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Sinestesia de Um Batom.

Era mais que um simples batom, era a última lembrança que lhe restava de sua tão fiel e adorada esposa. Era como um manancial de pura recordação, que ao mesmo tempo em si, carrega as dores de um parto e de uma morte. Simples e estupefato instrumento de sua lacuna emocional.

Palpava aquele objeto com sinestesia e balbuciava sem perceber palavras, que há muito, não foram pronunciadas por bocas normais, palavras de aconchego e de desilusão. Fora de sua farsa sentimentalista, desejava profundamente que o tempo lhe voltasse quatro anos atrás e lhe desse a oportunidade de ser grande, de ser todo e ser nada, de ser tudo com seu amor.

Deixou-o pousado ali, na mesma penteadeira em que há menos de quatro anos refletira inúmeras vezes por dia a graciosa aparência de uma deusa, de sua deusa. Saindo daquele recinto de lembranças tristes e alegres, deu com seu filho, a cópia fiel de sua adorada esposa, tanto em graça quanto em aparência e o abraçou, tentando amenizar a falta de seu anjo.

Saindo daquele instante de inconstância emocional resolveu tomar um ar fresco e deixou aquela casa que trazia um “Q” de solidão. Passeou horas a fio pelas brenhas do bosque que rodeava sua habitação, com um único pensamento, sua amada. Demorou cerca de uma hora passeando e apreciando o maravilhoso aroma de terra molhada.

O sol já findava no horizonte quando se deu conta que seu filho havia ficado só em casa, e imaginando as traquinagens que uma criança daquela idade pode fazer, apressou os passos rumo ao lar.

Abriu a porta com delicadeza e colocou o casaco num antigo e empoeirado cabide que recepcionava todos os que entravam, com marcha sutil subiu a escada que dava aos quartos, enquanto tenuemente chamava o filho, que não respondia. Meio que preocupado o pai apressou-se em encontrar o garoto, abrindo porta a porta a sua procura. No que ao abrir a porta de seu quarto o homem saiu de se de tanta raiva; a criança havia pegue o batom, pior ainda, tinha posto fim à última lembrança que lhe sobrava do seu ser colossal. Num papel muitos corações feitos com a tinta escarlate do cosmético.

A criança sem notar a raiva do pai disse sorridente:

-Pai, olha o desenho que eu aprendi hoje na escola.

O homem estupefato com a situação levantou a mão o mais alto que pode, dando o sinal do enorme tapa que o filho levaria. No entanto o pai lagrimejando, assim como o filho, lembrou-se das últimas palavras de sua amada:

-Cuide dele como se cuidasse de mim.

Parou, deu um enorme abraço no filho e começou a chorar baixinho.
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Atualizado em: Dom 27 Set 2009

Comentários  

+1 #2 Abreu 08-01-2010 12:35
A lembrança mais valiosa estava ali, a sorrir-lhe.
+1 #1 Cerson 27-09-2009 12:29
Parabéns, muito bom o conto, elegante e educativo.
Abraços!!! :D :D :D

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