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OS SETE PECADOS

A GULA
Epaminondas saiu da clínica desenxabido, olhou para os dois lados da Avenida Porto Alegre, puxou sua calça jeans até ela encontrar a bainha da camiseta curta na tentativa de esconder  a barriga que teimava em “espiar” o mundo por baixo da borda da camiseta apertada. Segurava as cinco folhas dos exames laboratoriais que havia mostrado ao Dr. Russo, que impiedosamente o havia sentenciado a uma vida de restrições. O Médico ordenara uma mudança drástica no seu estilo de vida, que ele deveria cumprir a risca se quisesse viver por mais tempo e ver seu neto entrar para a universidade.
Todas as luzes de alerta do seu organismo estavam piscando, embora houvesse luzes verdes e as amarelas, a imensa maioria das luzes piscantes era vermelha. Urgia a necessidade de abolir o consumo de um sem números de alimentos saborosos, reduzir os quantitativos de outros  e melhorar a qualidade daqueles rol de poucos alimentos que restaram autorizados a comer. Tudo isso sem esquecer, é claro, dos exercícios físicos...Epaminondas recebeu a “ordem” para evitar o álcool, mas com certeza essa parte da sentença ele não ouviu
Epaminondas sempre fora um cara festivo. Adorava os comensais com amigos, regados a muita carne e cerveja. Não seguia aquela máxima do “café da manhã de rei, almoço de príncipe e jantar de mendigo”, para ele o café da manhã tinha que ser de um rei, o almoço de dois reis e a janta tinha que ser a da família real inteira. Comer era um dos prazeres de sua vida, e sua esposa Dileta, sempre fora uma excelente cozinheira. Epaminondas sempre fora um glutão, mas agora os “boletos” das farras e bebedeiras estavam começando a chegar.
Era a morte em vida para aquele homem desvalido que havia muito perdido a auto-estima, e que por isso ele compensava nos poucos prazeres que ainda restavam: a comida e a cervejinha._ Não acredito nesses médicos. Se eles pensam que vão mandar na minha vida, estão enganados. _ A única forma de “cortar o churrasco” que eu conheço, é com a faca, pensou o ofegante Epaminondas, enquanto colocava o cinto de segurança, depois de caminhar os cem metros que separava o seu carro da portaria da clínica. _Tudo balela!! Esbravejou, dando partida no seu Corsa vermelho o qual ele mal cabia dentro.
A AVAREZA
_Não foi por falta de aviso, retrucou a Dileta, a esposa. _Você come “carne gorda” sete dias por semana; come que nem um boi e fica ai nesse sofá assistindo o Discovery!! Dileta passou aquela tarde ligando para as academias de Chapecó, fazendo orçamentos. Queria porque queria matricular seu marido em uma delas. Depois saiu pesquisado locais que vendem produtos naturais e saudáveis para dar um up nas refeições do marido.
No final da tarde apresentou o orçamento para o marido: _O que?! Esbravejou Epaminondas. Já paguei para fazer os exames, só o que faltava...ter que pagar academia e gastar tudo isso para comprar essas porcarias naturais...e quer saber? Não vou gastar mais um pila sequer nesses remédios!! Falou apontando para a receita meio amassada sobre a mesa. _Vou “me curar” do meu jeito. Não vou dar meu dinheiro para esses filhos das putas exploradores da desgraça alheia !!
A PREGUIÇA
Epaminondas morava na Rua Johnn Kennedy, pertinho o EcoParque e da Avenida Getulio Vargas. _Vou caminhar todos os dias no Ecoparque e subir a Avenida. Isso pra mim é fácil, Dileta. Fica tranqüila e confie em mim. No dia seguinte Epaminondas acordou sentindo um cansaço antecipado: Vestiu lentamente seu bermudão da Oceano, sua camiseta surrada a qual ele utilizava pra dormir, seu tênis Nike falsificado que havia pago 75 Reais e meias brancas esticadas até o tornozelo, ambos os produtos foram trazidos do Paraguai por um amigo, Saiu até frente da casa, olhou para o relógio que teimava em usar no pulso direito. Marcava sete horas e doze minutos.
Em pé de frente pra rua, encostado no portão com a cabeça no entremeio das barras metálicas amarelas, olhou o tempo, o movimento de veículos que desciam pela John Kennedy em direção ao centro, bocejou, sentiu a temperatura e, como não encontrou motivos para desistir, saiu em direção ao EcoParque. Aqui vou eu, Que merda de vida, pensou.
Epaminondas ficou feliz quando contornou a esquina e viu sua casa, enfim cumprira sua missão e retornava para casa, após ter percorrido longos quatrocentos metros que nada mais é do que o perímetro da quadra. Quando chegou no portão, olhou o relógio que marcava sete horas e trinta e dois minutos, fez cara de cansado, pois havia o risco da Dileta estar esperando para conferir. Para sua sorte ela continuava dormindo.
A IRA
 Havia se passado uma semana e Epaminondas cumprira religiosamente a sua rotina. Caminhava todos saindo e chegando no mesmo horário. Havia controlado a alimentação e naquela semana na havia molhado o bico, pelo menos na frente da mulher. Ele estava se sentindo melhor, talvez fosse impressão ou auto-engano. Pediu pra Dileta onde ela tinha guardado a balança portátil, pois ele estava disposto a conferir seu peso. Dileta estava feliz com a disposição que o marido demonstrara durante a semana.
Dileta ficou muito assustada quando ouviu o barulho que veio do banheiro, correu para conferir e viu que Epaminondas estava muito irritado. Estava em vestindo somente um cuecão verde e uma camiseta branca que havia rasgado em razão de sua ira. Ao seu lado jazia a pequena balança estraçalhada. Epaminondas havia chutado a balança contra a parede do banheiro e feito as peças se espalharem pelo chão. Tudo isso depois que ele havia constatado que não perdera uma grama sequer. _Não agüento mais esse sofrimento, bradou ele. Estou praticamente uma semana sem comer uma comida decente. Estou passando fome, caminhando feito um louco pra que?! Dileta se compadeceu.
  _Você tem que ter paciência, Epaminondas. As coisas não acontecem do dia pra noite!!
  _ Não agüento mais tanta cobrança, Dileta. Você é um monstro!!
  _Mas o que é isso?! Retrucou Dileta. _Eu só quero o teu bem!!
  _Você e esses médicos não sabem de nada... Não são felizes e não querem que os outros sejam!!  Falou Epaminondas, enquanto olhava com ódio para Dileta.
   _E não é só isso...Se você quiser continuar comigo, vai ter que me aceitar assim!! Falou enquanto socava os azulejos do banheiro. _Deixe-me em paz, Dileta. Deixe-me em paz.
  Dileta se afastou chorando. Nunca havia visto seu marido tão raivoso.
  _Vida cruel!! Dileta ouviu da cozinha o último grito de Epaminondas que vinha do banheiro.
A INVEJA
Pelo menos Epaminondas já conseguia correr, ou trotar, mas o fato é que aqueles quarenta e cinco dias de prática fizeram bem pra ele. Já conseguia completar quatro ou cinco voltas na trilha do Ecoparque, e quando se aventurava na Avenida Getulio Vargas, em direção norte, conseguia correr do Ecoparque até o monumento das três estatuas dos pioneiros, la no final da avenida. Claro que intercalava o percurso com caminhadas estratégicas. Ninguém é de ferro
O horário preferido dele era no final da tarde em razão da temperatura mais amena e  também porque tinha a oportunidade de correr com as demais pessoas que também se exercitavam no mesmo local e hora – Olhava fingindo não olhar para as “meninas” das mais diversas idades que lá “desfilavam”  e detestava ver os garotões que marcavam um ritmo forte do inicio ao fim. Nos meus tempos de piá eu também corria desse jeito. Ressentiu-se.
Naquele início da noite, como de costume, na altura do Posto Avenida, já retornando. Epaminondas escutou as passadas que batucavam um ritmo firme na sua retaguarda. Percebia os passos mais e mais perto, a cada segundo. Olhou de canto de olho e viu um corredor que pedia passagem pela pista de pavers do canteiro central. O senhorzinho passou como o vento por Epaminondas, e se distanciou rapidamente.. Audácia !!  Pensou Epaminondas. Tentou forçar o ritmo para alcançar – ultrapassar o velho? Como pode um cara que deve ter uns vinte anos a mais do que eu, correr com tanta firmeza no passo? Velho maluco...vai ter um ataque cardíaco já já!! Não só pensou como também desejou em seu subconsciente.
A VAIDADE
Passadas seguras, ritmo forte. Oito quilômetros por dia, fizesse chuva ou sol. A barriga já havia diminuído e volume, mais ainda quando Epaminondas a encolhia. Celular fixado no braço. Aplicativos acionados marcando distância, tempo, pace, calorias consumidas e batimento cardíacos. Eyes of Tiger da banda Survivor era o que tocava forte nos fones de ouvidos, por bluetooth, é claro. A avenida Getulio Vargas ficara pequena para o Epaminondas. Era a imagem perfeita de um atleta vencedor.
Epaminondas em sua camiseta azulada de poliamida, absorvente ao suor e com um logo chamativo da adidas, tudo comprado a vista no Tasca e Cia. Corria com olhar altivo e  não vigiava mais a performance dos atletas que dividiam o trajeto com ele. Agora ele era o vigiado, o homem a ser vencido. Epaminondas corria com semblante de atleta, passadas de atleta. Só baixava o olhar para ver seu tênis cinza, legítimo da Nike, modelo apropriado para seu biótipo. Levara muito tempo para ele conseguir enxergar a ponta do seu tênis, não tinha como não se sentir envaidecido do seu progresso. Epaminondas se transformou em outro homem.
MAIS INVEJA
Realmente a Avenida Getulio Vargas havia ficado pequena para Epaminondas. Passou a fazer pouco caso das pessoas que insistiam em percorrer sempre o mesmo trajeto. Epaminondas era diferente. Corria até o final da Getulio e retornava até o Shopping Pateo, seguia pela Rua Xanxerê até a Avenida Fernando Machado, e então retornava em direção ao Centro. Correndo pelo lado esquerdo do passeio, desviou do grupo de pessoas que estavam no seu caminho. Definitivamente não eram atletas. Viu que um deles estava fumando Crack. Ele não sabia que a situação das drogas em Chapecó estava daquele jeito. Ficou triste, mas ignorou. _Cada um escolhe o que quer para a sua vida.
O Forrest Gump da Getulio Vargas continuou correndo e correndo, ignorava tudo o que o pudesse distrair de seu objetivo que era completar o percurso. Ignorava os malucos sentados nas muretas queimando as pedras e ignorava as jovens senhoritas e as jovens quase senhoritas que se postavam em cada esquina a espera de clientes. Oi gostosão!! Uma delas falou quando Epaminondas passou feito um raio. Epaminondas deu de ombros. Ergueu o queixo acima da testa, encolheu a barriga, estufou o peito e seguiu. _Credo... Não sou pro teu bico, pensou alto o vaidoso atleta.   Epaminondas achou a Fernando Machado um lugar "meio esquisito"  
A LUXÚRIA
_Oi gostosão !!  Era a “centésima” vez que ele ouvia aquilo. Cada vez que passava pelo mesmo local e hora, ele ouvia a jovem senhorita falar a mesma coisa. Já estava ficando de saco cheio, afinal, ele corria ali pela praticidade do percurso e não por outro motivo. Quanto às jovens senhoritas? Ele continuava achando soberbamente que ele estava infinitamente acima do nível dela.
Naquele fim de tarde e início da noite, Epaminondas percorria confortavelmente o seu costumeiro circuito com o mesmo olhar altivo de sempre, o que lhe dava um ar de arrogância na percepção de quem o fitava. Passadas firmes e constantes denunciavam que ali seguia um abnegado homem dos esportes.. Sou foda!! Pensou, auto-adjetivando. 
Já no retorno, quando desceu a ledeira da Fernando, ali no início da parte plana, na esquina da Alfa, Epaminondas fora surpreendido pela “centésima primeira vez” com um aceno da senhorita que costumeiramente ali marcava a presença todas as noites.  _Oi gostosão !!  Epaminondas seguiu mais uns dez passos...reduziu a velocidade e parou. Olhou para trás e meio encabulado retornou até a sua assediadora: _ Oi...Você vem sempre aqui??
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Atualizado em: Qua 26 Ago 2020

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