antes ainda do nascimento da criança. Ele e o irmão
buscaram pelas justas desforras, mas o dito rapaz desaparecera, isso já ia
para mais de um ano e todos preocupavam-se agora com a irmã que passara a
negligenciar o filho e andar em "más companhias", perguntou-me se eu não
gostaria de passar em sua casa qualquer hora para rever a todos e quem sabe
dizer algumas palavras de incentivo a Roseli e com isso ajudá-la talvez a tomar
um rumo na vida. Porque isso? Porque esse convite? Com certeza devido ao
fato de, apesar de ter sido eu um jovem estouvado, que cultivara alguns maus
hábitos, sempre mantivera um "bom astral" e tivera constante em minha boca,
para todos, um sorriso e ditos chistosos que faziam rir, palavras toscas, mas
que prendiam a atenção e reanimaram mais de um vivente entregue a tristezas
e desesperanças. Resolvi ir, a casa estava exatamente igual, pintura velha,
portão caindo se abrindo com chiados e rangências, a calçadinha com o tanque
de lavar roupas ao lado da porta e o barraco de madeira nos fundos onde D.
Estela guardava latinhas, metais, garrafas e outras tranqueiras com as quais
31
arrecadava um complemento à sua aposentadoria. Vicente e Vítor, disso eu já
tinha conhecimento há bom tempo, eram consumidores contumazes de crack e
não trabalhavam, mas também não roubavam, de índole pacífica faziam bicos
de todo tipo para a vizinhança e davam para a mãe parcela mínima dos seus
parcos proventos. Estávamos almoçando singela refeição quando Roseli
chegou, crescera, avultara em belezas de longos cabelos castanhos
cacheados e grandes olhos da mesma cor, sorriso bonito de dentes corretos e
bem cuidados, percebia-se que havia bebido um pouco, mas isso não lhe tirava
nem um pouco do encanto no qual havia um pouco de sensualidade bruta, não
trabalhada aliada a um olhar infantil de criança curiosa e assustada. Ela
sentou-se e conversamos todos com a naturalidade de amigos que não se
veem há algum tempo, mas que não perderam elos, afinidades.
Diferentes semideuses devem outorgar amores e ódios com a
prodigalidade digna de seres incumbidos de tão elevada função, pois incidimos
em ambos os sentimentos com tanta facilidade que me parece que a eles
somos conduzidos como crianças por possantes mãos adultas. Roseli não me
saiu mais da cabeça, cada detalhe de seu rosto, de seus gestos geravam em
mim sensações prazerosas e sutis emoções, novidades de sentimento que eu
recebi de peito aberto, sem reservas. Começamos a namorar, mas em poucos
meses percebi que ela não compartilhava de meu entusiasmo pela relação, ou
talvez o amor dela fosse assim mesmo, menos impetuoso, mais comedido,
mas nem por isso menos verdadeiro. Eu trabalhava, ela e D. Estela tomavam
conta da criança e à noite, invariavelmente, frequentávamos lanchonetes e
barzinhos onde o número de cervejas e as doses de destilado iam crescendo
na medida de minha estúpida felicidade, deixava-a em casa para ir dormir
sozinho em meu apartamentinho da Cohab que não ficava longe dali. Nos fins
de semana Roseli passava o dia comigo e transávamos e para isso ela
demonstrava uma energia que eu não a via empregar em nada mais, eu me
ligava a ela cada dia mais intensamente, queria tê-la para sempre comigo,
morando juntos, fazendo família. Fiz proposta de homem sério, morar juntos,
dar nome ao filho etc., ela relutava sem o poder de argumentos válidos, me
pedia dinheiro com frequência alegando necessidades da criança, a tudo eu
cedia sem questionar, enlevado, destituído momentaneamente das antigas
espertezas. Certa noite, no bar, já cansado e tendo bebido o suficiente, propus
irmos embora e ela não aceitou minha acertada sugestão, quis ficar mais,
fiquei. Mais uma hora passada, nova sugestão, nova negativa e tivemos nossa
primeira discussão, deixei-a no bar e fui pra casa. Tiveram início meus
primeiros martírios amorosos. Discussões e brigas tornaram-se constantes sem
que eu entendesse a razão delas. Questionei D. Estela a respeito do
comportamento da filha, da recusa em casar-se e levar amena vida familiar.
- Eu não sei o que tem essa menina - disse a boa senhora. - talvez
seja... - vi que ela hesitava e instei com firmeza por conclusivas respostas.
- Talvez seja por causa do outro, o pai do menino.
- Ela gostava muito dele? Perguntei.
- Gostava demais, me dizia ela que não queria saber de outra pessoa,
de mais ninguém, mas quando você apareceu eu pensei que ela tivesse
mudado de idéia, de sentimento.
Depois dessa conversa algo em mim mudou, me invadiu uma tristeza
que passou a marcar meus encontros com Roseli, passei a beber mais, tive
ressacas e as primeiras faltas no trabalho. Uma noite, já bastante embriagado,
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após tê-la deixado mais uma vez no bar, fui até sua casa a fim de conversar
com seus irmãos, ver se me davam melhor explicação, ou confirmavam o que a
mãe deles tinha me dito. Era tarde, fechei o portão com cuidado evitando
barulhos e caminhei pela calçadinha estreita até o barraco nos fundos da casa
onde sabia que ia encontrá-los fumando a repulsiva pedra. Vitor estava na
entrada daquele paiol desmantelado e me fez sinal para entrar, à luz de uma
vela colocada sobre um tijolo no chão de terra batida pude ver uma velha
poltrona na qual estava instalado Vicente, num velho assento de carro mais
para o lado estava um rapaz que eu conhecia de vista, Vitor sentou-se sobre
uma lata de tinta e passou-me um banquinho de madeira, sentei-me e vi o
rapaz colocar um pedaço de pedra sobre o pequeno cachimbo cheio de cinza
de cigarro e queimá-la com o isqueiro inalando a fumaça perniciosa, exalou-a,
passou o cachimbo para Vitor e já em seguida começou a levantar-se e sentarse
inquieto e a olhar com cara de medo para todos os lados como se uma
presença invisível o incomodasse.
- E daí cara, que que você manda? - perguntou-me Vicente em tom
amistoso.
- Só passei pra trocar uma idéia, mais tarde, um particular. - respondi,
conciso.
- Não liga pra esse aí não - tornou ele apontando para o rapaz - tá na
espiadeira, mas aguenta aí que a gente já se fala - Disse isso e pegou por sua
vez o cachimbo e fumou. O ambiente era lúgubre, latas, ferro velho, madeira e
uma infinidade de bugigangas quase não deixavam espaço para as pessoas, a
semiescuridão do lugar desagradou-me, e a luz da vela me incomodava um
pouco. Vicente então pegou o cigarro da mão do irmão depositou mais cinza
sobre o cachimbo, ajeitou-a e passou-o para mim, fiquei segurando aquele
objeto estranho e pensando se fumaria ou não, nunca tinha me sentido atraído
por aquela droga e ainda não a havia experimentado, foi Vitor quem, abrindo
uma bucha me passou um pedaço que coloquei sobre o timbau, como também
era chamado aquele instrumento, e queimei sem pensar, a sensação que tive é
muito difícil de definir, algo em meu peito intumesceu, cresceu, até meu
cérebro pareceu inchar, todo meu corpo foi tomado de uma energia poderosa,
uma volúpia densa que fez minha embriaguez desaparecer no mesmo instante,
passei adiante o cachimbo e o isqueiro sentindo-me incrivelmente lúcido,
desperto. Fiquei observando enquanto todos fumavam mais uma vez e
esperando para repetir a dose, mas o bagulho havia acabado. Um silêncio
mortal abateu-se sobre nós, fiz menção de por a mão no bolso para pegar um
dinheiro, mas com gesto muito sutil Vicente me fez sinal para esperar enquanto
indicava com os olhos o rapaz que se agitava em fortes inquietudes, quando
finalmente este se convenceu de que não havia mais nada para fumar e mais
dinheiro em seus bolsos, foi embora escoltado por Vitor até o portão. Vicente
me perguntou se eu tinha alguma grana e dei a ele rapidamente o que eu tinha
no bolso, enquanto seu irmão ia buscar o bagulho nós conversamos. Fui direto
ao assunto.
- Porque tua irmã não quer casar comigo?
Vicente abaixou a cabeça com séria expressão no rosto e depois, olhando-me
nos olhos, falou:
- Vou te dar a letra toda, sem rodeios... ela tá fumando pedra também e
tá com medo de aceitar as responsa do casamento, de você prensar ela pra
parar, de ter que cuidar do piá direto, porque aqui a mãe cuida dele, faz tudo
33
pra ela ... eu acho que é isso. Agora, o resto é contigo, dá uma dura nela, leva
pra morar com você e encara a parada - falou tudo isso e acabou-se num
acesso de tosse do qual saiu com lágrimas nos olhos entre chiados e sibilos.
- Será que é isso? - disse eu pensando em tudo que havia ouvido - não
é por causa do pai do guri, saudade, tristeza?
- Que nada, ela nem curtia o cara, só ia casar porque tava grávida.
- Mas tua mãe me disse que ela era ligadona nele ...
- A mãe não sabe de nada, fica se alugando e depois tem outra, te
chamei pra vim aqui prá você jogar uma ideia decente na cabeça dela, só isso,
mas aí você entrou numas de gostar dela, agora o papo é outro. é contigo meu
camarada, não quero fazer tua cabeça. - Apesar do estupor em que me
encontrava depois dos momentos de lucidez, apreciei a sinceridade de Vicente.
Vitor voltou trazendo mais algumas buchas que fumamos sem muita conversa,
quanto mais eu fumava mais aquele lugar tornava-se dantesco à minha
imaginação exacerbada. Acabado o bagulho e o dinheiro dei um tempo pra
acalmar meu coração descompassado e fui para casa passar uma noite
horrível, sem sono e pensamentos confusos.
II
Na manhã seguinte, ao lembrar os últimos acontecimentos senti um
asco profundo, pela lembrança da droga, do barraco fantasmagórico e pelo que
Vicente me havia dito. Revi o rosto querido de Roseli e ao imaginá-la fumando
aquele lixo engoli tristeza e revolta misturadas num caldo grosso. Para resumir
a história e não sujeitar os possíveis leitores à descrição de fatos banais
presentes na vida de milhares de pessoas que se consomem no cotidiano difícil
de nossas grandes e belas cidades devo dizer somente que passei a fumar
pedra diariamente e em menos de três meses cheguei à bancarrota total,
financeira e moral. Devido às constantes faltas, falhas e frequentes atrasos
perdi meu emprego, com o dinheiro recebido que me era devido no justo por
nossas nobres leis trabalhistas comprei um carro, nele eu e Roseli
desfilávamos como feliz casal com D. Estela e o garoto indo ao supermercado,
ao posto de saúde e em passeios de fim de semana. À noite deixávamos o
pequeno com a avó e íamos atrás da droga, Roseli apresentou-me alguns
caras que passavam pedra, conhecia a maioria deles, rapazes que cresceram
comigo ali no bairro, outros, caras novas, todos, porém colocaram-se à minha
disposição para qualquer necessidade, bons amigos, enquanto tive dinheiro. E
enquanto tive dinheiro minha amada ficou a meu lado, quando este acabou
vendi tudo que tinha em meu apartamento, fiz empréstimos em bancos e
financeiras que obviamente não paguei e perdi todo crédito junto a essas
respeitáveis instituições, junto a amigos e poucos parentes vivos e, é claro,
junto a meus fornecedores. Vendi o carro e por mais dois meses vivemos
prodigamente, fumamos, comemos e bebemos sem pensar, o fim era
pressentido, mas não admitido e chegou logo. Uma noite me vi sozinho em
casa, sem luz e sem água, com uma garrafa de cachaça barata sentado no
colchão que era a única peça restante de meu antigo mobiliário, sem saber por
onde andaria Roseli ou o que faria do dia seguinte. Lembrei do rosto alegre de
minha menina enquanto andávamos de carro de cima para baixo parando em
lanchonetes para beber, sendo cumprimentados por vizinhos e sendo
34
recebidos pelos traficantes com altas demonstrações de cortesia e
camaradagem. Depois me lembrei do mesmo rostinho bonito contorcendo-se
em feias caretas enquanto a droga explodia em seu cérebro e espalhava-se
célere por seu corpo frágil e senti culpa, me senti culpado e com todas as
justas razões. Lembrei de Kali Yuga e de como minha situação comprovava
que a degradação humana era mesmo a marca maior dos tempos que
vivíamos. Em desespero levantei à procura de meu livrinho e encontrei-o no
meio de minhas roupas sujas e malcheirosas amontoadas a um canto do
quarto. Nos dias seguintes passei fome e dores de cabeça terríveis, arrumava
com alguns conhecidos compadecidos alguma coisa de comer e uns trocados
para comprar cachaça, a vergonha, a humilhação não me feriram tanto quanto
saber através de Vitor que Roseli passava dias sem aparecer em casa e
quando o fazia era só para dormir e comer, sumia então novamente sem
atender aos rogos da mãe e sem importar-se com o filho.
Não sei por quanto tempo vivi assim até que fortes dores no estomago
levaram-me a procurar o posto de saúde, lá contei para a prestativa médica
que me atendeu toda minha história e ela sugeriu internamento em instituição
psiquiátrica para os devidos tratamentos do corpo e da mente. Aceitei e fui
encaminhado a modesto hospital onde sujeitei-me sem rebeldias a
medicamentos acachapantes, cansativas sessões de terapia em grupo,
chatices, adolescentes dependentes em neuroses de abstinência procurando
briga, velhos viciados já dementados sendo submetidos à força a injeções e
contenções que amansariam as mais bravas, africanas feras. Altos muros
inescaláveis, barreiras internas inexpugnáveis, sacanas membros do corpo da
enfermagem com suas aporrinhações, retirada de pequenos privilégios que nos
predispunham à violências, tudo isso teve de ser vencido com paciências
desconhecidas, retiradas de ignotos recessos de minha personalidade ainda
desconhecida. Saí desse hospital física e neurologicamente recuperado e voltei
a meu destroçado, vazio apartamento, repleto de espectros, sujas e tristes
recordações. Não havia como arrumar novo emprego na antiga área e
recomeçar, e como alimentar-me e pagar as contas atrasadas até situar-me
novamente em mais cômodas situações? Isso levaria tempo e eu não tinha
mais as antigas energias. Sabia que não voltaria sob nenhuma condição a usar
a droga, havia adquirido grandes repulsas, desmedidas náuseas, mas ia
precisar dela para levantar-me financeiramente. Procurei um dos "patrões" e
consegui com grande dificuldade cem gramas para revender, o que fiz
rapidamente, pois a procura era cada vez maior. Meus primeiros ilícitos lucros
foram usados exclusivamente em alimentação e reinstalação de energia e
água. Diante do trabalho rápido e bem feito consegui então duzentas gramas e
pude aí comprar roupas novas e começar a economizar modestos valores em
conta bancária. Não demorou para que Roseli aparecesse diante de mim, com
um rosto abatido, emagrecida, pedindo crédito que não dei. Esse reencontro
que à ela pareceu não afetar, causou em mim inesperados transtornos
emocionais, contudo, movido em silencio pela culpa e outros intensos
sofrimentos neguei a ela qualquer migalha da droga e sugeri tratamento me
predispondo a ajudá-la em tudo, recebi em troca ditos sarcásticos e um sonoro
"vai à merda" que doeu em algum lugar que não sei definir, provavelmente na
fonte dos bons sentimentos, nas reservas de amor ainda vivas. Os irmãos dela
também não demoraram a me encontrar pedindo vantagens e créditos em
nome da já "antiga" amizade, dei-lhes periodicamente pequenos pedaços que
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os mantinham a uma cômoda distância. Com o passar do tempo, com o
aumento da quantidade de droga a ser revendida fui adquirindo uma aspereza
de coração, fui me endurecendo, procurando à custa de muita angústia
empurrada para âmagos recônditos manter a ternura. Aquela desventura toda
não havia tirado de mim certas endereçadas esperanças, oníricos impulsos de
vida, meras humanas aspirações de melhores tempos. Mas tudo isso estava
em suspenso dentro de mim, aguardando a correta oportunidade, a justa hora
de se expandir em definidas atitudes.
Vitor tinha um tipo físico bem estruturado e um rosto de sólida e
ancestral beleza, algo nele lembrava um bravo soldado espartano com seu
longo cabelo preto e liso e uma barba negra cerrada e a boca cheia de fortes
dentes brancos, saudáveis a despeito dos maus hábitos e parca higiene.
Aproximou-se de mim um dia no bar onde eu havia, em ajustados conluios com
o proprietário, estabelecido meu ponto de venda e pediu-me para ter um
particular. Fomos até uma esquina tranqüila fronteira às vazias canchas de
areia, pois era dia de nuvens e garoa e ali ele me perguntou:
- Você tem visto a Rose?
- Tenho, ela quis pegar bagulho comigo algumas vezes, mas eu não
vendi, ela me mandou à merda e agora a gente não se fala mais.
- Você ainda gosta dela? - Interpelou-me mirando meus olhos. Olhei
para dentro de minhas profundidades vazias e respondi irresoluto:
- Já não sei mais, só tô querendo me levantar de novo pra sair desse
lugar e esquecer toda essa merda.
- Bom, não sei então se te interessa o que vou dizer, mas tenho que
falar assim mesmo, a Rose... - disse ele com gestos nervosos -... tá fazendo
ponto na BR pra poder fumar - completou com voz mais firme demonstrando
contido ódio e grande tristeza. Eu não soube o que dizer, me subiram da
barriga para o peito umas náuseas e imensos frios, vagos, premonitórios
medos.
- Eu vou falar com ela, tentar ajudar - retornei, mais controlado.
- Não vim pedir nada não - Vitor levantou-se - só achei que você
precisava saber - completou indo embora. Aquele "precisava saber" flutuou por
sobre insólitos receios, escondidas agonias e culpas não resolvidas. Fui
procurá-la naquela noite e avistei-a em frente a um dos muitos sórdidos
barzinhos num trecho próximo do contorno sul.
- Já vi que meus irmãozinhos te contaram né?
- È eles estão preocupados.
- Que vão à merda eles também - disse ela e percebi que tinha perdido
um dente, um pré-molar.
- Você não tá a fim de tomar alguma coisa e conversar?
- Não, preciso trabalhar, pedra não vem de graça – falou isso e voltou
para dentro do bar e eu fui embora. Continuamos nossas vidas isolados,
separados do normal do mundo, do saudável existir, trilhávamos já sem saber
por que, feios, ásperos caminhos e as alternativas oferecidas não eram
realmente muito atraentes. Em mim havia ao menos um instinto de
sobrevivência, mas Roseli entregava-se à desilusão e à morte e não havia
nada a ser feito, a não ser observá-la em seu trajeto de destruição. Trabalhei
naquele condenável ofício por mais dois anos, durante os quais vi minha exnamorada
ir murchando, decompondo-se lentamente. Teve mais dois filhos que
D. Estela criava com estóicos padecimentos, progênie espúria, indesejada,
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consequência da profissão. Ajudei aquela cansada senhora como pude e levei
uma rotina de austeridades que visavam o maior acúmulo de valores ao meu
alcance. Finalmente vendi meu apartamento, herança de meus falecidos pais,
e comprei uma casinha simples nuns recantos da barreirinha e abri um
pequeno negócio no ramo da informática. Não sei devido a que insondáveis
cármicas influências prosperei rapidamente. Essas aborrecidas histórias de
sucesso comercial são prescindíveis. Para resumir, estabeleci-me solidamente
e ganhei muito dinheiro.
Esse é o imensurável das coisas a que me referi no início da história, o
imaterial, o impalpável, tudo aquilo que o ser humano luta para entender sem
conseguir chegar a consideráveis deduções, esta é a área dos poetas, eles
podem tudo, magos de profissão, donos de privilegiados sortilégios conseguem
com poucas comuns palavras definir o inusitado, o insólito e com alguns versos
instalar beleza onde antes só havia morte e devastação. Só mesmo sendo um
deles para concluir em retas linhas escritas o porquê era eu agora, com trinta e
sete anos, próspero senhor de engenho, legítimo proprietário de imóveis,
comandando funcionários, possuidor de nome limpo e fartas contas em
bancos. E também para explicar porque eu não me sentia feliz ou algo
parecido, não que fosse sisudo patrão, avarento, mal humorado, não, era
cordial e sensível às brutalidades da vida dos trabalhadores, participando com
eles como igual, do nosso dia a dia miserável de comerciantes na faina
constante e ignóbil da obtenção de lucros, participava também das eternas
confraternizações marcadas em calendário das quais não raras vezes saí
bêbado, escoltado até em casa por braços direitos que por muito pouco não
chamei de amigos. E é verdade que sempre nos falta algo, ou mais dinheiro,
um amor, família talvez ou saúde. Nunca temos tudo nem nunca teremos, com
sinceridade, não me interessava ter mais nada, eu tinha uma boa vida, mas
precisava de algo, ou alguém pra ver se extirpava de minha garganta um
amargor que me tirava a capacidade de desfrutar com os justos refinamentos
os sabores das coisas que eu comia e bebia e à que tinha feito jus com os
árduos trabalhos, afincos e esforços de muitos anos. Nunca tinha deixado de
pensar em Roseli, tinha já há tempos estabelecido uma pensão para D. Estela
com intuitos de não lhes deixar faltar nada, e quando, uma vez, fatídica noite
aquela, resolvi procurar meu antigo amor da juventude tive desvarios de
dolorosa surpresa, encontrei-a meio cambaleante à beira da rodovia, parei, abri
a porta do carro e ela entrou, sentada a meu lado sorriu-me com a boca quase
sem dentes, a pele enrugada numa decrepitude precoce e me perguntou em
linguagem de prostituta velha e escolada que tipo de serviço eu ia querer, não
me reconheceu, estava chapada. Me dei a conhecer e ela então ensimesmou,
desconcertou-se, envergonhada de seu estado, mas ao mesmo tempo
apossou-se de duras expressões de quem diz dane-se você com tuas roupas
limpas e teu carrão.
- Então é você? Ficou rico é?
- Não, tô trabalhando, tenho um bom emprego.
- E veio fazer o que aqui no meio dos pobres?
- Vim só pra ver você. - Disse eu tentando olhá-la nos olhos que ela
desviava sempre - só queria sair e conversar um pouco, num lugar tranqüilo
beber e comer alguma coisa.
- Tudo bem, mas eu tô sem bagulho. - Disse ela meio agitada - dei a ela
algum dinheiro e adverti:
37
- Volte que eu te dou mais depois. - Ela correu e voltou em minutos.
Dirigi-me até o hotel de uma cliente amiga minha ali em Araucária que me
recebeu com justificáveis ares de susto diante do aspecto de minha
companheira que levei até o quarto onde fissuradamente ela começou a fumar
e então voltei à portaria explicar a situação à minha amiga e encomendar farta
bebida e comida. Roseli não conseguia conversar coerentemente, fumava e se
movia com estranhas contorções, encolhendo-se e esticando-se como se fosse
alguma espécie de animal pré-histórico, seus olhos abriam-se
desmesuradamente para logo em seguida quase fechar-se gerando múltiplas
rugas, olhava em volta como se tivesse medo e então bebia grandes tragos de
whisky. Quando o bagulho acabou ela principiou a agitar-se, esvaziou sua
bolsa e revistou-a minuciosamente, remexeu em todos os bolsos e dobras da
roupa e a intervalos olhava para mim e bebia mais.
- Queria dar mais uma bolinha - disse com um arremedo de sorriso que
quase humanizou seu rosto.
- Já vamos pegar mais, você não quer comer nada?
- Não, não, agora não.
Fui fazendo com que ela bebesse cada vez mais prometendo já em seguida ir
buscar o bagulho, ela bebeu mais da metade da garrafa de whisky e aí seus
olhos embaçaram, perderam qualquer sinal de vitalidade, pegou um pequeno
pedaço de carne que eu havia cortado e começou a mastigá-lo por uma
eternidade de lentos movimentos da mandíbula com um fiozinho de saliva
escorrendo do canto da boca. Continuava remexendo os bolsos e em certos
momentos parava e me olhava estupidamente por alguns segundos, falava
incongruências e logo, acomodando-se nas almofadas adormeceu. Fiquei
bebendo cerveja e pensando por muito tempo e então fui até o carro pegar
meu livrinho, que hoje eu sabia pertencer à uma filosofia indiana chamada
védica e do qual não me separava nunca. Kalki era uma divindade que viria no
final de Kali Yuga montada em soberbo cavalo branco e com reluzente,
magnífica espada destruiria toda iniquidade e restabeleceria a ordem e os bons
costumes. Talvez fosse isso que criava esse oco em mim, essa falta de alguma
coisa poderia ser a espada de Kalki decepando cabeças que formariam rios de
sangue e que eliminaria juntamente com os iníquos todas as tristezas terrenas
e humanas carências. Ah! Que acontecesse logo qualquer coisa que me tirasse
o quanto antes desse mundo de bestialidades.
III
Pedi para minha amiga dona do hotel que desse toda a atenção à Roseli
providenciando tudo que ela precisasse e voltei à minha vida feita de calmarias
e lucros e deixei que o resto do mundo se danasse com suas pútridas feridas,
não tinha com que ou com quem me preocupar, minha única ocupação de
agora em diante seria como gastar meu dinheiro da maneira mais amena e
agradável possível. Companhia não me faltaria, solidão não existe, não passa
de interna incerteza, fraqueza. Comecei nova fase em minha existência,
marcada por grandes festas, viagens, pescarias, noitadas com os amigos em
finos bordéis, nada que envolvesse drogas, coisa que não suportava ver e
quem usasse logo era excluído da roda, todo artifício para esquecer as
torpezas e podridões que nos envolviam era bem-vindo. Desperdicei alguns
38
anos dessa maneira e procurei então auxílio psiquiátrico para eliminar certas
inquietações e a insônia que passaram a me perturbar fortemente, paguei
caras consultas e tomei fortes medicamentos que de nada adiantaram, mas
uma pessoa viria resolver esses problemas. Eu tinha quarenta e dois quando
conheci Heliatrice, mulher bonita de quarenta anos, bióloga que estava
montando uma firma de consultoria ambiental e precisava adquirir todo o
hardware necessário para criar um sólido sistema de informática e de
profissionais habilitados para fazê-lo sem que ela tivesse que "esquentar muito
a cabeça" segundo suas próprias palavras. Eu disse que ela tinha encontrado a
pessoa certa e que se dependesse de mim ela nunca mais esquentaria a
cabeça com nada, minha cliente achou muita graça nisso e riu bastante
dizendo que eu era muito galante, retruquei afirmando com seriedade que
aquela não tinha sido minha intenção e que lhe havia dirigido a palavra nos
mais estritos e profissionais termos, e realmente assim havia sido. Heliatrice riu
ainda mais e garantiu-me que além de galante eu era possuidor de um raro
senso de humor. Sorri condescendente e tratamos de negócios, passamos a
ter frequente contato pois eu gostava de estar à frente dos serviços grandes
para certificar-me de seu bom andamento, ódios abortantes me tomavam
diante de falhas e reclamações de clientes quando estas tinham fundamento.
Mais uma vez o material se confunde com o imaterial e fico sem
respostas, mais uma vez recorro aos espíritos e divindades, fantasmas e
demônios para que me esclareçam, ou desorientem de vez fazendo-me
alienado, louco, para olhar o mundo através de coloridas placas de acrílico, não
ter mais diante de mim a crua luz da razão. A cada encontro com aquela
mulher eu me tornava mais atraído e a ela ligado por delicados, mas firmes
laços que me impediam de ser quem eu era antes, encobertos traços de minha
não lapidada personalidade despontavam, deslumbrantes, assustadores. Ela já
há vinte anos labutava na sua área fazendo economias visando autonomia
profissional, agora em sociedade igualitária com profissionais amigos construía
sua empresa com a qual esperava obter merecidos rendimentos e
compensações, era pessoa culta e simples e talvez tenha sido esta
simplicidade que a fez aceitar meu convite para jantar e também conseguir
divertir-se em minha companhia. Bem, eu era um homem rico e não totalmente
destituído de encantos físicos, acho que isso contribuiu bastante, ao menos no
início. Passamos a sair com frequência e ela me chamou de hedonista e diante
de minha expressão de curiosa ignorância explicou-me o significado de tão
belo termo e eu gostei, expandi-me em inflamadas apologias ao tal hedonismo
e passei a enumerar os prazeres que considerava os mais elevados ou
intensos que se pode usufruir neste mundo. Ela ria, mas discordava de mim em
alguns pontos não hesitando em expor suas concepções, disse haver prazeres
que eu não havia citado pois estes situavam-se numa esfera além do alcance
de uma grande maioria, eram aqueles ligados ao espírito, ao intelecto, às
delicadezas e refinamentos da alma e citou então uma terceira classe de
prazeres, com um sutil sorriso falou das delícias do prazer quando este alia-se
à dor, falei ligeiramente assustado que tinha uma vaga idéia a esse respeito o
que a fez rir muito. Ela tinha uma deliciosa predisposição ao riso.
- Mas que tipo de hedonista você é que desconhece esses meandros de
nossa "pequena alma terna e flutuante"?
- Acho que pertenço à grande maioria, sou de raça mais grosseira, não
que nunca tenha tido vislumbres de sensações superiores e de uma vida que
39
paira acima de nossos mais elevados pensamentos.
- Você até que fala bonito para quem diz não ter estudos nem grandes
posses intelectuais.
- São só palavras bonitas que aprendi de ouvido.
Eu não sei exatamente o que a fez gostar de mim, imaginei que talvez
fosse a capacidade que eu tinha de compartilhar as belezas das coisas, novas
para mim, que ela me apresentava, de, com minha língua tosca tecer sentidos
comentários cortantes sobre a dor e a tristeza embutida, encalacrada na vida
dos menores dos seres humanos e nas incomensuráveis, cotidianas injustiças
que a todos nos uniam. Um ano depois de nosso primeiro encontro nossa
situação era de consolidado namoro, ela progredia em seus ecológicos
negócios e eu continuava a obter meus constantes lucros não me eximindo de
um dia a dia agitado que preenchia imperiosas necessidades de ação que por
sua vez encobriam tenazes, possantes vazios e amarguradas melancolias.
Quero continuar falando de Heliatrice e da benéfica influência que ela teve em
minha vida sem, porém, cansar refinados ouvidos com os imprescindíveis
encômios que tecerei sem escrúpulos, sem receios de incidir em lugares
comuns, clichês, pois, pensando bem, que se danem grosseiros ou refinados
ouvidos, suspeitas suscetibilidades, falarei de qualquer maneira deste meu
novo amor, nem que seja só para mim mesmo, pois na verdade é só a mim que
isso interessa. Ela gostava de Elvis Presley, Beatles e outros nomes da música
estrangeira, muitos desconhecidos para mim e que ela me fazia ouvir enquanto
explicava coisas e traduzia letras de doloridas canções que falavam de
"pessoas gentis com flores em seus cabelos" e me lembravam de uma infância
amarelada, quase esquecida, que não deixou rastros e me faziam pensar em
um jardim que nunca tive onde eu seria livre para brincar e sorrir largos sorrisos
como uma criança deve fazer. Heliatrice correspondia abertamente a meus já
declarados sentimentos e saber que uma mulher como aquela era apaixonada
por mim, me impava, inchava de um orgulho simples, que não queria glórias
nem propagandas, só queria o mais doce anonimato.
Conheci, aprendi a apreciar suaves, delicados acordes que não
pertenciam a meu limitado gosto musical, muita coisa ela mudou em mim,
certos brutos modos, contudo, de minha personalidade ela não conseguiu
extirpar, a bestial preferência pelo sabor das vermelhas carnes não consegui
trocar pelos refinados sabores de importados queijos e outros sofisticados
alimentos, continuou a sede pela grosseira cerveja no lugar de envelhecidos
vinhos para mim insossos, exigentes de apurados paladares. Mas essas eram
todas coisas de ínfimo valor para nossa relação, não a afetavam em suas mais
sólidas bases. Casamos em modesto esponsal ao qual compareceram
somente os mais chegados amigos e por doze anos vivemos harmonioso
matrimônio. Não poderia listar tudo que aprendi com ela, o que de doçuras e
suavidades podem existir entre um homem e uma mulher, leveza de sorrisos e
alegrias que só a intimidade proporciona e tantas outras venturas que minha
alma bruta ainda desconhecia não tendo vivido amor completo, que amansa e
pacifica internos tumultos e incertezas. Tornei-me melhor homem com mais
abrangentes olhares e mais encorpados pensamentos, não me deu ela
somente um "verniz" de cultura, deu-me as bases, indicou-me caminhos por
onde sozinho eu poderia continuar arrancando da vida essenciais
conhecimentos, ensinou-me a trocar a instintiva esperteza por cartesianos
raciocínios não desprovidos de coração. Falou-me de Hobbes, Rousseau,
40
Darwin, de escritores e poetas com tão apaixonada verve que incutiu-me ideias
nunca tidas, viajei por estranhos domínios, naveguei em caudalosos rios
habitados por luminosos seres que alucinados perseguiam amores ou
exalavam sagrados ódios, tive noção do início dos tempos, habitei entre os
primeiros hominídeos e cogitei das múltiplas e misteriosas possibilidades de
que a vida é feita. Heliatrice já tinha sido casada, por poucos anos, contou-me
ela que a relação era tumultuada e foi marcada por um triste estigma, ela
desejava muito ter filhos e não conseguiu, teve três abortos espontâneos
consecutivos sendo que o último obrigou-a a uma histerectomia. Falei-lhe
algumas vezes da possibilidade de uma adoção, mas ela evitava o assunto
alegando que éramos dedicados em excesso ao trabalho e ao prazer para
podermos nos entregar com as exclusividades e renúncias que essa tão nobre
função exige.
E mais uma vez os mitológicos seres, as invisíveis potestades que
parecem encontrar grande diversão em confundir e desgraçar as já
desgraçadas existências humanas entraram em cena novamente, feriram-me
naquilo que eu tinha de mais precioso, tiraram-me Heliatrice, de maneira
inglória, indigna dela e dos afetos e sinceridades que marcavam nossa relação.
Resumindo, flagrei-a em obsceno adultério, em grotesca cópula prenhe de
selvagens exaltações com um jovem biólogo que passara a fazer parte da
sociedade, de belas feições e atlético porte. Algo mais esse rapaz deveria
possuir para tê-la arrastado a esse banal, vulgar pecado, não queria acreditar
que minha amada pudesse estar sujeita a esses tão naturais femininos
impulsos, julgava-a acima disso, crasso erro que nenhum homem se deve dar
ao luxo de cometer. Separamo-nos amigavelmente e doeu-me vê-la à minha
frente procurando dar-me explicações que eu não pedia nem queria ter,
poupei-a desse angustioso momento beijando-a e convidando-a a visitar-me,
desacompanhada é claro, sempre que pudesse, ela riu para mim seu último
exclusivo riso, entrou em seu carro e foi embora. Não entrei em crises ou
comas paralisantes, não entreguei-me à dor e à tristeza nas quais os deuses
gostariam de ver-me espojado em vis contorções, somente afastei-me um
pouco da faina diária delegando poderes a funcionários de confiança para
poder, munido dos recursos a mim outorgados por minha ex-esposa dedicar
meu tempo a uma análise criteriosa e isenta de sentimentalismos do mundo e
das pessoas, à observação dos peristálticos movimentos da vida. Realmente
tudo parecia funcionar como um organismo, seres humanos correndo num
fluxo contínuo para o trabalho, para ganhar dinheiro, para alimentar-se e fazer
sexo para depois regurgitar tudo novamente, excretando, tendo filhos, fazendo
festas e morrendo. Os filhos por sua vez continuariam inevitavelmente, apesar
dos protestos que se repetem num fenômeno cíclico, a mesma rotina, sim, o
planeta é um imenso corpo vivo, e nós somos suas hemácias e plaquetas, seu
sangue, nossas alegrias e sofrimentos sua respiração e outras vitais funções,
Darwin e Lavoisier estavam certos, dobro-me a seus pés, gigantes gênios que
nos presentearam com uma racional opção à religião, conhecedores profundos
deste ciclópico ser e de seus míseros habitantes, uma pena que sua venerável
ciência não alivie dores nem cure certas feridas, estas terão que permanecer
sangrantes e purulentas até o fim dos tempos. Durante longo período fiquei
sozinho "curtindo sem queixa o mal que me cruciava", amargando céticas
conclusões e lúgubres pensamentos.
41
IV
Estava beirando os cinquenta e cinco anos e sentia-me, a despeito de
relativo pessimismo, forte e disposto a continuar rumo ao desconhecido, tinha
saúde e energia e vivia agora uma rotina mais parcimoniosa que não era fruto
de opção nem estudo, era guiada pelo próprio corpo, alimentava-me
moderadamente, dava longas caminhadas e trabalhava menos. Não queria
mais saber de hedonismos, amores e músicas, só queria o ar, a água, o fogo e
a terra, enfim, os elementos essenciais para a única vida que eu conhecia,
tendo-os e estando em condições de absorvê-los iria jovialmente de encontro à
morte e seus mistérios. Numa tarde amena, andando pela rua XV fui abordado
por uma jovem de uns vinte anos que me entregou pequeno panfleto e disse
trabalhar numa ONG que defendia o uso racional dos recursos do planeta
principalmente no tocante a economia da água. Fez um pequeno discurso
ecológico e disse-me para entrar no site da organização para maiores
informações. Era bonita, com longos cabelos pretos e contrastante pele clara,
perguntei-lhe se era bióloga e respondeu-me que não, chamava-se Juliana,
cursava letras e por sua vez perguntou-me se tinha algo contra biólogos, disselhe
que sim, que havia adquirido um trauma, pois uma representante da classe
usara-me por mais de doze anos numa experiência que não obteve sucesso
deixando-me com sérias lesões. A moça riu divertida e advertiu-me, trocista,
dos perigos de ser voluntário em experiências desse tipo.
- Não sei se realmente fui um voluntário - disse eu continuando com a
brincadeira.
- Bom, forçado é que você não foi. - Tornou ela mostrando os dentes
brancos.
- É verdade, acho que é um paradoxo, como esse nosso encontro agora,
uma brincadeirinha dos déspotas desocupados que regem esse belo mundo.
- Nossa, que negativo... mas, o que tem de paradoxal no nosso
encontro?
- Ora, um cara da minha idade, cético e pessimista, sem humanas
ambições nem nobres projetos de vida, já incapaz de exaltações espirituais
nem deslumbramentos poéticos estar conversando animadamente com uma
moça tão bonita, estudiosa das letras e cheia de convicções, me parece que
tem um paradoxo aí. - Respondi enquanto ela continuava a distribuir
calmamente seus panfletos.
- Acho que vai depender da exata definição do termo, mas, para uma
pessoa que se diz incapaz até que você tem ainda bastante "espírito". - Rimos
os dois e eu me despedi prometendo dar mais atenção à sua causa.
Um encontro casual como muitos que ocorrem nas ruas, um gato que
morre na China, o efeito borboleta, a lei de Murphy, desisti de buscar
respostas. O inverossímil, o implausível da ficção é o comum da vida. Não
esquecia mais o doce rosto de Juliana, sua voz forte sem deixar de ser
suavemente feminina e seus olhos castanhos brilhantes que incidiam firmes
nos meus. Em suma, considerando-me já imune às paixões humanas e suas
mazelas imaginei estar amando novamente, ri comigo mesmo de minha triste
figura, não que eu estivesse completamente esvaziado de encantos,
desprovido de masculinos atrativos, mas não me parecia que o conjunto fosse
suficiente para atrair mulher tão jovem. Entrei no site indicado pelo panfleto,
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anotei o telefone da ONG, que, aliás, era como muitas outras nessa área,
composta por alguns jovens idealistas sem dinheiro que pediam contribuições
para ajudar em campanhas etc. Pensei, repensei, enlouqueci, dementei, me
descobri fraco, estúpido, me achei burro adolescente em primeiro amor e por
dias me contive em minhas esgarçadas camisas de força e não liguei para ela.
Informaram-me dos dias e horários em que a poderia encontrar e tive ampliada
a imagem dela em minhas retinas e a vi em traços miúdos, mais concisa, ainda
mais bela. Não contando com a suficiência de meus dotes, usei de astúcias,
solércias, fui sagaz, reles conquistador. Liguei para ela, apresentei-me, fui
lembrado e conversamos, indaguei se sua organização estaria apta a orientarme
em questão relativa à captação de águas da chuva e reaproveitamento da
água usada em pequena propriedade que eu possuía nos arredores do
Passaúna ou, se deveria procurar firma especializada. Juliana decidida e
rapidamente respondeu-me que ela e seus colegas tinham ideias e mesmo
projetos relacionados à questão e que poderiam fornecer-me todas as
informações necessárias após visita ao local. Em data e hora ajustadas, fomos,
Juliana e mais dois colegas, visitar minha modesta vivenda às margens da
represa e depois de detalhada inspeção optou-se por pequeno projeto que
deveria ser executado sob sua direta supervisão. Puseram preço em seus
serviços, justos preços de empresa sem fins lucrativos, usei então de vil
artimanha, ofereci-lhes, em caso de serviço completo e bem feito, dez vezes o
valor cobrado, a título de modesta contribuição à tão valorosa organização.
Ficaram maravilhados, prometeram promessas, desdobraram garantias,
ofereceram certezas e riram contentes. Juventude, flor cheirosa de contagiante
perfume, foi assim que vi aqueles sorridentes estudantes, pássaros adejantes
em loucos rompantes de eterna fuga, ah! Poesias, bobos versos que me
vinham à mente diante da beleza daquela jovem. Mas foi assim que fui me
aproximando dela, oferecendo préstimos de amigo e experimentado
empresário fui ganhando confianças, espaços e liberdades, aceitou convite
para jantar durante o qual recitei em apropriada ocasião dois poemas dentre os
muitos que aprendera a gostar com Heliatrice, um, de poeta inglês chamado
Coleridge, cujo nome eu treinei por dias para pronunciar corretamente,
chamou-lhe particularmente a atenção, disse-me que meus modos, silêncios e
sensibilidades, não combinavam com a imagem de velho urso em hibernação
que eu queria passar e que, na verdade, e ela falava a verdade o tempo todo e
sem rodeios, eu era um cara interessante, espécime que merecia estudo. Se
Heliatrice foi luz, minhas claridades, Juliana foi névoas, brumas onde me perdi.
Sucederam-se novos jantares, vespertinos encontros, vertiginosas
conversas nas quais nos expusemos, nos desnudamos, falei de minha atração,
de meu amor enclausurado por tantos invencíveis receios, ela me tranquilizou
com doces espontâneas palavras e espontâneo beijo, que senti em minha
boca, no todo de meu corpo e em minha alma como se fosse o primeiro de
minha vida. Apaixonado novamente entreguei-me e pareceu-me nunca ter sido
tão feliz. Vivemos um grande, mas curto sonho, não poderia ser de outra
maneira e eu não queria mais do que isso, chegaria fatal e certeiro o dia em
que ela me deixaria para viver outros sonhos. Nos divertimos bastante, e
muitas vezes na companhia de seus amigos nos entregamos a noitadas e
agitadas libações, troquei a cerveja pelos bons vinhos que passei a apreciar
sobremaneira, aprendi muito com os jovens estudantes, eles tinham tempo e
energia, eu tinha dinheiro e estava com renovadas disposições. Juliana dividia
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apartamento com amigas e seus pais residiam em pequena cidade do interior
paranaense, ela tinha assim bastante liberdade, em razão disso sempre que
suas acadêmicas obrigações permitiam, íamos para o litoral de Santa Catarina
e visitávamos belos lugares, chegamos mesmo, em suas férias, a ir à Europa,
viajem que a maravilhou por toda carga histórica e cultural do velho mundo
entre muitos outros aspectos, mas que a mim só encantou pelas geográficas
belezas, delícias culinárias e o prodigioso sortimento de vinhos. Voltávamos de
nossas pequenas ou grandes aventuras para uma rotina prazerosa de amor e
amizades, conheci o sexo como nunca antes o havia tido, Juliana dava-se a
mim com a explícita entrega de juvenis, frementes movimentos de quadril,
púbicas fissuras, pélvicos sabores, túrgidas saliências de seios e nádegas
mostrando-se em sôfregas, exigentes exposições.
Pouco mais de três anos duraram essas venturas a mim concedidas, por
terríveis taumaturgos, como derradeiras dádivas. Ela veio a mim certo dia com
melancólica expressão e em sua habitual franqueza falou-me de tênues,
sinuosos sentimentos que a tomavam na presença de certo professor, das
dúvidas e angústias resultantes dessa nova experiência que se apresentava e
que ela protelava em nome da fidelidade e outros deveres para comigo. Ah! O
quão bonita ela estava nesse momento, anjo em sofrimento. Lembrei de Roseli
quando criança, revi suas faces róseas e sorridentes dos tempos de nosso
namoro e a vi depois envelhecida com tão pouca idade, Heliatrice e sua beleza
madura apareceu diante de mim com seus olhos profundos e grandes
conhecimentos, e agora, à minha frente estava Juliana, tão bela em sua
sinceridade e em sua tristeza. A lembrança de alegrias passadas, perdidas,
são fardos pesados para se carregar sozinho, mas o tempo havia chegado, não
duvidei, não hesitei, isentei-a carinhosamente de quaisquer fidelidades e
deveres e falei-lhe de antigo projeto meu, uma longamente planejada e adiada
viajem que pretendia fazer à Índia, viajem esta caracterizada por constituir
aspirado retiro espiritual ao qual deveria entregar-me com espírito de solidão e
renúncia. Dei a ela de presente um apartamento e generosa quantia aplicada
em seguros investimentos bancários que lhe propiciariam bons rendimentos,
tudo isso ela aceitou constrangida e triste e em poucos dias eu desembarcava
em Delhi. Peregrinei por dois meses em terras e rios sagrados, visitei templos e
à custa de intérpretes conversei com yogis e monges, recebi bençãos e voltei
para Curitiba com a mente povoada de cores, elefantes e altares, mas não tive
a capacidade de retirar daquela mescla de religiões, seitas e diferentes
interpretações das sagradas escrituras algo de definido, quem era eu afinal
para isso? Mero negociante ignorante que se aventurou por um mundo acima
de sua compreensão. Sozinho, afundando em lembranças depressivas, sem
verdadeiros amigos a quem recorrer, resolvi certo dia voltar à zona sul, à
Cidade Industrial, rever antigos conhecidos, ver se havia ao menos um precário
elo entre mim e o mundo. Mas o tempo havia imposto distancias e foram frias
as conversas, superficiais os contatos com os velhos moradores da vila que
ainda lembravam-se de mim. Cheguei enfim à casa de D. Estela que me
recebeu com efusivas demonstrações de carinho em meio à desolação em que
vivia. Me fez entrar e sentar, as crianças já crescidas estavam na escola.
Roseli estava no quarto, pude vê-la pela porta entreaberta deitada na cama,
rugas pronunciadas em torno dos olhos e da boca, os cabelos pintados de cor
indefinida deixando ver as raízes embranquecidas, velha, não lembrava em
nada a menina por quem me apaixonara a milenios passados. Vitor fora morto
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por traficantes a quem ficara devendo, Vicente armara uma cama no barraco lá
nos fundos e contraíra tuberculose no inverno passado, não seguia
corretamente o tratamento gratuito oferecido pelo posto de saude e só saía de
seu tugúrio para conseguir a droga que vinha fumar entre extenuantes acessos
de tosse. Decidi não procurar mais nada nem ninguém, calei-me em minha
casinha no Passaúna e seu silêncio e aqui estou envelhecendo
demoradamente, sem religiosos consolos, teológicas certezas, saindo cada vez
menos, recebendo cada vez mais esporádicas visitas, sob os constantes
cuidados de fiéis, ou ao menos, muito bem pagos empregados. Só o que me
resta é ditar testamentos, endereçar materiais legados e abandonar o quanto
antes o desconforto deste corpo.
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UMA XÍCARA DE CHÁ
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Minha intenção original para este escrito era fazer da morte de Jonas
uma ode, uma elegia, uma vez que sua vida não apresentou elementos com os
quais se pudessem construir um poema ou um texto em prosa poética. Alguém
da estatura de Orwell ou Zola conseguiria fazê-lo, pois com eles as vidas
comuns tornam-se especiais, transformam-se magicamente em relatos de
extrema beleza, mesmo que carregados de pessimismo, negativismo ou coisa
parecida, é para isso que esses homens nasceram, para tornar bela a
descrição de fatos vulgares, mostrar os encantos escondidos na essência da
existência de qualquer ser vivo, de qualquer fenômeno que nos pareça banal.
Tomando como exemplo a vida de um ser humano medíocre como Jonas eles
poderiam construir, enlevante, delirante épico, como é o caso de Gordon
Comstock, dos mineiros de carvão de Germinal e tantos outros. Jonas viveu e
morreu como multidões de outros seres humanos anônimos e me perdoem se
o texto a seguir é permeado de pretensões poéticas e filosóficas, não possuo
os dotes necessários para uma obra de maior relevância, mas agrada-me a
ideia de que prestei singela homenagem aos milhões, que como Jonas, fazem
parte do amálgama deste mundo.
PARTE I
Era uma sexta-feira, final da tarde, horário em que pessoas de todas as
classes almejam seus merecidos descansos, cervejas, churrascos e almoços
dominicais, ou simplesmente cansados, espoliados, deprimidos, sem nem
mesmo a certeza de um almoço no sábado, voltam para suas casas,
antecipando prazeres ou sufocando angústias. Muitos dirigem-se para
restaurantes, bares ou miseráveis botecos para um “happy hour”, uma gelada
ou mero gole de pinga. Para Jonas era indiferente ser sexta, segunda, natal ou
carnaval, parou seu velho Escort em frente a um barzinho perto de casa e
pediu seu usual martelo de conhaque e uma cerveja, sentado sozinho em
mesa próxima da porta ali ficou em silêncio por mais de duas horas bebendo e
olhando para o mundo com sua cara feia, avermelhada e inchada pelo uso
diário do álcool. Quem visse seu olhar vazio diria que estava repleto de desejos
impuros ou de extremados ódios, mas essa impressão se desfaria de imediato
com uma palavra dele, a voz mansa, macia, denotava bondade e o sorriso dos
lábios finos, simpatia. Era homem bom, de delicado coração, porém, embebido
em bucólicas dores exigia da vida justas reparações.
De natureza dócil, uma espécie de búfalo manso que desconhece suas
forças, não reagia a ofensas e ataques, desviava-se com os olhos tristes,
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sorrisos constrangidos, um babaca, um otário, assim era visto por um grande
número de pessoas. E o mundo não aprecia essa classe de animais, gosta e
precisa do boi brabo de ventas abertas e patas escarvantes revidando o ataque
com chifradas que jogam para o ar o inimigo arrancando-lhe as vísceras.
Depois de cansar de olhar em silencio para a vida diluída e pequena da qual se
tinha que arrancar com tenazes e bisturi qualquer ínfima alegria ou prazer
resolveu voltar para casa, não que estivesse de todo conformado, algumas
incipientes revoltas já ameaçavam dominar sua mente e ocupar maiores
territórios, e havia vastos territórios desocupados dentro dele. Ao chegar viu a
figura pesada, desfigurada da mulher deitada no sofá, sua mulher, sua esposa,
a garota com quem havia casado há vinte e três anos atrás, esta lançou-lhe um
apático olhar voltando-o logo para a televisão, Jonas dirigiu-se à cozinha, abriu
a geladeira e pegou uma latinha de cerveja sentando-se à mesa sobre a qual
havia um prato com restos de macarrão, uma vasilha com umas poucas folhas
de alface murchas e um cinzeiro repleto de pontas de cigarro marcadas de
batom marrom, a cor preferida da mulher que estava na sala. Sentiu um leve
asco por tudo aquilo e só então percebeu que estava com a bexiga cheia e foi
ao banheiro, sentou-se no vaso como costumava fazer de uns tempos para cá
desde que um exame indicara um aumento na próstata trazendo dificuldade
para urinar. A micção foi demorada e dolorida, olhou para a toalha de rosto
amarela pendurada à sua frente e viu nela tênues manchas de uma cor
indefinível que atestavam a duvidosa qualidade de sua limpeza, enquanto
enxugava suas mãos sentiu que até mesmo ali havia o detestável cheiro de
cigarro, o banheiro onde transara apaixonado pela jovem esposa há tantos
anos atrás agora cheirava a nicotina e velhice. Voltou para a cozinha e
esquentou o macarrão que havia na panela, cobriu-o com forte pimenta que e
comeu-o sem vontade, sem animar-se a tocar nas moles folhas de alface
mergulhadas em vinagre. Escovou os dentes e foi até a sala sentando-se em
uma poltrona, raramente fazia isto, geralmente ia diretamente para o quarto
que o filho deixara vago após o casamento e lá ficava assistindo algum filme e
bebendo cerveja até dormir para, invariavelmente acordar com azia horas
depois e tomar uma dose de antiácido que deixava à mão no criado mudo.
Após alguns minutos, Fátima, a mulher, levantou indo para a cozinha, Jonas
olhou para suas nádegas imensas e grossas coxas e não pôde evitar mais uma
vez a pergunta: como você conseguiu ficar assim? Era tão magrinha, alegre e
saudável, agora tinha em cima do guarda roupa caixas de papelão cheias de
embalagens das mais variadas medicações que lhe prescreviam os médicos
das mais variadas especialidades e até mesmo homeopatas, espíritas, padres
e benzedores. Nada conseguia eliminar a depressão, a compulsão pela comida
e doces e as múltiplas dores que surgiam de um dia para o outro, os remédios
depois de alguns dias eram abandonados como ineficazes indo parar em cima
do guarda roupa sendo substituídos por outros. Ao voltar da cozinha Fátima
perguntou sem tentar esconder a indiferença:
- Você tá ruim do estomago?
- Estou.
- Eu fiz um chá, espera aí que eu vou te trazer uma xícara - por um
instante Jonas ficou atônito, estranhou aquela demonstração de desusada,
especial atenção. Pegou a xícara e sorveu lentamente o chá quente e lá do
âmago de suas bondades lhe veio um pensamento: "eu bem que podia ficar
com você até o fim, agora que já estamos tão perto, mas eu sei que não vai
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dar, já não sei mais onde é o fundo do meu coração". Ele haveria de lembrar
daquela xícara de chá, daquela bondosa atitude da esposa pouco antes de
morrer alguns anos depois. Teve a edificante intenção de sentar ao lado dela e
perguntar como tinha sido a consulta com o médico, pegar em sua mão,
demonstrar interesse por seus problemas, ser gentil e confortá-la, mas isso
durou poucos segundos, voltou a olhar, imóvel para a televisão.
Jonas era descendente de poloneses, tinha estatura mediana e
compleição física robusta, aos quarenta e sete anos seu cabelo grisalho bem
penteado para trás não ajudava muito a diminuir o efeito de algumas
características estéticas negativas como a pele do rosto marcada pelos
remanescentes de uma juvenil crise de acne de grandes proporções, ou o nariz
grande e um pouco achatado, a boca pequena de lábios finos que era
praticamente invisível quando ele não estava falando, em resumo, não era um
homem bonito. Não fossem suas já citadas qualidades seria pouco provável
que Helena tivesse prestado atenção em sua figura. Ela não era destituída de
alguma beleza, algo não evidente, oculto aos olhares superficiais, de
ascendência italiana tinha o rosto em forma de lua, grandes olhos verdes,
sorriso cativante e belos cabelos castanhos encaracolados, era bioquímica e
trabalhava em departamento próximo no mesmo prédio onde Jonas
desempenhava a função de técnico anatomista. Eram naturais os freqüentes
encontros que acabaram por aproximá-los e torná-los amantes, ela apaixonada
e profundamente envolvida, ele, levado somente pela atração física e pela
apatia e frustração decorrentes do casamento falido. Essa relação
extraconjugal fora a única na vida de Jonas e durara oito anos tendo acabado
já há um ano sem deixar grandes marcas em nenhum dos lados, no caso dele
isso se explicava facilmente, só buscara um consolo para sua solidão, uma
companhia agradável para aquelas noites baças em que os bares e a bebida
traziam aflição e inquietude. Helena, no entanto, de natureza passional,
cobrava a oficialização da união insistindo na separação que Jonas protelava
indefinidamente, finalmente ela cansou, desistiu de esperar dele maiores
envolvimentos.
Porque falar desse relacionamento, porque citar evento tão insignificante
que, como já foi dito, não deixou grandes marcas? Por duas razões: aconteceu,
foi real, existiu, e nenhum mísero acontecimento pode ser desconsiderado
quando se fala da vida de um ser humano, nenhum gemido, seja de um doente
ou de um bêbado, nenhum grito de dor derivado de facada ou tiro, nenhuma
tristeza errante, agonia certeira, medo ou singela alegria pode ser descartado
como irrelevante. O outro motivo seria o fato mais do que compreensível de
que Jonas passara a sentir falta de Helena. Porque aquele homem, depois de
ter, aparentemente, estado satisfeito com o sexo regular, a companhia quase
sempre agradável e a falta de compromisso daquela relação (muitas vezes a
custo mantido), após ter jogado para o alto tudo isso com tanta displicência
para simplesmente ficar com uma pessoa que detestava, porque passava ele
agora a sentir essas faltas, essas carências? Quando foi dormir naquela sextafeira,
intrigado com o comportamento da mulher que ao ir para cama sorrira-lhe
desejando boa noite, lembrando ainda da xícara de chá, pensou, sozinho na
sala, que aquilo se resumia simplesmente à "falta de pica", sua natureza tosca
resolvia assim as coisas, tudo ficava claro, se haviam culpas, recriminações da
consciência, estas eram eliminadas com pensamentos igualmente simples e
rudimentares. Mas algo passou a incomodá-lo uma meia hora depois de ter se
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deitado e foi justamente a lembrança de Helena, não que isto nunca tivesse
acontecido, já sentira dela algumas vagas saudades, mas nesse momento o
que preenchia sua mente e coração era bem mais do que isso, era o principio
de algo bem mais complexo, sentimentos para os quais sua alma estava
despreparada. Adormeceu em meio a suas pequenas tristezas e brutas
melancolias, não conseguia distinguir entre as já conhecidas de outras que
despontavam, recém-nascidas ou há muito encistadas, como quistos, abortos
mal feitos.
PARTE II
No sábado Jonas recebeu a visita de Elias, amigo de infância, amigo fiel
de tantos anos. O que ele vinha fazer ali ainda? Os sentimentos de Jonas em
relação a Elias eram ambivalentes, por um lado gostava dele e em seu íntimo
fechado, onde nem verrumas conseguiriam chegar, comovia-se com seu
interesse, com essas visitas que nunca eram retribuídas, e por outro lado
sentia-se enfastiado, tolhido em sua própria casa, em primeiro lugar porque
Elias não bebia, em segundo porque havia alcançado uma boa posição social e
financeira enquanto ele permanecera simples assalariado em emprego que
causava, não para Jonas, mas para os outros, constrangimento e sentimentos
ambíguos de repulsa e comiseração. Jonas trabalhava há dezessete anos no
departamento de anatomia de uma grande universidade de Curitiba, sua rotina
semanal consistia em retirar dos tanques de formol os cadáveres utilizados em
aula, desmembrá-los quando necessário, dissecá-los para a confecção de
alguma peça específica pedida por algum professor, descarná-los na
preparação de esqueletos, separar em diferentes tanques, cabeças, braços,
pernas, pelves e troncos, em cubas plásticas devidamente etiquetadas
depositar rins, corações, línguas, genitais, fígados etc. Elias já não dizia nada,
mas continuava convicto de que este ofício era o que o levava a beber tanto,
muitos pensavam assim e como se enganavam. Jonas, em casa, gostava de
tomar cachaça com refrigerante gelado, bebeu uns dois ou três canecos
enquanto Elias esteve ali e suspirou aliviado quando este foi embora. Tinham
sido amigos muito unidos durante toda a infância e adolescência, beberam
juntos as primeiras cervejas, tiveram as primeiras namoradas até o momento
em que as diferenças de personalidade começaram a separá-los, pois
enquanto Jonas preferia o futebol de fim de semana, Elias ia ao cinema, se o
primeiro gastava horas na lanchonete com a "rapaziada", o segundo dava
prioridade aos estudos. Os caminhos se separaram, mas a amizade continuou.
Enquanto um estudava e passava de um emprego regular para um bom e de
um bom para outros melhores o outro depois de curtir vários empreguinhos
detestáveis passou num concurso e estabeleceu-se em definitivo na instituição
que o reteria para o resto da vida, com um salário pouco invejável e poucas
compensações. Jonas sempre detestara o trabalho burocrático, mas teve de
suportar os primeiros seis anos na universidade servindo no departamento de
direito, lidando com papelada, laudos, calhamaços, foi obrigado a fazer um
curso de “português culto” e no contato direto com professores, doutores das
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magnas leis e alunos, foi adquirindo cores de cultura, etéreos ares de
conhecimentos. Jonas era inteligente, mas preguiçoso, só levado pela mão,
empurrado, aprendia e o fazia com facilidade, poderia ter-se alçado a melhores
posições na instituição, ter feito faculdade e seguido carreira frutuosa, o que o
impediu? A preguiça? Desprendimento das coisas materiais? A sublimada
satisfação com a simplicidade? A valorização do pouco em detrimento do
supérfluo? Ou era um tolo conformado com uma casinha para morar e grana
suficiente para beber, comer e vestir-se? Isso seria tema para infindáveis
polêmicas, Jonas passava por cima dessas questões com uma santa
irreverência. Se Elias tinha um bom emprego, uma grande e bonita casa e
vestia-se com apuro, o que isso tinha a ver com ele? Ora, Jonas estava
satisfeito com o que possuía, só agora, depois que os filhos casaram-se e
abandonaram o ninho paterno é que ele começara a olhar para a própria vida
com um sentimento desconhecido, passara a fazer a si mesmo perguntas de
difícil resposta, incisivas perguntas para esquivas respostas. O primeiro desses
desconhecidos sentimentos foi a frequência intensificada com que a idéia,
projeto antigo, de separar-se tomou conta dele. Para que continuar a morar
naquela casa? Encontrar todo dia a figura doentia por quem já desenvolvera
incontáveis ódios e repugnâncias, suportar a visão de sua obesa e sedentária
presença que lhe provocava uma fina e mortificante amargura, um dúbio desejo
de ter tomado outros caminhos. O segundo era um demoníaco ou angelical
sentimento que lhe sorria asseverando que ainda havia alternativas, caminhos
não trilhados, florestas e montanhas intocadas que ele poderia desbravar com
as energias que lhe restavam.
Não há justificativas para as injustiças de qualquer ordem, Jonas sentia
que havia sido injusto com sua esposa, porém, muito mais havia sido com
Helena, porque se esta lhe havia cobrado a separação e esperado em silencio
a retribuição de seu amor, a primeira nunca lhe deu amor, só fez descabidas
exigências, reclamou de tudo, criou doenças e exalou miasmas negativos ao
longo dos últimos quinze anos. Deliberou, tomou corajosas decisões que lhe
obrigaram a aglutinar dispersas, rarefeitas energias, assumiu viris posturas e
ligou para Helena que havia sido transferida para outro campus, foi atendido
por cordial funcionária que lhe comunicou com voz eficiente e profissional que
esta colega havia falecido há seis meses devido a graves problemas renais.
Jonas agradeceu, desligou o telefone e imobilizou-se num gesto lento, alguma
coisa nos confins de seu eu embrutecido pela bebida, por uma vida inteira sem
amor, quebrou-se e uma comoção de colossais dimensões tomou conta de seu
interior inexplorado. A notícia triste trouxe lembranças doces, doçuras que
sentiu enquanto esteve com Helena, em vários momentos sorriu feliz quando
ela, sempre alegre, álacre, com seu corpinho ágil esvoaçava a seu lado ou
montava sobre ele com suas magras perninhas abertas sorrindo e fazendo
caretas, mas naquela época para ele tudo era simplesmente diversão, algo que
se consumia, que se saboreava como o conhaque e no dia seguinte era
metabolizado e excretado. Mas agora esse homem que nunca chorara ou que
o fizera poucas vezes e de maneira contida, refreada, sentia dor, e lágrimas
vinham sem que ele conseguisse contê-las. Uma revolução ocorria em suas
entranhas, em seus cernes, abalos aconteciam em suas calcificadas estruturas
psíquicas. As lembranças de Helena passaram a ser uma constante presença
em sua mente, tinha-a agora muito mais viva, quente e cheirosa do que antes.
Voltou ao trabalho na segunda-feira, com idéias errantes povoando seu cérebro
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como células cancerosas que espalhavam-se ao acaso criando tumores,
causando dores exigentes de urgente tratamento. Jonas estacionou seu carro
na vaga costumeira, entrou no prédio e depois de descer escadas e percorrer
corredores repletos de estudantes agitados e falantes chegou ao seu
departamento, abriu a porta que dava para a pequena sala que servia de
secretaria e depósito para as peças da neuro-anatomia, as mais preciosas
devido à dificuldade de obtenção e adequada preparação, ali foi invadido pelo
já costumeiro odor de formol que não mais lhe feria as narinas anestesiadas,
vestiu seu avental e verificou a lista de materiais necessários para as aulas do
dia. Alguma coisa já havia separado de antemão na sexta à tarde, mas várias
peças tinham ainda que ser escolhidas e levadas para as salas de aula prática,
encaminhou-se para os tanques e começou a remexer entre os membros
humanos colocando à parte, sobre uma maca, aqueles em melhor estado. Isto
feito empurrou a citada maca corredor a fora sendo cumprimentado pelos
alunos por quem era muito apreciado por seu bom astral e solicitude. Aquele
dia e os próximos passaram em sua plácida rotina, professores e alunos
vinham pedir peças e eram atendidos com a costumeira polidez do velho
funcionário que passava o restante de suas horas sentado em sua velha
poltrona de couro rasgado e rodinhas emperradas pesquisando um antigo
tratado de anatomia, assunto sobre o qual tinha considerável conhecimento,
tanto teórico quanto prático. Mas essa placidez foi perturbada por um novo
elemento, a morte de Helena. O que fazer agora? Tudo que viera a seu espírito
no intento de dar uma nova direção à sua vida fora procurar por ela, talvez
reatar o relacionamento e dar agora a atenção e o carinho que ela merecera,
isso não sendo possível ficou sem ação, mente estacionada em lembranças,
pesados braços inertes.
PARTE III
Uma nova sexta feira chegou e com ela inusitadas inquietações,
peculiares sobressaltos, Jonas estava triste e o mundo indiferente, nem mesmo
Elias apareceu pra sua costumeira visita, a presença da esposa com seus
olhos sem vida, suas queixas, seus cigarros e cinzeiros espalhados pela casa
provocavam-lhe explosões de silenciosa fúria e irritações no fundo das quais
havia uma grande piedade. Até que ponto contribuíra para aquilo, qual sua
parcela de responsabilidade naquele mórbido sedentarismo e acúmulo de
células adiposas? Não sabia, mas sofria suas culpas, porém de nada adiantava
agora tentar reverter a situação, ao menos não morando juntos, poderia ajudála
mais estando longe. No sábado pela manhã colocou todas suas roupas e
poucos pertences pessoais numa mala e anunciou:
- Vou pra Toledo com o Elias visitar a mãe dele – mentiu, adiava a
verdade que daria por telefone.
- Tá bom, me deixe dinheiro – respondeu Fátima sem nem mesmo olhar
para o rosto convulso do marido.
- Eu deposito ainda hoje – disse ele, entrou no carro e foi para um
hotelzinho no centro. Alguns dias depois estava instalado num pequeno
52
apartamento para os lados do Umbará, pediu para Elias que comunicasse a
Fátima sua decisão de separar-se, o amigo disse-lhe que a única resposta da
mulher foi pedir dinheiro e mandá-lo para o inferno. Isso tranquilizou Jonas,
aliviou-lhe a consciência. Quando os filhos ligaram pedindo explicações
respondeu-lhes que não podia fazer mais nada, que eles tomassem conta da
mãe de agora em diante. Voltou ao trabalho com renovada disposição, retirou
dos tanques os cadáveres chamando-os pelo nome e rindo como costumava
fazer antes, nas longas horas vagas que decorriam no desenrolar das aulas,
pegou um tronco, posicionou-o adequadamente numa maca e com um atlas
anatômico ao lado passou a dissecá-lo com o intuito de rever a trajetória de
certos nervos e vasos. Jonas havia saído do departamento de direito após
desentendimento com sua chefia imediata, cumpridor de seus deveres, pessoa
cordata, julgou-se lesado e pediu transferência, a única vaga disponível era na
anatomia, aceitou-a um pouco a contragosto sentindo certa repulsa pelo
material com o qual teria que trabalhar e pelo ambiente de um modo geral onde
tudo cheirava a formol, decomposição, ácidos e outros elementos químicos.
Mas com pouco tempo habituou-se àquilo tudo e mesmo as tarefas mais
indigestas como buscar corpos no IML, fetos em hospitais, congelar cabeças
para cortá-las ao meio na serra fita tornaram-se atividades comuns que ele
executava com cândida naturalidade. Com o passar do tempo suas narinas
perderam muito da sensibilidade, habituou-se aos maus odores. Tornou-se um
bom técnico anatomista, considerado pela chefia e colegas e agora voltava a
sentir gosto pelo trabalho, a liberdade conquistada lhe fazia bem. Por esse
tempo uma aluna de medicina veterinária chamada Larissa, de vinte a três
anos, magérrima, ligeiramente estrábica, com algo de desproporcional em seu
rosto anguloso passou a interessar-se pelo trabalho feito na preparação do
material usado em suas aulas práticas, tornou-se assídua frequentadora dos
laboratórios, amiga íntima dos funcionários ajudando-os a retirar cães e outras
peças animais dos tanques, aprendendo a injetar látex colorido em artérias e
veias, produzir exemplares artificiais de variados órgãos. Lentamente, por força
das circunstancias foi-se aproximando de Jonas com quem aprendeu muita
coisa, aquele homem de mãos rudes ensinou-lhe apuradíssimas, delicadas
técnicas que faziam de um corpo humano ou animal uma refinada obra de
estudo não desprovida de arte. Por essa época estava fazendo muito sucesso
e também causando muita polêmica a técnica da plastinação do alemão Von
Hagens, Jonas admirava esse grande anatomista e seu trabalho era tema de
longas conversas entre ele e Larissa, a menina demonstrava inteligência e boa
argumentação e seu interlocutor perguntava-se porque ela ia mal em várias
disciplinas. Sempre houveram alunos que se tornaram “amigos” da anatomia,
jovens graduandos tomados de interesse pela matéria e pelo trabalho dos
técnicos que passavam a frequentar o ambiente, mas Larissa era diferente,
passava lá todo seu tempo livre, não tinha amigos e era tida como “esquisita”
em sua classe. A atenção que ela dava a Jonas, a solicitude com que o tratava
e os constantes elogios às suas habilidades logo provocaram comentários
divertidos das suas colegas de trabalho, Jonas era o único homem na turma de
cinco funcionários e ficava extremamente embaraçado com a situação, por
outro lado vinham-lhe pensamentos, naturais, masculinos, seria possível que
aquela garota estivesse gostando dele? Haveria algo além da espontânea
admiração de uma jovem com evidentes dificuldades de relacionamento? Que
outras estranhezas e segredos esconderia aquela estudante tímida e solitária?
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Doces e torpes pensamentos o invadiram diante dessas questões,
descrevendo-os poderíamos oferecer um pouco mais da personalidade de
Jonas, um homem comum, como já ficou claro até aqui. Imaginou-a nua, seu
corpo magro evidenciando acidentes ósseos, frágeis músculos e estruturas que
ele facilmente enumeraria enquanto a apalpava carinhosamente, seria ela
silenciosa como em seu dia a dia ou exagerada expondo enclausurados
demônios? A curiosidade e o desejo acumulado em meses de abstinência
sexual não o permitiram mais pensar em outra coisa, passou a querê-la com
uma intensidade nunca antes sentida. Via-a abraçada a ele dizendo-se
apaixonada como Helena o fizera e, por momentos as figuras das duas se
misturavam e seus sentimentos se confundiam, sentia raiva de si mesmo,
remorsos por não ter correspondido, demonstrado ou ao menos fingido amor
pela primeira, por não ter estado a seu lado quando ela morreu e também por
estar sentindo tão fortes desejos por essa menina mal acabada, de olhos
tortos, dentes de criança de doze anos, cheia de bizarrices, que lhe
provocavam empatia, leves repugnâncias e tesão.
Por mais que Larissa ocupasse espaços dentro dele e Jonas percebia
isso claramente, percebia os crescentes afetos e desejos tortuosos que o
aproximavam dela cada vez mais, deixou que o tempo passasse sem tomar
atitudes, na verdade sem saber o que fazer, pois as recordações de Helena
não o deixavam em paz, o incomodavam, doíam, reclamavam justiça, tardia,
talvez impossível justiça, pensava que porventura amando Larissa, dedicandose
a ela pudesse fazer o que havia deixado por ser feito. Jonas amadurecia
emocionalmente, não era mais o rapaz inconsequente, não era mais o marido
insatisfeito, dono de justas prerrogativas não atendidas, mas também não era
um homem resolvido, equilibrado, feliz ou qualquer coisa parecida, seu interior
era um tumulto pacificado pelo álcool, dores escondidas ou afastadas a custa
de duros exercícios de sua mente rude, de ascéticas austeridades, mas nem
por isso invisíveis, intocáveis, estavam ali, no escuro, sedadas. Os fins de
semana eram seu problema, as férias um pesadelo, pois não tinha o que fazer,
não tinha horários que o limitassem e entregava-se então mais livremente à
sua dependência pelo etanol, chegando cedo aos bares, alimentando-se mal,
indo para casa dormir e voltar ao bar. Cada sexta-feira era um bem-vindo
prenúncio de desespero desfrutado como iguaria, deglutido com estoicismo.
Jonas não era masoquista ou portador de mórbidas manias, ao contrário, era
uma pessoa mentalmente muito saudável, todos seus males, como já foi dito,
estavam devidamente catalogados, arquivados e em bom estado de
conservação. Podia ver que não fazia nada de sua vida, que o tempo lhe fugia
e que as perspectivas de alguma espécie de realização escapavam-lhe calma,
silenciosa e inevitavelmente provocando um vago terror que só era eliminado
com uma ou duas doses a mais. Foi visitar os filhos com quem só mantinha
superficial contato por telefone e o resultado dessas aparições súbitas só fez
piorar seu estado, viu pelos olhares constrangidos, gestos inacabados e o tom
de voz artificial e por vezes cínico, que sua presença era suportada com bravos
filiais esforços que o feriram. Percebeu que não havia nada que pudesse fazer,
nem que parasse de beber e virasse carola frequentador da Igreja universal de
Deus ou de qualquer outra venerável instituição, nada faria com que eles o
tratassem ou vissem como algo diferente de uma velha estante quebrada e
vacilante que se quer trocar por uma nova mas não se tem dinheiro suficiente
para fazê-lo.
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PARTE IV
Larissa era menina casta, porém não isenta de saudáveis desejos e
fantasias, teve um único namorado, um estudante silencioso e atrapalhado que
só frequentou o primeiro ano da faculdade. Transaram poucas vezes em
alguns meses de namoro e no último encontro, na casa dele, foram pegos em
flagrante pela neurótica mãe do rapaz que fez um estardalhaço incomum, mas
bastante compreensível. Há anos que não tinha mais vida sexual e a visão
daquela jovem e poética cópula provocou-lhe arrevesados sentimentos, porém
o que falou mais alto foi o medo de que seu filhinho produzisse para ela um
neto que ela desejava tanto quanto uma grande espinha na testa. Quatro
aparvalhados pais, com evidentes transtornos psicológicos reuniram-se para
debater a delicada questão, montaram doméstico santo ofício. O jovem
meliante, assustado, não abria a boca, Larissa, extremamente calma, ria
daquela inquisição e dizia que virgindade não é algo que se perca e mesmo
que fosse, a perda era dela e de mais ninguém, demonstrava com isso uma
presença de espírito e independência que aterrorizou a todos, incluindo seu
débil amante. Chegaram a extremos, a jovem teve que passar por exames
médicos para eliminar a enervante possibilidade de uma gravidez ou de
venéreas doenças, porém, o que ficou constatado é que a paciente possuía
útero infantil e dependeria de longo tratamento medicamentoso para
engravidar. O namoro acabou e iniciou-se feroz vigilância sobre a vida da
espirituosa acadêmica que, na verdade, raramente demonstrava essa
apreciada qualidade da alma, por toda sua curta vida sempre mostrara-se
apática, pouco comunicativa e dotada de parcos dotes intelectuais. Os
igualmente apáticos pais mantiveram-na sob superprotetoras rédeas curtas
procurando esconder do mundo a filhinha que parecia apresentar alguma
deficiência que eles não queriam expor a médicos ou psicólogos. Após o
malfadado final do citado namoro Larissa passou a manifestar sinais de
depressão que não foram percebidos por ninguém, confundidos com sua
natural apatia, somente as aulas de anatomia despertaram-lhe interesse e o
contato com Jonas e seus colegas trouxeram-lhe novas vontades de vida. O
que ela sentia por nosso pobre e infeliz protagonista era algo como uma
transferência de sentimentos, via nele algo de pai, de proficiente mestre
dedicado e afetuoso, homem maduro, forte e sensível que não ficaria calado,
em análoga situação, como ficou seu estúpido namorado. Passou a pensar que
o amava, seu coração, infantil como seu útero, olhou além de sua aparência
física e apaixonou-se por alguém que existia em parte, por trás daquele rosto
feio e, em parte nas carências que o tratamento asséptico de seus pais haviam
engendrado.
É claro que uma história de amor entre estes dois personagens teria
poucas perspectivas de um final feliz, ao menos seria tão improvável quanto se
ganhar na mega sena sozinho, mas mesmo assim houve uma tentativa,
malsucedida e triste. A iniciativa partiu de Larissa, que num insólito, plúmbeo e
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frio mês de abril, ao final de um insosso e interminável dia de aula convidou
Jonas para sair, “para comer uma pizza”. O edemaciado técnico de anatomia,
perdido em infundados remorsos, reais solidões e desconexos pensamentos
aceitou o convite, imerso em surpresa, confusão e luxúria. Enquanto ela
tomava suco e comia diminutos pedaços de pizza levando muito tempo para
mastigá-los, ele os engolia em enormes bocadas juntamente com doses de
conhaque e copos de chope, fazia tudo isso alheio a qualquer preocupação
estética ou romântica ao mesmo tempo em que a menina o olhava enlevada,
prenhe de um amor que nada poderia abalar. Ao final da refeição ela o
encarava com olhos amorosos, felizes enquanto ele revolvia com os lábios um
palito de dentes e, virando para o lado, arrotava com a maior naturalidade o
que a fazia rir desbragadamente, eram realmente um casal digno de nota.
Outros encontros sucederam-se a este, igualmente ricos em incidentes
cômicos, os dois divertiam-se bastante juntos, Jonas continha seus ímpetos
viris limitando-se a leves toques no rosto e ombros angulosos de sua
encantada namorada que os aceitava com rubores e movimentos labiais que
pretendiam imitar beijos, o destinatário desses supostos beijos os recebiam
com certas dúvidas quanto à sua natureza, a princípio lhe pareciam caretas de
dor disfarçada com sorrisos porém com o tempo certificou-se de sua real e
óbvia finalidade. Um episódio lamentável ocorreu num desses idílios recheados
de pizza, conhaque e demais acompanhamentos, talvez não devesse ser
citado, mas o será devido a sua clínica importância. A cena era a mesma,
Larissa olhava encantada para seu amado por sobre a mesa ainda repleta de
pratos e copos já abandonados que o garçom demorava-se a recolher, Jonas
levou a mão à boca como para abafar um usual arroto mas o que aconteceu foi
que vomitou por entre os dedos sobre sua própria camisa, levantou-se
atordoado com intenção de ir ao banheiro, apoiou-se por um momento a uma
coluna ao lado da mesa e novo jorro foi despejado diante dos olhares atônitos
dos garçons e dos gestos de repulsa vindo dos ocupantes de outras mesas,
Jonas foi ao banheiro e sentou-se num vaso gemendo de dor. Larissa,
transformada subitamente por misteriosas forças em mulher adulta e
despachada, chamou um taxi e acompanhou o doente ao hospital onde após
breve exame e infusão de soro glicosado com vitaminas seu já recuperado,
envergonhado e cambaleante amor saiu em busca de seu carro, levou sua
ninfeta para casa e depois desabou em sua cama para faltar ao trabalho no dia
seguinte. Dores de estomago passaram a incomodá-lo, mas ele não era
homem de ir a médicos por “qualquer coisinha”, bárbaro das eras modernas
pediu a um farmacêutico seu conhecido uma panacéia qualquer, passou a
tomar Omeprazol diariamente e sentiu grandes melhoras, continuou sorridente
e satisfeito consigo mesmo por sua esperteza sua plácida carreira rumo à
morte. Nunca iria parar de beber, porque haveria de fazê-lo? Era seu
derradeiro prazer, havia o sexo, mas este estava sujeito às intempéries da vida
amorosa, a longos períodos de abstinência, a satisfação solitária não substituía
a delícia dissolvente do coito, e a bebida, ao contrário, estava disponível a
qualquer momento. Jonas era portador de uma úlcera gástrica, os sintomas
preliminares ele já vinha empurrando para o lado a custa de antiácidos e sucos
há muito tempo, mas o Omeprazol não impediu a ocorrência frequente dos
vômitos e fezes enegrecidas e fétidas que chegaram a lhe assustar a princípio,
mas não a preocupá-lo realmente, tudo fazia parte de um grandioso mas
silencioso espetáculo que ele, em sua primitiva intuição, reservava para si
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mesmo. Todo um oceânico rol de culpas, verdadeiras ou não, gigantescas
ondas de auto depreciação o levavam a isso, era um homem inculto, de média
inteligência, mas algo nele, lá no núcleo de suas células, ou fora delas, no
impalpável de seu ser dizia-lhe que era alguém maior do que este mero
funcionário público, do que este bêbado vomitante. E este alguém maior não
queria desviar-se um milímetro que fosse de seu glorioso fim, nascera para
habitar entre os mortos e era ali que queria permanecer até o final. Tomou a
magnânima decisão de doar seu corpo para a universidade, por esta época
havia sido criada a comissão para distribuição de cadáveres para fins de
estudo e esta aceitava doações em vida, bastava para isso preencher e assinar
alguns papéis com o consentimento da família e todos os devidos cuidados
seriam escrupulosamente tomados para que seu corpo, recém abandonado
pela alma que o habitava, não fosse levado ao cemitério e sim destinado aos
acolhedores tanques de formol nas tranquilas instalações do departamento de
anatomia.
PARTE V
Larissa matava aulas para ficar com Jonas, para amá-lo e protegê-lo,
sentia-se mãe, filha e amante ao mesmo tempo, nunca havia sido tão feliz em
sua vida. Em seus encontros abraçava-o e beijava sua boca de lábios secos e
ásperos aspirando os vapores alcoólicos que deles emanavam com uma
volúpia de dedicação e amor que superavam qualquer barreira. Certa noite
foram até a casa dele que cheirava a mofo e ouviram músicas que ela achou
horríveis, deram desajeitados passos de dança, conversaram e riram muito e
sentaram-se abraçados no sofá, nosso ulceroso namorado beijou-a com
suavidade e manteve em ordem dentro dele os impulsos lúbricos e afetuosos,
tratando-a com carinho e romantismo. Os contatos mais íntimos foram se
intensificando e as débeis vontades e moles estruturas dos dois seres
humanos ali enlaçados avultaram-se em forças e tamanhos esplêndidos,
assumiram admiráveis, densas formas. Diluíram-se os limites entre a
consciência e o desejo, Jonas, o viking, já embriagado, manifestou sua forma
eslava, ancestral, que desconhecia pudicos rogos femininos, os débeis e
gementes arquejos resumidos em “não, não, pare, eu não quero”, e travando
com sua farta musculatura as frágeis pernas de sua amada, possuiu-a de
maneira máscula, quase brutal, suprimindo com sua dura boca os angustiosos
pedidos de clemência que aquela jovem incompleta tentava externar. A cópula
feroz da qual ela participou inerte, sem sentir nada além de medo e dor não
durou muito, Jonas via por momentos o rosto de Helena e ouvia os gemidos e
pequenos gritos de desespero de sua parceira como manifestações de prazer,
estaria sempre disponível para ela de agora em diante, nunca mais a deixaria
sozinha e o prazer que estavam sentindo eles o teriam sempre que quisessem,
ah! Como ele estava feliz, tombou para o lado mergulhado em satisfação,
leveza e alegria, percebeu ainda que sua companheira levantou-se já em
seguida e o ultimo pensamento que teve antes de ferrar no sono foi que Helena
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deveria ter ido ao banheiro. Não viu Larissa sentar-se assustada no sofá
chorando enquanto abraçava as pernas encolhidas junto ao peito, não a viu
vestir suas roupas, desorientada, bolhas de muco brotando de suas narinas e
estourando enquanto ela reprimia soluços e dores. Seu último ato consciente
foi tomar um banho naquela noite, e então foi para seu quarto para instalar-se
numa longa reclusão entrando num mutismo hermético do qual sairia por
momentos para balbuciar frases sem sentido.
Jonas acordou no dia seguinte totalmente esquecido de seus delírios,
pensou que Larissa, sua doce e delicada Larissa deveria tê-lo acordado e não
ter ido embora sozinha, prometeu a si mesmo que não deixaria isso acontecer
novamente. Na faculdade, estranhou não encontrá-la para dizer a ele, em
fugidios momentos de privacidade, como estava feliz e o quanto o amava.
Quando ela faltou às aulas pelo terceiro dia consecutivo pediu para uma colega
ligar para a casa dela falando em nome da universidade pedindo notícias da
aluna faltosa, a mão da jovem informou que ela estava gripada e precisaria
ficar em casa por mais alguns dias ainda, mas nesta mesma manhã Jonas
recebeu a visita do pai de Larissa. Este havia rastreado os movimentos da filha
naquele dia e acabou por tomar conhecimento de seu relacionamento com o
técnico anatomista que foi instado em altos brados a dar conta do que fizera à
sua menina que estava em casa sem falar nada com nada e chorando o tempo
todo, nosso búfalo manso ficou lívido, teve medo e não soube o que responder.
Disse que tinham saído juntos para jantar e depois ele a levara para casa, o
desesperado pai dirigiu-lhe impropérios de toda ordem e ameaças de acionar a
polícia e então retirou-se furiosamente, após a saída do indignado progenitor
Jonas reuniu-se em conclave com suas colegas e contou-lhes tudo que havia
acontecido (da maneira como ele lembrava), chegaram todos à óbvia
conclusão de que nada havia feito de errado e não havia motivos para
preocupar-se com possíveis problemas com a justiça, mas tinham que saber o
que estava acontecendo com Larissa. Uma semana depois Jonas foi chamado
pela direção do setor para dar alguns esclarecimentos a respeito de uma aluna
de veterinária que estava internada em instituição psiquiátrica e cujo pai
acusara-o de estar envolvido com os motivos que levaram a estudante à
internação. O técnico assumiu o relacionamento, o que, aliás, não era incomum
dentro da universidade, funcionários e professores envolviam-se com alunos e
até casamentos já haviam acontecido, “claro, claro seu Jonas” disse o diretor,
“só queremos ficar tranquilos quanto a sua conduta com a aluna em questão,
sabemos que ela tem seus probleminhas mentais aos quais os pais nunca
deram atenção”. Jonas, que tinha amigos na direção soube que Larissa estava
fazendo exames e que ainda não havia sido estabelecido um diagnóstico, que
ela não se comunicava com ninguém, chorava muito e há alguns dias passara
a alternar o choro com acessos de riso. Estas notícias o confundiram e
deprimiram, não conseguia imaginar o que poderia ter acontecido ou o que ele
pudesse ter feito para causar todo este distúrbio, reviu-a naquela noite, alegre,
sorridente e todo o afeto que sentia por ela invadiu seu peito em forma de uma
dor ardente. Parecia que não conseguia fazer nada certo, transformou Fátima
numa gorda depressiva, deixou Helena morrer sem dizer a ela que a amava e
agora fizera alguma coisa que resultara no internamento daquela doce menina,
mea culpa, tomava a si as dores do mundo. Porque fazia isso? Que crimes tão
grandes cometera para assumir sozinho tão grandes condenações? O que não
tinha eram recursos internos suficientes para ver que suas culpas não eram tão
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grandes assim, não podia ver que era simplesmente um homem comum,
esquecera dos mais de trinta anos de trabalho cujos proventos empregara no
bem-estar da família? Esquecera que Fátima era uma mulher preguiçosa que
nunca lhe deu apoio nenhum e só o puxara para baixo e que tornaria-se uma
obesa depressiva independentemente do fato de seu marido ser dedicado e
fiel, vagabundo salafrário, pobre ou milionário, feio ou bonito? Tinha a visão
distorcida, não enxergava que Helena fôra possessiva e autoritária e tinha
transformado o relacionamento entre eles num segundo casamento que nos
últimos anos tornara-se tão estressante quanto o primeiro. Se fizera algo “ruim”
para Larissa, não lembrava, era resultado da bruma alcoólica em que vivia,
mas nenhum reconhecimento de suas qualidades trazidas à tona por algum
profissional conhecedor da mente humana, nenhuma eclesiástica absolvição
de seus pecados o faria sair do pântano de ignomínia no qual entrara com suas
próprias pernas e de onde não queria sair mais, por motivos que ele mesmo
desconhecia.
PARTE VI
Jonas entrou em férias, queria esquecer a universidade, queria esquecer
que existia e para isso passou a beber desde que levantava de manhã, comia
uma iguaria qualquer encontrada em algum boteco a guisa de almoço, dormia
algumas horas e então fazia um tour pelos bares da região voltando para casa
tão bêbado a ponto de não lembrar-se de nada no dia seguinte. Não lembrou
nem mesmo que encontrara-se com Elias e que fora até a casa deste onde
começou a ouvir uma preleção sobre os malefícios do álcool e de onde saiu
desejando em alto e bom tom que seu amigo passasse uma agradável e longa
temporada no inferno. Quando voltou ao trabalho suas mãos tremiam e não
tinham mais a delicadeza necessária para a confecção das peças que ele já
produzira com maestria, chegava todas as manhãs com um aspecto que
tornava-se cada vez mais deplorável e com um hálito de álcool que era
percebido a um metro de distância. O banheiro utilizado pelos funcionários
ficava num corredor de certo movimento e os vômitos frequentes de Jonas
foram percebidos, as dores no estomago aumentavam e também a quantidade
de sangue em suas fezes, só o que ele fez para amenizar estes sintomas foi
aumentar as doses de Omeprazol. Um professor cientificando-se do caso de
alcoolismo que saltava aos olhos, chamou-o para uma conversa particular,
considerava-o não só um bom técnico como boa pessoa, tinha-o na conta de
amigo, conheciam-se há mais de vinte anos. Este professor, médico
especializado em gastroenterologia, era também pessoa compassiva e
bondosa, sugeriu um tratamento colocando-se à disposição para tudo que ele
precisasse, Jonas educadamente declinou da oferta afirmando que em poucos
meses poderia aposentar-se e que então submeter-se-ia aos cuidados
necessários. Os poucos meses, como era de se esperar, realmente passaramse
e o velho técnico anatomista efetivamente aposentou-se, o que só fez
apressar o seu fim. Nos primeiros tempos voltou à rotina estabelecida nas
férias, mas gradualmente foi deixando de frequentar os bares, ia ao mercado,
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adquiria uma garrafa de sua cachaça preferida e bebia em casa enquanto
assistia televisão, ouvia música ou admirava o pouco movimento da rua
poeirenta, encomendava por telefone marmitex que eram entregues em
domicílio e nos quais muitas vezes nem tocava. Seus amigos reduziam-se
agora ao farmacêutico que lhe fornecia o costumeiro medicamento, a caixa do
mercado e o rapaz que trazia as marmitas. Recebeu as visitas de suas excolegas
de trabalho, do velho professor e de Elias, que desistira de fazer
preleções, convertera-se ao espiritismo já há alguns anos e resolveu
simplesmente cuidar de seu velho amigo. Várias vezes encontrou Jonas no
sofá ou na cama dormindo com uma garrafa no chão ao seu lado, a casa
exalava odores nauseabundos e Elias contratou os serviços de uma diarista.
Certo final de tarde ao fazer sua rotineira visita teve a infausta surpresa de ver
seu amigo caído no chão, nu sobre uma poça de fezes líquidas. Pensou ser
sua obrigação moral e espiritual fazer algo mais por aquele homem doente.
Chamou uma ambulância e internou o inanimado Jonas em um hospital, este
aceitou permanecer por alguns dias, a reidratação e os caldos nutritivos lhe
proporcionaram uma sensação de alívio e bem-estar, mas tão logo teve
conhecimento de que sua estadia deveria prolongar-se por mais uma semana
ou duas, fugiu, entrou num táxi e voltou para casa. Recebeu telefonema de
uma colega dizendo que Larissa estava melhor, fazia tratamento psicoterápico
e voltaria em breve a estudar, esta notícia trouxe certo refrigério a sua alma
ressequida, mas não o bastante para desviá-lo de seu auto imposto flagelo. Em
pouco tempo habituou-se a acordar de manhã sujo de vômito ou fezes e em
pouco tempo morreu. Morreu deitado no sofá, uma garrafa vazia caída no
tapete, pensou nos filhos e lembrou de Fátima lhe trazendo a xícara de chá,
este foi o ultimo pensamento do búfalo manso que o mundo havia rejeitado e
que não quis lutar contra essa rejeição. Elias respeitou o desejo de seu amigo
de doar seu corpo para estudo apesar de não concordar com essa idéia,
chamou os filhos para um longo velório na casa previamente limpa e arejada,
Fátima recusou-se a ir. O corpo foi colocado num caixão e um carro da
universidade veio buscá-lo, os professores e colegas do antigo funcionário
movidos por éticos princípios e nobres sentimentos optaram por enviar o
cadáver para outra instituição. Uma entidade particular de ensino com
moderníssimas instalações recebeu-o e é lá que encontra pouco repouso o
bem conservado corpo de Jonas, imerso num belo túmulo revestido de
alumínio.
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VIVENDO LONGE DA BEIRA DO MAR
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Fazia um calor pouco comum em Curitiba naquele verão. Não
estávamos acostumados a noites quentes como aquelas. Era sábado, somente
mais uma noite na casa de Roberto onde nos reuníamos com uma certa
regularidade há alguns anos. Não haveria razão para descrever aquele
encontro em especial se não fossem alguns acontecimentos que o precederam
e outros que o sucederam- se que não tinham nada de corriqueiros apesar de
não estarmos bem certos disso. Vínhamos, os três, bebendo bastante nos
últimos tempos, era o que fazíamos quando estávamos juntos além de ouvir
música e conversar, éramos pessoas comuns vivendo vidas comuns e
apagadas. Não falávamos de felicidade ou infelicidade, estas eram simples
palavras, talvez com uma certa dose de significado esotérico pois apareciam às
vezes em nossas conversas quando estas tendiam para a filosofia. Já
tínhamos experimentado as drogas e caído na estrada, havíamos perdoado
nossos pais por seus pecados e feito sexo suficiente para ficarmos seguros de
nossa heterossexualidade e não confundi-lo com amor, este também era um
tema que ficava restrito à música e à poesia. Acho que vivemos a vida comum
aos nascidos na década de sessenta, começamos a viver realmente nos anos
oitenta quando os Beatles, Janis e Jimi já eram história uma época desprovida
de grandes acontecimentos, chata, feita de amenidades sem qualidades. A
estrutura do DNA já havia sido descoberta, as grandes guerras já haviam
passado assim como a ditadura e suas sequelas, não havia mais nada de novo
ou estimulante acontecendo. Talvez por isso falássemos tanto de outros
tempos e outros lugares. Um grande vazio e uma exasperante falta de
perspectivas marcava nossas existências que tornavam-se insípidas, depois
das descobertas, dilemas e prazeres da juventude e, principalmente depois de
alguns anos de casamento. Tínhamos compromissos e responsabilidades, foi
só o que nos restou, a velha, a antiquíssima opção: trabalhar, ganhar dinheiro
para ter casa e carro, fazer churrascos nos fins de semana e ir para a praia de
vez em quando. Perguntar porque não estávamos satisfeitos, porque tudo
aconteceu de tal ou tal maneira, era estúpido clichê, mas era inevitável, por
isso nos perdíamos com frequência em conjecturas, certezas e suspeitas,
blasfêmias e sarcasmos. Aquele fim de semana foi tumultuado, como eu já
disse, marcado por fatos que estavam longe de ser banais, lances marcantes
mas que não mudaram muito nossas vidas, quase não produziram alterações
nelas, a não ser na de Marcos, pois foi naquele sábado que ele conheceu
Elizabeth.
Marcos acordou mal naquela manhã, talvez não tão mal quanto em
muitas outras. Um amontoado de fragmentos, um resto, um calhamaço de
evidências científicas que não permitiam uma síntese, era alguma coisa assim
acrescida do fato de que dormira pouco. Depois de beber meia garrafa de gim
assistiu Baraka, seu filme preferido pela décima sétima vez e então foi para a
cama e olhou para a mulher que dormia, a calcinha branca aparecia
nitidamente contra a pele negra na semi escuridão do quarto, tirou lentamente
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a peça de roupa branca e sentiu o odor acre do sexo da mulher que acordou a
aconchegou-se a ele, virando o rosto para o lado ao sentir o hálito forte de
álcool. Transaram e em alguns minutos ele teve um orgasmo insípido com o
cheiro do suor dela provocando-lhe náuseas. Eram duas horas da manhã, ele
adormeceu em seguida e sonhou que era menino na casa de seu pai, que
alguém o chamava lá no portão, gritava seu nome num tom de voz angustiado,
era a menina do outro lado da rua que ele amava secreta e intensamente.
Acordou sobressaltado, a mulher dormia pesadamente a seu lado e alguém
batia no vidro da janela da sala dizendo: “são oito horas, vamos levantar bando
de bicho preguiça”, reconheceu a voz do vizinho, Paulão, vivia bêbado, mas
era um cara legal, divertido, Marcos sabia que não tinha outra alternativa,
levantou-se praguejando e abriu a porta.
- Que que há Paulão, isso é hora de estar incomodando os vizinhos?
- Ô figura, isso é jeito de tratar um camarada?
- Camarada nada, o que que você quer? – Marcos não sentia raiva,
fingia, do contrário o vizinho poderia não sair dali antes do almoço, o que
acontecia com certa freqüência.
- Pô meu irmãozinho, só tava no barato de tomar um cafezinho ...
Deixando a porta aberta Marcos foi até a mesa e sentou-se, apontou para a
garrafa de gim e disse: “Tá aí o teu café, vai fundo que eu vou tomar um banho.
Após alguns minutos saiu do banheiro e foi para o quarto, acordou Odete, sua
mulher dizendo: “teu amigo Paulão taí, faz um café pra nós” – ela resmungou,
bocejou e esfregou o rosto enquanto dizia: “o que que esse diabo quer já cedo,
aposto como passou a noite na gandaia de novo.”
- È isso aí minha irmãzinha, você tá por dentro – disse Paulão lá da sala.
Odete levantou-se e parou por alguns momentos nua em frente ao guarda
roupa, tinha vinte e sete anos e um corpo bonito. Marcos olhou para suas
nádegas bem feitas e pensou: “È por causa dessa bunda que eu to casado até
hoje.” Depois de tomar uma xícara de café e empurrar Paulão para fora Marcos
saiu do condomínio e sentou-se num banco da praça no outro lado da rua.
“mais uma enorme e viscosa manhã de sábado, o que eu vou fazer hoje?” À
noite iria com Mauricio até a casa de Roberto como geralmente faziam nos
sábados, mas até lá teria que fazer aquele dia passar o mais depressa
possível. Acendeu um cigarro e atravessou a praça com lentidão, com
preguiça, completamente indeciso sobre que direção tomar. Pensou em voltar
mas qualquer coisa era preferível a ficar em casa as amigas de sua mulher que
logo invadiriam o apartamento para ficar bebendo cerveja e ouvindo aqueles
detestáveis cd’s de pagode, enquanto falavam da vida dos outros, reclamavam
dos maridos e riam alto por qualquer besteira parecendo um grupo de
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prostitutas numa noite de festa. Continuou andando sem saber para onde ir.
Cruzou a João Bettega e passou ao lado da firma onde trabalhava há mais de
dez anos, onde apodrecia como costumava dizer em alguns momentos de
revolta. Não gostava do que Fazia mas fazia-o bem e ganhava relativamente
bem. Tinha lá seus colegas com quem saía às vezes para umas noitadas e
barzinhos, mas era uma pessoa responsável e sabia economizar. Mantinha,
escondido da mulher, uma conta num banco onde conseguira reunir uma soma
razoável que não sabia exatamente como empregar, hesitava entre comprar
um carro ou dar entrada em uma casa pensando na separação que vinha
adiando ano após ano. Olhando para o enorme edifício de metal e vidro ele foi
descendo uma ruazinha deserta que ia para os lados do Barigui. A uns cem
metros a sua frente havia uma fábrica de artefatos de concreto com uma longa
cerca de arame farpado à sua volta e escondida parcialmente por enormes
manilhas empilhadas umas sobre as outras. No alto de uma dessas manilhas
havia uma mulher sentada, num gesto mecânico ele atravessou a rua para
poder observá-la mais de perto. Usava jeans, sandálias e uma camiseta
branca, tinha os cabelos compridos e lisos e abraçava os joelhos dobrados.
Marcos passou em frente a ela que olhou-o com um sorriso cansado que ele
tomou por tristeza e que por um momento pareceu tirá-lo do imenso e profundo
torpor no qual vinha vivendo. Sorriu também e aproximou-se pensando em algo
para dizer. Teria uns vinte anos e pareceu-lhe bonita.
- Você tem um cigarro? – ela perguntou.
- Tenho. – ele respondeu esticando-se todo para passar o maço de
cigarros para ela que riu descontraidamente da careta de esforço que ele deve
ter feito. Marcos percebeu que a garota tinha vários dentes cariados e não
pôde evitar um certo descontentamento ou contrariedade, deu alguns passos a
esmo tentando não pensar naquele “detalhe insignificante” e então olhou
novamente em sua direção e viu-a tirar um isqueiro do bolso traseiro da calça.
Observou curioso a displicência dos gestos dela enquanto seu olhar perdia-se,
vago e distante, em algum lugar no horizonte próximo, feito de grandes
telhados, galpões e depósitos das fábricas que os rodeavam. Marcos pegou a
carteira de cigarros que ela lhe devolveu e pensou em ir embora apesar do
incipiente interesse que aquela menina de ar solitário lhe despertara. Ia afastarse
já quando ouviu a voz dela perguntando:
- Why are you suffering so much?
Por alguns segundos sentiu-se novamente livre de seu embotamento mas para
agora pairar numa bolha de silencio cruciante onde reverberavam ainda as
últimas palavras que tinha ouvido.
- Desculpe, o que você disse? – Ele falou ligeiramente aturdido pelo
inusitado da pergunta.
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- Eu perguntei porque você tá sofrendo tanto? – ela respondeu olhandoo
diretamente nos olhos.
Marcos sorriu, abaixou a cabeça refazendo-se de seu ligeiro descontrô-le,
firmou os pés novamente na dureza de sua indiferença e solidão e já sem o
menor traço de comoção em seu rosto, falou:
- Eu saquei o que você quis dizer, é que ... o teu inglês é muito bom!
- Inglês? – Ela perguntou fazendo uma careta de estranheza, pensou um
pouco, com umas rugas precoces desenhando-se em volta dos olhos e
continuou
- Só o que eu sei falar em inglês é “how are you?”, “good morning” e
mais umas coisinhas desse tipo – disse com uma risadinha divertida.
Ela dizia “inglêis” e toda sua pronúncia destoava horrivelmente da
perfeição com que ele julgara ter ouvido aquela primeira pergunta. Resolveu
não pensar no assunto. “Eu devo ter viajado ou ela ta tirando uma onda com a
minha cara, mas dane-se ... o que importa é que a pergunta foi feita.”
- Porque você acha que eu tô sofrendo?
- Dá pra ver na tua cara! – ela respondeu acendendo o cigarro. Marcos
não gostou de alguma coisa naquela resposta, a rudeza da expressão “na tua
cara”, talvez, ou o tom extremamente casual com que ela foi formulada, não
sabia, mas sentiu vontade de dizer-lhe algo desagradável. Ultimamente não
sentia o menor desejo de ser agradável ou educado com ninguém, fazia nesse
sentido somente os esforços mínimos necessários para manter seu emprego.
- Pode ser só ressaca e saco cheio ... e você também não está com uma
cara muito boa – disse Marcos sem conseguir colocar nessas palavras a
aspereza desejada. Ela soltou a fumaça do cigarro para o alto e depois virou o
rosto em sua direção sorrindo compassivamente para ele sem nenhum
constrangimento em mostrar os dentes estragados. Marcos notou então que
ela tinha olheiras e que seu olhar era direto e perscrutador sem ser frio ou
agressivo, ao contrário, era uma invasão pacífica que à menor resistência
desviava-se calmamente, era desconcertante sem a menor intenção de sê-lo.
Ele viu também um sofrimento muito grande vagando naqueles olhos
tranquilos, um sofrimento límpido e verdadeiro, muito maior que o dele que
ficava reduzido a meros lamentos de alguém que não sabe o que fazer da
própria vida, que não tinha a intensidade daquilo que ele adivinhou nela de um
momento para o outro: uma pessoa suportando a adversidade sem nenhuma
afetação, sem o auxílio da poesia, literatura ou qualquer outro instrumento,
digerindo-a simplesmente como uma erva amarga que temos de engolir para
continuarmos vivos. Marcos intuiu tudo isso em poucos segundos e o resultado
é que ficou desarmado, sentiu-se deslocado, suspenso, vencido. Sua mente
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célere não procurou defender-se, submeteu-se àquele sorriso. “Teus olhos
estão cheios de visões noturnas”, lembrou do poema que tinha lido dias atrás,
“visões noturnas ... e no teu rosto ... e em teu rosto ... e em teu rosto afloram
lado a lado, a aflição e loucura, frias e soturnas ... é isso aí.
- Pode ser – respondeu a moça depois de um longo intervalo. Marcos
olhava-a fixamente, ela tinha o nariz um pouco achatado, não usava brincos ou
anéis, nenhum adorno, tinha o rosto limpo e isso o agradou, já não queria mais
ir embora, achou-a ainda mais bonita.
- Bom, não tem nada a ver – disse ele querendo se redimir de sua
grosseria – eu realmente não tô vivendo uma fase legal.
- Tudo bem, minha cara não deve estar muito boa mesmo – disse ela
demonstrando um ligeiro embaraço que o fez sentir-se culpado e miserável –
deixei meu irmão dormindo e ... acho que tá na hora de chegar e começar a
lidar com o almoço, eu ... não dormi muito essa noite.
- São só nove e meia – diz Marcos olhando para o relógio e com uma
ligeira agitação na voz – você mora aqui perto? – Falou sem pensar, não
querendo que ela fosse embora.
- Moro aqui na Conquista – ela respondeu ficando em pé sobre a
manilha, depois virou-se e segurando-se na estaca de concreto da cerca atrás
dela, desceu apoiando os pés no arame farpado. Saíram andando juntos
descendo a rua ainda tranquila.
- Você falou de um irmão pequeno ...
- Não, não é pequeno – disse ela rindo – ele tem dezessete anos.
- E teus pais?
- Meu pai morreu tem uns dois anos e minha mãe mora na praia, em
Guaratuba, ela tá tocando um bar com o novo marido dela – disse a palavra
marido num tom claramente irônico. Marcos perguntou o nome dela e ao ouvila
responder que se chamava Elizabeth lembrou do sonho que tivera naquela
noite, o nome era o mesmo do de sua amiga de infância que morava do outro
lado da rua. Isso pareceu-lhe mais do que uma simples coincidência, por
alguns segundos ele acreditou ou quis muito acreditar que aquele encontro
tinha algo de especial, sim, talvez a longa rotina estivesse para ser quebrada. A
súbita empatia que sentira por aquela menina agora o envolvia completamente.
A serenidade dela era uma ameaça à couraça existencialista com a qual ele
protegia-se mas isso já não o incomodava, sentia-se estranhamente tranquilo e
inexplicavelmente apto para conversar, para expandir-se ou retrair-se em seus
pensamentos sem deixar-se afetar por uma ocasional alucinação auditiva, uma
palavra áspera, um olhar inquietante ou o que quer que viesse dela.
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- Minha mãe morreu quando eu era pequeno – Marcos falou isso num
tom indiferente olhando para as águas sujas do Barigui enquanto atravessavam
a ponte, depois olhou para ela e perguntou:
- Como é que você encarou a morte do teu pai?
- Numa boa, a única coisa decente que ele fez foi morrer ... depois de
atormentar todo mundo a vida toda pegou câncer no pulmão, chorou, pediu
desculpas e morreu em menos de um mês.
- Ele bebia?
- Bastante.
- E tua mãe?
- Ela não tava nem aí, vivia transando com outros caras e apanhando
dele ... ele era forte, até que morreu depressa.
A história não o comoveu, e era assim que tinha de ser. “The first cut is
the deepest.” Pensou ele, vendo uma relação qualquer entre o que ouvira e a
musica do Cat Stevens. Ela também não parecia comovida.
- Meu pai ta vivo ainda, é um cara legal apesar de tudo, mora sozinho lá
no Pilarzinho, tem gota mas não larga da cachaça, acho que vai morrer logo...
O barulho dos carros e caminhões interrompeu a conversa quando
aproximaram-se do contorno sul. Atravessaram as duas vias da Juscelino e
chegaram na entrada da vila Conquista sem falar nada. O sol era pesado e
atordoante, Marcos passava as mãos na testa e remexia os cabelos suados,
olhava agora ocasionalmente para Elizabeth, acostumado já com sua
presença, aliás, sob aquele céu azul ofuscante, com o asfalto soltando vapores
que distorciam a visão ele sentiu como se a conhecesse há muito tempo. Via-a
empurrar de vez em quando os cabelos para trás da orelha e secar com a
manga da camiseta uma ou outra gota de suor que lhe escorria pelo rosto,
parecia não ser afetada pelo calor asfixiante.
Pararam numa lanchonete de aspecto pobre e decadente com algumas
pessoas bebendo cerveja e um ou outro cachaceiro entornando sua 51. Marcos
convenceu-a a descansarem um pouco, pediu uma “gelada” e retomaram a
conversa.
- Você tá com pressa?
- ...não, eu só to um pouco preocupada com meu irmão mas deve estar
tudo bem.
- Algum problema com ele?
67
- É.…ele tá cheirando muito e começou a tomar baque faz um mês.
Eu...ele tava com uns amigos lá em casa e eu não conseguia dormir com o
som alto e a conversa deles, então saí, eram umas cinco horas – ela falou com
a cabeça baixa, olhando para os pés empoeirados, aparentando não importarse
como ele entenderia tudo aquilo.
- Que braba, se você quiser a gente pode ir lá dar uma olhada – Marcos
falou isso de maneira automática, como se fosse a coisa mais correta a ser
feita, sem pensar nas consequências, agia assim muitas vezes e em várias
ocasiões arrependia-se depois. Ela ouviu a resposta dele e levantou a cabeça,
mirou-o novamente, em seus olhos havia um misto de incredulidade e
desconfiança.
- Ele deve estar dormindo agora mas mesmo assim eu não quero
demorar muito.
- Você é casado? – Ela passou de um assunto para o outro da mesma
maneira como desceu da manilha onde estivera sentada, com rapidez e
desenvoltura.
- Sou – respondeu Marcos sem hesitar.
- Tem filhos?
- Não, e você?
- Não, não tenho filhos e não sou casada – ela riu e bebeu metade do
copo de cerveja.
- Isso é bom – disse Marcos sorrindo, você é jovem ainda, deve ter no
máximo vinte anos!
- Vinte e um, e você fala como um coroa só que não deve ter mais que
trinta.
- Obrigado, tenho trinta e quatro, já sou um coroa, depois dos trinta todo
mundo é.
- Bom, eu não acho, e quem tem mais de quarenta é o que?
- Depois dos quarenta a gente é maduro, uma palavra sem graça, depois
dos cinqüenta somos velhos. Essa é a minha classificação, bem resumida,
existem uns estágios intermediários. No meu caso em particular acho que vou
ficar velho antes de ficar maduro.
- Pode ser – disse ela com um sorriso divertido sentindo que era bom
conversar com alguém diferente – acho que isso acontece com um monte de
gente.
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Tomaram mais uma cerveja e conversaram sobre futilidades e ele
percebeu que em certos momentos os olhos dela apagavam-se, perdiam o
brilho, tornavam-se olhos comuns, ela toda tornava-se comum parecendo
somente mais uma pessoa cansada em meio a milhões de pessoas cansadas.
Levantaram-se e começaram a andar em direção à casa dela.
- Eu trabalho na Berneck, na limpeza, tem uns três anos – ela dizia
respondendo a uma pergunta dele. Gosto de andar, ando bastante apesar de
não ter muita coisa pra ver aqui por perto, às vezes vou até o Tropeiros ou até
o Passaúna. Quando sobra uma grana gosto de ir no cinema, aliás acho que é
isso que eu mais gosto de fazer. Eu esqueço tudo quando to no cinema...e
quando o filme é bom a gente saio se sentindo diferente...com uma coisa boa
no peito, como se o mundo não fosse um lugar tão cavernoso, quer dizer...não
tem nada a ver – ela riu meio constrangida – o mundo é bonito, é bom, eu
acho, mas é um lugar onde todo mundo sofre, sei lá, só tô falando besteira –
disse ela rindo novamente mas agora sem nenhum constrangimento,
completamente a vontade de novo.
- Não, não é besteira, você tá certa, é isso mesmo, o mundo é um lugar
incrível, nós é que criamos lugares horríveis como esse – fez um gesto com a
mão querendo abranger tudo a volta deles – e fazemos da vida uma coisa
complicada, tenebrosa.
Marcos teve consciência do terrível lugar comum, da banalidade do que
dizia, mas estava empolgado e não se importou. Ouvi-la divagando e falando
aquelas coisas de maneira tão espontânea despertou nele o desejo de filosofar
em voz alta. A cabeça encheu-se de idéias, as mesmas velhas e gastas idéias
que adquiriam vida por um momento. Sentiu vontade de começar a falar mas
não sabia exatamente como fazê-lo, tinha percebido que ela era inteligente, ou
melhor, tinha aquela inteligência inculta, viva e flexível que muitas pessoas
simples tem e valia-se disso para ordenar as coisas dentro dela , para suportar
as loucuras do mundo, para sobreviver nele. Quis falar para ela dos Vedas, da
era das desavenças e hipocrisia, quis falar de Kafka e Dostoievski, seus dois
grandes mestres na arte do sofrimento, quis perguntar sobre os filmes que ela
já vira, desejou assistir Baraka com ela enquanto ouviam Cat Stevens, mas
tudo morreu de repente dentro dele, como vinha acontecendo com as coisas
boas que ele sentia nos últimos tempos, ocupavam seu espírito por alguns
segundos ou minutos e no instante seguinte tudo tornava a cair na indolência
fria e negra.
- Às vezes eu penso em ir morar no litoral – foi o que acabou dizendo –
Floripa de preferência, viver na beira do mar.
- Eu também penso nisso, ter uma casinha perto da praia, um trabalho
qualquer que desse pra viver...só isso, mas é só alugação.
69
Silenciaram novamente, a casa dela ficava no ponto mais alto da vila, à
medida em que caminhavam podiam ver os conjuntos da Cohab espalhados
mais à frente, um trecho pequeno do parque dos tropeiros e mais ao longe um
pouco do verde das bandas do Passaúna. Do lado oposto estava todo um
enorme pedaço da Cidade Industrial incendiada pelo sol. A Conquista parecia
um morro do Rio de Janeiro, um favelão semi-asfaltado que misturava casas
de alvenaria relativamente boas e limpas, sobrados quadrados horríveis e um
sem fim de casinhas miseráveis, sujas, inacabadas, com suas lajes à mostra e
paredes mal rebocadas sem calfino. As ruas estreitas de saibro eram longas e
acidentadas indo em linhas retas morro acima, apinhadas de crianças e
cachorros, pessoas paradas conversando e pessoas de bicicleta saindo e
chegando sem parar.
Ao dobrarem a esquina rua onde ela morava viram, ao mesmo tempo,
uma viatura da PM parada no meio da rua com as portas abertas e um grupo
de pessoas espalhadas ao redor, Elizabeth fez uma careta como se estivesse
sentindo uma pontada de dor e apressou o passo, Marcos acompanhou-a
sentindo uma onda de fastio muito grande espalhar-se dentro dele. “Era óbvio,
estava faltando alguma coisa desse tipo, o dia não podia acabar um pouco
melhor, será que nem um único dia pode escapar da merda habitual? Um
policial que estava no portão parou-a e começou a conversar com ela, já a
conheciam, sabiam que ela fazia o possível para controlar o irmão que já havia
sido preso duas vezes. O oficial até que foi delicado e procurou prepará-la o
melhor que pôde antes de dizer que o o rapaz havia morrido. Marcos olhou
para o policial e para Elizabeth alternadamente e não percebeu nenhuma
mudança expressiva no rosto dela. Claro, ela deveria saber que isso
aconteceria mais cedo ou mais tarde. Entrou com ela na casa e viram o corpo
no chão, a cabeça encostada no sofá fazia o queixo tocar o peito. A camiseta
sem mangas deixava ver os braços marcados pelas picadas.
Ela aproximou-se e ficou olhando o corpo estendido sobre o tapete velho no
centro da sala pequena, além do sofá havia somente um armário antigo
encostado na parede oposta sobre o qual estava um garrafão de vinho quase
vazio, a luz do sol incidia com força sobre a morte e a pobreza ali instaladas. A
moça ajoelhou-se ao lado do irmão passou a mão em seus cabelos e as
recordações vieram, numa minúscula tela em sua mente imagens começaram
a brotar em profusão, em seu espírito largas janelas abriram-se. Viu o pai, um
polaco enorme, feio e forte, sempre reclamando, virando a mesa, jogando
pratos de comida na parede, quebrando coisas; a mãe praguejando e
ameaçando ir embora, quebrava coisas também, levava tapas e socos que a
jogavam no chão. Ela e o irmão escondiam-se no quarto, parecia que toda sua
infância fôra feita disso e culpava o pai por tudo, por todos aqueles anos de
miséria e sofrimento e também pelo que estava acontecendo agora. Reservava
para a mãe, sem saber exatamente porque, uma parcela de culpa bem menor.
Uma lembrança muito forte que ficara de tudo aquilo era a visão dos olhos
70
assustados de seu irmão, era uma criança nervosa e quieta, ou melhor, imóvel,
emperrada, que falava pouco. Anos mais tarde ele tinha os olhos inquietos,
mas não se via neles mais nenhum sinal do desespero vivido, aliás não se via
quase mais nada neles, a não ser, em muitos momentos, raiva e tristeza.
Marcos observou-a enxugar rapidamente uma lágrima com a manga da
camiseta da mesma maneira como fizera com as furtivas gotas de suor. Aquela
lágrima foi a única. Ela sentou-se no sofá com o olhar nublado fixo no tapete e
ele ficou para em pé próximo à porta pensando por longos minutos no absurdo
da sua situação, acusou-se de egoísta por não estar compartilhando o
sofrimento de sua nova amiga mas a verdade é que não estava sentindo nada,
não conseguia pensar em algo para dizer ou fazer. Quando viu que duas
vizinhas entravam pelo portão desceu os dois degraus da escada e
interceptou-as no meio da calçadinha estreita dizendo que sua amiga queria
ficar um pouco sozinha, voltou para dentro e, um pouco rígido e constrangido
ajoelhou-se ao lado dela pegando em sua mão que estava inerte sobre o
joelho.
- Tá tudo bem com você? – Perguntou - ...eu sei que não é fácil, mas a
gente precisa fazer alguma coisa.
- Fazer o que?
- Você sabe- disse Marcos meio sem jeito – cuidar do corpo, enterro,
essas coisas, eu posso te ajudar...voce quer chamar alguém, algum parente?
Vocês tem terreno em algum cemitério? eu posso ajudar com as despesas se
você precisar.
- Tem o terreno no Santa Cândida onde meu pai foi enterrado, mas eu
não sei...eu tenho que ligar pra minha mãe.
A mãe foi chamada e apareceu algumas horas depois. Graças à
intervenção do citado oficial de polícia o enterro foi realizado no mesmo dia e
Marcos manteve-se ao lado de Elizabeth o tempo todo, ajudou-a a limpar e
vestir o corpo, acompanhou-a à funerária, ao cartório e ao cemitério. Ela
manteve-se calada, mas sem aparentar tristeza, respondendo sempre
prontamente às perguntas e prestando as informações necessárias de maneira
clara e precisa. Pelas seis horas da tarde voltaram para a vila, o sol
enfraquecido ainda fazia Marcos suar, ele estava cansado e com muita vontade
de beber alguma coisa, mas foi com ela até a porta de casa, a moça disse que
a mãe voltaria para a praia no dia seguinte e pediu que ele viesse então para
conversarem, disse que gostaria muito de voltar a vê-lo. Marcos garantiu que
voltaria e sentiu vontade de abraçá-la, mas há muito tempo não aproximava-se
de alguém com um gesto afetuoso, estava desabituado e não conseguiu fazêlo.
Acariciou o ombro dela, apertou sua mão e desceu a rua em direção ao
ponto de ônibus como se estivesse com pressa.
71
No final da tarde modorrenta que um vento leve começava a tornar
suportável Marcos chegou à casa de Roberto no Tatuquara. Encontrava-se
num estado de espírito que não conseguia definir, teimava em achar que
aquele tinha sido somente mais um dia miserável ou mais um sábado inútil mas
parecia haver algo no insólito\comum dos acontecimentos que fazia daquele
um dia diferente, sentia-se como se lhe tivessem tirado algo. Enquanto olhava
para o horizonte ainda manchado de um rosa pálido via as torres da refinaria
da Petrobras com seus jatos de fogo, lançando gases e uma fumaça negra que
tingia o céu escurecendo tudo mais depressa fazendo lembrá-lo da cena inicial
de Blade Runner. O ar era pesado e o vento vinha carregado do cheiro horrível
da Cocelpa, a fábrica de papel, um verdadeiro monstro de ferro uma explosão
contínua de barulho, fumaça e mal cheiro. A lembrança de Elizabeth e a
imagem do rapaz morto pareciam estar impregnados em sua mente e em sua
alma. Ao aproximar-se da casa pôde ouvir o violão que Mauricio tocava e a voz
de Roberto cantarolando “Angel flying too close to the ground” e convenceu-se
então de que havia sido arrancado de seu torpor, algo havia definitivamente
atravessado a couraça da indiferença. Eram seus amigos que estavam ali, era
somente mais uma noite em que beberiam, ouviriam musica e falariam muito,
mas Marcos percebeu o quanto precisava disso e sentiu ao mesmo tempo o
quanto gostaria de estar com Elizabeth, de passar essa noite com ela,
conversando, confortando-a, cuidando dela. Uma vaga vontade de chorar
cresceu repentinamente provocando dor em sua garganta e seus olhos
arderam com o esforço que fez para conter as lágrimas.
II
Mauricio estava em seu escritório, a camisa aberta deixava à mostra o
peito sem pelos e a barriga volumosa. Fazia contas manuseando notas fiscais
e orçamentos. Tinha tido um físico bem definido mas engordara bastante desde
que deixara de fumar quando do nascimento de seu filho mais novo há quatro
anos. Nunca fora um homem atraente e isso nunca o incomodara, mas agora
sentia-se desconfortável, remexia-se na cadeira e suava sentindo repulsa pelo
calor sufocante e por seu próprio corpo pesado, mole e viscoso, queria não
prestar atenção ou não se deixar afetar por nenhum deles mas era impossível,
os dois se impunham e o torturavam. Relacionava diretamente o fato de ter
engordado com o que lhe acontecera no ano retrasado, ou melhor, com o que
acontecera a seu casamento.
72
Era uma pessoa simples, dos três amigos ele era o mais “família” e o
único que tinha se dado bem financeiramente com seu negócio de
aquecimento solar. Aprendeu tudo sobre o ramo trabalhando muito tempo
como empregado numa empresa da cidade industrial onde ele trabalhava na
época, depois começou como autônomo e agora tinha sua própria firma com
mais de dez empregados e uma boa casa no Campo Comprido num dos
pontos mais tranquilos da Eduardo Sprada. Depois daquela fase de loucura da
mochila nas costas e maconha na cabeça engravidou uma namorada e casouse
com ela e o que é pior, começou a gostar muito dela. Cinco anos mais nova,
Eunice era uma menina magra e alegre, depois de dez anos e três filhos
perdeu um pouco da magreza e bastante da alegria, transformou-se numa
dessas donas de casa maníacas por limpeza, cheia de fantasias estúpidas e
desejos reais não satisfeitos, frustrados pelo casamento precoce. Nunca
sentira nada de especial por Mauricio, nem mesmo a gravidez inesperada fez
com que ela desejasse casar com ele, mas as alternativas não eram muitas,
ainda mais com pais evangélicos ferrenhos. Mantinha a casa, os filhos e o
marido impecavelmente limpos, uma pequena mácula em qualquer um deles
era o suficiente para que os aterrorizasse e aos vizinhos com gritos
esganiçados e imprecações terríveis. Fumava duas carteiras de cigarro por dia
e era mal-humorada a maior parte do tempo. Mas Mauricio a amava, ou talvez
fosse melhor dizer que gostava dela mesmo assim, ao menos sentia um desejo
muito grande por ela. Tiveram seus bons momentos. Quando saíam a passeio
nos fins de semana, quando recebiam parentes ou amigos para o almoço num
domingo ela recuperava um pouco da jovialidade e alegria perdidas, Mauricio
gostava de vê-la então, mais solta e comunicativa e quando estava na cama
com ela sentindo seu cheiro e sendo acariciado por aqueles dedos finos e
quentes todos os defeitos desapareciam.
Nas conversas com Roberto e Marcos ele não cansava de elogiar os
encantos físicos da esposa, falava da “bundinha pequena mas redonda e firme
e os seios alvos de bicos róseos, coxas fortes cobertas por uma camada de
minúsculos pelinhos translúcidos”. Mauricio era eloquente por natureza a
despeito de sua falta de cultura, mas a verdade é que tinha espírito e seus
discursos não eram desprovidos de um humor peculiar que divertia as pessoas.
Com os amigos essa verve humorística intensificava-se e expandia-se em
expressões desusadas ou estereotipadas como “certa feita”, “com mil
demônios” ou “ocorreu-me outro dia algo deveras curioso” que ele empregava
para contar com sua voz anasalada um incidente qualquer de sua semana de
trabalho ou para tecer considerações sobre o assunto em discussão.
Gesticulava bastante num momento para imobilizar-se completamente no
outro, recomeçando a falar com trejeitos e malabarismos fisionômicos que
literalmente deliciavam seus ouvintes fazendo-os rir “às bandeiras
despregadas”. Não havia terminado o ensino fundamental mas estava
constantemente procurando aperfeiçoar seu vocabulário e aumentar seus
73
conhecimentos, uma pena que, empenhado a maior parte do tempo com seu
trabalho, seus esforços nesse sentido ficassem reduzidos a consultas
esporádicas a uma edição do Aurélio de 1986 e alguns volumes do almanaque
abril que ele lia no banheiro. Foi assim que descobriu um dia o significado do
termo “vulva”, o qual passou a usar então ao exaltar os predicados anatômicos
de sua mulher, assim, no lugar dos termos antigos usados para descrever o
genital feminino, dizia agora: “a vulva de minha esposa” e descrevia-a com um
ardor tão grande que provocava verdadeiros acessos de riso nos amigos.
- Essa deve ser realmente uma vulva e tanto – dizia Marcos quando
conseguia parar de rir.
- É especial mesmo – continuava Mauricio calmamente – nada daquele
monte de pentelhos retorcidos que ficam encravados nos dentes da gente ou
vão parar lá no fundo da garganta, só pelinhos lisos sempre bem aparadinhos e
nada de lábios carnudos feito gomo de laranja baiana, são lábios finos e
delicados cheirando, quase sempre, à romã madura – parava de falar e punha
no rosto um ar embevecido.
Ainda rindo Roberto dizia: você tá deixando a gente curioso, uma vulva
tão especial deve ser apresentada aos amigos.
- Não, Não – respondia Mauricio, imitando a postura de um homem
muito rico que estivesse tentando enumerar suas propriedades sem humilhar
os amigos menos favorecidos – infelizmente as vulvas, ao menos a da própria
esposa, é algo que não se divide nem com os melhores amigos.
Mas os bons momentos vividos com a mulher já eram passado e até
mesmo as reuniões na casa de Roberto não eram mais as agradáveis noitadas
de antes. Mais ou menos dois anos atrás havia ido ao litoral supervisionar um
trabalho. Eram comuns essas viagens. Saíra na sexta para voltar no domingo,
mas voltou no sábado e flagrou a mulher transando com outro na sala. Nunca
desconfiara de nada, abriu a porta e deu de cara com a mulher tentando
esconder a nudez com uma almofada e o cara correndo atrapalhado atrás de
suas roupas espalhadas pelo chão. Mauricio manteve o sangue frio e foi
aquela, na sua própria opinião, a última vez que agiu como um homem de
verdade. Deu duas voltas na chave da porta, colocou-a no bolso e foi até a
cozinha. Pegou uma vassoura e desatarraxou-a ficando só com o cabo na
mão, voltou para a sala no momento em que o outro acabava de vestir as
calças e a mulher, ainda nua, tentava abrir a porta, debatendo-se nervosa e
assustada, com um molho de chaves na mão. Mauricio acertou alguns golpes
nas costas e pernas do cara até o cabo quebrar-se e o cara sair correndo ao
ver a porta aberta, era um rapaz de dezoito a vinte anos. Eunice ficou parada
na porta, trêmula, esperando sua vez de apanhar, mas Mauricio largou o cabo
de vassoura e caminhou até ela que encolheu-se contra a parede; ele fechou a
porta novamente enquanto ela escorregava para o chão. Levantou-a puxando74
a pela mão e então com uma raiva à qual misturava-se um outro sentimento
nunca sentido antes começou a bater-lhe no rosto, tapas pesados e bem
colocados, empurrou-a até o sofá e deixou-a cair ali ficando um minuto a
contemplar o corpo que até então tinha sido só seu, mas afastou-se já em
seguida ao ver restos de esperma manchando a vulva tão decantada.
Perguntou pelas crianças e ouviu-a responder em meio a gemidos e soluços
que elas estavam na “casa da mãe”.
Nos dias subsequentes ele trabalhou como um autômato, sem conseguir
pensar com clareza, passou várias noites fora de casa sem conseguir tomar a
decisão de separar-se dela, de expulsá-la de casa. Trabalhava cada vez mais
para poder pensar cada vez menos, mas os intrincados mecanismos dos
pensamentos e dos sentimentos continuavam operando silenciosamente no
fundo da sua dor e de seu cansaço. A ação desses mecanismos levou-o a
fazer várias descobertas. Foi lentamente e com muito sofrimento
conscientizando-se de muitas coisas a respeito de si mesmo e da natureza
humana sobre as quais nunca cogitara, ou melhor, nas quais sua mentalidade
simples nunca fora obrigada a penetrar, ao menos de maneira tão direta, tão
drástica. A primeira coisa que descobriu é que era um grande panaca que não
conseguia tomar decisão nenhuma. Saía do trabalho e voltava para casa, é
claro, tinha que voltar, todo homem decente volta para casa depois do trabalho,
principalmente se tiver filhos. Obviamente que você pode sair tomar tua
cachaça com os amigos e chegar tarde uma vez ou outra, mas a regra, a lei,
para um homem de verdade, é voltar para casa. E Mauricio sempre havia se
considerado um homem de verdade, mas agora sua mente rústica começava a
pensar no que era realmente ser um homem, sua alma simples começava a
questionar-se.
Por mais de um mês Eunice manteve um ar culpado de vergonha e
submissão, depois começou a levantar o queixo e a comportar-se novamente
como a dona da casa. Mauricio mal falava com ela, numa atitude de hostilidade
muda sob a qual escondia sua tristeza atroz e toda uma carga de sentimentos
novos e contraditórios. Os gritos dela com as crianças, aqueles gritos agudos e
estridentes que antes somente lhe doíam nos tímpanos, agora tocavam um
ponto qualquer dentro dele difícil de precisar, algum lugar perto dos intestinos
ressecados, ou talvez diretamente no estômago onde uma gastrite ardia
produzindo uma raiva surda e intensa contra ela. Falava somente com as
crianças como se a mulher não estivesse presente e passava em casa o menor
tempo possível, mas muitas vezes, raiva, tristeza e impotência mescladas
transformavam-se numa massa escura e viscosa que ele não conseguia
esconder. Eunice, como faria qualquer outra mulher em situação semelhante,
soube utilizar muito bem esses sinais de fraqueza. No mês seguinte ele ainda
não retribuía os bons dias e ois que ela lançava com um sorriso furtivo, mas
respondia com monossílabos e em tom grosseiro e indiferente as perguntas e
75
pedidos referentes a ordem doméstica. Ela entrava em detalhes forçando
respostas maiores e aproveitava todas as oportunidades para, na presença
dele, sair do banho enxugando os cabelos deixando partes do corpo
descobertas, ou ainda, simplesmente indo nua para o quarto. Ele dormia no
quarto vago nos fundos da casa mas tinham que compartilhar as demais
dependências. Mauricio resistiu mais quatro meses. Transou com uma garota
de vinte e três anos gastando com ela uma soma considerável e teve um caso
rápido com uma cliente também casada. Foi à casa dos amigos mas nunca
abriu-se com eles, bebeu mais do que o costume mostrando-se apático e mal
humorado, sintomas que ele atribuía, sem o estilo cômico que eles tanto
apreciavam, “às pequenas vicissitudes normais em qualquer tipo de trabalho e
toda espécie de casamentos. ” Mas as transas foram coisas passageiras e não
teve o menor remorso, mas também não sentiu-se satisfeito sexualmente ou de
qualquer outra maneira, via que o desejo pela mulher não diminuíra, aliás,
crescia, avolumava-se junto coma massa viscosa que lhe chegava muitas
vezes até a garganta, e tudo isso tinha um gosto muito amargo.
Um dia Eunice saiu do banheiro e abaixou-se para pegar a toalha que
havia “caído” e ele não resistiu, foi até ela e acariciou suas nádegas e beijouas,
beijou a vulva maculada e aspirou seu perfume infernal. Transou com a
mulher novamente e o gosto amargo não saiu mais de sua boca, instalou-se lá
definitivamente. Em menos de um ano ele desconfiou, como qualquer marido
que sabe que já foi traído, dos votos de fidelidade que ela jurara nunca mais
quebrar. Ela já não demonstrava o mesmo entusiasmo e abandonara as táticas
sensuais que usara para atraí-lo. Mauricio fingiu não perceber nada e uma
manhã anunciou casualmente, como de costume, que estava indo para
Londrina devendo voltar somente na noite do dia seguinte. Terminou o café e
saiu, deixou o carro na casa de um conhecido e escondeu-se no mato do
grande terreno baldio que havia em frente à sua casa. Bebeu uma garrafa de
vinho e esperou para confirmar suas tristes e odiosas suspeitas. Não tinha
dúvida nenhuma mas precisava obviamente da confirmação, precisava mais
uma vez, ver com os próprios olhos. Como previu viu-a sair com as crianças
após o almoço, seguiu-os o suficiente para certificar-se de que ela os estava
levando para a casa dos sogros que moravam no Atenas, a poucos minutos
dali. Voltou ao esconderijo com outra garrafa de vinho e ao escurecer observou
um taxi do qual saiu um cara alto que com certeza não era o rapaz da outra
vez.
“Filha de uma puta, piranha, por que tem que ser lá em casa? Não pode
ir dar em outro lugar...cadela safada. ” Mauricio pegou o carro e foi para um
hotel no centro onde bebeu até não aguentar mais em pé, dormiu até a tarde
do dia seguinte e ao voltar para casa engolia a saliva pastosa da ressaca e
sentia um ódio descomunal pela mulher e pelo mundo. Era um ódio imenso
misturado a uma humilhação de idênticas proporções, chegou a imaginar-se
76
matando a mulher e seu amante, era a única reação, a seu ver, capaz de
eliminar, ou ao menos minimizar aqueles sentimentos. Mas sabia que nunca
conseguiria fazer uma coisa dessas, teria que engolir o ódio e a humilhação do
mesmo modo como estava engolindo aquela saliva repulsiva impossível de ser
cuspida, sabia que não iria fazer nada, que era um grande babaca, um fraco,
um merda que continuaria a ser corneado de uma maneira ou de outra pois
não conseguiria ficar longe da mulher. Fechou os olhos à própria vergonha e
deixou que a massa escura e pegajosa o envolvesse completamente. Agiu
como se nem mesmo desconfiasse de nada e viveu dias horríveis, deixou de
analisar a situação ou o que quer que fosse, entregou-se simplesmente e
percebeu, sem susto já, sem surpresa, que o desejo intenso que nutria pela
esposa vinha agora acrescido de elementos novos e perturbadores que ele não
conseguia definir. Passou a transar com ela de maneira quase violenta,
procurando novas posições, querendo penetrá-la o mais profundamente
possível, deixando transparecer, vez ou outra, o desejo de machucá-la. Via que
ela transava procurando dissimular um desinteresse quase evidente, fingia
gozar enquanto ele tinha orgasmos intensos que o deixavam prostrado.
Terminou de colocar seus papéis em ordem e ao levantar-se seu corpo
desgrudou-se da cadeira de couro com um chiado que soou-lhe repugnante.
Ultimamente tudo lhe parecia repugnante, não encontrava prazer em mais
nada a não ser na companhia dos filhos e na consciência de lhes estar
proporcionando com o seu trabalho, uma vida confortável. Sempre fora um pai
dedicado, mas agora seu amor, todo o afeto que pudesse existir dentro dele
estava sendo canalizado para suas crianças, não havia espaço para mais
nada, para mais ninguém. Passava a maio parte de seu tempo livre com eles.
Continuava saindo regularmente em suas viagens de trabalho, despedia-se da
mulher com frieza dizendo exatamente o dia e a hora em que voltaria
facilitando as coisas para ela numa espécie de acordo tácito, ela por sua vez
agradecia-lhe beijando-o com pretensa sofreguidão e dizendo que sentiria
saudades. Mauricio olhava nos olhos dela nesses momentos, observava seu
sorriso melífluo e pensava em como alguém poderia ser tão dissimulado,
pensava no porque ela o odiava tanto. Não era tão estúpido que não pudesse
perceber que aquela mulher o odiava mas não conseguia imaginar o que fizera
para merecer esse ódio.
Muita coisa havia mudado no decorrer desses últimos meses, algo
dentro dele começara a revoltar-se com aquela situação, sua conivência gerou
uma espécie de frio, um ódio calculado, que veio gradualmente substituindo as
explosões de raiva de raiva surda e impotente começou a insinuar-se em seu
peito trazendo consigo um sério desejo de dar um fim àquilo tudo. Mais do que
vagos anseios de vingança esse desejo materializou-se numa firme decisão,
num plano bem delineado que ele agora estava em vias de executar. Esse
plano nascera das profundezas de sua humilhação, brotara no silencio das
77
noites insones em que ele contemplava o sono tranquilo da mulher a seu lado
pensando no maldito sortilégio que fazia-o desejá-la ainda. Só podia ser “coisa
feita”, alguma espécie de feitiço sórdido desses que se encomendam nos
terreiros de macumba, não podia ser outra coisa.
Mauricio permaneceu em pé no meio de seu pequeno escritório e sorriu
ao pensar que logo estaria livre, nessa mesma noite iria provar para si mesmo
e para sua “querida esposa”, que ainda era um homem. Havia decidido matála,
ela e seu amante. Estava tudo bem planejado e ele agora antecipava o
prazer que sentiria ao fazer isso, a força e a liberdade que voltaria a sentir
quando ela deixasse de existir. Já não se julgava incapaz de fazê-lo e não
havia mais opções aceitáveis, algo em suas entranhas estava prestes a se
romper, algo que em certos momentos inchava ameaçando obstruir suas
artérias ou impedi-lo de respirar, sua mente cansada e seu espírito abatido e
soturno não viam outra alternativa. Não tinha sido bom para ela? Não a tinha
deixado fazer o que quisesse? É claro que sim, e ela sabia disso, havia feito
muito mais do que um homem bom faria, havia se rebaixado a um ponto
inaceitável pela classe masculina convencional e Eunice em vez de ser
reconhecida e procurar ao menos ser mais discreta, agir no mínimo com um
pouco mais de moderação havia, ao contrário, dado maior vazão a sua
natureza baixa. Deixava pela casa vestígios de seus encontros sem se importar
que até mesmo os vizinhos percebessem. Pois agora essa falta de vergonha
da parte de ambos iria acabar. Mauricio vestiu novamente a camisa e pegou as
chaves do carro, era hora de ir para a casa de Roberto. Havia avisado Eunice
que tinha um serviço em Caiobá e que voltaria somente no domingo a tarde.
Há mais de um mês que não viajava e sabia que ela aproveitaria sem falta a
oportunidade. Enquanto dirigia calmamente em direção ao Tatuquara
imaginava-a levando as crianças para a casa dos pais e voltando para tomar
seu banho e preparar-se para receber o cara alto que chegaria no cair da noite.
“Curta bem tua última noite porque ainda hoje você vai estar sentada no colo
do capeta.” Uma alegria mórbida acompanhava seus pensamentos. Fazia pelo
menos três semanas que não via seus amigos, fizera isso deliberadamente
com a intenção de atormentá-la, ficou em casa nesses dias e deliciou-se com a
agitação dela. Sentava-se na sala com um sanduíche ou pedaço de bolo
deixando intencionalmente cair migalhas no sofá, derramava vinho no tapete
somente para vê-la gritar irritada, fazia guerra de almofadas com os filhos o
que a deixava transtornada de raiva, mas os gritos dela não o incomodavam
nesses momentos, ao contrário, faziam-no rir com um prazer imenso.
Arranjaria para os amigos um pretexto qualquer e sairia perto da meia
noite, entraria em casa e daria o flagrante, faria com que o casal de amantes se
vestisse sob a mira da arma e os levaria até um dos muitos locais ermos à
beira do Passaúna e mataria primeiro o cara, depois faria o mesmo com ela
num ponto mais distante. Voltaria à casa revirando-a toda e levaria alguns
78
objetos de valor que jogaria depois na represa junto com a arma e as luvas que
havia comprado alguns dias antes e então voltaria à casa de Roberto onde
beberia com muito gosto até cair. Tudo lhe parecia muito bem planejado, como
num filme, simples e sem falhas, mas se algum imprevisto acontecesse, se
algum deles tentasse reagir acabaria com tudo na mesma hora e que fossem
todos juntos para o inferno. As crianças ficariam bem com os avós, a casa e a
firma os deixaria garantidos.
III
Roberto sentia-se aos cinquenta e quatro anos como se não tivesse
mais contato com tudo que já tinha sido. Nada mais o ligava a qualquer uma
daquelas fazes em que fôra uma outra pessoa. Havia ainda alguns vestígios do
adolescente tímido e introspectivo, lembrava bem da juventude inquieta e
solitária, turbulenta e insegura que passara imerso em literatura e filosofia e da
qual não sentia saudades, tinha encravadas na alma e no corpo enfraquecido
as marcas de vinte anos de drogas, bebidas e angustia, as lembranças daquilo
que ele chamara de amor não doíam mais. As mulheres haviam passado,
nenhuma ficou, poemas, cartas e contos, fragmentos de romances haviam sido
todos queimados. Do entusiasmo pelas letras e ciências ficara o escombro de
um enorme edifício de informações que continuava se desmantelando com os
anos, não havia parado de pensar, este é um fardo do qual é impossível
desvencilhar-se, mas isso acontecia lá no fundo, inexpressiva e
silenciosamente. Não havia mais a constante autoanálise, só a análise fria e
certeira, rápida e metódica de alguém que sabe que não há nada de novo
debaixo do sol, acabara-se a mortificante preocupação em saber se estava
reagindo à altura às imposições do mundo, do mundo físico que ele habitava,
do belo planeta que dividia com bilhões de pessoas semelhantes a ele, tão
semelhantes que já não lhe despertavam o menor interesse. Vivia, não da
maneira que gostaria ou como havia algum dia idealizado, mas do jeito que
podia e já não importava fazer nada melhor, nada mais do que isso, continuar
vivendo. Cumpria seus compromissos, fiel ainda a alguns princípios que iam se
tornando vagos e impalpáveis, somente os filhos, só para eles abriam-se as
reservas ocultas de um afeto intenso e de um humor contagiante. Tudo aquilo
que tinha tido importância, que extasiara o espírito ou o torturara, eram
recordações desprovidas de emoção. Tudo flutuava num mundo
completamente mental imerso naquilo que ele chamava de melancolia
liquefeita e resignada, uma espécie de dor bem aceita, merecida e bem sofrida.
Estava separado há dois anos, essa separação consumara-se depois de cinco
anos de adiamentos, ameaças, brigas e dores de todo tipo e tinha lhe custado,
além de sérias avarias no sistema nervoso já debilitado, praticamente as
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últimas energias com que ele ainda conseguira representar o papel de um
homem com interesses e objetivos.
Aos trinta e sete anos passara no vestibular e começou o curso de
história abandonando-o depois do segundo ano. Foi quando conheceu Adriana,
professora de história da arte, olhos grandes entre o azul e o verde, inteligente,
culta e dez anos mais velha, ela foi a pessoa com quem teve a relação mais
forte e profunda de sua vida. Tinham afinidade em quase tudo: paixão pelos
livros, ouvido apurado para a música e para o silencio, uma pré disposição
quase mórbida para a insatisfação e a tristeza. Fisicamente as semelhanças
também eram muitas, ela era alta seios e nádegas pequenas e magras como
todo o resto, ele era alto, mais do que ela, igualmente magro e desengonçado,
mas sexualmente também nunca se deu tão bem com alguém. Seus corpos
angulosos uniam-se em cópulas longas e silenciosas onde a tensão puramente
sensual ia se extinguindo aos poucos até restar algo muito mais intenso que o
mero ato sexual, era como o ir e vir de uma substancia densa, mas impalpável
que passava de um corpo para outro preenchendo vazios, expurgando,
depurando energias deletérias alojadas em recônditos de difícil acesso. Aquilo
durava uma hora, às vezes duas, parecendo dois enormes insetos colados um
ao outro, quase imóveis, movimentos lentos e sincronizados que terminavam
geralmente num orgasmo simultâneo que a fazia gemer com uma voz rouca e
grave como se estivesse estertorando enquanto ele terminava num silencio
contido, como se todo o sangue houvesse parado em suas veias e o coração
batesse desesperado para ver-se livre de algo. Roberto sabia que aquilo era
mais do que simplesmente sexo, não sentia atração física por Adriana, sentia
um desejo frio, cerebral, algo bem diferente do que acontecia em relação às
mulheres jovens, cheias de formas e curvas, ou mesmo em relação à sua
mulher com suas nádegas redondas e duras com quem tinha transas rápidas,
quentes e extenuantes.
Desistiu de estudar devido a uma completa falta de animo, não via mais
sentido em continuar com aquilo, pra que? O curso não o permitiria ganhar
mais dinheiro, pelo menos não a curto prazo, só serviria para satisfazer alguns
resquícios de pura vaidade intelectual. Aos quarenta anos sentia-se tão
cansado quanto estaria aos cinquenta quando morreu de câncer no esôfago.
Saiu da faculdade mas continuou com Adriana, engambelando-a, como ela
mesma dizia quando ficava com raiva, enrolando-a com aquela estória de não
poder separar-se por causa dos filhos. “De que adianta ir para o céu se não
posso levá-los comigo?”, dizia ele, irônico, sabendo que escondia-se por trás
de respostas como essa, escondia-se não é bem a palavra pois admitia
abertamente que não conseguia sair de casa sem “uns três tipos de peso na
consciência” e isso devia-se exclusivamente à sua fraqueza. “Não adianta
querer consertar tudo da noite para o dia”, pensou, e durante os quatro anos
seguintes tentou arranjar as coisas o melhor que pôde. Não sabia exatamente
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quais eram os resultados a serem alcançados, o que fez foi trabalhar mais e
melhorar a situação financeira da família, reformou a casa, comprou um carro
para a mulher e então separou-se.
Roberto tinha vivido alguns amores na juventude, mas nada significativo,
usava maconha e chá de cogumelos e disso passou para a cocaína, da qual,
com intervalos mais ou menos longos de abstinência, somente se veria livre
muitos anos depois. Adriana representava o amor, ou o que deveria ser o amor
por uma mulher, algo maduro, completo, sem brechas para pequenos rancores
e discussões fúteis. Era identidade de alma, desejo, entrega, renúncia. É claro
que a despeito de todas as afinidades as diferenças existiam e foram
percebidas; mas eram discutidas e até mesmo elas constituíram um elo a mais
entre eles. As mesmas inclinações que o tornavam um sonhador
desesperançado, fizeram dela uma pessoa prática e objetiva, enquanto ele
cultivava a tristeza e entregava-se à depressão ela fazia análise e combatia de
todas as maneiras a seu alcance o que havia de nocivo dentro dela e à sua
volta. Adriana via que aquele ar melancólico e aqueles olhos que deixavam
sempre entrever uma solidão irremediável faziam parte do encanto que havia
nele, uma pena que ele estivesse deixando as coisas irem longe demais.
Abandonara a faculdade sem dar nenhuma explicação realmente coerente.
Separou-se repentinamente quando ela já não esperava mais que ele
conseguisse fazê-lo, mas quando foram morar juntos na casa dela na Vista
Alegre ela sabia que aquilo não iria durar. A casa bonita e confortável, o lugar
sossegado com uma bela vista para o parque Tingui pareciam não ter efeito
nenhum sobre ele, que passava todo seu tempo livre deitado numa rede,
bebendo e ouvindo música. Parecia alegrar-se somente quando estava com os
filhos que vinham visitá-lo nos fins de semana. Ela ajudara-o a abandonar a
droga e agora tentava fazer o mesmo com a bebida mas não estava
conseguindo. Sofria ao ouvi-lo dizer que não se propunha a mudar mais nada
em sua vida, que as pequenas vitorias que já tinha obtido compensavam esta
última derrota à qual entregava-se conscientemente.
Em mais de um ano e meio o espetáculo das garrafas esvaziando-se e
sendo levada aos sábados pelo caminhão do “lixo que não é lixo” fizeram com
que ela passasse da insistência judiciosa de quem ama aos ultimatos
peremptórios ou desesperados de quem não suporta a visão da destruição do
objeto amado. Foi então que ele dispôs de suas últimas reservas financeiras de
funcionário público e comprou aquela casa no Tatuquara. Aquele amor, ou o
que tinha sobrado dele, tornara-se menos desejável do que a liberdade de viver
ou morrer como bem entendesse, sem nenhuma outra voz a não ser a da
própria consciência a falar mais alto, a incomodá-lo, principalmente quando
vinha acompanhada de soluços e lágrimas, coisa que ele não conseguia mais
suportar sem um embaraço amargo ou um riso escarninho que escondia a
tristeza de vê-la sofrendo. Nos últimos tempos ele até mesmo tentou
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corresponder aos esforços dela para motivá-lo, para tirá-lo de seu ostracismo.
Acompanhou-a a algumas palestras, assistiu a algumas de suas aulas e
visitaram amigos mas tudo aquilo somente o enfastiou profundamente. Já
quase não transavam mais, ele brincava dizendo que estava vivendo uma fase
assexuada onde nem mesmo as insinuantes saias curtas ou calças justas que
evidenciavam belos corpos, chamavam mais sua atenção. Ela brincava
também chamando-o de velho impotente e eles riam juntos e quando acontecia
de terem relações era algo tão mecânico e sem vida que ao terminarem
ficavam ambos com a sensação de que não deveriam nem mesmo ter
começado. Roberto passou a sentir um mal-estar muito grande sempre que ela
o beijava ou abraçava com força por longos minutos, sabia que deveria ir
embora logo, antes que tudo de bom que havia existido, ou que ainda existia
entre eles, se perdesse definitivamente.
Saiu da Vista Alegre para ir morar naquele “fim de mundo” como dizia
Marcos e isso já ia para cinco meses. Sua rotina não mudou, chegava do
trabalho e bebia ouvindo música, à noite, não tendo a visão do parque Tingui
iluminado e além dele as mansões com suas luzes incrustradas no morro
escuro, ele passou a pegar grandes pacotes de filmes tornando-se freguês
assíduo da locadora mais próxima e em pouco tempo a amizade com Ana, a
proprietária, era algo parecido com um namoro. Tinham saído juntos umas
poucas vezes, beijaram-se duas ou três vezes, uns beijos sem calor, sem vida
e foram para a cama uma vez, mas ele não conseguiu transar depois de ter
bebido meia garrafa de whisky. Ela era uma viúva de quarenta anos, uma
pessoa muito simples, ou mais do que isso, tinha algo de uma completa
inocência ou de uma grande estupidez, talvez os dois. Para Roberto isso não
tinha a menor importância, gostava de sua companhia, do seu riso contido, das
suas opiniões sobre os filmes, concisas, para não dizer limitadas e que o
faziam rir; gostava de seu jeito tímido de contar detalhes de sua vida de casada
e dos namoros que tivera depois da morte do marido. Casara-se muito jovem
com um rapaz gorducho e divertido que após quinze anos transformou-se num
grande e apático bovino que despejou nela, com uma regularidade de máquina,
uma quantidade enorme de esperma inútil, estéril, incapaz de fecundá-la ou
mesmo dar-lhe algum prazer. Morreu de infarto deixando para ela a casa e
uma pensão com a qual ela pôde montar seu negócio.
Naquela sexta-feira o “namoro” progrediu um pouco. Roberto chegou na
locadora por volta das oito horas com uma garrafa de vinho e ficou ajudando-a
até fecharem as portas às nove em ponto. Movido mais pela lembrança do
fracasso anterior do que por um verdadeiro desejo, começo a beijá-la com
energia com as desenvolvidas técnicas e perícia e teve uma ereção. Tirou as
roupas dela e livrou-se das suas já sem nenhum receio de ver repetido o fiasco
e transou com ela numa banqueta alta de madeira em frente ao computador,
depois, com a dose certa de força e brusquidão estudadas, a fez levantar-se e
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colocou-a sentada no balcão, segurou-a pelas pernas e penetrou-a novamente
e então ela gemeu baixinho e emitiu pequenos guinchos agudos e longos
fazendo caretas que a deixavam ainda menos desejável. Ele suava
profusamente sentindo o efeito do vinho desaparecer completamente,
continuou até que os grunhidos frenéticos pararam repentinamente, ele relaxou
então e teve um orgasmo lento e frio. Ela sentou-se numa cadeira ao lado
deixando-se invadir por uma lassidão muito grande e ele, sentado na banqueta
ficou olhando para os seios pequenos e caídos e para o rosto dela onde havia
um sorriso mole. Não era uma mulher bonita, Roberto pensou que deveria
fazer-lhe algum carinho, um gesto qualquer para disfarçar a completa
indiferença que estava sentindo. Passou a mão em seus cabelos revoltos e
beijou-a no pescoço suado e ela abraçou-o com força fazendo com que ele se
ajoelhasse ao lado dela, ele ficou nessa posição por um tempo que lhe pareceu
terrivelmente longo.
Vestiram-se e saíram. Caminharam até um barzinho na rua principal e
após algumas cervejas Ana ria muito e falava mais ainda enquanto ele tomava
conhaque. Quando Roberto sentiu que já havia bebido o bastante era pouco
mais de meia noite e resolveram ir até a casa dele ouvir música apesar da
vontade de ficar sozinho que ele sentia, mas não queria ser rude, esta noite era
dela. Percorreram todo o caminho de volta até o sobrado onde ela morava e
tinha a locadora e continuaram em direção à casa dele. Num dado momento
Roberto percebeu que estavam sendo seguidos por duas figuras suspeitas,
mas não falou nada para ela, naquele lugar e àquela hora todo mundo adquiria
um ar suspeito. Quando deixaram o asfalto e entraram nas ruazinhas de saibro
os dois caras continuavam atrás deles, Roberto continuou em frente fazendo
um sinal para Ana que num rápido olhar para trás percebeu a situação. Ele
abraçou-a e falou algo em seu ouvido, ela assentiu com a cabeça e ao
dobrarem a esquina Ana soltou-se dele e atravessou a rua correndo
escondendo-se no escuro próximo a uma arvore. Roberto sabia que se os
meliantes estivessem armados não haveria nada a ser feito, mas abaixou-se
rapidamente e ajuntou duas pedras do chão na área iluminada junto ao poste
da esquina, depois de dar mais alguns passos saindo do alcance da luz ele
parou no meio da rua e já em seguida os vagabundos apareceram e detiveramse
por um momento ao vê-lo parado.
- E daí gente boa, o que que ta pegando? – Disse Roberto num tom de
voz firme, sentindo o corpo quente e ágil, se tivesse bebido mais estaria
ferrado, pensou. Os dois caras continuaram avançando não parecendo nem
um pouco impressionados com seu tom de voz ou com as pedras em suas
mãos, um deles tirou uma faca da cintura dizendo:
- É melhor você ficar na tua se não quiser...- Roberto não o esperou
terminar e atirou uma das pedras passando rapidamente a outra para a mão
direita, o rapaz fez um movimento brusco para o lado na tentativa de desviar-se
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mas, por um desses inexplicáveis golpes da sorte, ou do azar, recebeu a
pedrada em plena têmpora esquerda. O choque produziu um ruído seco e o
figura foi ao chão com um gemido abafado enquanto seu companheiro saía
correndo e em poucos segundos sumia na escuridão. Roberto viu Ana saindo
de seu esconderijo e fez um sinal para que ela continuasse onde estava e ela
voltou. O rapaz continuava caído, imóvel, a faca que escorregara de sua mão
estava próxima a seus pés, Roberto aproximou-se lentamente e chutou-a para
longe, viu o ferimento de onde saía um filete de sangue espesso e ficou
evidente para ele que o camarada estava fora de combate. Tudo acontecera
muito depressa, Roberto estava surpreso com aquela rapidez e com o fato de
não ter sentido medo, sentiu-se forte, quase exultante por alguns segundos
para já em seguida pensar: “ que merda, e se eu tiver matado o cara? ”, olhou
para aquele rosto inexpressivo com uma barba rala e calculou que ele deveria
ter uns vinte e poucos anos. “ Ladrãozinho de merda, tem que morrer mesmo”.
Olhou em volta, a rua continuava deserta, Ana aproximou-se com olhos
arregalados.
- Ele ta morto? – Perguntou.
- Não sei – disse Roberto enquanto tomava o pulso do rapaz. Sentiu as
batidas rápidas e irregulares. – Não tá, ainda não – completou sentindo um
misto de alivio e apreensão.
- O que que a gente vai fazer? Vamo embora logo – disse Ana
assustada.
- Espera, deixa eu pensar um pouco – tornou Roberto um pouco irritado
com a voz fina e gemente da mulher.
À medida em que emoção da ação ia passando um frio e uma lucidez
cortantes iam tomando conta dele. A força e a euforia de há pouco davam lugar
a uma repulsa muito grande. Voltou a verificar o pulso do rapaz e sentiu
somente batidas muito fracas e espaçadas, levantou-se lentamente enquanto
seu pensamento voltava ao tempo em que trabalhara na enfermagem, lembrou
de muitas pessoas que vira morrer: doentes de todo tipo, baleados,
esfaqueados, acidentados. O que lhe causava repulsa não era aquele saco de
excremento e sangue caído à sua frente, mas todo o longo e miserável
conjunto de circunstancias que o conduziram até ele. Era somente mais uma
morte que presenciava, um fenômeno fisiológico comum, mas estava envolvido
com essa morte de uma maneira muito diversa. Só o que fez foi defender-se
com os meios a seu dispor, fez o que tinha de fazer e chegara a sentir a
volúpia do vencedor, do gladiador que permanece na arena. Mas agora esta
vitória tornava-se repulsiva, quase odiosa em sua insignificância. Ergueu o
rosto e viu os dois grandes e baços olhos de Ana que continuava esperando
por ele, medrosa e submissa; olhou para o amontoado de casas em torno deles
envoltas na escuridão quente e mefítica daquele lugar e pensou que o conjunto
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de circunstancias, a intrincada trama de acontecimentos que o arrastaram até
momento não era mais do que sua própria vida esgotada, sem perspectivas.
Não era nenhuma conclusão brilhante, nenhuma revelação, era a simples
constatação de algo que havia sido temporariamente esquecido. Pegou na mão
de Ana e afastou-se rapidamente com ela, o rosto contorcido num sorriso
insano, raivoso, repetindo em voz baixa: “que mundo de merda...que mundo de
merda...”, teve vontade de gritar estas palavras mas sabia que nem assim
conseguiria por para fora todo o nojo e ódio que estava sentindo, continuou
repetindo-as baixinho e alguns minuto depois passou a declamá-las como se
fossem um verso, uma estrofe que se repete ao longo de um poema caótico e
delirante.
IV
Ao chegar no Tatuquara Mauricio foi atingido de súbito pelo odor
desagradável que vinha da fábrica de papel. Aquilo era assim, não se percebia
o cheiro aos poucos, é como se você entrasse de repente numa grande bolha
de atmosfera malcheirosa onde tudo era mais pesado, mais denso. “Porque
cargas d’água Roberto teve que vir morar nesse lugar?”. Uma pena não poder
contar nada para ele, mas não podia envolver ninguém, ainda mais seu velho
companheiro de estrada e, de qualquer maneira já era tarde demais para isso.”
Marcos não precisava saber de nada, era um cara legal mas era um bosta que
só sabia reclamar da vida e filosofar e falar de música como se fosse um
grande entendido mas só fazia repetir tudo aquilo que Roberto já havia dito
vinte anos antes quando ele ainda era um piá de merda quer cheirava cola no
Pilarzinho.” É só isso, um bosta que em dez anos de trabalho numa empresa
grande como aquela não conseguiu ajuntar grana suficiente para comprar um
carro. ” Mauricio sabia que estava sendo injusto nessa implicância gratuita com
Marcos, não tinha nenhum real motivo para isso, só não gostava daquela
atitude de desprendimento, aquele ar desligado de pessoa que não está nem aí
para as coisas “desse mundo”, e detestava quando ele e Roberto entregavamse
àquelas longas discussões sobre literatura das quais mal participava.
O portão estava aberto e Mauricio estacionou o carro na calçada com
rachaduras onde o mato já começava a crescer. Encontrou Roberto deitado
numa rede no meio da sala com uma cadeira a seu lado sobre a qual havia um
cinzeiro, um copo e uma garrafa de whisky.
- E daí Mr. Robert, tranquilo? Você não tava dando um tempo no goró?
- Tava, uma semana não é um bom tempo?
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- É, é verdade – disse Mauricio aproximando-se apertando a mão do
amigo com o olhar vagando cansado pelos móveis da sala.
- Você andou sumido, trabalhando muito? – Perguntou Roberto
observando o rosto do outro e procurando ver se o mal que percebera nele nos
últimos tempos avançara ou não.
- Ah! Sabe qual é, puxando a vida e levando fumo – Maurício repetiu
sorrindo o trocadilho que fizera há anos com o subtítulo de um livro que ambos
tinham lido, um dos poucos que lera em sua vida.
- Eu sei, eu sei, - disse Roberto levantando-se para pegar outro copo.
- E você como é que tá? Já se acostumou com a quebrada e com esse
cheiro?
- Já, nem sinto mais, a liberdade é mais doce do que um lugar bonito e
ar puro!
- É, mas a solidão não deve ser tão doce assim. – Mauricio tomou um
pequeno gole de whisky e pousou o copo sobre a mesa, não iria beber muito
até terminar o que tinha por fazer. Sentou-se numa poltrona e levantou-se em
menos de um minuto passando a andar a esmo pela sala. Roberto podia ver
nele somente uma pessoa estressada, ansiosa. Com a situação financeira
estável, nenhum problema de saúde na família, a origem para aqueles
sintomas só poderia estar no casamento. “Se ele não quer tocar no assunto
deve ter seus motivos, eu não vou forçar a barra...e depois eu não seria nem
de longe a pessoa indicada para ajudar alguém matéria dessa natureza.”
- Não é mesmo, mas eu não tô tão solitário quanto pareço, você tá um
pouco agitado, está acontecendo alguma coisa? – Roberto resolveu dar uma
última chance ao amigo.
Mauricio não gostou de ver que suas emoções estavam aflorando assim tão
facilmente – Não, eu tô legal, um pouco cansado só... - Pegou o violão que
estava encostado na parede e começou a dedilhá-lo.
- Manda aí aquela do Willie – disse Roberto.
Mauricio sentou-se novamente, dessa vez no braço da poltrona, fechou os
olhos por alguns segundos, respirando fundo e seus dedos ágeis produziram
as primeiras notas da canção. Na suavidade com que ele tirou essas notas
Roberto entreviu os extremos opostos em que o espírito de seu amigo se
debatia, mas deixou de pensar nele e na sua própria pequena tragédia e
começou a cantar. Mauricio tocava bem e ele cantava passavelmente, foi
nesse momento que Marcos chegou, ficou parado à porta com os cabelos
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desgrenhados, os olhos avermelhados e um enorme sorriso de satisfação na
boca.
- Beleza, beleza, é isso aí rapaziada – disse ele quando a musica
terminou – vocês não podiam ter escolhido melhor, é a primeira ou eu perdi
alguma coisa? – Marcos falava animado como se ao entrar ali tivesse recebido
uma injeção de energias novas.
- Não, estamos só esquentando – disse Roberto.
- E daí Mauricio, ganhar muito dinheiro faz mal pra saúde, você tá
precisando se divertir mais, onde é que você andou? – Perguntou Marcos,
loquaz.
- Por aí – respondeu o outro com um sorriso contrafeito, levantando-se
em seguida para colocar um Cd do Willie Nelson. Na verdade não gostaria de
estar ali mas também não gostaria de estar sozinho, ou melhor, gostaria de
ficar mas sem precisar falar. Começou a acompanhar as canções no violão.
Marcos não parava quieto, ficava na janela por alguns segundos, ia até a
estante, remexia nos livros e revistas, parava na porta e praguejava contra o
mal cheiro tentando defini-lo e já em seguida falava do mato dizendo que este
não demoraria a invadir a casa se o dono dela não tomasse uma providencia.
Roberto, deitado no sofá perdia-se em conjecturas sobre as consequências
cármicas do que havia lhe acontecido na noite passada. O disco acabou e no
silencio que se seguiu puderam ouvir latidos de cães, gritos de crianças e o
barulho do ônibus que passava a poucas quadras dali. Marcos foi até o
aparelho de som, procurou entre os Cd’s e colocou um Jehtro Tull enquanto
pensava já em alguma outra coisa para ouvir.
- Feeling like a dead duck, é isso aí. – Disse Marcos – cara, essa frase é
realmente contundente, expressiva. – Já havia tomado umas doses de whisky
e algumas latinhas de cerveja.
- Tudo pra você é expressivo e contundente, se eu te pedisse pra
descrever um tijolo com certeza você teria as palavras certas. – Disse Roberto
brincando.
- Feeling o que? – Perguntou Mauricio que só tinha entendido a primeira
palavra.
- Como um pato morto! – Respondeu Roberto.
- Ah! Me sentindo como um pato morto, é assim que você está? – Falou
Mauricio voltando-se para Marcos.
- É, já faz tempo – respondeu este – talvez algo tenha mudado hoje, mas
eu ainda não sei o que é.
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- Bom, já é uma grande coisa, uma mudança ou a suspeita de uma, é, já
é uma grande coisa, esperemos que seja para melhor – Roberto falou com um
sorriso inócuo.
- Eu não entendo vocês dois, não, não, você ainda tem os teus motivos
– Mauricio falou olhando para Roberto - mas você! – Voltou-se para Marcos
com indiferença – que motivos você tem para se sentir como um pato morto ou
qualquer outra coisa morta? – Perguntou sem demonstrar uma irritação que
surgiu repentinamente. Marcos continuou vasculhando os Cd’s indeciso, sem
levar a pergunta a sério, sem a intenção de respondê-la. – Que problemas um
cara pode ter, tirando as querelazinhas de um casal sem filhos e que está com
as contas em dia? Ou tá entrando água na tua casa? – Mauricio carregou a
pergunta com um sarcasmo pesado que Marcos não percebeu.
- Bom, não se trata exatamente de problemas...são aquelas velhas
questões...disse Marcos como se acordasse de repente para a conversa –
você sabe, penso, existo, logo sofro – completou rindo.
- Ah! Tá, saquei...aquele velho papo. Vocês com seus poetas e filósofos
vão ter sempre algum motivo pra se lamentar, pra gemer de dor e tristeza.
- Quer dizer que você já não faz mais parte do círculo? – Marcos disse
isso no seu costumeiro tom displicente, irreverente com que parecia tratar
mesmo as coisas mais séries.
- Que círculo porra nenhuma, eu nunca fiz e nem quero saber de fazer
parte de círculos de pessoas que vivem falando de sofrimento e da vida como
se soubessem de tudo mas que só sabem é falar bonito e na verdade não
conhecem nada de sofrimento – Mauricio deixou transparecer uma hostilidade
fria ao dizer isso calmamente, como se não falasse com eles diretamente,
olhando diretamente para alguma coisa na estante.
Roberto sorriu acendendo um cigarro ligeiramente surpreso com a alteração
evidente, mal disfarçada de seu amigo, sorria também imaginando como
marcos reagiria, ficou esperando com o copo na mão a continuação da
conversa.
- Então quem pode falar de sofrimento é só aquele povo que tá
morrendo de fome lá na Somália ou aqui no nordeste, que teve ou tem que
encarar uma guerra, os pacientes do Erasto? Não tô ...
- Todo mundo sofre – cortou Mauricio- muitos sem saber porque, sem
entender nada mas pelo menos não ficam só se lamentando.
- Ah! E o que eles fazem?
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- Fazem alguma coisa pra mudar, pra eliminar ou minimizar seu
sofrimento – Mauricio falava pausadamente, escolhendo as palavras com uma
raiva contida.
- Quando se tem opões...
- Sempre se tem opções, só se você for um babaca para não fazer nada
– disse Mauricio levantando-se abruptamente e indo até a porta onde ficou
olhando a noite.
Marcos olhou para Roberto como quem dizia: “O que que tá
acontecendo com o cara?”, mas este somente sorriu e disse: ‘Põe um som aí,”
e sentou-se novamente, viu que já estava “no grau” como costumavam dizer,
isto é, tinha bebido o suficiente para sentir-se mais solto, com os sentidos mais
apurados, o pensamento mais ágil. Ouviu a voz de Zé Ramalho: “disparo balas
de canhão, é inútil pois existe um grão vizir” e pensou se devia ou não dizer
alguma coisa para melhorar o humor de Mauricio, não que estivesse
preocupado ou sentindo-se muito solidário, qualquer que fosse o problema não
lhe parecia algo grave, naquele momento nada mais tinha a impressão de ser
grave, tudo era pequeno, mesquinho, tão miserável quanto o ele estava
vivendo, sensação de ter matado alguém. Talvez fosse interessante colocar
aquilo em discussão, contar para eles a sua aventurazinha sórdida para alivialo
e amenizar o clima meio pesado que havia ficado no ar.
Roberto levantou-se e foi até a instante, abaixou o volume do som e
olhando para o retrato dos filhos, perguntou:
- Vocês acham que o fato...ou melhor...a consciência de ter matado uma
pessoa é motivo de sofrimento ou não?
Mauricio arregalou os olhos por um instante sentindo um frio na boca do
estomago. Pensou na arma e nas luvas, estava tudo no carro, não havia a
menor possibilidade de alguém tê-las visto. Tranquilizou-se, dominou sua
agitação e nesse esforço sua voz soou gutural ao dizer:
- Depende, falar nisso hipoteticamente é difícil.
- Eu acho que já discutimos isso antes – disse Marcos com a voz já um
pouco arrastada pela bebida.
- Você tá certo – falou Roberto – mas dessa vez não tem nada de
hipotético, eu posso dizer que tenho elementos novos, material que vai tornar o
tema bastante interessante novamente.
- Que material, que elementos novos são esses...do que você está
falando? – Perguntou Mauricio tentando esconder a ansiedade que aquela
89
conversa estava lhe causando. Mas ninguém percebeu o tom ansioso ou a
apreensão em seu rosto.
- Estou falando de fatos, da experiência real de ter matado um ser
humano e carregar isso na tua consciência – respondeu Roberto olhando
casualmente para Mauricio que sentiu seu coração acelerar, deu alguns passos
até a mesa onde havia deixado seu copo e esvaziou-o. A ardência do whisky
em seu peito ajudou-o a recuperar parte do equilíbrio perdido.
Marcos havia se sentado numa poltrona no canto da sala com uma lata
de cerveja na mão. Estava ligeiramente intrigado pelo que Roberto dissera mas
ainda assim pouco interessado no assunto; levado pela curiosidade perguntou:
“Que fatos são esses, que experiência real é essa? ”
- Mauricio aguardava impaciente a resposta enquanto Roberto servia-se
de mais uma dose e acendia um cigarro. – Bom, eu vou contar uma historinha
suja para vocês – disse Roberto com um sorriso vago nos lábios e contou
então, em detalhes, o que havia lhe acontecido. À medida em que falava
Mauricio sentia-se amolecer, seus músculos relaxavam, chegou mesmo a rir
quando seu amigo parou de falar, seus olhos brilhavam tomados de uma súbita
animação. Marcos por sua vez perdeu-se em considerações e pensamentos
que não chegavam a completar-se, pensava em Elizabeth e seu irmão e o
relato de Roberto pairava aos fundos assumindo aos poucos o caráter de uma
sombria advertência para todos eles. Essa sensação aumentou ao olhar para
Mauricio e ver um sorriso estranho em sua boca e a respiração profunda. Para
quem o conhecia estes eram sinais evidentes de uma grande satisfação. “Tem
alguma coisa de muito errado com ele, com todos nós, isso é um sinal, temos
que fazer alguma coisa antes que seja tarde.” Marcos pensava assim sem ter a
menor ideia do que seria essa alguma coisa, seus raciocínios confusos foram
interrompidos subitamente por Mauricio que dizia:
- Bom, estava escrito que haveria choro e ranger de dentes não estava?
Sim, com efeito, e nós, míseras almas condicionadas não podemos fugir à
profecia – Mauricio parecia ter readquirido todo seu antigo humor e falava sem
perceber o quanto era estranha esta súbita mudança.
- Não podemos fugir, está certo – falou Marcos – mas não precisamos
ser necessariamente os agentes desse choro e ranger de dentes.
- Claro que não, ele fez o que tinha de fazer, o que você teria feito, teria
entregado tua grana ou deixado o cara te furar?
- Eu só quero dizer que é nossa obrigação procurar sempre uma
alternativa para a violência.
- Infelizmente meu amigo – disse Mauricio com um sorriso
condescendente – como você já sabe, este é um planeta de morte e sofrimento
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e muitas, muitas vezes, não há alternativa. E eu não sei porque – disse ele
dirigindo-se a Roberto – você chamou isso de história suja, não tem nada de
sujo numa pessoa...
- Mas também não tem nada de bonito – interrompeu-o Marcos.
- Bonito não é exatamente a palavra mas tem algo de corajoso...ser
determinado e não hesitar em usar a força quando isso é necessário, eu me
deixaria humilhar e até matar numa boa, mas por uma causa nobre, não
quando um filho da puta qualquer resolve, sem mais nem menos, tirar aquilo
que é teu, ferrar com tua vida toda sem o menor motivo, aí então...
Roberto havia voltado a sentar no sofá e acompanhava a conversa
distraído, a mudança no humor de Mauricio depois de ouvir sua história era
óbvia mas ele não conseguia deduzir nada a partir disso e ficou ali ouvindo a
discussão que se prolongou ainda por algum tempo até que Marcos,
visivelmente contrariado afundou-se na poltrona e parou de falar. Mauricio
levantou-se então e após olhar o relógio falou:
- Bom minha gente, são onze horas, eu tenho que ir buscar minha
mulher... ela foi no aniversário de uma amiga e eu fiquei de passar lá –
despediu-se e saiu assobiando sentindo-se forte e confiante como há muito
tempo não acontecia. Entrou no carro tranquilo como um marido que vai buscar
a esposa numa festa de aniversário.
V
Roberto olhou para o céu nublado. O vento havia mudado de direção
levando para outros lados o cheiro enjoativo, o ar da noite era morno mas
podia-se respirar agora. A madrugada seria fresca, talvez chovesse e o sol
voltaria cedo no dia seguinte começando a inundar tudo novamente com a
mesma luz e calor coagulantes dos dias anteriores. Roberto ficou olhando por
alguns minutos para aquele céu parado e escuro respirando concentrado o ar
renovado até perceber nele nuances perdidas em outros tempos e tentou até
mesmo, por alguns segundos, captá-las, aspirar um pouco de sua perturbadora
fugacidade, mas sua mente dispersiva, o efeito do álcool sobre ela e mais
alguma coisa errada dentro dele não deixavam que nada, pensamento ou
sentimento, tomasse forma, se completasse. Resolveu trancar o portão. Voltou
para dentro e esquentou a carne que havia assado no almoço e comeu-a com
91
Marcos que não demorou a adormecer no sofá. Roberto continuou bebendo
cerveja sentado na poltrona e olhando para fora pela janela a seu lado. Seu
pensamento continuava fluindo em fragmentos silenciosos. Muitas vezes
durante a semana terminava seus dias assim e nesses momentos lembrava-se
de um verso de Ginsberg: “Nenhum peixe nessas águas, nenhum ermitão
nessas montanhas.” Não recordava o resto do poema, mas este verso
demorava-se flutuando em sua mente falando da perene desolação que o
envolvia. Acendeu um cigarro e enquanto fumava, um sorriso mole, de bêbado,
surgiu em seu rosto e ele disse para si mesmo em voz baixa: “O que nós
vamos fazer dos últimos momentos de nossas vidas?” No instante seguinte,
este pensamento que ficou sem resposta, tinha sido esquecido completamente.
Marcos levantou no dia seguinte com uma leve dor de cabeça, tomou
um banho e com um suco que encontrou na geladeira engoliu duas aspirinas,
saiu antes que Roberto acordasse. O sol já brilhava num céu azul sem nuvens
indicando mais um dia de calor abominável. Foi diretamente para casa de
Elizabeth e encontrou-a saindo de uma panificadora carregando uma sacolinha
de pães, havia acabado de se despedir da mãe no ponto de ônibus e sorriu
satisfeita ao vê-lo. Ela havia conhecido algumas pessoas boas em sua vida,
mas elas ficaram perto por pouco tempo, desapareceram repentinamente ou
foram embora lentamente, sumindo sem deixar vestígios, parentes, amigos e
namorados. Vivia sozinha e estava acostumada com isso. Mas nem assim a
satisfação que sentiu deixava de ser real, era até mesmo intensa apesar da
mancha acinzentada de desconfiança, de desesperança que lhe dizia que não
se pode ter tudo, mesmo quando se quer pouco. Sorriu mais ainda quando viu
Marcos agitado e desajeitado fazendo com que voltassem à padaria dizendo
que ia fazer um café da manhã especial para os dois. Viu-o comprar ovos,
presunto e queijo, fritar tudo isso com muita técnica, tomando precauções para
fazer uma divisão justa e servir metades iguais para cada um. Comeram e
tomaram o café que ela havia feito e sentiram-se muito à vontade um com o
outro, Elizabeth, para quem o local era ainda fonte de lembranças depressivas
sugeriu que fossem até uma pracinha próxima onde sentaram-se para fumar,
ali ela ouviu-o, entre divertida e curiosa, falar bastante sobre um monte de
coisas num tom de eloquência ansiosa mas controlada, e ele a fez rir e riu
também como há tempos não ria. Saíram e passaram todo aquele dia juntos e
muitos outros depois. No ano seguinte, quando Roberto morreu já moravam
juntos na Conquista e algum tempo mais tarde mudaram-se para Florianópolis,
lá pras bandas do Ribeirão da ilha. Felicidade e amor continuaram sendo
conceitos abstratos para Marcos muitos anos ainda, mas havia algo que era
mais do que um conceito, era algo que ele já tinha vivido, experimentara a paz
em algumas ocasiões de sua vida e era isso que ele dizia ter junto de
Elizabeth.
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Quem não conheceu paz nem nada que se aproximasse disso foi
Mauricio. Quando entrou no carro naquele sábado estava aparentemente
tranquilo, mas em pouco tempo suas mãos suavam e sem perceber ele
segurava o volante com uma força desnecessária. “Que calor nojento, parece
que eu sou um monte de sebo derretendo, bem que podia chover um pouco...
é...uma chuva forte seria legal.” Deliciava-se imaginando o desespero da
mulher, o cara alto e bonitão já havia ficado para trás, era só um cadáver
emborcado na lama. Ah! Ela iria chorar, gritar, pedir perdão, prometer mil
coisas, pedir piedade, mas ele não diria nada, só sorriria. E um sorriso
esboçava-se em seus lábios finos, vacilante e tortuoso, as mãos pressionavam
mais fortemente o volante à medida em que aproximava-se da casa. Sua
mente perturbada não entrevia imprevistos, via tudo acontecendo rapidamente
e sentia prazer e dor, alegria e tristeza, tudo que havia se misturado dentro
dele há muito tempo, impedindo-o de distinguir algo mais naquela bruma de
humilhação levada a seus limites.
Estacionou o carro a duas quadras de casa. Abriu o cadeado do portão o
mais silenciosamente possível. Caminhou até a porta e parou procurando ouvir
alguma coisa lá dentro, ouviu música sertaneja tocando baixinho e a voz da
mulher dizendo alguma coisa na cozinha. Entrou rapidamente e bateu a porta
com certo estrépito fazendo com que a mulher que, vestindo uma camisola
saía da cozinha naquele instante, parasse olhando-o admirada enquanto
segurava um pedaço de lasanha quente. Sentado no sofá, imóvel, mas sem
demonstrar nenhum medo, estava o amante já com as calças vestidas, sem
camisa e com os sapatos e meias bem arranjados no chão a seu lado. Mauricio
olhou para ele com o rosto congestionado, tenso, o outro devolveu-lhe um olhar
firme e seguro atrás do qual escondia somente um certo constrangimento. Por
alguns segundos Mauricio ficou com sua maleta na mão sem saber o que
fazer, mas logo em seguida forçou um sorriso e disse:
- Parece que eu estraguei a festinha de vocês – falou enquanto colocava
a maleta sobre o balcão a seu lado. Eunice, depois de instantes de hesitação e
embaraço avançou até o meio da sala e depositou o prato sobre a mesinha de
centro procurando recuperar-se de seu susto inicial.
- Estragou mesmo – disse ela em voz baixa e insegura, mas começando
a sentir-se mais tranquila – e aposto como foi de propósito – continuou – só
não tô entendendo porquê...
- Porque? Você achou que eu ia aguentar essa situação até quando? –
Mauricio interrompeu-a em voz alta.
- Mas então porque não fez uma coisa decente e veio falar comigo em
vez de pagar esse sapo, o que que você tá querendo?
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- Decente? Conversar? O que você sabe sobre decência – Mauricio
olhava para a esposa querendo demonstrar ódio, querendo reaver o ódio que
sentira até pouco tempo atrás, mas só o que restara era uma mistura amorfa
de sentimentos que já começava a minar sua determinação.
Enquanto essa conversa se desenrolava, o cara que estivera sentado no
sofá tinha calçado suas meias e sapatos e levantava-se agora para vestir a
camisa.
- Senta aí! – Gritou Mauricio, mas o cara permaneceu de pé, terminou de
abotoar a camisa e falou:
- Essa é uma conversa de família e eu acho que é melhor eu ir embora.
- Você não vai embora porra nenhuma, vai ne escutar e vai ficar sentado
– disse Mauricio enquanto abria a maleta e tirava o revolver apontando-o para
ele. As luvas, inúteis, ficaram na maleta aberta.
O homem sentou-se, desfez a ponta de sorriso, mas seu olhar
permaneceu impassível, olhando para Mauricio com uma expressão séria e
fria. Eunice silenciosa olhava o marido agora com um certo medo, nunca
esperara uma reação daquelas. Mas ao mesmo tempo olhava para os dois
numa expectativa alheada, como se os estivesse medindo, comparando.
Mauricio olhou para a mulher com seu corpo nú debaixo da camisola ao
mesmo tempo em que segurava a arma com firmeza sentindo uma repulsa fria
por aquele corpo, por tudo, por aquela situação degradante. O olhar do homem
sentado com os cotovelos sobre os joelhos e as mãos unidas na frente em sua
aparente tranquilidade irritava-o e isso era bom, fazia agitar dentro dele o ódio
diluído, reunindo-o e aquecendo-o, queria dizer um monte de coisas para a
mulher mas as palavras que lhe vinham à mente pareciam-lhe todas fúteis,
supérfluas. Quando percebeu que o sorriso disfarçado, quase imperceptível,
voltava à boca de seu oponente, num impulso praticamente inconsciente mirou
seu peito e preparou-se para atirar, mas suas mãos tremeram e foram se
abaixando lentamente. Mauricio sentiu então uma explosão de ódio por si
mesmo, por sua fraqueza e firmou as mãos novamente e disparou um tiro que
saiu meio a esmo e atingiu o pé do homem, este agachou-se gritando, rolou
para o tapete e ficou ali gemendo. Não se via sangue, só um furo no sapato.
- Agora você vai embora daqui – disse Mauricio encostando o cano da
arma nas nádegas da pobre criatura gemente – o próximo vai ser aqui!
O cara levantou-se cambaleando e foi segurando-se nas paredes em
direção à saída, deixando no chão manchas de sangue que agora começavam
a extravasar do sapato encharcado. Mauricio, num paroxismo de ódio satisfeito
deu mais um tiro meio metro acima da cabeça do homem que se movia
lentamente e acertou na parede sobre a porta fazendo soltar pedaços de
reboco, isso fez com que o cara se apressasse e fosse aos pulos até o portão e
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sumisse na rua escura. Mauricio voltou-se para trás e depôs o revolver na
maleta o que tranquilizou Eunice que estava pálida, paralisada no meio da sala,
ele gostou de ver o medo no rosto dela, olhou distraidamente para o pedaço de
lasanha que esfriava sobre a mesinha e serviu-se de uma grande dose de
vodka sentindo sede e fome ao mesmo tempo. Sentou-se no sofá e tomou sua
bebida de um trago só. Eunice que continuava parada à sua frente moveu-se
repentinamente encostando-se na parede, respirando profundamente,
relaxando aos poucos. Mauricio pareceu reviver as cenas já passadas,
observou-a por alguns segundos, uma lassidão agradável tomando conta de
seus membros. Não tinha feito o que planejara mas, de alguma maneira sentiase
bem, ou ao menos assim lhe parecia, tinha dado uma lição no cara e um
susto enorme na mulher, isso não lhe restituía aos próprios olhos a condição
de “homem de verdade” mas com certeza a sensação era boa e era só isso
que importava agora. “Que se foda todo o resto”, pensou Mauricio olhando
fixamente para o corpo da mulher, para seus seios, para os pelos púbicos bem
visíveis por baixo do tecido fino da camisola. “Sim, que se dane todo o
resto...quem é homem afinal?”, seus olhos vagaram por todo o ambiente e ele
percebeu que todos seus sentidos apuravam-se, ouvia os menores ruídos e
tudo à sua volta adquiria solidez, apresentando-se límpido, claro e concreto.
Podia ver nitidamente até mesmo os móveis na cozinha mergulhada na
escuridão e passou a sentir, mais que tudo, a presença da mulher, sua
proximidade silenciosa. Seu ar submisso aumentava-lhe o bem-estar e fez com
que o velho desejo surgisse novamente, o pernicioso, o aviltante desejo por ela
começou a fluir por seu corpo. Praguejou mentalmente, era o dono da situação
agora, poderia tomar as decisões que vinha adiando longamente e pôr um fim
a tudo aquilo , mas para isso teria que resistir àquele desejo e já não sabia se
conseguiria fazê-lo. Pensou em sair, voltar à casa de Roberto talvez, abrir o
jogo com ele, conversar e deixar a decisão para o dia seguinte, mas um torpor
morno foi gradualmente esvaziando sua mente; ele levantou-se e tomou mais
uma dose de vodka, uns últimos e erradios pensamentos ainda advertiram-lhe
que estava a ponto de estragar tudo, de perder todo o terreno que havia ganho,
mas não deu atenção a eles.
- Tire a camisola – disse para Eunice que olhou-a surpresa arqueando
levemente as sobrancelhas. Ela obedeceu-a um pouco constrangida e com um
pouco de medo, sem saber exatamente o que ele queria. Continuou encostada
à parede, nua, esperando.
Mauricio, completamente tomado pelo desejo que intimamente
amaldiçoava, deixava-se guiar por ele.
- Vá até o sofá e ajoelhe-se – ela foi, hesitante, uma ponta de medo
incomodando ainda. Ajoelhou-se em frente ao sofá apoiando os braços no
assento.
- Abra mais as pernas – disse Mauricio com voz rouca. Eunice fez o que
ele disse. Mauricio tirou as calças e ajoelhou-se atrás dela encostando-se nas
nádegas da esposa, tocou com o pênis ereto a vulva ainda úmida. A mulher
num olhar furtivo para trás observou o rosto do marido e soube então que não
havia mais nada a temer, escondeu um sorriso de vitória e enquanto era
penetrada com rudeza teve certeza de que nada mudaria, continuaria
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dominando aquele homem fraco por muito tempo ainda. Alguns minutos depois
ela estava estirada indolentemente no sofá e ele num estado próximo do
estupor bebia vodka sentado no tapete.
- Vai pra cama – disse ele – amanhã nós conversamos – cansada ela foi
para o quarto e em pouco tempo dormia placidamente. Mauricio continuou
bebendo, aturdido, derrotado. Ouvia o leve ressonar da mulher no quarto e
umas lágrimas ardidas saíam de seus olhos, aos poucos um choro convulso
tomou conta dele que enfiou a cara numa almofada. Ele conteve os soluços e
procurou dominar-se, mas chorou em silencio por muito tempo ainda.
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Atualizado em: Qui 15 Nov 2018

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