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Luto

Luto
(dezembro de 2014)

As horas da passada aurora esvaiam-se na mente enquanto caminhava sonolento com o intuito de suportar mais um dia da intolerável rotina. As diárias massacrantes têm se apresentado como décadas sufocantes contidas entre um nascer e um por do sol.

Tentava lembrar quando foi a última vez que a euforia alheia penetrou-me os ouvidos causando algum contentamento por estar vivo. Parecia inútil tanto esforço. Ainda mais sem sentido quando tentava digerir as palavras do pastor no último culto. Todos os versículos caem como pesados fardos enquanto irmãos em crença vivem de forma hipócrita, como se usassem o espaço do grande templo para extravasar frustrações.

Talvez eu devesse seguir no mesmo trilho. Anestesiar-me entre os débitos intermináveis de parcelamentos assumidos para tentar parecer alguém digno e próspero, merecedor de respeito; contentar-me com a alegria etílica de muitas doses da bebida universal e viver atrás de um rabo de saia em que possa afogar a energia da vida que parece ebulir em todos os que vivem anestesiados.

Os passos apressados na madrugada fria e escura finalmente parecem despertar-me do habitual torpor pós terror noturno. O café fumegante bebido com o pão dormido cheio de margarina e o cheiro do cigarro tragado pelo caminho fazem sua mágica.

Aos poucos os passos se tornam mais confiantes e em meio circuito do grande ponteiro do famigerado relógio sinto-me pronto para entrar novamente na rotina de funcionário vital que mantém as latrinas em ordem entre uma e outra varrida no grande saguão da rodoviária.

Não fosse a necessidade de trocar o ônibus apertado pelo trem superlotado, encararia o aperto como oportunidade bem vinda para perder o embate com Morfeu por mais algum tempo. Mas o funcionário importante precisa seguir em frente e vencer a grande distância que o obriga a três conduções encerrando mais dois ciclos completos do grande ponteiro.

No trabalho o enfadonho macacão cor de chumbo pouco facilita a empreitada do dia. Está rasgado e foi herdado de funcionário relaxado. Dois tamanhos maior que o necessário, demonstra a generosidade do empregador que sequer sabe meu nome.

O Relógio de ponto aponta a chegada no horário de mais um número que passará o dia cumprindo suas funções até o cair da tarde. Número sem expressão que segue o dia com o esfregão na mão tentando manter limpa a estação.

Enquanto vidas em trânsito seguem apressadas, algumas chorosas, outras ansiosas, sigo pelo grande saguão com a árdua missão de ocultar a má educação de tantos que são incapazes de reconhecer a presença abundante de latas de lixo. Um luxo a que agradeço minha profissão e o salário mal remunerado.

Mas nem sempre foi assim, pelo menos não quanto a mim. Houve um tempo em que a árdua rotina era cumprida com o vigor de alguém que se sentia amado, é realmente fácil seguir em frente quando se tem alguém ao lado. As horas em separado eram vencidas facilmente com a alegria de um ser vivente, as partidas pela manhã eram sonolentas mas alegres e o retorno sempre uma farra entre seres amados.

Enquanto recolho os escolhos das chegadas e partidas observo as despedidas e recordo com amarga saudade a última vez em que participei deste mesmo ritual. Se tivesse ideia de que aquele seria o último encontro, acredito que teria partido junto, ou talvez tivesse dito com maior vigor de meu enorme amor; mas agora é tarde.

Sigo como morto-vivo que vaga sem sentido em busca de algo perdido. Iludido pela dor do presente, premido pela necessidade de manter o abrigo, sigo.

Autômato da sociedade, escravo da falta de significação, sigo varrendo o chão e torcendo para que os ciclos do grande ponteiro não me chicoteiem com tamanho fulgor.

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Atualizado em: Qui 11 Dez 2014

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