person_outline



search
  • Contos
  • Postado em

O presbítero e o beato

Numa cidadezinha do interior - daquelas em que a vida passa se arrastando - o sol parecia sorrir, enquanto a gente simples daquele lugar, feito formiguinhas, se mantinha envolta em sua rotina de poucos acontecimentos: estudos, conversas despretensiosas, trabalho... Tudo ali era um cenário harmonioso (Maria? Santa?!), até o tempo fechar.

Frente à uma conhecida casa de lanches, Albérico, católico até no cheiro, punha-se a trocar dissabores com Daniel, presbítero de uma famosa igreja local.

- Ah! Vá tomar dinheiro dos seus besta! - grunhiu Albérico, que, por mero acaso, parou com a filha no estabelecimento para comer qualquer coisa. E em meio aos seus urros, batia ele os pés contra o presbítero; este, com seu paletó negro, se assemelhava a um urubu agitando as asas, ao mesmo tempo em que tentava ferir à patadas o seu adversário, num embate que, tal uma rinha de galos, chamava aos curiosos.

- E o seu padre? Não pede o dízimo, não? - ladrou Daniel - Quero saber qual a igreja que não paga conta.

- Mas a minha não faz negócio.

Painho. Uma voz mansa se meteu naquele alvoroço, enquanto Albérico berrava; e sem mais nem menos, uma menininha de vestido branco se agarrou à perna de Daniel.

- Você não é meu pai - disse ela ao olhar o presbítero - Desculpa, é que vocês são tão parecidos.

Àquela altura, tanto o beato quanto Daniel aparentavam estarem amordaçados com o inusitado, quando a menina se virou para Albérico: - Painho, a moça lá dentro tá perguntando o que a gente vai querer. O senhor não vem?

Albérico olhou para o presbítero. O católico mexia os lábios devagar como se na sua cabeça a resposta estivesse sendo processada, ou talvez quisesse apenas soltar outro insulto.

-  Bora, filha, disse o beato, pegando a menina pela mão.

E assim, seguiram caminhos opostos, os dois homens.
Pin It
Atualizado em: Ter 1 Ago 2017

Comentários  

#2 luizbatista 15-08-2017 14:08
Ô! Kkkk... Agradeço o elogio.

Na verdade, eu tenho a vantagem de presenciar alguns casos assim; é mais fácil escrever o que se conhece.

Amei suas poesias. Elas têm aquela sensualidade ardente e, ao mesmo tempo, não são vulgares.

Sucesso!
#1 Clio 14-08-2017 20:48
Seu conto é excelente. Retratou muito bem uma cena numa cidade do interior. Parabéns! Obrigada por seu convite .

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222