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Ode à guerra

Hoje senti que a vida pode ser muito mais descomplicada do que imaginamos. Vivo em um mundo próprio, cheio de “Próclises” e “Mesóclises em que tudo se constrói sem repetição de ideias ou e de palavras. A vida tem que ser um texto formal! Tem que ser reta e objetiva! Desprovida do improviso e sem direito a erros de concordância verbal ou nominal. Mas, como dizia, senti que pode ser diferente.

Criamos nossos próprios castelos e nos sentamos no salão principal. Contratamos soldados para defender nosso patrimônio e um enorme fosso com ponte articulada para defender o acesso. Na água suja, todas as palavras com quantidade errada de “Ésses” e “Érres”, os nomes próprios desenhados com letra minúscula e outras barbaridades que possamos ter grafado em algum momento de nossas histórias e que nos causaram dor e sofrimento ao longo dos “Xises” vermelhos rabiscados sem piedade por algum professor encastelado.

Daí então é só sentar e chorar! As exigências para o ingresso em nosso castelo são tão grandes que o acesso articulado acaba sendo pouco movimentado. A enorme mesa do banquete jaz solitária com seus acentos vazios e os recursos que teríamos para investir nos festins e celebrações esvaem-se na tentativa infrutífera de anunciarmos nossas existências. 

Nos tornamos prisioneiros de nós mesmos e passamos a viver nas torres mais altas do castelo. Da janela observamos os campos floridos, os viajantes felizes, os palácios virtuosos e timidamente acenamos com enormes bandeiras penduradas em nossos pescoços.

Vez por outra aprisionamos algum viajante perdido nos fétidos calabouços que sofrem com a infiltração do fosso cavado ao redor do castelo. Passamos a ter que alimentá-lo, vesti-lo e puni-lo por sermos obrigados a gastar de nossos poucos recursos para mantê-lo vivo; mas seus substantivos grafados com letras minúsculas, palavras repetidas e construções sintáticas quase inarticuladas nos penetram o ser levando o veneno da simplicidade vocabular até nossos corações.

A convivência forçada leva-nos a perceber que nossos castelos são o anúncio de futuros escombros; catacumbas que encerrarão em suas entranhas um tirano linguista e suas vítimas que apenas queriam viver no mundo informal que lhes era próprio, sem a preocupação com a formalidade das “Próclises” e “Mesóclises” da fala...

A solidão e a grande quantidade de prisioneiros acabaram colocando-me em contado com meu próprio castelo de preconceitos, repleto de rachaduras e de “Xises” vermelhos onde quase nada é possível por apresentar um risco à “Norma Culta”.

Pela manhã senti as entranhas expostas, como se meu castelo tivesse sido construído à minha imagem e semelhança! Soltei meus prisioneiros. Abri a grande ponte articulada pela última vez e rompi os grilhões das correntes que garantiam o isolamento do castelo.

Desejando ardentemente a invasão de que tanto me defendi, sentei-me aprumado e desarmado no salão à espera dos guerreiros desarticulados que possam transformar a realidade desta enorme prisão, mas ninguém veio...

O silêncio impera no castelo e posso ouvir as fanfarras trafegando pelas estradas vizinhas a celebrar a soltura de minhas vítimas. Nada mais acontece em minhas entranhas e começo a ponderar que mesmo em tempos de guerra, não serei invadido. Terei que abandonar a grandiosa construção, insignificando-a para entrar nesta nova jornada.

Promovido de “Rei Linguista” a simples “Plebeu Inculto”, sigo nu, sofrendo de minhas próprias construções pretéritas na expectativa de aprender a celebrar os “Ésses” e “Érres” usados em quantidades inadequadas mas que expressam a vida de relação.

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Atualizado em: Sex 16 Jan 2015

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