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Paris

As últimas pessoas já haviam ido embora. Permaneci com ela, ali, olhando para o nada, no pequeno cemitério onde ele acabava de ser sepultado.  Toquei seu braço de leve e disse: “vamos, já é tarde”. Ela me acompanhou em silêncio. Deixei-a no portão do prédio de apartamentos onde morava e lhe disse: “Tome um banho, descanse, volto amanhã”. Vi sua figura afastar-se na entrada do prédio e desaparecer. Eu sabia que ela se recuperaria rápido, era de seu feitio ver o lado bom da vida. Voltei no dia seguinte. Ela abriu a porta sorrindo e eu a abracei longamente enquanto ela sussurrava: “não se preocupe, amiga, estou ótima.” Enquanto tomávamos um chá e rememorávamos os acontecimentos da véspera ela me disse que, apesar da dor, do vazio da perda do companheiro de 30 anos, ela estava se sentindo mais leve, como se toneladas tivessem sido retiradas de suas costas. Afinal o sofrimento dele havia sido mais breve do que todos haviam previsto. Ficamos um longo tempo em silêncio saboreando nossos chás. Enfim, quebrei o silêncio e lhe disse: “vamos fazer uma viagem, você e eu: Europa... você escolhe a cidade. Que tal? Isso vai lhe fazer muito bem”. “Ainda não”, ela respondeu. “Tenho que ficar quietinha por um tempo, no meu canto, digerindo tudo isso”. "Está bem, quando quiser me avise, enquanto isso vou olhando as passagens e roteiros”.

Durante dois meses eu a visitava quase todas os dias, tomávamos chá, conversávamos, caminhávamos pela praia em silêncio, olhando o mar nos fins de tarde daquele outono. Ela se recuperava visivelmente. Aos poucos começou a falar de seus trinta anos de casamento e de como o marido era dependente dela de uma dependência infantil que a sufocava. Mesmo assim ela conseguira estabelecer espaços para si mesma. Tinham gostos diferentes, mas, se acomodaram cada um respeitando o jeito de ser do outro, em acordo silencioso. Essa acomodação, entretanto, acabou fazendo com que só convivessem no espaço familiar. Ele não partilhava com ela as idas ao teatro nas tardes de domingo e nem as tantas viagens que ela havia feito à Europa, mas, também não a impedia de fazer programas diferentes dos dele. Ela viajava sempre com alguma amiga, vez por outra sozinha, e, uma das vezes, acompanhou meu marido e eu numa de nossas viagens.  Nessas ocasiões, ele aproveitava para fazer temporadas de pesca com amigos, o único programa de lazer que apreciava realmente, fora da rotina de trabalho. Na verdade, o que ela queria dizer é que os trinta anos de vida conjugal haviam sido bastante pesados, embora ele fosse uma pessoa generosa e a amasse sinceramente, ao seu modo. Era barulhento e falante, sua presença enchia a casa, chamava por ela o dia todo e por qualquer razão. “Sinto um misto de tristeza e leveza que não sei explicar”, ela me disse. Fazia, agora, uma retrospectiva de sua vida e não atinava por que  não tinha seguido uma carreira profissional. Formara-se em Economia na melhor Universidade do país, sempre fora aluna estudiosa, falava francês e simplesmente se tornara cuidadora de um marido por trinta longos anos. Eu a deixava falar interferindo aqui e ali para lembrar histórias que, como velhas amigas havíamos partilhado na juventude. O outono já ameaçava nos deixar e o vento frio vindo do mar naquela tarde nos avisava que teríamos de mudar nossos passeios. Foi quando ela me disse: “o convite para a viagem ainda está de pé”? “Claro, já tenho várias opções para você escolher, já vi passagens”. “Paris”, ela respondeu. “Vamos a Paris. Amanhã compraremos as passagens.”

O finalzinho da primavera em Paris ainda trazia um ventinho gelado. Aquela tarde estava particularmente fria, pois, o sol não havia se mostrado durante todo o dia e uma névoa branca descia sobre a cidade. Parei um táxi á porta do Hotel: “Café de Flore, s’il vous plaît”. O nome do Café é tão conhecido em Paris que dispensa endereços. O motorista assentiu e nos conduziu ao famoso ponto de encontro dos intelectuais franceses. Ainda era um pouco cedo de sorte que conseguimos a última mesa do lado de dentro, próxima da janela. Olhamos o cardápio e ordenamos dois “Croque monsieur” e dois cafés com leite. Enquanto aguardávamos percebi que ela olhava a rua atentamente. Do lado de fora um homem tocava guitarra e cantava para ganhar uns trocados. Dele podíamos ver o perfil, um velho gorro cobria sua cabeça, as roupas eram surradas. Dentro do Café, a velha canção de Edith Piaf, "Je ne regrette rien", fazia pano de fundo às conversas animadas dos parisienses e turistas de modo que não era possível distinguir bem a voz do cantor de rua de quem ela não tirava os olhos. Tentei iniciar uma conversa sobre a história do ‘Café de Flore’ e as incríveis figuras da cultura francesa que já haviam sentado àquelas mesas durante mais de um século. Ela não me ouvia, seu pensamento estava distante. Silenciei. Nosso pedido chegou, o sanduíche estava muito bom, o café com leite impecável: quente e cremoso. Ela comeu sem prestar atenção, mais preocupada com o estranho homem da calçada. “Alguma coisa errada”? Perguntei. “Aquele homem lá...” ela apontou para o artista . “O que tem ele?” Seu rosto se iluminou por um momento e ela disse: “ parece que o conheço...acho que conheço...é familiar...tenho de ver o rosto dele de perto, antes que se vá.” Paguei a conta e saímos. O homem que aparentava uns sessenta anos, agora deixara o violão de lado e com o auxílio de um ‘play back’ iniciava as primeiras notas da " Ave Maria de Gounod", exatamente quando as luzes se acendiam iluminando o princípio da noite parisiense. Ela se aproximou dele até ver-lhe o rosto e ficou visivelmente emocionada. Ele não se dava conta da pequena plateia que se juntara para ouvi-lo e cantava como se estivesse sozinho, dando a cada nota, o melhor de si, olhos semi-cerrados. Algumas moedas e notas de pequeno valor foram colocadas na cestinha de doações. Ficamos ali ouvindo até o final. Então, ela abriu a bolsa, tirou uma nota de cem euros e a colocou entre as moedas de pequeno valor. Ele fez uma reverência, encarou-a e disse: ”Merci, madame...merci, madame...merci, madame”. Ela me puxou pelo braço fortemente e me arrastou dali, chamando o primeiro táxi que passava. Então, recostou-se no banco do carro e fechou os olhos. Curiosa eu me perguntava o que significaria aquilo tudo. Conhecia minha amiga há muitos anos e sabia que ela não era dada a explosões sentimentais, nem tão pouco a gastar dinheiro facilmente, mas, respeitei seu silêncio, mais tarde ela falaria. Antes de nos recolhermos, no corredor do Hotel, ela me disse: “sabe quem era o músico à porta do Café?”  "Claro que não", respondi. “Meu primeiro namorado, meu primeiro amor, dos tempos do curso na Aliança Francesa. Nunca contei a ninguém. Ele veio para Paris para estudar francês, prometeu me escrever, prometeu voltar e nunca mais eu soube dele". Antes que eu lhe perguntasse mais alguma coisa ela me deu ‘ Boa Noite’ e fomos para nossos quartos descansar. Havia sido um longo dia, o cansaço da viagem e a diferença de fuso horário pesavam, meus olhos ardiam. Meu último pensamento antes de mergulhar no sono, na noite de Paris foi: A vida sempre completa seu ciclo e ao completá-lo chegamos ao ponto de partida.
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Atualizado em: Sáb 22 Set 2018

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