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Opus 13

Já não tinha clara a lembrança exata de quem a gerou. Ainda menos do caminho até ele.

Clara imaginava, tanto sonhava, que acreditou que se negasse o fato ele não mais existiria.

Mas aceite, pobre exemplo da imaturidade, ele não vive no céu, tampouco conhece o Criador.

Ele reside na terra, num lote padrão enumerado tendo como quintal a campa eterna,

e na entrada uma bela, velha e ainda lustrosa cruz azul; delicado enfeite póstumo.

Alegre-se Clara, este homem que sempre gostou da vida e de suas manifestações

certamente irá apreciar o calor úmido dos vermes quando estes lhe percorrerem o corpo.

Sentirá as irônicas cócegas da morte em seus tecidos quando isso acontecer, há de animar-se.

Será que ele vai sorrir, querida? Até mesmo tu, que tão pouco o conheceu poderá dizer-me

Que não será fácil fazê-lo a princípio, mas afirmo que o deveria, se avesso à ingratidão.

Traga-me um ser humano que não desejaria ardentemente receber belas flores de plástico

e velas derretidas pela ocasão de seu aniversário, ou em respeito ao dia dos mortos.

Todos precisam de um pouco de solidão, e ele terá o privilégio da eternidade para pensar.

Provavelmente não terá muitas opções de reflexão, mas estará em plena segurança.

Jamais conseguiria romper os cadeados desse caixão; veja, Clara, são dourados como seus olhos.

Por que choras, se o mundo é tão generoso contigo, dando o paraíso a teu pai?

Se foi este quem lhe deixou, quem perdeu a vida e lhe fez perder o chão?

Quem te fez ficar sozinha e se perder a borrar de lágrimas tua vida?

Não chore, criança, há de ser bom.

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Atualizado em: Seg 24 Jan 2011

Comentários  

#2 pazanarquia 31-01-2011 21:51
há de ser.
#1 Taquicardia 26-01-2011 10:45
Nem sempre, meu caro, nem sempre. :)

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