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Caixa de Pandora

Caixa de Pandora
(dezembro 2014)

A manhã sangrava de maneira usual, seguia com o esfregão na mão e a escuridão já cedia espaço para a incômoda luz solar que penetrava pelas grandes vidraças anunciando mais um dia insuportável de movimento. O matinal passar das pessoas que fluem de forma sonolenta nas primeiras horas do dia arrastando suas malas de viagem começava a ceder espaço à correnteza avassaladora de pessoas já conectadas a seus portais virtuais. Em meio a música nos ouvidos, ligações insistentes, postagens nas redes sociais, seguem desligados do mundo real. Estariam tão anestesiados quanto eu? De que quimeras estarão fugindo?

Por vezes tenho a curiosidade de saber o que vai nestas pequenas caixas digitais eletrificadas pelo suor das almas, mas pelo tamanho do investimento necessário, mantenho-me distante, vacinado contra a modernidade que oferece à moderna idade um novo tipo de distração alienante.

Vejo estes pequenos instrumentos como verdadeiras Caixas de Pandora, ocultando segredos e ameaças, aguardam apenas que alguma alma desavisada as destampe para corromper definitivamente a incauta criatura que, ao ousar, passa a servir a uma força obscura sem questionar, abrindo mão de uma vida real gloriosa.

Mas o tentador entorpecimento causa na alma sofredora uma perspectiva especial. Estaria ali, na pequena caixa digital eletrificada e em suas ilusões a solução para os soluços sangrentos de minha alma arrebatada pelo vazio de uma solitária existência?

Vejo tantos alienados sorridentes à minha volta que por vezes cogito a possibilidade de um esforço supremo, mas não estaria sendo incoerente e infiel com as palavras sorvidas em nosso último encontro?

Alienar-me talvez preencha o vazio que hora sinto nas entranhas e debele as ameaças do grande ponteiro sobre minha cabeça, mas sinto que estaria me afastando de algo conquistado à base de muita luta. Uma vida de esforços contínuos, suor e lágrimas que garantiram um quinhão de terra em uma longínqua periferia e um barraco simples, mas totalmente quitado, que seria o lar de uma alegre família, não fossem os revezes que a vida oferece.

Vejo-me no reflexo de uma das grandes portas de vidro do terminal rodoviário; olhar amassado, congelado no espaço, trajando o surrado macacão, chumbado ao esfregão que clama atenção. Almas passam alheias à minha presença como se fosse invisível ao sistema a que sirvo. Um enorme balé se estabelece à minha volta até que o supervisor chama no rádio por minha força de trabalho.

Demovido da intervenção urbana não prevista, tomo a reta do banheiro masculino. Será necessário desentupir novamente o vaso sanitário, provavelmente obstruído por algum desavisado que perdeu sua caixa digital eletrificada para as águas que estão cada vez mais escassas em nossa grande cidade…

(guilherme fraenkel)

Licença Creative Commons
O trabalho Caixa de Pandora de Guilherme Fraenkel está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em http://www.guilherme.fraenkel.nom.br/?page_id=419.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença emhttp://www.guilherme.fraenkel.nom.br/?page_id=10.

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Atualizado em: Sex 12 Dez 2014

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