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HELENA

            Heitor forçou os olhos embaçados tentando buscar o foco adequado para ver as horas no relógio repousado em cima do criado-mudo, ao lado da cama. Esfregou os olhos e se assustou quanto viu que marcava sete e quarenta. Lembrou do seu compromisso agendado para as oito horas com Antunes, o novo gerente regional da distribuidora de Gás, que até então ele não conhecia pessoalmente. Saltou da cama rapidamente sem se preocupar em acordar a esposa Helena adormecida no lado direito da cama. Ainda que não totalmente desperto, apanhou o celular e enquanto se dirigia para o banheiro digitou rapidamente um “vou me atrasar um pouco”, e enviou para Antunes, sem esperar resposta imediata. O importante era avisar, pensou.
           Na noite anterior ele havia permanecido até tarde num encontro com amigos que o apoiaram na ultima campanha eleitoral, na verdade havia ficado mais por cortesia do que por seu próprio gosto. O convite havia sido feito uma semana antes e Heitor havia confirmado de pronto, sem pensar muito, pois estava na fila do portão 03 do aeroporto de Brasília embarcando para Chapecó, com escala em Guarulhos. Ele iria desligar o celular. Jamais deixaria os velhos amigos e parceiros na mão. Era uma turma que certamente iria apoiá-lo no futuro, se precisasse. 
            Enquanto se barbeava, já com o coração em compasso normal, sentia como se tivesse algodão na boca - seca e amarga - sem falar daquele leve mal estar no estômago que estava sentindo, enquanto buscava contar mentalmente quantas cervejas havia bebido. Nem bebi tanto, será que estou ficando velho? Perguntou ele a si mesmo, em pensamento. Olhou de soslaio para o celular sobre o balcão e viu que Antunes havia respondido: “sem problemas, deputado, eu também perdi a hora, nos encontramos as nove e meia, então”. 
            Com a situação sob controle, lembrou que não vira a hora que Helena havia chegado. No início da noite anterior, antes de ir ao encontro festivo com os amigos, ele havia ligado para a esposa informando que iria chegar tarde... outra vez tarde, presumindo a frustração da esposa. Não ficou surpreso com a resposta curta e em tom sereno. Tudo bem. Beijo !! Ela sempre fora compreensiva com a rotina do marido e atenciosa com o seu bem estar. Disse que iria aproveitar para ir à casa da Adelia para acertar os últimos detalhes do chá da tarde beneficente, que a associação de mulheres do bem, estava promovendo, agendado para a próxima Quarta. 
           Santo Deus, preciso dar mais atenção para a Amanda. Não tenho dedicado um  minuto sequer, só pra ela. Na verdade ela merece uma semana livre...um final de semana seria mais fácil pra nós. Ela merece...pensou enquanto secava o resto de espuma da face. Ele sentia que já havia passado da hora de dedicar um final de semana inteiro para sua amada esposa, assim eles poderiam se hospedar em algum lugar não muito longe de Chapecó, quem sabe em um hotel de Abelardo Luz, Itá ou Machadinho, onde poderiam viver bons momentos juntos, dedicando atenção exclusiva um para o outro...Helena iria adorar, pensou ele, convencido de sua própria idéia.
           Helena era uma mulher de beleza marcante, tinha 38 anos, era alta, morena e olhos castanhos e brilhantes. Seu sorriso fácil não permitia que alguém notasse qualquer traço de tristeza ou aborrecimento, mesmo quando Heitor embarcava todas as manhãs das Segundas-Feiras para Brasilia, para marcar presença em plenário da Câmara de Deputados. Atenciosa e dedicada, não só tolerava a rotina corrida do marido, mas também apoiava o seu mandato, permanecendo em Chapecó, dando suporte ao gabinete e dando assistência em causas sociais. Ela sempre apoiou a carreira política do marido, aliás, muitos afirmariam que a sua beleza, comunicabilidade e simpatia, contribuiram para a vitória do marido nas ultimas eleições. 
             Heitor saiu do banheiro e viu que Helena ainda dormia, não estranhou, embora ela religiosamente acordasse e iniciasse a sua rotina sempre as sete da manhã. Deve estar cansada, pensou. Heitor já vestido se aproximou dela e deu um beijo cauteloso na sua face esquerda, por um segundo pensou ter sentido cheiro de vinho. Foi só impressão. Foi à cozinha e apanhou a chave do carro e a carteira que estavam na mesa ao lado da sua pasta e seguiu para a garagem. Abriu a porta do carro e antes de dar a partida, conferiu e respondeu algumas mensagens do whatsapp.  _Meu Deus...hoje será mais um dia corrido, dessa vez ouviu a própria voz. “Pensou alto”. 
           Enquanto saia de casa pela Rua Quintino Bocaiuva, conferiu cautelosamente pelo retrovisor interno se o portão da garagem havia baixado totalmente, Segurança nunca é demais. Já parado no sinal vermelho do semáforo, conferiu no Google maps a localização e o caminho para chegar onde Antunes já deveria estar esperando: Padaria, confeitaria e Café do Master. Quando entrou pela porta do Café, ainda feliz por ter encontrado uma vaga de estacionamento relativamente perto da entrada, percorreu o ambiente com os olhos e  não viu ninguém com as características de Antunes, a única referência que tinha era a foto do perfil nos “contatos” do seu telefone.
           Cumprimentou com aceno as pessoas que lá estavam, possíveis eleitores ou eleitores de fato, é claro. Sentou-se na primeira mesa leu as opções do menu, sentindo-se de certa forma desconfortável pela falta de consideração de Antunes, em se atrasar, afinal, “Sou um deputado, caramba”!!  Conferiu o Whatsapp novamente e viu que Antunes havia postado um “to Chegando”. Heitor já havia feito o pedido que, casualmente a moça em seu uniforme marrom e bege, trouxe no mesmo tempo em que Antunes sorridente já cumprimentava Heitor  com um aperto de mão, abraços e tapinhas nas costas, como se fossem velhos amigos.
          _Perdoe-me o atraso, Deputado Heitor. Tive um compromisso ontem, permaneci acordado até tarde, falou Antunes, com cara de sono.  Heitor respondeu rindo, _Fomos dois, então, Antunes, Fomos dois. Antunes, muito falante e sorridente, colocou o casaco na cadeira e o celular na mesinha pouco espaçosa. Sentou-se de frente para a vidraça que revelava o vai e vem de pessoas no lado de fora, e quando buscava a atendente com os olhos para pedir o seu café, Heitor vê, embora não crendo, “acender” a foto da sorridente e amada esposa Helena, na tela do celular do Antunes. Uma ligação silenciosa com o contato salvo:  #HelenaTesão.
          _Você conhece a Helena? – Perguntou Heitor, pálido e trêmulo.   
 
  
  
 

 

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Atualizado em: Ter 18 Ago 2020

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