person_outline



search

Meu chapéu francês

Meu chapéu francês
Manhã de sábado. Acordei com fortes batidas à porta da frente.  Vesti um robe e rapidamente fui abrir. Deparei-me com um sujeito baixo, atarracado, cara fechada, trajando farda! Disse-me laconicamente: " o Presidente espera todos na praça às 10h, esteja lá ". Eu já sabia que aquilo não era um convite e sim uma intimação. Eram 9h e eu esperava aproveitar aquela manhã de sábado para escrever um pouco. O calor insuportável daquele janeiro inviabilizava saídas de casa. Respirei fundo, o que eu menos esperava era perder meu tempo a ouvir imbecilidades daquele Ditador ridículo, empoleirado num palanque. Vesti-me e, depois de um café reconfortante, coloquei meu chapeuzinho branco e saí para a rua. O sol já queimava e a caminhada me deixou ofegante. A praça transbordava de gente. Olhei para o palanque e divisei um rosto conhecido; fixei meu olhar naquela figura por alguns instantes até me lembrar. Não havia dúvidas. Era um sujeito que havia trabalhado comigo anos atrás, tínhamos sido bons amigos até que seu fanatismo político partidário fez com que eu me afastasse. Ele mudou--se para outro estado e eu o cortei da minha lista de e-mails para não ser importunada por suas mensagens "doutrinadoras ". Lá estava ele, mais gordo, já calvo, bigode grisalho. Puxei o chapéu para mais próximo do rosto, não queria ser reconhecida. Notei que ele, várias vezes, olhou em minha direção, mas, esperava que os anos tivessem feito com que esquecesse meu rosto. Nesse instante chegou o Ditador. Queixo no alto, sorriso arrogante, pose de Rei. As pessoas silenciaram. Ele subiu ao "pódio" e antes de tomar o microfone cochichou alguma coisa ao ouvido do meu velho conhecido que se plantou à direita dele, até o final do comício. O discurso foi longo, consegui me desligar daquela fala insuportável como sempre fazia quando era obrigada a comparecer à eventos que eu detestava. Meu pensamento me levou a outro lugar, viajei para longe dali. Despertei do devaneio quando, terminado o discurso, o povo começou a aplaudir. Embora parecesse suspeito, eu não bati palmas. Quando levantei a cabeça vi meu conhecido olhando fixamente para mim. Chamou um ajudante de ordens do ditador, apontou em minha direção e deu-lhe instruções. Um arrepio percorreu minha espinha. Misturei -me rapidamente ao povo que deixava a praça. Esgueirei-me entre os vendedores ambulantes, mas pressentia, sem olhar, que estava sendo seguida. Agarrava-me a ideia de que o homem me perderia de vista. Escondi-me atrás de uma árvore e olhei para trás, “o cão farejador " continuava me procurando. O chapéu...  Sim, ele estava me seguindo pelo chapéu, como não pensei antes? Arranquei da cabeça o chapéu traidor e joguei no cesto de lixo da rua. Misturei-me a um grupo de pessoas e cheguei a salvo em casa. Meu lindo chapeuzinho branco com flores azuis! Meu chapeuzinho comprado em Paris morreu no lixo da Prefeitura. Em tempos de ditadura, melhor não usar chapéu.
Pin It
Atualizado em: Sex 11 Jan 2019

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222