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A Poesia Visual Num Processo de Engajamento: Joaquim Branco

A Poesia Visual Num Processo de Engajamento: Joaquim Branco

Jayro Luna

            Joaquim Branco é um dos mais produtivos poetas visuais das letras contemporâneas brasileiras. Desde o final dos anos 60 esse criativo vate de Cataguases vem marcando sua presença pelos mais diferentes meios e suportes com sua poesia sempre inventiva e questionadora: livros, mail art, postais, cartazes, internet, enfim, tudo o que seja passível e possível de articulação com um processo poético de constante construção e desconstrução de linguagens e línguas.

            Entre as várias possibilidades analíticas da produção de Joaquim Branco quero presentemente destacar o viés do engajamento poético. Em JB a poesia está sempre ou quase sempre a serviço duma visão de mundo crítica acerca da situação política, cultural e social, em especial, do Brasil.

            Se nos anos 60 a chamada poesia concreta entrou em crise acerca das possibilidades de participação e engajamento e, parte dessa crise, deu razões ao advento do Neoconcretismo e à dissidência de Ferreira Gullar, se é dessa época os poemas haroldianos acerca de temas como a fome e o subdesenvolvimento, coisa que muito posteriormente, Haroldo de Campos reorganizará em poemas mais verbais, mas nem por isso menos inventivos e do qual já tratamos em artigo específico[1], também é dessa época o surgimento da Poesia Práxis e do Poema Processo. Joaquim Branco, desde então, atento às questões formais e inovadoras da poesia tanto aproximou-se do poema processo, quanto também é citado por Mário Chamie emInstauração Práxis[2].  Naquela época Chamie escrevia acerca de JB:

       “(...) uma consciência de participação estética e social. O autor participa das inovações trazidas pela vanguarda nova brasileira e abre os seus olhos  para acontecimentos internacionais em que, se conquistas científicas são produto do homem correm o risco de, pelas mãos mesmas do homem, se desumanizarem.”

       (CHAMIE: 1974, p. 115)

            Antônio Sérgio Mendonça e Álvaro de Sá em A Poesia de Vanguarda no Brasil analisam o poema “Prisão de Édipo” de Joaquim Branco e comentam:

       “O poema informa iconicamente, como um emblema do mito. Demonstra a possibilidade de exprimir problemáticas de natureza profunda sem recorrer ao uso da palavra, vertendo num texto visual, o mito em seu significado mais completo - o signo visual resulta em uma concreção da fala tal qual o título do livro que o reproduziu”.

       (MENDONÇA & SÁ: 1983, p. 241)

            Tanto Mendonça & Sá quanto Chamie estavam certos acerca da poesia de JB. A consciência da participação estética unida à social e a capacidade intrínseca poética de apresentar de forma dinâmica o signo visual numa simbiose semiótica de significante e significado são aspectos contíguos e complementares da sua poesia.

            NoMimeógrafo Generation[3](1986) eu escrevia, construindo um parágrafo parafraseando uma frase dum poema de JB:

       “A Poesia e o Poema: ‘O Horário do poema (In)depende da Hora da Poesia’... - Explico: Não abramos uma dentre as múltiplas portas possíveis e nos encarceremos no caminho que esta porta oferecer! A Obra Aberta é aberta a todos e a todas as vias. Por ela se entra e sai por vários lados, olhe-a por todas as faces e veja: Da Pluralidade de Leituras sairá o elemento (místico para uns, abstrato para outros, concreto para terceiros), o elemento que se articulará numa nova linguagem: A Intersemiose!”

       (LUNA: 1986, p.3)

           Naquela ocasião eu comentava acerca dos poemas “Tríptico” e “Prolixo” ambos do livroLaser Para Lazer(1984). De fato, olhando o conjunto de poemas visuais e não visuais produzidos por JB nesses últimos 40 anos, temos também a possibilidade de analisar criticamente e com um viés poético e criativo figuras e acontecimentos políticos e sociais do mundo e do Brasil. EmLaser para Lazerpor exemplo as figuras de Ronald Reagan (“Diálogo” e “Dialogue”) e Carter (“Kiss For Peace 1”), Michael Jackson (“Splash!”), Mitterrand (“Dialogue” e “Kiss for Peace II”), Brejniev (“Kiss For Peace I”) e outros são transformados em elementos visuais de composição de poemas. Suas fotos são distorcidas, cortadas, recortadas, coladas, viradas, alongadas numa série de efeitos que preconizava o limite da capacidade de softwares hoje comuns, mas naquela época inexistentes com essa variedade de recursos, como oPhotoshope outros.

            Além das figuras de destaque político e da mídia da época, acontecimentos e discussões importantes tornaram-se elementos da composição poética: a dívida externa brasileira, o pagamento ou não dessa dívida (“Opções”), o desmatamento e a questão ecológica (“Écloga”), a venda da Vale do Rio Doce (“Vale Quanto Pesa”), e mais recentemente, o 11 de Setembro (“World [T]rade Poem”). Essa inserção do mundo presente e da crítica política e social desse mundo confere à poesia de JB uma marca diferencial fulcral que o aproxima, talvez, ou ainda, que tem sua origem, na “Mail Art”. Para alguns, menos atentos, essa apropriação do acontecimento político do dia pode levar à poesia ao risco, pois com o tempo, a figura e o fato podem ser esquecidos e o referente ficar perdido, perdendo também o elemento significante do poema. Porém, JB sabe o risco que corre e com maestria supera o impasse ao considerar que o que sobrevive é o poema, e como já dizia Drummond no poema “Memória”: “Mas coisas findas, /muito mais que lindas, / essas ficarão” Assim, na poesia de JB o personagem político ou da mídia tem seu valor significativo agregado do presente, e nesse contexto o poema tem um significado preciso de crítica, mas numa época posterior (quantos hoje reconhecem o rosto de Leonid Brejniev?) passa a ter uma significação em que o aspecto estético e poético se sobrepõe, revelando acima da imagem e para além dela o que antes era percebido apenas tenuamente: o trabalho minucioso de construção poética. No caso, p.ex., do poema “Kiss For Peace 1” vemos a imagem (suponhamos que não os reconheçamos) de dois homens gordos, aparentando idade madura em que o beijo no rosto dado por um faz com que a não vejamos o perfil do rosto do outro. Por de trás, cruzam-se duas faixas de ecocardiogramas e um data (que nesta nossa leitura não terá importância: 29/3/72). O título “Kiss For Peace 1” e a foto do beijo entram em relação tal que duas idéias contraditórias surgem: 1) o beijo da traição (como o de Judas em Cristo) e 2) O beijo sincero de amizade e de paz que atinge dois homens velhos de terno e gravata e que sobrepõem aos seus interesses pessoais e políticos o desejo da paz. A primeira idéia é crítica e a segunda idealista. O poema oferece as duas, cabe ao leitor buscar nessa tensão entre as duas buscar o significado e mesmo não conhecendo o referente (isto é, quem são aqueles dois homens) chegará à necessidade de solução desse impasse.

            No poema “Consumo” (1968), a marca “Kolynos” (hoje nem existe mais, substituída pela marca “Sorriso” em conturbado processo contra monopólio) serve de elemento constitutivo para o poema: “ Como Dados / Come Didos / Colo Rimos / Coli Dimos / / Kolynos).  Se o leitor mais jovem ou mais esquecido não souber o que significa “Kolynos” não perderá o sentido do poema, pois “Coli Dimos” (penúltimo verso) é o ponto de entendimento nesse caso. No “consumo colidimos”, entramos em conflito constante com o mundo, com nossos desejos e os desejos que nos são imputados pelo sistema mercadológico industrial (lembra um pouco de Herbert Marcuse, não?!). Dessa colisão, as palavras agora se fragmentam, se justapõem, se aglutinam e perdem o sentido e ficam sem significado: “Kolynos”.

            Daí, eu continuo concluindo, como em 1986, que para entender a poesia de JB é preciso arriscar: “Arrisque, o jogo é seu!”

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BRANCO, Joaquim.Laser Para Lazer.Rio de Janeiro, Totem, 1984.

__________.Concreções da Fala.Edição do autor, 1969.

CHAMIE, Mário.Instauração Práxis.São Paulo, Quíron, 1974.

LUNA, Jayro.Mimeógrafo Generation: Folhetim Alternativo de Poesia, n.° 9, setembro de 1986. São Paulo, edição do autor (26 números, período 1984-1992).

MENDONÇA, Antônio Sérgio e SÁ, Álvaro de.Poesia de Vanguarda no Brasil.Rio de Janeiro, Antares, 1983.



[1]Ver “Poesia e Participação Política: O Caso Concreto de Haroldo de Campos”, publicado originalmente no livroParticipação e Forma: Algumas Reflexões sobre a função social da poesia.São Paulo, Epsilon Volantis, 2001, p. 78-95. Este texto é possível de ser encontrado em alguns sites da internet em versão integral.

[2]CHAMIE, Mário.Instauração Práxis.São Paulo, Quíron, 1974. Ver páginas 114 a 116, volume 2.

[3]Mimeógrafo Generation: Folhetim Alternativo de Poesia.N.° 9, Setembro de 1986. O título da matéria sobre Joaquim Branco é “Joaquim Branco, Para Além do Impasse!”.

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Atualizado em: Qui 5 Jun 2014

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