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O REI, A PRINCESA E O EX-CRUZADO


Em outrora comunidade feudal, um Rei buscava conduzir os seus governados com sabedoria e benevolência, apesar das barreiras sociais da época. Certa ocasião, viajando por regiões da África, encantou-se por uma donzela de meigo olhar e de atitudes generosas. Levou-a, então, para o seu castelo e a transformou em sua Princesa. Daí em diante, um mar de rosas envolveu a corte. Apostando na existência de uma figura angelical, no meio de tanta hipocrisia/traição..., vivia felicíssimo. Mas, depois de alguns anos,  começou a ficar desconfiado. O olhar, o jeito dela se portar em público e de cuidá-lo tinha mudado. Mentiras foram surgindo. O nobre, preocupado, chegou a pensar que estava com ciúme exagerado. Quando buscava respostas a respeito de certos fatos e aos comentários de amigos, a Princesa, agressiva, alegava que ele deveria se tratar com o mago do castelo, pois andava com a cabeça fora do lugar. A desarmonia entre o casal era patente. Ao perceber deslizes da amada, o coração do monarca estremeceu, instalando-se, no seu âmago, indescritível impressão de que a adorada esposa o estava traindo. Imediatamente, colocou para vigiá-la três escudeiros e dois vassalos.

Passavam-se os anos e a relação matrimonial continuava traumatizante. Certa tarde, o mais experiente dos escudeiros confidenciou-lhe que a sua consorte prevaricou e entregou-lhe extenso relatório. Confirmou-se a traição que já durava, mais ou menos, uma década. O amante, velho militar, aposentado, da ordem dos Cruzados. Indivíduo destemperado, de fala mansa, sedutor vulgar, ocupante de cargo administrativo na Zeldo e com uma carreira anterior de pilhagens/matanças, em nome da Cruz. O Rei, indignado/triste, sentiu o encanto/mundo desmoronar. Indagando a Princesa, ela saia pela tangente, com falsas explicações e sempre dizendo que não suportava mais tanta pressão e suspeita. “Meu amo, nunca o traí, meu corpo, tudo meu, foi e continuará sendo seu”. – disse a Princesa. Habilmente, ele conseguiu extrair-lhe acontecimentos de sua vadiagem secreta, contudo, dentro das conveniências dela. Esperta, fria, calculista, concretizou muito bem a  patifaria. Mas, nada é perfeito. A máscara da Princesa rolou esgoto abaixo. Mesmo, assim, sabidamente, contou o caso que lhe parecia menos agravante: “Visitei, apenas, uma vez, com a pessoa que me admirava/respeitava, há muito tempo, a hospedaria Escorpião de Fogo e lá fiquei na alcova, descansando, namorando um pouquinho, sim, e não tive relação sexual. Não tirei minhas roupas íntimas e nem ele a sua armadura. Meu contato sempre foi através de pombos-correio. Sei que errei, me desculpe, me perdoe”. Com medo, agoniada, chorando histericamente, tentou mostrar arrependimento, posto que falso, não convenceu. O nobre, em prantos, revoltado, diante de tamanha traição, de mentiras tão descaradas, ironizou: “Então, estava com o canalha na cama, conversando, e nada mais...!!?? Quer que acredite nisso?? Não fosse eu o traído, daria mil gargalhadas?? Vai afirmar que a situação era igual nos outros encontros? Argh!!!! Enfim, acordei, venho sentindo sua caixinha diferente, menos apertada!! Ahn!! Que dor no meu peito, ela não é mais o meu tesouro, virou uma caverna vadia dos safados. Hum!! O corpo que tanto agradei, onde botei minha boca, quem diria, visto e usado fora de minha alcova, longe dos meus braços”...“Argh!! Desavergonhada, vagabunda.” – vociferou o fidalgo, arrasado. Cínica, a Princesa, chamando-o de paranóico, insistia em negar o envolvimento com o guerreiro há mais de 10 anos, apesar das provas de sua infidelidade. O Rei soube, também, que quando estava no seu labor, na Casa das Crianças, ocorriam os encontros da Princesa com o seu amante, sempre pelo dia, Descobriu que havia outros lugares, além daquela estalagem, onde os infiéis participavam das orgias sexuais. Periodicamente, o ex-militar levava a sua concubina na carruagem Kiena, cor de prata. Tudo muito bem planejado, difícil de ser revelado.

Enfraquecido, triste, o Rei afastou-se de suas valiosas tarefas e passou a ter um tratamento especial por médicos e pelo mago. Seu amigo, Grão-Mestre Rivaldo Branco, o ajudou, fortalecendo-o espiritualmente, por meio de sessões mediúnicas, água fluidificada, orações e de passes magnéticos. O fiel Senhor se recuperou, assumindo suas funções. De volta ao palácio, assina Decreto de expulsão da Princesa, solicitando ao Conselho de Anciãos que não a punisse com o corte do clitóris, nem lhe aplicassem as 100 chicotadas. Fora do convívio do castelo, ela continuou na roda deplorável do ex-sanguinário soldado dos Cruzados.

Percorrendo vários rincões, entre Anaboas e Teripe o monarca reencontra Valentina, moça de sólidos princípios morais que o reconforta, lembrando dos bons tempos em que estiveram juntos. Autoestima elevada, esperançoso por um venturoso matrimônio, elege a nova Princesa que lhe dá três maravilhosos filhos. Um deles, muito parecido com Ted, o primogênito do Rei, fruto de um casamento anterior.

Aos 90 anos, o nobre ancião, Sigismundo, mantinha vigor/serenidade, tendo conseguido implantar, na comunidade, regime político antecessor do socialismo. Desencarnando, centenário, a nação prestou-lhe honrosa homenagem, durante sete dias. Ainda comentam que, na data de nascimento e falecimento dele, a partir do entardecer até à meia-noite, suave luz ilumina o Mausoléu, morada do corpo, incrivelmente conservado, do bondoso personagem.

O ex-cruzado, Bolônio, foi morto por parentes de suas vítimas. Enfiaram-lhe pedaço de pau no rabo e cortaram-lhe o falo. Seu cadáver foi jogado no lamaçal do pântano.

A ex-princesa, Kontilda, após a vilania, destronada, apelidada de ‘Rameira de Katoeira’, entregou-se a sórdidas práticas sexuais, envelhecendo precocemente. Ao morrer, nem os parentes foram vê-la no albergue. Por coincidência, ou não, o cadáver apodreceu também no pantanal. Nem os cães, famintos, queriam se aproximar daquele lugar. Segundo peregrinos, em noites fantasmagóricas, gritos/urros lancinantes, pedidos de socorro e de perdão eram ouvidos.

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Atualizado em: Dom 1 Maio 2011

Comentários  

#21 Akuma 06-11-2011 12:52
uma parábola! E muito bem construída, por sinal. Não cometeras adultério! Confesso que li desconfiado da qualidade do texto. O seu conto requer um conhecimento prévio do leitor sobre construções de parábolas, que, por sinal, não o tendo, não vai atrapalhar na leitura. Mas o tendo, enriquecerá mais um pouco o total do entendimento da mensagem estória. PARABÉNS!
#20 Eliza 02-06-2011 22:51
Nossa Ray uma história envolvente e uma leitura muito agradável.
Excelente texto, parabéns!
Beijos
#19 tania_martins 30-05-2011 11:31
Parabéns pelo texto!
Abraços.
#18 RaymundoLuizLopes 18-05-2011 00:14
Pois é, amigo, o humano vem caminhando pelo trágico, pela comédia... Não sei quantos (eles e elas)perdem a beleza e o verdadeiro significado da vida, do amor... Uma pena!!
Grato, um grande abraço.
#17 Alexandreschorn 13-05-2011 23:54
O REI, A PRINCESA E O EX-CRUZADO,que texto em amigo ,antigo,atual e futuro na verdade muito contemporaneo e pitoresco cada vez o ser humano pratica a sua propia derrota muito bem escrito e real belissima inspiração que venha mais ok e obrigado abração!
#16 RaymundoLuizLopes 10-05-2011 16:43
Grato, um abraço.
#15 URANIA 08-05-2011 16:01
Histori bem construída com bom relato.
#14 RaymundoLuizLopes 04-05-2011 22:26
Caro Zonetti!
Sim, uma velha história. Valeu!!Grato, sinceros abraços.
#13 RaymundoLuizLopes 04-05-2011 22:24
Amiga Nataly! O 'ofensor' é um espírito perturbado. Poderá carregar, durante sua vida na Terra, o peso de uma montanha na cabeça, por ter feito o mal ao próximo.Quando chegar na outra dimensão, o sofrimento, terrível, não o deixará em paz. Aí, caberá a espiritualidade 'maior' ajudá-lo na busca de arrependimento e perdão. Concordo, melhor ser o 'ofendido' do que o 'ofensor'. Há, sim, coisas melhores, é só não se esconder da LUX.
Mais uma vez, obrigado pelo seu lúcido comentário. 'Da Pacem Domine'
#12 RaymundoLuizLopes 04-05-2011 22:02
Nataly, com certeza! Muito importante a citação sobre 'semear' e 'colher'. Sim, ela afastou-se da LUX, preferiu os momentos de prazeres mundanos, lugar das TREVAS.
Gratíssimo pela sua contribuição.
Sincero abraço.

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