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PÊSSEGOS

Não devo cultivar esses pensamentos tão tristes,

Mas não há como deixar de pensar neles
Assim como também é difícil prosseguir estes versos
Ah, mas eu ainda sinto a chuva fria molhar meu rosto
( eu sinto...)
Vejo as cores e admiro-as
( eu vejo...)
Ah, se eu pudesse escrever como tudo isso me fascina
E o quanto eu amo!
Amo, porque sei que posso perder tudo
Tudo o que me parece simples,
E de tão simples não merece atenção
Mas eu sinto - eu ainda posso sentir!
E se eu fecho meus olhos
E toco suavemente um pêssego
- um simples e pequeno pêssego -
Eu consigo enxergar e sentir Deus
A textura da casca,
Mais perfeita que o mais sofisticado veludo
E as cores! O amarelo e o vermelho
Que dançam e se unem e se dispersam
E como explicar para um cego
O que é o vermelho e o que é o amarelo?
Mas o vento que soa tão frio não me revolta,
Me agrada!
E até quando eu o poderei sentir?
Deus é tudo o que o homem não é capaz de destruir
Uma certa árvore dá pêssegos,
O homem morre, vira vermes,
E a mesma árvore continua a dar pêssegos!
Mas o homem é o centro do universo, o grande poder!
Cerra, destrói, acaba, extingue tudo o que lhe cerca
Mas as plantas não sangram, e por isso não sentem dor?
Não, não sangram. Elas choram...
Toda desgraça que o homem sofre, atribui a Deus
Se contrai uma certa doença, a culpa é Dele,
Se numa indústria todas as televisões são feitas
Exatamente do mesmo modo,
Por que em uma, ou outra aparece um defeito?
E por que não pode, também, uma célula
Apresentar um defeito?
Ela pode se esquecer de trabalhar um pouco,
Todo ser vivo se cansa, e por que ela não teria esse direito?
Se até as televisões, que não respiram, têm!
Não, não há hipótese de intervenção divina nisso
Toda criação divina é perfeita,
E que ser é mais abominável e desprezível do que o homem?
Que destrói, arranca e mutila
O que Deus nos deu com tanto amor?
Pondo cimento onde existia vida e ainda se julga civilizado!
Na chuva, no sol, no vento, no mar, nos animais e nos pêssegos
Eu vejo e sinto Deus
Em tudo mais, é o homem destruindo a si mesmo!
E se eu perder o que me é de mais valioso,
Não culparei Deus nenhum, por Dele não ser a culpa
Lembrarei com saudades de todo seus bens feitos:
Das ondas do mar que se desfaziam em meus pés,
Do sol que me incomodava os olhos,
Dos pêssegos que me deixam extasiada,
Da chuva que me acalmava lentamente,
Do vento que às vezes me abraçava...
E se algum dia perder meu privilégio de ver e sentir
Lágrimas descerão em meu rosto
Ao ouvir alguém dizer:
- Está azul o céu lá fora.
Mas eu não estarei triste,
Porque eu sei o que é o azul
Como sei o que é o amarelo e o vermelho
E existem pessoas que nunca saberão

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Atualizado em: Qua 11 Dez 2013

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