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O diário do soldado 038 – Apenas dois dedos.

Já uniformizados, nós esperávamos a hora mais cruel para quem está ser­vindo as forças armadas. Você deve está pensando que são os treinamentos pu­xados cheios de mosquitos picando a cara... Não! Talvez, ordem unida debaixo de um sol de deserto? Também não! O que seria então? O primeiro corte de cabelo! Isso mesmo, o esquisitíssimo corte militar.

Estávamos esperando no pátio principal na alameda sul do quartel, onde fi­cava a barbearia ou “tosquiateria” de cabeças de todos os tipos e tamanhos. Nós nos sentíamos como ovelhas prontas para perder os pelos dantes protegidos e ar­rumados, para nos tornar uma floresta devastada e sem graça. Cada um que saía da barbearia trazia em si a perda de um ente querido.

O 045, que eu chamava de Djavan dos pobres, pois ele usava uma frondo­sa cabeleira rastafári, idêntica a do Bob Marley nas eras douradas da musica mun­dial, ele era o mais triste de nós todos.

-Será que eles só vão aparar, ou vão cortar muito?

-Eu não sei! – respondi eu, mais confuso que qualquer um ali.

-Não se preocupe, eles só vão raspar apenas dois dedos acima da orelha! – disse o 023, com aquela cara de maluco que saiu do manicômio na semana pas­sada.

-Só dois dedos acima da orelha? – perguntei desconfiando dos demais que saíam do “abate”.

-Sabe de uma coisa, esta conversa está me deixando nervoso... Vou com­prar um refrigerante para refrescar.

Por sorte a cantina era a pouquíssimos passos de onde nos estávamos sen­tados esperando a vez do corte.

-Vocês querem um gole? – disse ele educadamente com a garrafa na mão.

Mesmo estando um calor desértico, nós não aceitamos, pois nossa preocu­pação com o corte era tão grande que a sede era apenas um coadjuvante de nos­sos sentimentos.

De repente uma voz no final da fila correu de boca em boca até chegar a nós.

-O sargento vem aí!

Eu avisei por meio de sinais que a “área estava suja” e o 045 só tinha dado dois goles no refrigerante, pois este a estava saboreando. Ele assustado, não sa­bia o que fazer, se deixava o refrigerante no balcão ou jogava tudo na goela até se afogar ou virar todo o líquido no ralo. Ele resolveu, com muita pena, deixar a gar­rafa ainda com o líquido no balcão da cantina e voltou correndo para o nosso lado.

O sargento afro-brasileiro, com cara de pouquíssimos amigos sobre a face da terra se aproximou de nós e disse em tom sarcástico.

-Estão gostando do sol? As férias de vocês estão só começando, pois aqui o divertimento é o ano todo e eu estarei aqui para fazer isso com o maior prazer... Vocês sabem o meu nome?

Balançamos a cabeça, como se nenhum de nós falasse.

-Meu nome é sargento Bonfim... Meu nome já diz tudo... Eu vou dar um Bom Fim para vocês. – depois que ele nos disse aquelas palavras maravilhosas ele viu o refrigerante encima do balcão. – Que maravilha alguém deixou um refri­gerante aqui... Pertence a algum de vocês?

O silêncio temeroso continuou.

-Já que não é de ninguém eu me apossarei! – ele bebeu tudo em um gole só. – Hummm... Que delícia!!! Eu estava precisando disso!

O sargento deixou a garrafa vazia no balcão, foi embora e o bate-boca entre os soldados recrutas começou.

-Por que você não disse que o refrigerante era seu? – perguntou o 042 ao 045.

-Sei lá! Fiquei com medo ora!

Na verdade, todos ficamos com medo do Bonfim.

Todos nós naquele dia fomos tosquiados, e a tese do 023 foi por água abai­xo, os dois dedos que ele se referia eram na horizontal e não na vertical, conclu­são: todos nós ficamos com um punhado de cabelo no alto da cabeça.

-Pronto 038, podemos ir agora! – disse um rapaz moreno, que eu não co­nhecia até então.

-Quem é você?

-Sou eu... O 045 o Djavan, do cabelo rastafari.

-Caraca! Se você não fala, pensaria que era outra pessoa.

-É assim que eu me sinto! Outra pessoa! – disse ele passando a mão na cabeça com saudades da antiga cabeleira.

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Atualizado em: Sex 22 Out 2010

Comentários  

#1 Nadi 22-11-2010 16:38
Perder o cabelo, dessa forma, na verdade, ainda compensa.
Não sei como é adisciplina militar de hoje. Sei que a de antigamente formava ou ajustava o caráter dos rapazes mais impetuosoos em sua arrogância,digamos.
Abraços.

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