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BRANCO, VERMELHO E AMARELO...AMARELO!!

                 O céu noturno de Chapecó estava iluminado com a festa multicores dos fogos de artifícios. Em terra, mais precisamente na Rua Floriano Peixoto, no trecho que separa a Catedral Santo Antonio e a praça Coronel Bertanza, Justino, a esposa Dalila e o filho Natanael, de 12 anos, em suas vestes externas brancas olhavam para o céu. Era a virada do ano, 2016 havia ficado pra traz e 2017 dava o ar da graça. Justino fazia um esforço hercúleo para demonstrar alegria...Dalila se aproximou sorridente com duas taças na mão esquerda e com a mão direita segurava o gargalo da moscatel que havia comprado no Celeiro Center, dois dias antes, para estourar na virada. _Justino, rápido... abre que já está na hora de brindar!! Falou Dalila, alcançando-lhe a garrafa.
               _Feliz ano novo, Justino!! O Ano foi perfeito !! Dileta ergueu a taça em direção a do marido.
               _ Feliz ano novo Dalila...!! Respondeu Justino com um sorriso contido. Tenso, alguém diria..
               _ Sorria, amor !! Esse ano foi muito bom pra nós. Estou muito Feliz...fizemos tantas coisas...viajamos, reformamos a casa, móveis novos, trocamos de carro, o Natanael foi para o colégio particular...sem falar do Iphone X8 mega plus que ele ganhou.
                Justino apenas esboçou um sorriso...Concordou com Dalila, pelo menos tentou demonstrar isso.
              _Então? Agora está na hora de você revelar o segredo...promessa é dívida!! Falou Dalila enquanto lhe dava um “selinho” gelado com gosto da espumante.
              Justino sentiu um frio na barriga, desviou a atenção da esposa, fingindo acenar para o Lutiano Bonligone que estava ao lado de uma viatura da Polícia Militar, conversando com dois policiais.
               Na festa da virada do ano anterior, de 2015 para 2016,  Justino estava realmente feliz.  Ele, que era vendedor de seguros, havia feito muitas vendas, estava com as contas em dia, e ainda conseguira guardar “uns trocados” de reserva. Dalila que ainda não tinha perdido o emprego, o ajudava com as despesas diversas.
               Por tudo isso eles optaram por passar a virada no litoral, na cidade de Itapema. Na praia, em Meia-Praia, para ser mais exato. Depois da meia-noite, quando eles já haviam brindado a virada, caminharam abraçados tranqüilos pela areia com os pés descalços. Justino havia dito a Dalila que o ano que estava nascendo seria um excelente ano para investimentos, embora não pudesse falar os detalhes para Dalila, ela deveria confiar nele, pois em 2016, ele iria ganhar muito dinheiro.
             _Jura? Falara Dalila, feliz, mas meio assustada.
             _Como? Insistiu, pensando se tratar de algo ilegal.
            _É SEGREDO, só vou te revelar no fim do ano, na virada para 2017!! respondera Justino.
             O ano havia passado e Dalila, ao contrário das demais mulheres, não perdia o sono para saber antecipadamente um segredo. Era paciente. Mas para ela, um trato fazia leis entre as partes, e deveria ser cumprido. Ela aguardou pacientemente até então, e queria saber como ou o que o marido fizera para ganhar o dinheiro para pagar todas as coisas que fizeram durante o ano, inclusive a viagem, que não foi barata.
           _Fala, Justino !!
           Justino encheu a taça com espumante do Celeiro. Fez cara de tédio.
           _Dalila, agora não...vamos aproveitar a festa!!  Retrucou Justino.
           _FALA !!!
            Justino admitiu em pensamento que estava numa enroscada. Pela primeira vez na vida, ele não sabia o que falar, e a fala sempre havia sido sua ferramenta de trabalho. Temia cumprir a promessa de revelar o segredo para Dalila, se o fizesse naquela noite, não só a festa, mas seu casamento poderia acabar. Absorto nesses pensamentos voltou em si quando ouviu a voz de Dalila, dessa vez mais alto e nervoso. _FALAAA !!!
          Justino se prontificou a enfrentar seu destino. _CALMAAA, Eu vou falar!! Retrucou no mesmo tom, baixando no final da frase. Não queria agravar o que já era grave. Jogou fora o resto de espumante que estava na taça, já indo em direção da travessa do camelódromo, onde havia deixado o seu Honda Cívic estacionado. Dalila e Natanael, o seguiram dois passos atrás.
           As portas do Honda Civic se fecharam. Natanael no banco de trás não estava nem ai para a situação. Parecia estar em outro mundo com os olhos fixos no celular conectado no youtube, no canal do Felipe Neto, assistindo e ouvindo com os fones de ouvidos conectados via Bluetooth. Dalila colocou sua taça no porta-copos da porta, cruzou os braços e sem falar nenhuma palavra, olhou para Justino. Ela só queria ouvir. Justino demonstrou calma. _Nossa placa é final um, vamos ter que pagar o licenciamento em breve. Desconversou.
           Dalila continuava esperando. Justino criou coragem e começou a falar:
           _Dal...Lembra que em 2014, depois de dois anos eu voltei a falar com a tua mãe?
           _Sim. Que que têm? Dalila respondeu estressada.
           _E do Mascarenha, aquele meu colega que havia mentido a meu respeito para “roubar” a minha praça de vendas?
           _Hum...Já sem paciência.
           _Então? Eu já estava cansado de Guerra, então na virada de 2013 para 2014, eu usei uma cueca branca para me trazer paz. Deu certo, eu fiz as pazes com a tua mãe e o Mascarenha se tornou um dos meus melhores amigos.
           _Lembro. Dalila demonstrou interesse.
           _Lembra que em 2014 o nosso casamento estava meio morno...você até havia me proposto a separação?
           _Sim...mas não foi tanto assim, eu estava só pedindo atenção. Falo Dalila, ouvindo com atenção.
           _Então? Na virada de 2014 para 2015 eu usei uma cueca vermelha, e o nosso ano foi maravilhoso. Vivemos momentos intensos em nosso casamento. A paixão voltou.
            Verdade. Confirmou Dalila.
           _Então? Prosseguiu o reticente Justino. _Como a simpatia de vestir a cueca com a cor respectiva tava dando certo, na virada de 2015 para 2016, lá em Itapema, eu vesti uma cueca amarela para eu ter sucesso financeiro e... _Sim, deu certo, fizemos tantas coisas!! Interrompeu Dalila. Feliz.
           Justino silenciou e olhou para o horizonte. Estava escuro, mesmo assim ele insistiu em olhar. Na verdade ele não queria encarar Dalila. Lembrando da cagada que havia feito. Ambos inciaram e continuaram por todo o ano, gastando por conta da cueca amarela.
           _ Então?  _Só pode que eu tenha me enganado no tom de amarelo. Talvez usei uma cueca laranja, sei lá!!
           _Ai meu Deus!! O que você fez? Dalila imaginou o pior.
           _ Sabe a nossa viagem para Porto de Galinhas...? eu fiz em 12 vezes no cartão.
           _ Sabe a reforma da casa? Peguei o material no Bigolin e só consegui dar a entrada. As prestações estão atrasadas. Estou com meu nome no SPC. Prosseguiu _Desde Junho eu estou no crédito rotativo do cartão de crédito, e o carro está com a busca e apreensão decretada.
           Dalila permaneceu em silêncio, já com os olhos marejados.
           Prosseguiu Justino. _Os moveis eu paguei só duas parcelas com o valor do teu seguro desemprego, que você me repassou. Lembra?  As demais estão atrasadas.
           Agora era Dalila quem olhava para o horizonte escuro.
           _Dalila, Estamos falidos!! Sentenciou Justino.
            Dalila abriu a porta, saiu e permaneceu por algum tempo escorada no capô, enquanto percorria com o indicador o H prateado na grade dianteira do carro, e com a outra mão secava as lágrimas. Permaneceu ali em silêncio olhando para as grades do muro da catedral. Justino permaneceu dentro do carro, em silêncio, respeitando o momento de reflexão da esposa.
          Dalila respirou fundo, abriu a porta traseira e pediu para Natanael  pegar as coisas, e ambos seguiram em direção a praça.
          _Dalila!! Onde você vai? Não vai falar nada?
          _Vou para casa da minha mãe. Não vou permanecer casada com um idiota que jogou nossa vida no lixo porque não consegue diferenciar o amarelo do alaranjado!!
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Atualizado em: Seg 17 Ago 2020

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