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"Um conto da vida moderna"

Era uma fria manhã em Londres. A estas horas a chuva caía escorrendo vidraça a baixo. Ainda não acreditava no que estava acontecendo, parecia um sonho.
Olhou pra trás e viu Robert esparramado na cama dormindo o sono mais gostoso do mundo. Tudo era perfeito demais pra ser verdade. Eu ali rente a janela observando as chaminés fumegantes, enquanto pessoas timidamente tentavam espantar o frio da manhã, afinal mais um dia começava.
Essa sem dúvida fora a noite mais mágica de sua vida, jamais poderia imaginar... Robert e ela viveram uma grande história de amor no passado. Haviam sido muito apaixonados, mas por algum motivo a vida os havia separado. Agora depois de longos 15 anos estavam ali, juntos novamente, recomeçando exatamente de onde haviam parado.
De certo que ele havia mudado bastante, agora havia uma suave barba contornando seu rosto, e uma proeminente calvície se aproximava. Estava mais maduro, e seus olhos brilhavam de um modo diferente. Mas, por mais que as coisas houvessem de certa forma mudado o mais importante ainda havia permanecido: o amor que sentíamos um pelo outro!
Engraçado como, às vezes, não podemos deter o rio da vida. Estávamos ali juntos por causa de uma incrível coincidência, mal podia acreditar. De certo que coincidências não existem, elas são pré-formadas a partir de nosso próprio pensamento. Mas consideremos a tal coincidência.
Estava passeando no parque com Lucke, meu cachorro de estimação. Era comum ir ao parque todas as tardes após o trabalho.
Sentei no banco pra descansar quando alguém se aproximou e se sentou ao lado. Eu estava tão distante, absorta em meus pensamentos que nem olhei para ver a pessoa. Quando de repente ouvi um simples: oi!
Num segundo o coração disparou, não podia ser, aquela voz era tão familiar! Olhei pro lado e vi aquele sorriso maroto. Devolvi-lhe o oi. Ele nada disse. Continuei.

-O que está fazendo por aqui?
-Estou numa viagem de negócios. Resolvi passear no parque para aliviar o stress.
-Puxa, que coincidência!Faz tanto tempo que não nos vemos.
-É faz mesmo.
Ele ficou pensativo.
-Costuma vir sempre aqui?
-Sim, moro aqui perto. E você onde está morando?
-Ainda em São Francisco.
-Está bem longe de casa, então.
-Jamais podia imaginar em te encontrar aqui. Foi realmente uma grande surpresa.
-Imagina pra mim!E como está São Francisco?
-Como sempre esteve amo aquele lugar. Aliás, como veio parar do outro lado do mundo?

Seus olhos brilhavam de tanta curiosidade.
Pensei por uns instantes no dia em que tomara tal decisão. Aquele dia estava distante na memória do tempo, mas ainda se lembrava.
Era melhor concentrar-se no que iria dizer, não queria estragar aquele momento.

-Tinha planos para minha vida e como você sabe, eu sempre quis estudar. Pois, então, aqui estou.
Intimamente ela lutava com aquela resposta, pois gostaria mesmo de ter dito que a culpa era dele, afinal que diferença estudar nos Estados Unidos ou em Londres ou no Japão?
Contive-me era tarde para ficar questionando o passado.
-Você sempre foi muito determinada sabia o que queria da vida.
-É... Você também - respondi em tom nostálgico.
Ele ficou pensativo.
Mentalmente reviu os episódios que envolviam Lissa no passado. Foram felizes, muito felizes naquela primavera. Depois de alguns meses de amor calmo e pacífico, tudo se tornou turbulento demais, as coisas começaram a dar errado.
-E, então, trabalha em quê aqui em Londres?
-Trabalho com relações exteriores, exportações.
-Interessante, mas confesso que eu sempre achei que você tinha cara de veterinária!
-Eu, cuidando de cachorros?Nem pensar... Mil vezes não!
-Você seria linda de qualquer jeito.
-Agora você me deixou sem graça.
-Desculpe não foi minha intenção.
-Até quando fica em Londres?
-Até amanhã à noite, vou partir de manhã bem cedo.
-Está num hotel?
-Num flat, até que é bem confortável. Fica a quatro quadras daqui. Mora sozinha?
-Atualmente sim. Meu namorado partiu há dois meses para a Rússia, foi a trabalho, mas vai ficar morando por lá.
-Que interessante, falou ironicamente, como alguém podia a abandonar assim desse jeito?
-Você fala como se estivesse preocupado comigo!
Ele ficou mudo novamente.
-Só não acho uma coisa normal.
-Bem, sempre nos gostamos, mas...
-Não eram suficientemente apaixonados, é isso?
-Mais ou menos isso.
-Puxa, isso quer dizer que ainda tenho uma chance! Falou alto e rindo prazerosamente lhe tirando uma.
-Não ria da infelicidade alheia!
-Tudo bem, mas foi ótimo ver sua cara de desapontamento.
O cachorro já estava ficando impaciente.
-Preciso ir está na minha hora.
-Podemos nos ver mais tarde?
-Claro que podemos.
-Tem um café ótimo na quinta avenida.
-Pra dizer estava com vontade de ficar em casa mesmo, preciso rever alguns contratos, se não se importa.
-Claro que não, você que manda.
-Se quiser pode vir jantar comigo.
-E por acaso você sabe cozinhar? Sorriu novamente. Desculpe, sabe que fico de ótimo humor quando estou perto de você.
-Desculpas aceita. Então tá, vou preparar uma massa ao sugo.
-Pode deixar que eu levo o vinho.
-Quanta gentileza de sua parte.
-Combinado.
Anotei o endereço, era bem próximo dali não seria difícil de achar.
Um beijo no rosto e as lembranças daquele perfume. Tem hora que a vida realmente nos pega de surpresa. Voltei ao flat com os pensamentos a mil por hora. Precisava manter os sentimentos sob controle, além do que ela alegara que ainda gostava do tal rapaz.
De frente ao espelho no banheiro, sorria feito criança repetindo para si mesmo que aquele era apenas um encontro de velhos e bons amigos, nada mais.
Voltara pra casa, estava confusa. Depois de meses numa rotina incansável, inesperadamente aquele encontro com Robert. Nunca imaginara encontrá-lo em Londres!
Ele estava mais bonito, mais homem, com ar de quem estava mais experiente na vida, mas, contudo não perdera o hábito de suas brincadeirinhas sem graça. Esse era o Robert de sempre.
E se Danny voltasse justo agora?
Apesar de termos terminado oficialmente, ainda tínhamos um caso, era um relacionamento aberto, onde duas pessoas altamente civilizadas conseguiam manter em pleno controle essa situação. Bom, o melhor mesmo era não pensar nisso, precisava concentrar-se no jantar.
Abriu a dispensa e retirou tudo o que precisava. Ainda bem que não ia precisar ir ao supermercado, assim daria tempo pra dar uma ajeitada na casa.
Já eram quase 7 da noite. Acendeu a lareira, borrifou um pouquinho de essência pela sala, feita por uma amiga para purificar o ambiente, e claro deixá-lo com um cheirinho suave e agradável.
Pensou alto: - Até parece que este é um encontro amoroso!
A estas horas, por mais que não quisesse seus sentimentos estavam confusos. Era uma mulher inteligente, rápida no raciocínio, mas estava atônita com os últimos acontecimentos.
Estava feliz e ao mesmo tempo com medo. Sempre fora uma mulher segura de si, não queria a esta altura do campeonato perder o controle da situação.
Represara durante muito tempo o amor que sentia por Robert e agora temia que por esse meio fio, por onde escorriam essas pequenas gotas de lembranças, arrebentassem toda aquela fortaleza construída durante anos.
Era tarde, não podia pensar mais nisso, precisava ir em frente, a vida a colocara nessa situação, e sabia não tinha como voltar atrás, ou evitar essa aproximação. Precisava encarar tudo de frente, de uma vez por todas. Precisavam colocar todos os pingos nos iiss, por tudo em pratos limpos, como se dizia.
Terminada aquela infindável conversa consigo mesmo, foi tomar um banho relaxante com seus melhores sais. Colocou sua música favorita, despiu-se e deixou-se embriagar pela água quentinha da banheira e pelos sentimentos que explodiam dentro do peito.
O que será que estaria pensando Robert foi seu último pensamento, antes de cair numa leve meditação.

Estava vestido de maneira elegante, e coincidentemente usava o perfume que Lissa mais gostava. Parecia que tinha voltado no tempo, se sentia como um adolescente.
Apesar de todas as mudanças que o tempo pode nos causar, é interessante notar que mesmo depois de muito tempo ainda carregamos a pessoa que fomos outrora. Apesar de todos aqueles anos era assim que se sentia nesse exato momento, como a 15 anos atrás.
Naquela tarde o tempo havia parado, o mundo perdera a importância, tudo pelo simples fato de estar ali sentado conversando com aquela que fora a pessoa mais importante de sua vida no passado. Sorria enquanto caminhava, aquilo tudo parecia ter saído de uma história de novela.
Estava a caminho do vinho, quando passou e viu as flores preferidas de Lissa, ainda se lembrava disso. Não resistiu acabou comprando, ela ficaria surpresa. E afinal, essa fora a maior coincidência de todos os tempos e deviam comemorar no melhor estilo. Pegou as flores e seguiu rumo ao endereço que estava escrito no papel.
Era uma construção antiga de dois andares. As janelas eram amplas e viam-se cortinas brancas, era o apartamento dela. Logo na entrada havia um corrimão de ferro todo trabalhado. Subi os poucos degraus, abri a porta de vidro e entrei. O apartamento era o de número 102 e ficava já no primeiro lance de escadas.

Estranhamente calma, era assim que se sentia. Preparou a refeição como um verdadeiro chef. Espero que ele goste, pensou. Já estava quase na hora dele chegar e precisava se ajeitar melhor, passar um perfume, essas coisas.
O apartamento estava em ordem, a mesa posta para dois e ao fundo uma suave música para completar. Perfeito.
A campainha soou. O coração disparou, a calma foi embora numa velocidade espantosa, estava nervosa. Tentava disfarçar quando abriu a porta.
-Parece que viu fantasma!
Ia tentar se explicar, mas ele foi irritantemente mais rápido.
-Nossa não sabia que minha presença causava tanto impacto!
-Olha que coloco pimenta na sua comida!Tentou se defender.
-Pimenta? Mas eu adoro pimenta!
Como nos velhos tempos, ele não perdia uma.
-Trouxe para você. Achei que ia gostar. Disse lhe entregando as flores.
-Nossa você me surpreendeu você ainda se lembra das flores que gosto!Quanta gentileza, entre.
Ao entrar passou os olhos pelo apartamento era amplo, bem decorado, confortável. As paredes em tons de bege e branco criavam um clima agradável, tinha de reconhecer ela tinha muito bom gosto. Na parede havia um belo quadro de um homem e uma mulher entrelaçada se olhando profundamente nos olhos.
-Lindo quadro, ganhou de alguém?
-Não, na verdade pedi a um amigo para pintá-lo.
-E pediu exatamente assim?
-Pedi para que pintasse o retrato de duas pessoas que se amassem.
-Me parece que você devia estar realmente apaixonada... sorriu.
-Talvez... Respondeu efusivamente.
Precisava desconversar não queria entrar em certos detalhes.
-Venha, acho que a massa já está no ponto.
Foram pra cozinha.
-Deve estar muito bom, ao menos o cheiro está bem convidativo.
-Garanto que vai se surpreender com meus dotes culinários!
-Se preocupa não que qualquer coisa eu ligo pra pedir uma pizza.
-Ora, será que não pode parar de me alfinetar!
-Ok, vou te dar um voto de confiança, afinal está com uma cara ótima esse jantar.
Lissa colocou o vinho na geleira.
-Belo vinho, Robert.
-Foi um achado, é de uma safra rara.

A mesa estava posta de maneira simples, mas impecável.
Observando-a com mais calma, ela estava incrivelmente encantadora. Cabelos chanel, lisos, rente ao pescoço, olhos expressivos. Fazendo as contas ela parecia bem mais jovem do que sua real idade. Ela soubera se cuidar durante todos esses anos. Se tornara uma linda mulher. Por um instante pensou que se não tivessem rompido no passado, talvez, poderiam estar casados hoje.

-Deixa que lhe sirvo senhorita.
-Nossa mais você realmente se transformou num gentleman!
-Você está linda.
-Você também nobre galanteador!
-Então, o que me conta sobre seus planos, pretende ficar em Londres?
-Acho que sim, a situação é propícia para que eu fique uns dois anos ainda.
-Minha empresa tem sede em São Francisco, mas muitas vezes tenho de viajar para outros países.
-Muito interessante essa sua profissão, nada mal conhecer o mundo trabalhando.
-Reconheço que tive muita sorte na vida.
-Realmente poucas pessoas no mundo têm esse privilégio. Você tem mesmo de partir amanhã?
-Sim, tenho de me encontrar com um pessoal de Nova York.
Ao ouvir a resposta ficara um tanto desapontada, mas não deixou transparecer para Robert.
-Então, me diga você se casou, teve filhos?
-Sim, me casei com a Tifanny.
Robert se lembrou de que não estava usando aliança.
-Você deve ter percebido que não estou usando aliança.
-O que houve com ela?
-Vai parecer clichê, mas a perdi assim que saí de São Francisco.
-Acho que você vai ter problemas assim que chegar em casa.
-Creio que não, ela não é do tipo que faz tempestade em copo d’água.
-Ela deve ser uma mulher e tanto... Disse baixando os olhos levemente.
-Imagina se ela souber que você está aqui jantando comigo.
-É... Nesse caso eu concordo que ela iria ficar furiosa. Falou sorrindo sem muito se importar com essa constatação. -Você é uma velha e querida amiga, meu casamento é outra história.

Ao ouvir isso, Lissa surpreendeu-se pensando que esse fosse um encontro breve e passageiro, e que depois disso ele voltaria para sua vida normal com Tifanny. Ficou pensativa por uns instantes.

-O que foi? Ficou triste assim de repente.
-Sua esposa é uma mulher de sorte - falou com certo pesar. -Onde se conheceram?
-Nos conhecemos num baile de carnaval.
-Nossa vocês deviam mesmo estar pré-destinados um ao outro.
-Acho que sim.
-Teve filhos?
-Ainda não, futuramente quem sabe, sou louco por crianças.
-E você não pensa em constituir uma família?
-Quem sabe algum dia Robert. Mas você sabe que sempre tive grandes ideais, queria consolidar uma carreira, ser independente... Você sabe.
-É isso sempre foi o que você quis - falou pensativo.

Quando eram jovens ambos tinham grandes planos na vida, e sabiam que mais cedo ou mais tarde iam acabar se separando. E foi o que aconteceu alguns anos depois. Começamos a nos envolver com nossos projetos pessoais, passamos a conhecer pessoas novas e cada vez mais nos distanciamos. De repente, não íamos mais a festas juntos, não tínhamos amigos incomum, e o pior nossos assuntos eram completamente diferentes um do outro. Estávamos tomados pelos anseios da juventude, apesar de no fundo ainda nos gostarmos.
Aí, então, começaram as intermináveis brigas, e um dos motivos era o ciúme um do outro. Eram amigos dela que ele não gostava, eram mulheres bonitas e sensuais que frenquentavam o rol de amigos dele. Era um querendo se defender do outro. E para ajudar os amigos, ou falsos amigos, colocavam mais lenha na fogueira entre os dois.
Quando se é muito jovem ficamos vulnerável ao que nossos amigos pensam e acham a respeito das coisas e acabamos nos deixando influenciar pela situação. Talvez, se não tivesse se deixado levar por tantas bobagens, talvez, estivessem juntos até hoje. Como fui tolo pensou.

Nesse meio fio entre uma conversa e outra, Lissa também pensava a respeito do passado.
Éramos tão crianças naquele tempo, cada qual querendo viver a vida intensamente. Fora realmente uma pena as coisas não terem dado certo pra gente. Hoje ambos estavam realizados e mais maduros na vida. Tentava entender por que justo agora a vida os colocava novamente frente a frente. Talvez, porque tivesse que ser assim. Deus escrevia certo por linhas tortas. Agora estavam fortalecidos, estavam prontos. Meu Deus! O que é que estou pensando! Robert estava casado, e isto era um fato irremediável. Vai ver a  vida estava nos testando, mas não entendia onde ela pretendia chegar com isso.

-Está muito bom o jantar, Lissa você me surpreendeu.
-Ora, nunca subestime a capacidade de alguém ouviu.
-Pode deixar que aprendi a lição.
Ela tomou um gole de vinho e ele suavemente acompanhou o gesto com os olhos. Seus lábios continuavam os mesmos.
Sentindo-se incomodada pelo olhar intenso dele, ficou sem jeito.
-Robert, me conta mais sobre você.
-O que deseja saber senhorita? Posso dizer que sou um cara feliz de bem com a vida, tenho uma esposa adorável, sou realizado profissionalmente, enfim, tenho uma vida feliz, acho que é tudo.
-Apesar de você também ter conseguido tudo o que queria na vida, parece que ainda lhe falta alguma coisa.
Lissa respondia: - Falta só o homem da minha vida! Mas guardava isto para si.
- É pode ser...

Apesar de tanto tempo, ele parecia conhecê-la muito bem.
Terminaram o jantar, e ele a ajudou retirar os pratos. Enquanto lavava a louça, ele fora até a sala. Estava olhando sua coleção de cd's e dvd's. Passava a mão por eles quando seus olhos se fixaram num cd que continha a música deles. Questionou a si mesmo por que ela ainda tinha nossa música. De repente, passou por sua mente que, talvez, ela ainda não o tivesse esquecido! Será?!
Não resistindo, colocou-a e quando se virou Lissa já estava entrando na sala.
Ficou surpresa ao ver que Robert havia colocado a música deles pra tocar. Assim que entrou na sala ele estendeu a mão para que fosse dançar com ele.
- Venha, vamos dançar um pouco!

Sem pensar em nada se entregou ao prazer daquela dança. Robert enlaçara sua cintura e a trouxera mais para junto de si. Uma incrível sensação de bem-estar percorreu-a, era como flutuar no ar sem ter medo de cair. Estava entregue, em paz e feliz, setindo-se a mulher mais segura do mundo. Estar com Robert era tudo o que mais desejara na vida, e agora como por encanto ele apareceu assim de repente, e estava ali na sala de minha casa dançando comigo! Talvez, o mesmo se passasse com ele.
Aquela música, aquele homem, tudo era perfeito demais pra ser verdade, mas era! Na verdade estava vivendo um conto de fadas! As emoções começavam a dar sinal de alerta. Lissa interrompeu a dança.
-Venha vamos nos sentar um pouco.

O sofá todo branco era grande e confortável e ficava do lado oposta à janela. No outro canto da sala ficava uma mesa com o computador no qual ela devia trabalhar. E para completar o ambiente um belíssimo tapete bege com dois dedos de espessura dava o toque final.
Lissa fora buscar a sobremesa, enquanto ele acomodava-se na poltrona em frente ao sofá.
Como curioso que era resolveu abrir, indiscretamente, a porta da estante. Havia livros e revistas e um pequeno álbum de fotos amarelo. Olhou pra cozinha e ela ainda estava lá, não resistiu folheou o álbum rapidamente, pois apesar de serem amigos era muita falta de educação o que estava fazendo. Guardou rapidamente no mesmo lugar, e ainda perplexo com o que vira deixou-se cair sobre o sofá. Eram as nossas fotos!O que significava que ela depois de todos esses anos ainda não o havia esquecido.
Desde que nos separamos naquela terrível adolescência, tivera muitas mulheres e claro, Lissa era a mais doce de todas. Ela sempre tivera um lugar especial em seu coração. Lá de vez enquando costumava se lembrar dela, mas aos poucos fora construindo uma nova vida e Lissa se tornava uma lembrança cada vez mais distante, porém, não menos importante.
Aí anos mais tarde conheceu Tifanny, se apaixonara perdidamente por ela. Ela era linda, cabelos loiros esvoaçantes, corpo esguio, enfim, um sonho de mulher, além do quê era adorável, meiga, e a mulher perfeita para futura mãe dos seus filhos. Casaram-se, eram felizes. Mas agora de repente, as coisas estavam ficando cada vez mais confusas. Lissa reaparecera em sua vida assim sem mais nem menos, e estava mexendo com seu coração de novo. E para completar acabara descobrindo sem querer que ela ainda o amava.
Lissa voltou trazendo na bandeja, taças e talheres. Colocou tudo em cima da mesa de canto. Sentiu que tinha alguma coisa "estranha" no ar. Robert a estava olhando de uma maneira diferente, sem nada dizer.

Lissa se transformara numa bela mulher, seu jeito simples de se vestir denunciava uma sensualidade natural. Estava usando calça jeans e uma regata branca, que suavemente delineava o contorno dos seios. Inesperadamente Robert se dera conta de que estava desejando aquela mulher, mais que qualquer coisa.Talvez, as lembranças do passado estivessem lhe falando mais alto, sem lhe dar qualquer chance de reação. Era como se estivesse embriagado, fora de si.
Lissa virou-se de costas para servir o doce, e ao mesmo tempo porque não sabia como reagir ao olhar intenso de Robert. Não sabia ao certo o que estava acontecendo. Entregou a taça pra ele.
O silêncio se tornara quase palpável. Disfarçadamente o olhava comer. Queria poder ler sua mente, para saber o que de fato estava se passando por ela.Talvez, fosse melhor perguntar, mas no fundo sabia que não era preciso, toda mulher tem lá sua cota de intuição, e seu coração já lhe havia dado o alarme.

A maneira como Lissa levava a colher à boca... O fez imaginar como seria tocar aqueles lábios novamente.No mesmo instante viu-se beijando-a em seus pensamentos.
Então, Robert levantou-se e foi em direção à ela para apanhar a taça.Lissa dava a última colherada enquanto Robert esperava.Olhando um nos olhos do outro, era possível ouvir a voz interior que ecoava dentro de ambos implorando para que logo caíssem um nos braços do outro.Maliciosamente Lissa deslizara bem devagar a colher pela boca e no mesmo instante sentiu um intenso desejo de beijá-lo também.
Robert sentia a respiração dela tornar-se mais ofegante, e percebeu quando um pequeno tremor percorreu-lhe o corpo.Ele sabia, ela também estava tomada de desejo.Lentamente retirei a taça das mãos delas e segurei o seu rosto entre as mãos, até que finalmente ambos se entregaram àquele beijo ardente e apaixonado, ainda adocicado pelo gosto da sobremesa.
-Robert!
E e aí ele a beijou como se nunca a tivesse beijado antes.
Como dizia naquele poema:

"Na chama ardente, no fogo que consente, o amor devora - Joiss Cannis"

Estavam entregues, nada mais importava.Ele sabia!Ela ainda o amava, tanto quanto ele!Apesar de também amar sua esposa, era por Lissa que seu coração batia mais forte.
Agora não adiantava mais tentar manter as aparências, não podiam mais fugir um do outro.
O desejo reprimido por todos aqueles anos e agora estavam alí justamente para colocá-lo em dia.Precisavam desesperadamente se amar, o corpo pedia, a alma pedia e a vida concordava.
Robert segurou seu rosto novamente e a viu possuída pelo mesmo desejo de fazer amor.
Dessa vez pegou-a firme, atirando-a para o tapete.Observou-a deitada no chão, imóvel, como a contemplar aquele ato inesperado da parte dele.Por um momento ele se questionou a respeito do que estava fazendo, mas como ela nada disse, viu que também estava gostando.A saliência embaixo da blusa denunciava o prazer intenso que ela também sentia.
A estas alturas a música já havia sumido, o mundo definitivamente, tinha parado.Lançou-se sobre ela ainda mais excitado, pressionando seu corpo quente sobre o dela.Ela gemia, inebriada por tanto prazer.Violentamente ele puxava seus cabelos, beijando seu pescoço, depois sua nuca, suas costas.Quando pensava que estava totalmente no controle da situação, surpreendeu-se quando Lissa dera um salto e subira em cima dele numa fração de segundo, assim como fazem os gatos.Já sem a blusa ele agora tocava seus seios, enquanto ela parecia cavalgar sobre ele.Tirou sua camisa, e enquanto se beijavam ardentemente não resistiu e abriu o zíper de sua calça... Aí foi ele quem gemeu, não esperava que ela tomasse a frente assim desse jeito. Era uma mulher surpreendente que sabia o que queria e ia direto ao ponto. Beijava-lhe os seios quando ela o tocou por dentro da calça.
Era um amor, que subentendia uma paixão ardente. Entre carinhos suaves a ferocidade de um desejo que queimava e explodia por dentro. Jogavam-se contra o sofá, contra a parede até.Não havia limites entre aquelas quatro paredes, tudo era permitido enquanto estivessem naquele espaço-sem-tempo e nem-lugar.
A certa altura já não podiam mais suportar o tesão que sentiam um pelo outro, nesse momento eles se despiram completamente e se tocaram ainda com mais vontade.
E, então, nesse momento mágico com os lábios grudados um no outro, penetrou-a profundamente. Haviam chegado ao momento máximo daquela loucura, sim porque o amor é uma louca loucura insana.
-Eu amo você, Lissa!
-Esperei tanto por esse momento.
-Agora estou aqui, meu amor.
-Por que demorou tanto?! - brincou segundos antes do grand finale.

De repente, tudo se apagou e ambos gozaram o imenso prazer daquele momento.
Era alegria de estarem ali juntos se amando sem medo, sem vergonha, sem compromisso. Estavam plenos, satisfeitos e felizes como nunca.
E foi assim que adormeceram ali mesmo no chão da sala, nus completos e realizados.
Algum tempo depois foram para o quarto e dormiram feito anjos.Ao menos naquele momento eram anjos, puros e inocentes que tiveram a coragem de viver o amor intensamente. Pois como se dizia não era possível conhecer o amor de Deus, sem antes conhecer o amor dos homens.

"E o universo conspirava a favor do amor e daqueles que se amavam, simplesmente porque essa era a força que justificava mares e mundos... e isso desde que o mundo era mundo".

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Atualizado em: Seg 30 Jul 2012

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