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NOITE DE SÃO JOÃO

o forró dos bichos j. borges
               “Já tô na Santo Amaro, casa de Margô. Daqui a pouco, sairemos pro forró”.
               “Ok”.
               “Como é, você vem, Niko?”
               “Não sei. Estou pensando”.
               “Sua vida é só pensar”.
               “Não tenho culpa de ser assim”.
               “Vai vir ou não?”
               “Tô decidindo”.
               “Peste indeciso... Tchau”.
               “Tchau”.
            Desliguei o telefone. Acendi um cigarro, traguei e soltei uma fumaça pensativa, que ziguezagueou em torno da lâmpada. Era visível a dúvida dilatada no moído do pensamento: vou ou não vou? Verifiquei a programação, examinei as atrações. De interessante, só Cordel do Fogo Encantado, o resto era tudo lixo cultural. O que eu não gostava na banda de Lirinha era a falta de uma guitarra para ficar mais rock and roll. Mas isso não era problema para a noite. Passei a considerar outros pontos. Talvez possa rever alguns amigos ou algumas amigas, talvez algo interessante possa acontecer, talvez me divirta e me embriague, me perca e me reencontre na “Praça do povo”. Talvez... O acaso é mudo, não fala, nem se revela de antemão.
             Fui ao guarda-roupa, vesti uma calça, joguei a camisa preta do The Doors por cima do corpo e calcei o tênis. Cocei a cabeça, enquanto mordia meus próprios pensamentos. Lembrei de Arturo Bandini. Uma vez, Bandini me disse: “quer ser escritor, saia e aprenda sobre a vida, caminhe pelas ruas, bicho”. Suas palavras ecoaram como um pontapé e ouvi os gritos da noite lá fora. Me levantei da cadeira, fechei a porta de casa e, com passos ainda inseguros, saí para a rua.
          No ponto de ônibus da Avenida Poço do Mero, havia uma manada de jovens barulhentos, esperando o ônibus Bugio-Centro. Um grupo de cinco garotas conversavam sobre caras lindos, namoros, ciúmes e intrigas com outras garotas. Falavam dos ídolos fabricados do momento, ídolos tão descartáveis quanto copos de plástico:
            “Tô doida pra ver Aviões”, disse a mais atirada de todas. Ela usava blusa de xadrez, uma saia colada, bota preta até os joelhos e um batom mais vermelho do que um coração vulgar.
            “Xand é um avião lindo, mulher”, disse a outra ao lado dela.
            “Que nada! “Gordinho feio, do caralho”, rebateu um rapaz que estava com elas. As garotas emitiram uma sequência de uiiiis e gargalhadas.
            “Ficou com inveja, repare”.
           Passou um cara alto, seco, de calça e camisa de manga comprida pela Avenida Poço do Mero. Uma magrinha torneada, com uma roupa coladinha no corpo, comentou:
            “Esse homem me dá medo”.
            “Por que, mulher?”
            “Hoje de manhã, estava entrando no supermercado e ele chegou, do nada, e disse ‘tome!’ e jogou um monte de camisinhas em cima de mim. Pense no horror, mulher!”.
            “Eu queria que fosse comigo, mulher, pra ele ver. Ia mandar dar a mãe dele, aquela puta safada”, falou a mais atirada de todas.
          O ônibus apontou na segunda rótula da Poço do Mero. Estava já lotado e todos entraram com dificuldade, se apertando como sardinhas na lata. Naquele aperto todo, belas garotas perfumavam o ônibus, enquanto os jovens azoavam o motorista e falavam bobagens. Cocei minha nuca com gesto de lamento: Niko, que porra você está fazendo aqui! Eia, alto lá! Escute Bandini, Niko: quer ser escritor, vá para as ruas. Faça como José Sampaio, observe sua aldeia. Sosseguei num canto do latão de sardinha, observando aquela massa jovem, aqueles cabelos cortados de acordo com as marés da moda, aqueles neurônios evoluídos da Era Digital, que construirão um novo futuro para a “ordem” e o “progresso” do país.
           Quando o ônibus chegou ao sinal da Simeão Sobral com a João Ribeiro, havia um imenso engarrafamento que se estendia até o Mercado Central. A galera começou a chiar com a demora. O motorista do ônibus, de repente, fez uma manobra para a direita e subiu a Avenida João Ribeiro. O futuro do Brasil começou a gritar:
            “Aiiií, motor, arripia!”
            “Bota pra foder, motor!”
            “O gostosão daqui é você, motor!”
            “Hoje tem que beijar na língua, motor”
            “Ei, mano, o motor é pé embaixo”.
            “Filma o motor, filma!”
            “Huh-huh-huh-huh!”.
           Todos eles urravam, enquanto alguns celulares captavam as manobras e o rosto suado do motorista. Mais à frente, ele entrou à direita na Rua Amando Fontes, manobrou com perícia por algumas ruas estreitas do Bairro Industrial.  Chegou ao ponto de uma bocada, parou e apurou a visão, como quem não sabia se a rua adiante tinha alguma saída.
            “Óia, o motor tá perdido!”, falou um dos jovens.
            “Filma ele, filma!”
            “Vá em frente, motorista. Entre à direita”, falei. Ele foi, entrou na Rua Belém e saiu na Avenida João Rodrigues. Avançou pela mão direita da João Rodrigues e conseguiu chegar ao semáforo. O motorista contornou à esquerda, abrindo caminho entre as fileiras de carros e entrou no Terminal do Mercado.
            “Vou descer aqui”, falei. Desejei bom trabalho para o motorista com o rosto pingando de suor, passei pela catraca e saí pedindo licença ao futuro do país.
            “Dê espaço aí, mano, pro cara passar”. Falou um rapaz da turba zoadenta.
          Metade da jovem manada desembarcou do ônibus como de uma tempestade, aos gritos e aos berros. Desci do ônibus, atravessei o estacionamento, segui pelo lado direito do Mercado Central. Havia uma longa fila no portão lateral, um engarrafamento de urbanoides vestidos de caipira chic, na expectativa de sacolejar o corpo na orgia do Forró Caju. Percebi que não ia ser fácil entrar. Dava para ouvir a turbulência lá dentro.
           Contornei pela travessa Otacílio e fui direto para o portão da frente. Me deparei com outra fila quilométrica. Me estiquei na ponta dos pés, olhei por cima da massa, era gente que não acabava mais. Entrei na fileira de gente, naquela corrente de perfumes de mulheres, bafos, suores e empurrões. Fui avançando lentamente para a entrada, sendo levado pela corrente. Atrás de mim, uma mulher apalpou minha cintura, tentando se segurar para não perder o calor da corrente. Olhei para trás. Ela sorriu simpaticamente e pediu desculpa. O macho dela a segurava por trás, me olhando com cara de macho que tem medo de perder a fêmea. Aos poucos, fui chegando ao portão de entrada, atento para que não me furtassem a carteira do bolso.
           Entrei na praça do povo. Parei e fiquei examinando aquela multidão com espírito kitsch. Uma legião de belas mulheres enfeitava a praça e o cheiro delas excitava os instintos. De um lado e do outro, as barracas de drinks e os bares estavam apinhados. Peguei o celular e liguei para Solange. O telefone chamou umas seis vezes. Maldição! resmunguei, vibrando o celular na mão. Tornei a ligar para Solange. Na sétima tentativa, ela atendeu.
             “Está onde, Sol?”.
             “É o que?”
             “Você está onde?”, mal ouvia a voz dela.
             “Estou no lado esquerdo do palco principal”.
             “Caralho, tá longe”.
             “É o que?”
             “Chego já aí”.
             “Não tô...”
           Desliguei o celular e mergulhei na multidão. Não dava nem pra coçar os sovacos de tanta gente. Com muito esforço, andei uns 20 metros. Ao lado, havia várias barracas de drinks. Me aproximei da barraca Hellp Drinks, perguntei o que havia de algo forte para beber. Uma senhora muito simpática disse que tinha capeta, caipirinha, caipirosca, coquetel, nevada, príncipe-maluco e cajaroska.
             “Príncipe-maluco é muito bom”, ela disse. “É o sucesso do São João”.
             “Prefiro um capeta”.
             “Com vodca ou tequila”.
             “Com tequila”.
             “Copo médio ou grande”.
             “Grande, com muita tequila”.
             “É pra já!”
             Ela preparou o drink com habilidade de velha drinkeira. Bebi o capeta com grandes goles. Precisava amaciar a tensão dos miolos. Me embrenhei de novo no meio do povo, tentando abrir caminho.  Um sujeito, ao passar por mim, me empurrou com gentileza. Colidi, inevitavelmente, no traseiro de uma galega, quase fungando em seu cangote. Ela se virou, me olhou firme com expressão agressiva. Tentei sorri, levantando os ombros como quem dizendo “foi mal”.
              “Vai quebrar ovo no cu de sua mãe, filho da puta”, disse com muita educação.
              “Foi sem querer, meu amor”.
              “Meu amor, um caralho!”, disse ela, desaparecendo.
             Avancei mais alguns metros naquele maremoto de corpos, caras, bocas e barulho. Eu parecia um barco à deriva sendo empurrado de um lado para o outro. Avancei outros tantos metros em ziguezagues. Não consegui ir tão longe, era impossível atravessar aquele maremoto de gente. Parei ao lado de outra barraca de drinks e pedi mais um capeta. Me dei conta que havia chegado na metade da jornada épica até o palco “Luiz Gonzaga”. Fiquei tomando o capeta encostado num canto da barraca, de frente para um enorme telão. Lá estava o poeta Lirinha do Cordel no telão, recitando Ai! Se sêsse, de Zé da Luz. Me estiquei na ponta dos pés para ver o palco lá longe. O show estava caminhando para o fim. Em torno, o rebanho já impaciente, começava a pedir Aviões do Forró. Como um cão mordendo os próprios dentes, questionei: quem foi o filho da puta que colocou o Cordel no mesmo dia do Aviões do Forró?! Só pode ter sido um gênio, um gênio. Puta que pariu! Desisti de ir em frente, seria insensatez. Peguei o celular, liguei para Solange. O telefone dela parecia estar fora de área ou desligado.
             No telão, Lirinha anunciou que o show iria encerrar com muita chuva. Os tambores arrebentaram no palco, sua voz começou a “Chover”.

            Chover chover
            Valei-me Ciço o que posso fazer
            Chover chover
            Um terço pesado pra chuva descer
            Chover chover
            Até Maria deixou de moer
            Chover chover
            Banzo Batista, bagaço e banguê
         
           A chuva de Lirinha não durou muito. A manada, ao meu lado, começava a vomitar algumas vaias, pedindo para acabar logo com aquela “porcaria”. Só se ouvia xingamentos, impropérios, seguidos de um coro ensurdecedor de “queremos Aviões do Forró...”. De longe, vislumbrei as mãos agitadas de um pequeno público seleto bem perto do palco, cantando “Chover”. As vaias da multidão abafavam os sons da chuva do Cordel do Fogo Encantado. Lirinha se despediu para tristeza do seleto público. Depois que o Cordel deixou o palco, o locutor oficial, com voz de puxa-saco, convida o prefeito de Aracaju. O gênio aparece, com os dentes abertos e acenando com as mãos levantadas.
          “E, com vocês, o prefeito do povo: Éeeeeeednaldo Aaaaaalves!”
          O prefeito pegou o microfone e deu início ao seu showmício:
        “Forrozeiros, forrozeiras de nossa Aracaju”. E eu lá como um pateta de frente para telão, sem poder me mexer nem para frente nem para trás. “Através de nossos esforços”, continuou ele, “estamos trabalhando duro para fazer o melhor São João do Nordeste, valorizando a nossa sergipanidade, a cultura sergipana. Por isso, esse povo tão sofredor merece esquecer os problemas e se divertir. Por isso, aqui trouxemos esse fenômeno da música nordestina e do Brasil: Aviões do Forró! Bom São João para vocês, meu povo!”. A multidão gritou: “valeu prefeeeeito!” “É isso aí, prefeeeeito!” “Mandou bem, meu prefeeeeito!”. O locutor finalmente anunciou:
           “Com vocês, a partir de agora, ao vivo, com transmissão da Aperipê e da TV Sergipe, Aviões do Forrooooooooooó!”
         Quando os Aviões chegaram ao palco, a euforia, o delírio arrebataram a multidão. Mulheres e homens se agitavam e rebolavam as ancas como num freak show: “quem é o gostosão daqui... sou eu, sou eu, sou eu...”. Comecei a rir amargamente, no meio daquele coro de aberrações do “Eu”. Invoquei Raúlzito e balbuciei: pare o mundo que eu quero descer. Acima de minha cabeça, bandeirolas multicoloridas vibravam com o vento do Rio Sergipe, as lanternas de celulares cegavam como flashs na multidão, e os selfies da vaidade criavam uma espécie de mantra digital da nova civilização. Acima das bandeirolas não se via as estrelas. Um céu escuro e tomado de nuvens recebia a onomatopeia da turba: “quem é o gostosão daqui... sou eu, sou eu, sou eu...”. Degustava meu capeta e observava aquela massa amorfa delirando de prazer. Mulheres e homens pareciam estar num gozo fenomenal, movido pela subletra da banda Aviões. Me perguntava: quem são esses cegos do Eu? E a resposta vinha como lava quente: são patos rasos da cultural trivial, boiando no mangue raso das periferias, conduzidos e controlados pelo devir programado da maré digital do Século XXI.
           Tomei meu último gole de capeta, fui tentando sair para longe daquele pesadelo. Um godzilla de dois metros passou me arrastando e me empurrando como um maremoto, gritando “quem é o gostosão daqui... sou eu, sou eu, sou eu!”, e me lançando contra outro sujeito em delírio. Senti seu bafo roçando de raspão a minha orelha. Desvencilhei-me dele, dei meia volta e tentei sair beirando as barracas de drinks. Mas, o caminho era longo. Meus miolos quase ficaram sem oxigênio, me senti como numa prisão de corpos massificados.
           Fui andando em busca do portão de saída, o coro do freak show papocando meus ouvidos e meu espírito: “quem é o gostosão daqui, sou eu, sou eu, sou eu...”. Era um espetáculo! Vi uma fileira de dez pessoas pegando à direita, e andando mais rápido por entre a multidão. Peguei carona na fileira até próximo do portão de saída. Parei na última barraca de bebidas, peguei mais outro capeta para aplacar a noite perdida. Olhei para foto dos Doors estampada na camisa. Jim, Ray, Robby e John riram da minha cara. Os capetas ferviam na mente e me vi como um anti-herói vilipendiado e movido pela raiva e pela angústia.
           Passei pelo portão e, logo à frente, parei para arrumar as ideias enquanto bebia o capeta. Saí andando, fui deixando para atrás o circo da cultura trivial, que ecoava na noite: “... sou eu, sou eu, sou eu...”. Caminhei rumo ao ponto do táxi de lotação. Havia vários táxis na fila. Perguntei ao primeiro taxista da fila, se iria demorar. Ele disse que teria que completar o número de passageiros. Sentei no banco do ponto, sentindo o gosto da noite perdida. Peguei o celular. Liguei para Solange. Fiz sete ligações, sete tentativas sem êxito. Imaginei ela se divertindo com os amigos e as amigas, cantando “...sou eu, sou eu, sou eu...”.
           Iscada pelo capeta, a mente girava como redemoinho. As palavras de Bandini soaram na noite: “se quer ser escritor, tem que se melar nas sarjetas da vida, bicho”. Depois, como numa imagem retrô-psicodélica, vislumbrei os maloqueiros de José Sampaio, bêbados e alegres, ali sentados na calçada do restaurante popular Padre Pedro.  Os fogos de artifícios estouraram acima da praça do povo. Os maloqueiros gritaram, do fundo de suas misérias, “viva São João!”. Os pensamentos, a raiva, a angústia se evaporaram na fumaça dos fogos. A noite perdida de São João ganhou outras cores, uma outra visão, outra possível história. Me levantei, como que puxado por uma ideia salvadora, subi em direção à Rodoviária Velha. Passei ao lado da rodoviária e desci a avenida Sete de Setembro. Para sorte minha, o Bar do Rock estava aberto.

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Atualizado em: Seg 31 Ago 2020

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