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QUINTA-FEIRA, 12

As imensas portas externas se abriram e a luz do sol iluminou parte do corredor central. As trancas metálicas ainda balançavam quando o prisioneiro passou pelos batentes enferrujados, iniciando uma solene procissão pelo úmido e fétido ambiente, escoltado pelos soldados da guarda real. Não era incomum aquela cena, afinal, presos entravam e saiam daquele local a todo o momento, fazia parte da rotina daquele ergástulo. Mas nesse dia em especial, havia algo de diferente.
Embora o barulho dos grilhões metálicos arrastando no piso áspero soasse familiar, dessa vez não se ouvia os costumeiros gritos, risadas e as conversas em latim vulgar carregado com sotaque frâncico, tão coloquial entre os guardas de Felipe. Havia uma aura de respeito para com aquele prisioneiro.

_Que estranho!! Falou baixinho, Jean, enquanto se aproximava da porta de sua cela, espiando pela pequena abertura da portinhola basculante – por onde lhe serviam a ração diária – acompanhando com olhos curiosos a procissão silenciosa de quatro guardas, que escoltavam um senhor de cabelos e barbas brancas, olhar altivo e andar ereto.

_Merde!! Mais um desafortunado veio parar aqui nesse lugar maldito. O que será que esse velho andou aprontando? Pensou enquanto tentava se conformar com o fato de os guardas não abordarem sua cela para liberá-lo, já que esperava por isso ansiosamente havia dias.
A expressão de frustração na cara de Jean era evidente. Na verdade ele esperava ser liberado em breve, pois já amargava mais de oitenta dias de prisão, contados e marcados com dezesseis grupos de cinco rabiscos arranhados numa pedra grande, úmida e irregular da parede lateral, bem ao lado de sua cama. Não era exatamente uma cama, mas um pedaço de couro de carneiro curtido empoeirado, estendido no chão.

 _Eu quero sair daqui!! Eu não fiz nada!! Esbravejou o jovem com a voz embargada, e vendo os guardas o ignorarem e se afastarem rumo a porta externa. Malditos!! Gritou já sem a esperança de ser ouvido.

Jean era um jovem plebeu, auxiliava seu pai nas funções de governança do castelo Fontainebleau. Um lugar cercado de um imenso jardim ricamente adornado pelas flores e arbustos e uma grama impecavelmente aparada. Jean administrava a equipe de serviçais que trabalhava na manutenção do jardim. O trabalho era feito com tal perfeição que seus colegas e alguns membros da pequena nobreza o apelidaram de maître jardinier. Ele era realmente bom no que fazia.

Sua juventude e simpatia, aliado a sua comunicabilidade, angariavam a admiração de todos, e seu livre acesso aos integrantes da corte o tornara um bon vivant que passeava com desenvoltura pelos sete pecados capitais. Era dado ao vinho, festas e mulheres, apesar de sua pouca idade.

Retornando em seus pensamentos, já deitado sobre aquele pedaço de couro de carneiro, refletiu sobre sua sorte. Ele não estaria nessa situação se naquela tarde de primavera não tivesse sido surpreendido literalmente sens culottes, em um dos cômodos do imponente castelo, em plena prevaricação com a fogosa Anne Marie, - esposa de Guilherme de Nogaret, um dos conselheiros do Rei -.

Havia muito que a linda madame sob pretexto de admirar as flores e arbustos, circulava pelo jardim lançando olhares lânguidos e sôfregos para o jovem, que mesmo receoso, retribuía sem se importar com sua condição de plebeu. Na primeira oportunidade que teve, “caiu matando‟, e por isso estava privado de sua liberdade.
_Algumas coisas valem o risco de se perder o pescoço, Anne era uma delas - pensou ele enquanto esboçava um sorriso de canto de boca, e repousava a cabeça no pequeno monte de palhas que usava como travesseiro. Adormeceu.

Não muito tempo depois a portinhola tombou repentinamente para o lado interno da cela, formando uma pequena plataforma. O barulho despertou Jean de seu sono.
 _l'heure du dîner!! Gritou um velho envolto em um manto e capuz pardo que quase lhe encobria os olhos - o esquerdo era vazado e de aspecto leitoso -. Esboçava um sorriso espontâneo que ressaltava os dentes frontais corroídos pelas cáries, tudo isso lhe conferia um aspecto lúgubre para quem o via de relance. Era a imagem da própria morte.

O serviçal de aspecto estranho segurava em sua mão esquerda uma pequena pá de madeira, cheia de batatas amassadas e pronta para transferir diretamente para as mãos de Jean, que se estendia em concha para fora da cela, através daquela pequena abertura.

_ Quer mais? _O Senhor da cela vizinha não quis a porção dele. Falou o velho torto, tentando agradar. Jean permaneceu em silêncio. A recusa foi entendida pela expressão de desagrado estampada em sua face.
 
_ Você é quem sabe!! Seguiu o velho pelo corredor pouco iluminado empurrando a carriola e cantarolando uma velha canção, enquanto batia em cada uma das portinholas das celas, para servir os outros condenados.

 Jean suspirou. Já havia decidido retornar para o fundo da cela e se recolher em seu tédio, quando percebeu que alguém o observava pelo pequeno vão da abertura da porta da cela vizinha, no lado oposto do corredor. Ainda que não houvesse claridade suficiente, era possível perceber o contorno do rosto daquele senhor, marcado pela barba e pelos cabelos compridos.

 _O que “tá” olhando, velho? ”Tá” aqui, por quê? Já sei, és mais um inocente preso.

_Estou preso há sete anos, jovem - respondeu o velho com uma voz grave, porém mansa, e sem deixar de esboçar um sorriso.

 _Santo Deus!! O que você fez de tão grave, “pegou” a esposa do Rei? Sorriu sarcasticamente.

_ Sou acusado de várias coisas, filho. Na verdade eu sou acusado de ser quem eu sou. A essas alturas dos acontecimentos já não importa se eu sou culpado ou inocente. A decisão já foi tomada e meu destino está selado. Resta-me apenas esperar a execução da sentença.

 _Como não importa, senhor? Se você realmente é inocente, não deveria estar aqui. Você não tem família, irmãos ou amigos que possam ir até o rei e interceder por você?

 _Tenho muitos irmãos - respondeu o velho senhor. _Na verdade tenho mais de vinte mil irmãos, e não quero que nenhum deles venha até mim. Ao contrário, quero que se afastem não só de mim, mas de toda a França.

_Vinte mil irmãos...? Velho maluco, pensou Jean, e prosseguiu, _Eu sou culpado, não nego. Estou aqui há oitenta dias, mas quer saber? Eu não me preocupo, pois tenho amigos e familiares importantes e que já devem ter intercedido por mim junto ao Rei, pedindo clemência.

 _ E como tens a certeza de que teus amigos conseguirão convencer o Rei, ou seja quem for, a te conceder clemência? Indagou o velho sem alterar o tom de voz.

_ Sabe de nada, barbudo!! A minha turma precisa de mim lá fora. Prosseguiu sem que alguém pedisse, e com arrogância imatura. _Em razão de minha função e de minhas amizades na corte  eu consigo ter acesso a bons vinhos, festas, mulheres e outros benefícios e é claro, sei de alguns “segredinhos”, sei que sabe do que estou falando. Tenho alguns amigos influentes e ricos, e claros, me devem uns “favorzinhos”. Se não conseguirem o perdão na conversa, eles “molharão” a mão de algum conselheiro do rei.

Prosseguiu explicando, o rapaz.

  _No mundo de hoje tudo se resolve com contatos. _Você não precisa ter dinheiro e nem ser nobre, você só precisa de amigos nobres e com dinheiro!! Finalizou Jean, rindo sinicamente.

Enquanto o jovem se gabava, o Velho escutava atento e sem julgamentos.

_E mais – Jean prosseguiu na gabolice, _ Não estou arrependido do que fiz, a madame Anne Marie é “mó gostosa”. Satirizou. _Quando eu sair daqui, o que acredito vai ser em breve, vou continuar aproveitando a vida...Vim ao mundo para me divertir, meu velho...”Tô” nem ai para as regras!!

 _Não espere que eu te julgue, filho. Retrucou o senhor. _Qualquer um que esteja inserido em um ambiente corrompido e deficiente de moral, irá corresponder a esse ambiente reproduzindo suas práticas corrompidas e imorais. O Jovem rapaz permaneceu inerte esperando que o senhor complementasse a idéia.

_Você é jovem, e sinceramente não espero que tu tenhas a fortaleza de espírito para agir diferente. Quando a maturidade chegar, é possível que tu te arrependas por  não teres  buscado corrigir tua conduta. Sentenciou.

_Mas senhor, eu sinceramente esperava que  você soubesse como funcionam as coisas na côrte. Aqui há poucas pessoas que não se deleitam nas benesses. Alguns idiotas ainda evitam fazer as coisas erradas, mas no geral... ninguém perde uma oportunidade para se dar bem. É uma verdadeira festa. Aliás, dinheiro foi feito pra gastar, e dinheiro dos impostos mais ainda. É assim que eu penso, não só eu, mas a maioria.

 _Uma vida sem virtudes não é propriamente uma vida. Bom jovem, eu já andei por vários e distantes lugares deste mundo e posso te garantir que o mundo é muito maior do que o castelo onde tu tens trabalhado, maior do que toda a côrte e é imensamente maior do que Paris e a própria França. Por onde andei eu encontrei muita miséria, sofrimento e angustia. Pessoas clamam por ajuda, pois não conseguem sair daquela situação por si mesmas.

_Danem-se... eu nem as conheço!! Esbravejou Jean, irresignado.

_Eis o problema, meu Jovem. Pessoas sofrem injustiças e continuarão sofrendo independente de tu as conhecer ou não. Existem pessoas que não conseguem se proteger ou proteger suas famílias das injustiças e arbitrariedades e esperam que alguém o faça por elas.

O Jovem Jean já havia parado de fanfarronices e começava a prestar atenção nas palavras daquele senhor.

_Continue, velho.

_Há pessoas nos arredores de Paris sofrendo com a pobreza e com a fome. Fugindo  da violência e das injustiças causadas exatamente por pessoas desprovidas de senso de humanidade e de moral, exatamente como as que vivem no ambiente que tu me relataste.

_Não estou a te julgar e nem farei isso. Mas gostaria que tu soubesses que nada mudará na côrte e nada mudará neste país. As sociedades corrompidas são reflexos das pessoas que a compõe, e para melhorarmos uma sociedade precisamos que cada um dos indivíduos que a compõe, mudem.  

_Putz...

_Embora tu não saibas... Prosseguiu o sábio senhor. Eu sou um homem nobre e rico e assim como tu, também conheço homens nobres e ricos, mas em toda a minha vida eu sempre evitei que tais atributos me corrompessem a alma. Vivi uma vida regrada e sem excessos.

_Caracas...de que adianta ser nobre e rico e não aproveitar!? Jean questionou perplexo.

_Eu não falei que não aproveitei... Apenas aproveitei de forma diferente. Embora meus valores sejam claramente diferentes dos teus, isso não me põe em situação superior a você, a diferença se deve a maneira que nós fomos formados e o ambiente a que fomos submetidos. Fui direcionado desde jovem a ter uma vida limpa e varonil, a defender e os desvalidos materialmente e espiritualmente. O fato de eu ter convivido com pessoas de boa moral me ajudou a me tornar física e moralmente forte, solidário, corajoso e fiel.

 O Jovem Jean permanecia ouvindo atentamente, e já não olhava para aquele senhor com desdém.

_Uma vida virtuosa deve ser pautada pelo equilíbrio e sem excessos. Viver uma vida justa, buscando sempre a perfeição, é uma forma de retribuir a graça de sua existência. Tudo isso pode ser alcançado por qualquer um. Ser bom é uma decisão pessoal.

Jean não sabia o que responder. Nunca ninguém havia lhe falado aquilo.

_Em breve eu não estarei mais aqui...meu jovem. Ter sido trazido para esta prisão é um sinal de que minha sentença será cumprida em breve. Estou muito tranqüilo. Partirei e não levarei meus títulos e nem minha riqueza, levarei apenas minha fé, minha honra e certeza de ter servido os propósitos do meu Senhor. Concluiu.
_Não estarás mais aqui? Legal, vamos nos encontrar lá fora para conversar e comemorar, então!!

O velho levou as duas mãos na cara, cobrindo seus olhos, inconformado.

_Não é nesse sentido que eu falei... Esquece.

_Não entendi...

 _Nem sei em que dia é hoje, faz tanto tempo que estou preso. Saberias me dizer, jovem?

_Pela minha contagem, senhor, marcada aqui na parede, eu acho que estamos em meados de outubro. Por quê?

_Nada não!! Eu receio que essa esta sendo a nossa primeira e última conversa. Não nos falaremos mais – falou o velho, olhando pro vazio e com semblante de cansaço e sono _Acho que vou repousar este meu velho e cansado corpo, deve ser tarde. Falou o velho, sugerindo o fim da conversa.

_Não, Senhor...por favor continue, implorou o jovem, demonstrando um interesse genuíno. Nunca ouvira alguém falar sobre aquelas questões  de maneira tão paciente.

_Eu agora entendi, o Senhor foi condenado a pena capital, não é? Perguntou Jean, num tom mais solene e entristecido.

 A conversa entre o sábio senhor e o jovem ainda seguiu até quase meia noite daquela Quinta-Feira, 12 de outubro. O velho contou sua história de vida, lugares por onde andou e falou sobre a sua nobre missão. Quando parou de falar as tochas suspensas nas paredes do corredor já estavam se apagando, mas ainda emitiam uma luz pálida que não mais permitia que ambos enxergassem a sombra um do outro, através do  pequeno espaço aberto.

O Jovem estava completamente extasiado com os relatos daquele senhor, e apesar de cansado, ainda insistia em questionar sobre seus grandes feitos, honra, moral e outras particularidades da vida, que só um homem com o histórico daquele senhor, poderia ensinar.

Silence!! _l'heure du silence!! Gritou o velhote de manto e capuz pardo, enquanto andava pelo sentido leste do corredor, batendo com um bastão nas portas metálicas, obrigando cada condenado a fechar as pequenas portinholas de suas celas.

O jovem e o senhor de barbas brancas decidiram não esperar a aproximação do serviçal e se despediram.

_Boa noite, já não era sem tempo, estou deveras cansado. _ Antes, dizei-me teu nome, por favor.

Meu nome é Jean, bom homem!! E o seu?! Perguntou na esperança de que o velho respondesse antes de fechar a portinhola.

_Jaques!! Jaques Demolay...é assim que me chamam.
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Atualizado em: Seg 31 Ago 2020

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