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PERFEITO, DEMASIADAMENTE PERFEITO

 
Era quase meia-noite de quarta feira, quando a sexta garrafa de vinho foi aberta. Entre burburinhos, gargalhadas fáceis e tilintar de taças, as amigas da turma de 2002 mais uma vez se reuniam na casa da Caroline, como sempre fizeram desde a formatura. As reuniões não aconteciam regularmente, às vezes se encontravam quinzenalmente, mas ninguém acharia estranho se o intervalo ocorresse no período de um ou dois meses, enfim, se encontravam quando dava. Essa era a regra.
O vinho já havia marcado o ritmo da conversa, já haviam falado sobre quase tudo: Suas carreiras, política, filhos, idade, já tinham falado sobre a beleza e feiúra das outras “amigas” e das “amigas das amigas”. Enfim, quem as ouvisse diria que elas se reuniam para fofocar. Não duvide que a festinha se encerrasse sem que a pauta constasse com o tema preferido: Casamento... Bastaria apenas que uma das presentes, talvez a mais embaladinha pelo vinho, tocasse em tão delicado tema.
O encontro já estava em fase de esfriamento, aquela fase em que o barulho das risadas e conversas começam a diminuir e as taças de vinho ficam esquecidas no canto da mesa, umas vazias, outras entremeadas e algumas cheias, usadas só para fazer o último de infindáveis brindes. Sabrina, a loira e alta, retornou do banheiro com o celular na mão, checando a mensagem do marido. _Gente! Falou enquanto ainda olhava o celular. _Já é hora de eu ir pra casa, tenho alguém em casa me esperando!! _Nem me fale. retrucou Angela. _Eu também tenho alguém, mas vou chegar em casa com “dor de cabeça”!!...Riram todas.
A festinha que já estava em fase de despedidas, se revigorou ante um assunto tão rico. Mariana não escondeu sua cara de frustração ao falar que já estava cansada da vida de casada. Ele só pensa no trabalho. Regina aproveitou a chance de falar: _O meu nunca diz eu te amo, me enviar flores...nem pensar!! Ângela reclamou do ronco do marido: _Não consigo dormir direito. _E eu, meninas...Nem lembro a última vez que transamos... Murmurou Tânia. _O meu deve ter outra, anda estranho, ultimamente. Falou Juliana com ironia. E assim seguiram elas, entre risos e reclamações clássicas como as toalhas jogadas, tampo do vaso e falta de diálogos.
Sofia, a mais nova de todas, mas sem dever nada em experiência sobre casamento, pois havia se casado ainda durante a faculdade, estava sentada no canto da mesa com a taça de vinho na mão, quase vazia, observava tudo, ouvindo e rindo, mas ainda não tinha se manifestado. _E você, Sofia, qual a tua reclamação? Indagou Sabrina. _Eu...? Sofia não soube o que responder. Fora surpreendida com a pergunta. Buscou mentalmente e percebeu que não tinha uma resposta pronta. Sentiu-se estranha por não ter o que dizer. _Maridos são todos iguais!! Retrucou estrategicamente.
Sofia não se sentiu mais confortável naquele ambiente. Despediu-se de cada amiga dizendo que precisava ir. Ligou o carro e saiu ainda ouvindo o alarido das poucas amigas que ainda permaneceram no encontro. No som do carro tocava uma música romântica do Roupa Nova que lembrava o tempo de faculdade. Não era saudade o que ela estava sentindo, na verdade, ela sabia o que sentia. Sentia-se estranha. Chegou em casa, guardou o carro na garagem e quando entrou em casa foi surpreendida com o marido que ainda a esperava. O marido sorridente perguntou como foi o encontro: Normal, disse ela, com olhar distante e sem muito detalhar.
Os dias que seguiram não foram mais os mesmos. Sofia não conseguia se esquecer das reclamações das suas amigas naquela noite do encontro, havia se sentido uma completa idiota ao perceber que não tinha o que responder para as amigas. Sentiu-se mal por ser a diferente. Na verdade ela nunca havia pensado sobre os defeitos do marido. Desde aquele dia ela passou a procurar mentalmente e de forma insistente algum defeito para que ela pudesse ter o que falar quando e fosse questionada novamente.
 O marido de Sofia sempre foi um homem que soube equilibrar a sua bem sucedida carreira e família. Sempre se despedia dela com um beijo e um “eu te amo”. Não esquecia datas importantes e mandar flores, era uma coisa relativamente costumeira. Era fiel e a satisfazia na cama. Era extremamente organizado e a auxiliava nos afazeres domésticos, enfim...era perfeito. Quanto mais Sofia pensava nisso, mais ela ficava incomodada. Não é possível, ele deve ter alguma coisa que me desagrade!? Falou sozinha, Sofia. Pensou alto, na verdade.
Os dias passaram a ser desagradáveis para Sofia. A relação dela com o marido sofreu algumas transformações. Os diálogos cessaram, enquanto o marido insistentemente perguntava: _Amor, o que está acontecendo? Você está tão diferente...  _Nada, amor, me deixe quieta, por favor. Respondia ela chorosa. Na manhã seguinte, o marido saiu para trabalhar e como sempre beijou Sofia reafirmando o seu amor com um sonoro “eu te amo”. Sofia não retribuiu. Passou o dia inteiro pensando que deveria se considerar uma mulher de sorte, mas o fato de se sentir diferente, excluída das demais mulheres do seu círculo de amizade, a incomodava. Chorou muito.
À noite, quando o marido retornou para casa, encontrou uma Sofia totalmente diferente. Ela estava feliz e parecia aliviada. Realmente ela o aguardava ansiosa e com um ar sereno na face. Sua angustia havia terminado e sua decisão estava pra ser anunciada.
- Amor...Quero o divórcio !!
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Atualizado em: Seg 17 Ago 2020

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