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O IRLANDÊS DA GETÚLIO

          Todo mundo olhou assustado quando a garrafa de coca-cola explodiu contra a parede metálica da lanchonete Madeira’s, - bem na hora do  happy hours, do chope em dobro. Na verdade o relógio de fundo verde esmeralda pendurado na parede, acima das bombas de chope, marcava exatamente 19 horas e 12 minutos. Na parte externa do bar de lata há um espaço coberto, local esse onde as mesinhas de madeira para quatro pessoas ficam dispostas.
          O local é bem arejado e agradável de permanecer, pelo menos no verão. Ali servem os Chopes, as cervejas, os petiscos e os sanduíches com um ou dois hambúrgueres dentro. Nunca havia ocorrido uma briga sequer naquele local, afinal, ali se reúnem só as pessoas do bem, seja lá qual for o conceito disso. Alguns se reúnem para conversar, outros para comer e muitos outros para tomar chopes, e é claro, ver toda sorte de “atletas” de final de tarde, que passam em frente -  pela Avenida Getulio Vargas – em direção norte da avenida. O dito prolongamento. 
          O Cara era um brutamonte de cabelos cor de fogo, barba rala com fiapos mesma cor, e com os olhos esbugalhados praticamente saltados para fora das órbitas. Parecia que tinha saído das profundezas do próprio inferno. Estava sem camisa, de bermuda e descalço. Ninguém ousaria dizer que aquela figura grotesca era de Chapecó, nunca fora visto. Celito achou aquela figura familiar.  O orangotango _ ou melhor, uma quimera...uma cruza de orangotango com um lavrador irlandês_  estava terrivelmente nervoso, ensandecido, “cuspindo fogo”. Depois de despedaçar a garrafa de coca-cola contra a parede, havia se afastado do ambiente, permanecendo na calçada da avenida, bem pertinho da mureta, entre o quinto e a sexto arbusto decorativo da jardinagem que separa a via da área coberta do bar. Ali proferia ameaças sabe-se lá  a quem: _ Malditos!!  Chapecoenses filhos da puta!! Gritava. Rebusnava. Enquanto isso o Celito só observava enquanto degustava seu lanche com bacon e fritas.
           Apesar de toda a violência inicial, não houve nenhuma investida contra alguém do local ou contra objetos. A única violência ali, além da imagem grotesca do grandalhão, era o conjunto de palavras ofensivas que proferia ao vento, ou à alguém imaginário, ou a todos. Duas meninas que sentavam na primeira mesa pegaram seus Iphones, seus hambúrgueres e seus refris, se levantaram e saíram olhando de soslaio por cima do ombro. – Que horror!! Outros ignoraram os gritos, aqueloutros, indiferentes, apenas trocaram de mesa...Alguém já devia ter ligado para a polícia, mas por certo não fora o Celito.
          Passaram cinco minutos e o maluco continuava gritando e batendo com força no peito... A polícia já deve estar chegando, pensou a atendente no balcão. O garçom Celso ainda juntava os cacos de vidro do chão, com uma pazinha verde e uma vassoura de fibras plásticas, quando o cara que estava sentado sozinho na mesa 5 virou de uma só vez o copo de 500 ml de chope, levantou-se  irritado e  com animus de acabar com aquela “palhaçada”. Celito virou-se para ver melhor. Vai dar merda, pensou.
          O cara da mesa 5 tinha a cabeça raspada, vestia uma camiseta negra com o logo  branco estampado no peito - Brazilian Jiu-Jutsu , uma naja tatuada no bíceps, parte dela aparecendo logo abaixo da borda da manga. Algum cinéfilo que estivesse ali e que já tivesse bebido mais de duas canecas de Chope, diria que aquele careca se parecia com o Vin Diesel. Celito não achou nem um pouco parecido.
       _ Cala a boca, seu maluco!! “Te suma daqui”!! Gritou o lutador “sangue bom”, enquanto já se aproximava com os punhos em guarda. Mas a empreitada não foi exitosa.  Antes mesmos de sair da calçada e dar mais um passo, o monstro de cabelo cor de fogo... o cabeça alaranjada...o barba rala,  o nocauteou. Pôs na lona o lutador, que, quase desacordado rastejou de volta para o interior do bar. Celito achou uma afronta, apiedou-se do lutador “sangue bom”.
         O cabeça cor de fogo ficou mais nervoso ainda e então passou a ameaçar a todos que estavam presentes, os homens, é claro. _Quem é o próximo a “se habilitar”, bando de frouxos... Imundícias!? Urrava. Sim, daquele momento em diante a coisa ficou séria. Houve movimentação no ambiente. Os ânimos ficaram agitados e se podia ver as expressões de medo se sobrepondo as expressões de indiferença. Alguém já chamou a polícia? Ouviu-se em meio a confusão. Celito escaneou a rua buscando por uma viatura. Pediu outra Coca-Cola.
         Dois guardas municipais em seus uniformes de educação física e que faziam seu jogging diário - era parte de seus treinamentos - inevitavelmente presenciaram a confusão e decidiram intervir embora não estivessem dispostos a aplicar a força. _Parado, cidadão... Acalme-se!!       Santo Deus!! Não deviam ter falado. O “demônio” de cabelo cor de fogo investiu ferozmente contra os guardas fazendo-os recuarem estrategicamente rumo ao canteiro central da larga avenida. Um dos guardas levou um chute na bunda enquanto recuava. Celito achou humilhante.
         Celito era funcionário de uma agroindústria de Chapecó. Trabalhava no turno da madrugada e havia recebido naqueles dias e saira para dar uma caminhada. Quando passou em frente ao Madeira’s decidiu entrar, seduzido pelo cheiro gostoso de batatas fritas. Seu pedido já havia sido entregue quando a confusão começou.
         Celito tinha um metro e sessenta e cinco de altura, pesava cinqüenta e seis quilos, cinqüenta e oito se estivesse calçando os borzeguins brancos e o capacete, também branco, da empresa.  Nunca passara desse peso. Não era de confusão, nunca foi, mas não se lembrava do último dia que tinha “guentado” um “desaforo”.
          Ele que até então tinha assistido a confusão passivamente e sem demonstrar qualquer tipo de inquietação, terminou de comer seu sanduíche, pegou o último palito de batata frita, limpou o resto de maionese do seu queixo e, sem se importar com um fiapo de alface incrustada no seu incisivo lateral, se levantou e começou a caminhar em direção do monstro de cabelo vermelho. Pulou a mureta e esbravejou corajosamente: _Agora é comigo, jaguara!! 
          Celito acordou cinco minutos depois com som de microfonia nos ouvidos, olhos vidrados nas pétalas de lâmpadas no alto do poste da Getulio, e com os flashes vermelhos e intermitentes da ambulância da equipe do Samu que o atendia. Celito achou que estava vivenciando uma experiência de quase morte.   
           

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Atualizado em: Seg 17 Ago 2020

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