person_outline



search
  • Contos
  • Postado em

MARESIAS

   fantasmagoria

            Chegamos atrasados ao Colégio Paulo Costa. Se o sargento Barreto Bradockinho passou para fiscalizar, estaríamos encrencados. Morais falou para que ficasse tranquilo, porque ele era peixe do homem. “Confia em mim, fique frio”, disse ele. Como ele gostava do U2, então fiquei frio.

           Uma hora depois, uma viatura parou na frente do colégio. O sargento Bradockinho desceu do carro, com uma prancheta debaixo do braço. Estávamos conversando com duas garotas. Nos dirigimos até a viatura.

           “Vocês chegaram atrasados”, disse ele.

           “Não sargento, chegamos sete em ponto”, falou Morais.

           “Sete em ponto?”, perguntou encarando Morais. Um riso involuntário despontou no canto do meu rosto.

           “Por que tá se abrindo, Níkolas? Tá vendo algum palhaço aqui?” disse, de cara dura. “Se feche, soldado”. Então eu me mantive na minha posição de soldado, me papocando por dentro e tenso por fora.

           “Sim, senhor”. Falei.

           “Onde vocês estavam?”, olhou carrancudo para Morais e para mim.

           “Sargento, estávamos nos fundos do colégio”, eu arrisquei.

           “Fazendo o que?”

           “Rondando a área, sargento”, disse Morais.

           “Reconhecimento do terreno”, eu emendei.

           “Eu sei qual é o reconhecimento de vocês”, disse ele olhando para as garotas. “Cuidado pra não pagarem pensão”.

           “Estamos de olho aberto, sargento”.

           “Por isso estamos fazendo reconhecimento do terreno”.

           “O lugar de vocês é aqui na frente do colégio. Nada de ficar nos fundos ou dentro do colégio. Fiquei, aqui, mais de meia hora esperando vocês aparecerem”. Bradockinho fez algumas anotações na prancheta. “Vou voltar por aqui ainda hoje”. Entrou na viatura e colocou a cabeça para fora:

          “Tô doido pra botar pra foder com os nozeiros, hoje”.

           Quando ele saiu fora, me voltei para Morais:

           “Belo peix e você tem”.

           “Porra, bicho, hoje ele tá com tpm”.

           “O cara é de lua. Não gosto desse tipo de goela”

           O porteiro do colégio apareceu no portão. Veio em nossa direção.

           “A diretora quer falar com os senhores”.

           Seguimos o porteiro até a sala da diretora. Ele entrou na sala, esperamos na porta. Voltou e fez o sinal com a mão para entrarmos na sala da diretora. Uma coroa de 45 anos, mais ou menos, estava sentada atrás de uma escrivaninha, cabelo pintado de lilás e vestido solto no corpo. Examinou nosso nome de guerra. Aconchegou-se mais na sua cadeira-de-presidente. No quadro da parede atrás dela, o governador João Alves pousava sorridente, como um verdadeiro estadista tupiniquim, se diz um “grande amigo do povo”.

           “Morais e Níkolas, não é?”

           “Exatamente, Senhora”, Morais afirmou.

           “Me falaram que alguns alunos estão usando maconha no banheiro masculino. Quero que vocês verifiquem. Veja quem foi e traga até aqui”.

           “Quem denunciou, senhora?” falei.

           “Dois alunos da Congregação Aliança de Libertação em Cristo”.

           “Vamos dar uma checada, Níkolas”.

           “Vamos”.

           Saímos da sala da diretora. O porteiro nos seguiu. Descemos o corredor e passamos pelo pátio da escola. Era horário do intervalo. Os alunos se concentravam no pátio. Vi Rôdi sentado no banco à direita, enturmado com um pequeno grupo de rapazes e garotas. O sorriso e o brilho dos olhos faziam círculos concêntricos no rosto de Rôdi e dos rapazes.

           “Beleza, Niko?” falou Rôdi, fazendo sinal de ok com o dedo.

           “Beleza”. O porteiro me olhou de relance. Não me importei com ele. Entramos no banheiro. O porteiro colado ao nosso lado. Sentimos a maresia no ambiente. Examinamos em torno. Não encontramos nem sinal da ponta do cigarro. Morais olhou para mim:

         “Tá sentindo?”

         “Tô. E é das fortes”, eu disse elevando o nariz.

         “Já sabe quem foi?”

         “Não”, respondi.

         “Também não”, disse ele, piscando um olho. A maresia foi evaporando-se aos poucos, mas dava para enlouquecer um padre. Saímos do banheiro e subimos o corredor.

           O pátio ficou lotado de estudantes curiosos. O sorriso e o brilho colorido rodopiavam no rosto de Rôdi e dos rapazes. Passamos o pátio e seguimos o corredor.

           “Sabe, velho, talvez se botasse a molecada pra fumar na escola, os estudos seriam mais proveitosos”. O porteiro arregalou os olhos como se tivesse escutado o pior absurdo da face da terra.

           “Seria como uma merenda no recreio, né!”, acrescentou Morais. O porteiro arregalou os olhos, emendando o nariz com a testa. Parecia que tinha acabado de assistir uma cena de terror.

           “Teríamos grandes cientistas, filósofos, poetas, guitarristas... ao invés de operários fodidos e analfabetos”.

           O porteiro nos seguia de cabeça baixa, olhos raspando o piso de cimento.

         “Mas é uma ideia tosca para atual burrice mundial”, constatou Morais.

         “Isso mesmo”.

         “Ainda bem que têm caras como Bono Vox pra melhorar as coisas”.

          “Ainda bem que tem caras como Willie Nelson pra mijar na mesa dos conservadores”

         “E sem pagar pau pra ninguém”

         “Isso”.

           Entramos na sala da diretora. A secretária disse que iria chamá-la. Olhei a cara sorridente de João Alves na parede. Involuntariamente, me lembrei do engenheiro, pai dele. Corria o boato que o velho gostava de menina nova. Eu não sei de nada. Só sei que o filho botava uma pose e tanto, com sua lambreta na Atalaia Velha, nos anos 60. Cutuquei Morais com os cotovelos.

           “Ói, ali, seu digníssimo patrão”.

           “Esse ladrão, miserável”, disse Morais. “Até agora não deu o nosso aumento”.

           “Sossegue. Se não, vamos acabar montando uma guerrilha”.

A diretora apareceu na porta da sala. Entrou e passou por trás de nós e foi se sentar na cadeira-de-presidente bem à nossa frente.

           “Viram ou sentiram alguma coisa?”, perguntou olhando para nós dois.

         “Não. Não vimos nem sentimos nada”, eu falei.

         “Acho que foi um alarme falso”, acrescentou Moraes.

         “Não. Não creio. Os garotos da Congregação não iriam fazer alarme falso”. Disse ela, nos examinando.

        “Diretora, as aparências enganam”. Eu disse, mesmo odiando frases feitas, mas nessas horas elas ajudam.

           “Como assim?”, perguntou.

           Olhei para o retrato de João Alves, olhei para ela e depois para meu colega Morais. Ele adiantou-se:

“Ele quis dizer que os garotos da Congregação talvez tenham se confundido. Não vimos nada, diretora!”, Morais falou com um tom de voz que fez a diretora repensar a situação.

“Bem já que não viram nem sentiram naaada, eu agradeço a gentileza. Obrigado”.

         “Se precisar é só nos chamar, senhora. Estamos à disposição”. Morais disse.

           Nos retiramos da sala da preservadora dos bons costumes e fomos nos postar bem ao lado do portão da escola. As duas garotas se aproximaram. Nilzinha estava de chamego com Niko, mas Niko ficou na dele. Ela, infelizmente, não fazia seu tipo de mulher. Genilma era uma morena de cima, mas infelizmente estava quebrando as asinhas para Morais. É a vida e seus malditos contratempos. Nilzinha tirou uma bala do bolso. Genilma era linda. Eu disse para Morais que ela se parecia com Pam Grier.

         “Quem é essa, porra?”

         “Uma puta do Pipo’s”.

         Para variar, começou a rolar aquela onda de adolescentes. Nilzinha me ofereceu uma bala icekiss.

         “Aceita?”

         “Aceito princesa”. Fiz menção de colocar a bala no bolso da farda, mas ela disse:

         “Veja qual é a frase que tá escrita no papel”. Olhei para ela. Uma garota gentil, seu rosto era lindo. Mas, do pescoço para baixo, alguma coisa não se encaixava.

         “Pra que?”, disse eu.

         “Por que quero ver. Sou curiosa”, disse sorrindo. Tirei o papel da bala. E entreguei para ela. Leu com voz empolgada:

           “Você é irresistível”.

           “Nossa, meu, que irresistível!”, falou Morais. Fiquei olhando para sua cara-de-pau. Ele se voltou para Genilma:

           “Só eu, que não ganhei uma bala assim”.

           “Não seja por isso, meu bem. Tome uma”, disse ela sorrindo. Seu sorriso era como uma manhã de sol e vento fresco.

           “Muito obrigado, minha deusa!”. Ele desenrolou a icekiss e pôs na boca. Depois leu o papel: ‘Meu desejo é ficar com você’.

“Virge Maria, essa foi no útero!”, disse Nilzinha.

           Já estava me enchendo de toda aquela idiotice. Sempre é assim, policiais no serviço são sempre ridículos quando estão perto de mulheres. Morais estava todo cheio de si como um galo que acabara da cantar no poleiro. Ele cruzou os braços para mostrar seus músculos bombados. Eu ri e falei:

           “Você tá parecendo o Rambo”

           “Vá se foder, Niko”.

           “Você malha em qual academia”, perguntou Genilma.

           “Sport Connection”. Disse ele. Filho da puta mentiroso, eu disse para mim mesmo.

           “Fica aonde?”, disse ela.

           “Fica na 13 de Julho”

           “Hum! Bairro de gente chique”.

         “Você paga quanto lá, Morais, pra deixar esse corpo todo bombado?”, eu falei.

           “Bombado, um caralho! Aqui é malhação e muita comida balanceada, Niko. Claro, no final de semana tomo minha cerveja e curtindo U2. Ninguém é de ferro”.

         “Sei. Me disseram que você gosta de fazer fio-terra”, falei rindo.

        “Já começou a tirar onda. Dou-lhe um murro, soldado palito”, falou ele mostrando o muque bombado.

       “Você, Niko, malha aonde?”, perguntou Genilma.

       “Quê! Com esse corpinho, hum!” Fez Morais.

         Levantei os braços e cerrei os punhos.

       “Eu malho na academia Estampa de Grilo”

       As garotas não agüentaram. Riram pra se acabar.

       “Essa porra é poeta. Só vive com um livro debaixo do braço”, ele emendou, rindo.

         “É, deu pra notar”, disse Nilzinha. “Depois, quero ver um poema seu”.

            “Tá certo”.

         “Faça uma poesia pra ela, viu poeta”, falou Genilma.

“Acho que é preciso exorcizar umas boas doses de cachaça mineira”.

         “Como assim!? Precisa estar bebum pra fazer um poema pra mim?”, disse Nilzinha, intrigada.

           “Não é isso. Inspiração, sabe. Quando estou de fogo, a inspiração vem”.

“Ah. Entendi”.

           Depois de muita conversa fiada, as garotas se foram. Estávamos na metade do serviço. Havia alguns garotos fora da escola, conversando e esperando os anjos de saia saírem da aula. Jovens com a cabeça falida, só pensam em noites de pagodes e muito axé. Comem uma buceta e saem espalhando a boa nova entre os idiotas, como se fosse um troféu conquistado.

           “Ói quem vem ali, Niko” disse Morais.

           Vi uma figura alta, magra e desengonçada, balançando o corpo sob a luz do poste.

          “Diga, Fernandinho Punkrock”.

           “Diga, véio”, respondeu ele.

           Fernandinho Punkrock antes de entrar na polícia tinha uma banda punk. Vi ele, pela primeira vez, num festival de rock no Sol Nascente. Bêbado, calças rasgadas e mulambado como um verdadeiro punk. Fernandinho trazia o quepe na mão. Mesmo na polícia, ele continuava com alguns maneirismos do punk. Não estava nem aí para boa aparência.

           “Rapaz, o sargento Bradockinho tá com tpm. Se ele pegar você aqui, vai botar no seu cu punk”, avisou Morais.

           “O sargento tá numa caxiagem do caralho!”, comentei.

           “Ele passou por lá. Parecia uma moça”, disse Punkrock, rindo.

           “Nunca confie em caras com cara de moça”, falei.

           “Eu sei disso, véio. Tem de saber como ganhar os goelas. Bradockinho é meu chegado. Cervejamos juntos várias vezes. Eu perdi as contas das vezes que enchemos a cara lá no Pipo’s. Bradockinho é bom de copo. Um dia, quase arrebenta a cara de uma puta. Segurei ele e tive de contornar a onda. Ficou meu amigo”.

           “Porra, Punkrock, não sei como você suporta beber com ele.

           "O cara é um prego”.

           “Eu sei disso, véio. O cara é um alienado. Só gosta de pagode, forró elétrico, axé... essas coisas macabras. Morais sabe disso, já bebeu com ele”.

           “É, eu sei. Uma vez, botei U2 pra ele ouvir, ele não gostou nem a pau. Disse que era música de maconheiro”.

           “Vamos parar de falar de merda, senão a gente vai acabar sentindo o cheiro”. Eu intervi.

           “Que farda bagaçada é essa, Punkrock?!”, perguntou Morais.

           “Ô, véio, a polícia não dá farda. Eu mesmo não compro. Não é minha obrigação”.

           “Trata-se de sua aparência pessoal, Punkrock. Vá esperar pela polícia, que você vai virar mendigo”.

           “Aparência de cu é rola, Morais. Mendigo é o salário que eu ganho. Não sou vaidoso como você, não”, disse rindo e coçando os culhões.

           “O cara é um soldado punk, Morais. Deixe o cara”, eu falei.

           “Já fui. Se Bradockinho passar por aqui, diga que não me viram”, disse Punkrock, se retirando.

           “Hei, vai pra onde”? Perguntei.

           “Vou ali, na casa de Saburica, ouvir um som”. Punkrock atravessou a avenida Centenário e subiu a Rua K2.

           Às dez e meia da noite, o Colégio Paulo Costa encerrou as aulas. eu peguei o caminho de casa e Morais o dele. Passei pela Praça do Bugio. Três caras e duas garotas fumavam cannabis tranquilamente. Quando me viram, disfarçaram escondendo o baseado. Senti o cheiro da maresia. Fiz de conta que não me importava. Atravessei a rua, desejando chegar logo em casa. Precisava relaxar a mente e ler um bom livro.

Pin It
Atualizado em: Ter 11 Ago 2020

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222