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Aquele adeus

(Indico a leitura do texto, ao som da música "Someone Like You - Adele")
Me adentrei pela porta daquela casa que à anos não coabitava.
Estava escura, apenas com fios de luz feitos por pequenas frestas das cortinas. Fiquei parada por um momento olhando para elas.
O vento do outono de abril fechou bruscamente a porta atrás de mim, mas, eu nem me mexi, apenas fiquei olhando para o topo da escada e vendo ele parado, dando alguma ordem lá de cima. Ele fazia muito isso, pois se fizesse da parte de baixo das escadas se sentia pequeno - me confessou um dia, quando era criança - de lá, sentia-se alto, atento e superior.
Superior é uma palavra que melhor o descrevera. 
Não sobre mim, não por muito tempo, pelo menos, e agora, nunca mais tentará.
"Tolo! Mesquinho! Egoísta! Orgulhoso!" pensei e meus olhos marearam.
Nesse momento fui inundada com lembranças que continham gosto de raiva e ressentimento. Queria destruir aquela escada, senti vontade de sumir com aquele topo da escada, as pessoas subiriam por corda, escalando parede, mas aquele lugar deveria desaparecer.
A raiva inundou meu corpo de tal modo que peguei um enfeite de vidro do aparador da entrada e joguei no vulto da lembrança que ainda estava me dando ordens do topo daquela escada.
O vidro se chocou com a parede soando como um alarme para aquele fantasma desaparecer.
Senti as lágrimas escorrerem de maneira involuntária. Sentei na ponta da escada, lembrei daquela cena onde eu saia pela porta e ele, do seu topo, disse: "Helena! Volte! Ou nunca mais poderá voltar!". Eu vi uma menina de 19 anos hesitar ao sair porta afora, olhar para cima e sair, sem dizer nada, fechando a porta atrás de si. 
Eu nunca mais voltei, ele não me queria lá. Voltamos a nos falar, alguns anos depois. Mas, ele nunca voltava atrás, não descia da sua superioridade e eu nunca ousei invadir um espaço que não me pertencia mais. Eu não pertencia à ele, então não era bem vinda a conviver em seu lar. Um lar que um dia foi meu, um lar que hoje é frio, vazio e me traz estranheza. Um lar onde ele não habitará mais.
"Idiota! Ignorante!", pensei novamente e coloquei a cabeça entre as pernas, como a menina que sentou no sofá perto da janela, da sala à direita da escada, com o joelho ralado. Ele a abraçou, mas depois disse firmemente "Você precisa se cuidar! Sonhar menos, chorar menos... Ser mais rápida, esperta e atenta. Eu não estarei sempre aqui". Eu tinha apenas 9 anos, mas eu não me assustei, pois eram essas características que vislumbrava e admirava nele, quando era pequena e que me afastaram quando adulta.
A lembrança foi embora e a imagem de algo imaginável me veio à cabeça: na cozinha à esquerda, um homem de aproximadamente 60 anos, em um lapso de desespero engolia um vidro de remédios para conter/sanar algo que nunca vou entender, nunca vou saber. Vi ele caindo no chão, atordoado pelas substancias. Ele me olhou, esticou a mão e caiu.
"Desculpe não ter ido contra tudo isso, desculpe não estar aqui para te dar a mão. Você não era previsível como eu vivia dizendo, você não me deixou à 10 anos, como eu acreditava, você me deixou agora de maneira imprevisível. Eu devia ter voltado há mais tempo, devia ter subido no topo dessa escada e te abraçado. Eu devia ter entendido o que era meu e o que era seu. Eu devia... eu devia...". Disse em voz alta, deitada no chão, quase próximo da mão do homem da lembrança, que aos poucos se evaporou.
Adeus
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Atualizado em: Qua 27 Dez 2017
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